De revistas e pessoas reais

Christian Rocha - 15 de Junho de 2012 - 15 Comentários

Anúncio veiculado na Yoga Journal americana:
hora de vender meias; tirem as crianças da sala.
 


Semana passada deparei-me com alguns artigos que lançam críticas à revista Yoga Journal. O primeiro deles tem o título «Eu odeio a Yoga Journal» e foi publicado no blog Recovering Yogi. Trecho (tradução chulé, perdoem):

"Eu abro a revista esperando encontrar inspiração, ou pelo menos evitar aborrecimentos, mas lá pela página três eu já estou aborrecida. Tantos anúncios. Tantos anúncios estúpidos. Não apenas anúncios velados de coisas esotéricas que ajudarão você a obter iluminação mais rápido (como um despertador zen), mas anúncios de comida para animais de estimação (porque mulheres brancas têm gatos) e Subarus (caso as leitoras vivam em Vermont ou no Colorado). Os artigos também podem ser anúncios de como conduzir o relacionamento com seu ex-marido, a nova esposa dele e o gato deles, como ajudar pessoas em outros países a fazer cestas e objetos natalinos, e como não peidar enquanto você faz aquela postura desafiadora que acabou com seus joelhos ano passado. (...)

"É como um «bumerangue samsárico» colorido e brilhante que acaba acertando sua nuca. Talvez seja isso: eu tenho que ser sacudida e descer ao nível de consumismo e superficialidade que pulsa em cada página reciclada e impressa com tinta que cheira a tofu. Talvez os ávidos leitores (como se houvesse algo para ler) da Yoga Journal estejam perambulando numa nuvem de cândida vegetariana e não tenham exatamente o equilíbrio da flora necessário para perceber que a prática de yoga deles não vai se desenvolver na mesma proporção do número de meses de assinatura da revista. Parem com isso, senhoritas. A última coisa de que vocês precisam é adicionar à consciência um falso ideal e viver de acordo com ele".

Este artigo me levou a outros dois, «Fight the Power! A plea to Yoga Journal» e «Yoga Journal Covers: Who Really Calls the Shots?». O teor destes é praticamente o mesmo do primeiro. A queixa é a mesma: a mais famosa revista de yoga do mundo (que tem uma edição brasileira, aliás) deveria mostrar mais «pessoas reais» e ser direcionada para um «público real». Entre os problemas apontados nos artigos há a ausência de negros, de gordos, de «pessoas reais» enfim, e o excesso de um único tipo de pessoa: mulheres brancas, magras e bonitas.

Seria engraçado, se não fosse um pouco patético também. A Yoga Journal é uma revista. O objetivo dos editores de revistas é vender revistas. Para que uma revista venda é necessário que ela seja atraente. Logo, o que rege publicações de yoga não é o que de fato o Yoga é, mas aquilo que se convencionou ao longo dos últimos anos, determinado por um mercado que nos EUA movimenta anualmente mais de 4 bilhões de dólares. Logo, não faz o menor sentido esperar ver na capa da revista uma divindade azul segurando um tridente ou, falando de «pessoas reais», um natha:

Grande mestre Pir Sri Rattan Nath Ji,
da linhagem dos fundadores do Hatha Yoga

Há, além disso, a noção de «real»:o que pode haver de «real» numa capa de revista? Da forma como entendo, há mais «realidade» em colocar na capa de uma revista uma modelo maravilhosa, contorcionista, esguia e flexível supostamente «praticando yoga» do que numa outra em que uma «pessoa comum» foi colocada apenas para que o leitor leia subliminarmente algo como «olhe, pessoas comuns como eu também praticam yoga e também aparecem nas capas de revistas». Por que? Oras, nenhuma revista tem como objetivo mostrar aquilo que você já é, mas aquilo que você quer ser ou, mais do que isso, aquilo que você precisa querer ser (como o mercado se manteria se só oferecesse aquilo que nós já queremos?).

Mas nem tudo está perdido. Num dos artigos a autora faz uma autocrítica (porque ela também escreve na Yoga Journal):


"No clima atual, o próprio Buda não teria sua gorda
e afortunada barriga aprovada pelo editor júnior".

Pois é.


Texto publicado originalmente no site www.yogailhabela.org.
Christian Rocha mora em Ilhabela.

Respostas:

Germano

Postado em: 12 de Julho de 2012 às 07h02

Aproveitando o tema yoga e consumo, gostaria de compartilhar uma curiosidade: temos mais uma abordagem para o yoga, o STROGA ! Vi o anúncio andando de ônibus, no exterior. Mas, também, pode-se conhecer aqui: http://www.stroga.com/. abraços, Germano

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Christian Rocha

Postado em: 03 de Julho de 2012 às 21h53

Mais uma vez, obrigado a todos pelos comentários (como indiquei em outro comentário, não consigo responder os comentários individualmente; deve ser algo com meu navegador...). * @Carol: A grande mídia, mesmo que seja "especializada", já mostrou que só tem compromissos com seus anunciantes. Quando sobra espaço e disposição, atende os leitores também. Não se surpreenda.

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Maria Luiza

Postado em: 01 de Julho de 2012 às 11h47

Christian!

Parabéns pelo artigo e também pelas respostas aos comentários.

Para aqueles que querem informação e ensinamentos de valor, sugiro a leitura dos "Cadernos de Yoga".

Aguardo novos textos.

Namastê!

Maria Luiza.

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Carol Oliveira

Postado em: 22 de Junho de 2012 às 18h45

Oi Cristian,

Concordo com você plenamente! Eu também tive uma grande decepção quando tive acesso a uma Yoga journal em ingles.

Esperava uma revista de qualidade, e o que vi foram anúncios e mais anúncios que não tinham nada a ver com o yoga. Conteúdo zero.

Uma propaganda que me chamou a atenção foi que divulgava luxo e glamour. Vê se tem cabimento... Bem o oposto da filosofia yoguica.

Cheguei ate a pensar: será que comprei a revista certa? Acho que vale a pena pontuar que nossa edição brasileira da de dez a zero nessa outra.

Aqui temos bons textos e ótimos professores que colaboram com a revista.

Namastê!

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Iracema

Postado em: 22 de Junho de 2012 às 18h02

Olha que coragem!

Parabéns! Acreditava que só eu esbravejava ao abrir as páginas da Yoga Journal! Quero dizer que compartilho das mesmas impressões e digo isso em relação a revista brasileira mesmo.

Vi a ultima edição, mas a capa já traz contradição: Ame seu corpo (com uma modelo fora dos padrões esqueléticos) e logo depois Fora de forma? Detox 7 dias!

Sou assinante desde o numero 01 de uma revista genuinamente brasileira, que nasceu dos editores deste site, e que talvez seja a única no mundo comprometida com o conteúdo e com os anúncios que estampam suas páginas.

Namastê.

Iracema.

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Maria José Fernandes

Postado em: 22 de Junho de 2012 às 17h34

Obrigado, Christian.

Não me senti nada bem quando vi aquele anúncio ano passado.

Seu texto é importante e esclarecedor.

Om shanti.

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Christian Rocha

Postado em: 23 de Junho de 2012 às 14h20

Obrigado pelo comentário, Maria. Namaskar!

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Bruno Jones

Postado em: 19 de Junho de 2012 às 15h56

Prezado Christian,

Acabo de me tornar teu fã. Me identifiquei muito com teu texto por falar abertamente desta publicação. Eu sempre discuto estes assuntos abertamente, nas redes sociais, no meu blog.

E sempre acabo rechaçado pelas pessoas que tiveram suas mentes lavadas por estes veículos de "desinformação", ao ponto de eu mesmo já ter brigado com uns e outros da mídia.

Sempre deixei clara minha opinião, e sempre deixarei, pois acho que trazer esclarecimento sobre esta linda Tradição é o mínimo que posso fazer depois de tudo que aprendi com maravilhosos professores.

É necessário coragem para apontar aquilo que está sendo deturpado no Yoga. Não somente por esta revista, mas por marcas esportivas, entre outras empresas e mídias que não têm nada a ver com o Yoga.

Se precisar de um aliado, "tamu aí!" Grande abraço!

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Christian Rocha

Postado em: 23 de Junho de 2012 às 14h19

Olá, Bruno.

Obrigado pelo comentário. Acho que o "abertamente" é a parte mais importante do teu comentário.

É surpreendente como pode haver assuntos-tabu no Yoga. Prossigamos. Abraço!

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Vanessa Bara

Postado em: 15 de Junho de 2012 às 13h45

Gostaria de parabenizar o autor pelo texto! Trazendo um um assunto parecido com esse, e muitas vezes,ja criticado por outros professores de yoga, são aulas de yoga dadas em academias...

Pratico Yoga há alguns anos e há dois anos começei a passar esse conhecimento a outras pessoas. Com isso fui conhecendo novas pessoas e ampliando minha pratica em outros lugares alem de minha casa...

Há pouco tempo uma aluna (professora de ed.fisica) me convidou para dar aulas na academia na qual ela trabalhava. Aceitei a proposta como desafio. Pois sempre achei que yoga e academia de ginastica não batiam...sendo que um é oposto do outro (pelo menos sob uma perspectiva).

Pois bem, as pessoas tem uma ideia do yoga completamente deturpada: acham que o professor de yoga tem a obrigação de fazer todas aquelas posturas que aparecem em capas de revitas(estas que vc citou em seu texto).

Hoje fazem exatamente duas semanas que comecei a dar as aulas na academia e existem alunos preocupados quando vão conseguir fazer tal postura, permanecer por mais tempo...puramente como exibicionismo. A gente orienta, traz a consciencia, tenta neutralizar o ego mas parece qua as pessoas estão realmente ligadas ainda ao corpo fisico somente.

Abrir a cabeça dessas pessoas é o maior desafio que hoje eu vivo em minhas praticas. As tecnicas do Yoga ficam quase que anuladas perante tanta vaidade alheia... Mas não vou desistir!! Dentro da minha filosofia de vida e o que eu aprendi, e aprendo com os mestres do yoga é ir além. Esses alunos são meus maiores mestres!

Muita luz!

Shanti Om.

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Christian Rocha

Postado em: 23 de Junho de 2012 às 14h14

Obrigado pelo comentário, Vanessa.

A situação que indico no artigo é bem parecida com a que acontece com as "aulas de academia": a demanda explica a oferta e a oferta às vezes faz com que a demanda aumente. Que possamos fazer nossa parte.

Namaskar!

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