A Vitória Sobre a Morte pelo Yoga

Diogo Ralston Fonseca - 18 de Agosto de 2012 - 6 Comentários

"O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos.
Sem início, nem fim, estando mais além do tempo,
do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável.
Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte".

Nesta passagem da Katha Upanishad está o real sentido do Yoga: a busca pela imortalidade. Este é um tema recorrente tanto nesta mesma upanishad quanto em outros shastras. É um ponto digno de discussão não apenas para examinar sua profundidade metafórica, mas também por compreender as mais notórias definições do Yoga e seu verdadeiro propósito.

Dentre estas, talvez a mais conhecida esteja no início do primeiro capítulo dos sutras de Patanjali - o Yoga como o bloqueio (a desidentificação) dos padrões mentais, para que assim o observador resida em sua verdadeira natureza. Este observador (drastuh) é o próprio Ser, e percebendo sua própria natureza identifica-se consigo mesmo.

Como a passagem da Katha Upanishad menciona, isto é processo perceptivo - vem de um “dar-se conta” e não o resultado de uma ação. No entanto, o Yoga é chamado comumente de uma prática. Pode a prática do Yoga levar a esta realização? Ela ajuda no direcionamento da atenção para esta realidade e desvia a atenção das aflições mentais, e como resultado, estas mesmas perdem sua força.

Estas aflições são descritas minuciosamente também nos aforismos de Patañjali, e nos ajudam a entender qual a relação que as escrituras fazem com o Yoga e a questão da mortalidade humana. A partir do terceiro sutra do segundo capítulo do Yoga Sutra são descritas, na visão do Yoga, as raízes de todo o sofrimento humano na forma de pañchaklesha, as cinco dores. O fascinante desta explanação e o que faz do texto um valioso tratado de psicologia é sua relação lógica e interdependente destas dores.

A primeira dor é avidya, a ignorância quanto à ilimitada natureza do Ser, que ressalta a aparência da separatividade entre sujeito e objeto. Partindo desta ignorância, o sujeito em um processo óbvio assenta sua identidade no complexo psico-físico e sua natureza inconstante, o que é chamado asmita e é a segunda aflição.

Nasce daí um falso e superficial senso de self, composto de relacionamentos com objetos avaliados como prazerosos ou dolorosos. Como um código binário em enormes blocos, é destas constatações de apego e aversão, rága e dveshá, que é composta a interface deste “falso eu”. Isto faz um sentido intuitivo quando pensamos em como é difícil definir nossa própria personalidade sem mencionar tudo o que gostamos e desgostamos.

Com a identificação com o complexo psico-físico e suas limitações e mutabilidades, há uma grande ansiedade pela sustentabilidade deste veículo que, agravada por sua dependência dos objetos de prazer e a receio diante da perda destes objetos, causa constante agitação mental.

Diante deste cenário culmina a descrição das aflições humanas com o que é normalmente é traduzido como "desejo por continuidade". Isto é chamado abhinivesah. É o medo da morte em que muitos autores ocidentais dizem ser a fonte de todos os temores humanos.

O medo da morte é, essencialmente, a ameaça do não-ser. Mesmo outros dos mais arraigados temores humanos, como a culpa, a condenação, e a insignificância, são também temores frente ao não-ser - neste caso, diante da auto-afirmação moral ou do propósito do homem. Mas é na morte que este se depara com a ameaça do não-ser em sua forma mais puramente existencial. A morte serve, assim, como a base e fonte para todos os demais temores.

O  não-ser é difícil de ser concebido. Significa um vazio, uma ausência de sujeito e de sua suas relações objetais. Não é um objeto concreto a ser enfrentado, mas uma idéia tão abstrata que o próprio termo é uma negação: "não-ser". Existe apenas como conceito. Já a realidade do ser é indubitável - como alguns autores ocidentais já versaram, quando o sujeito questiona sua própria existência, ele ao mesmo tempo a evidencia - é necessário que haja um sujeito para seu questionamento tome lugar.

Dadas estas questões, a atitude humana perante a morte por definição deve ser muito mais de ansiedade que medo, pois o medo tem um objeto definido que pode ser enfrentado, analisado, atacado ou tolerado. A ansiedade não tem objeto - seu objeto é a negação de todo objeto. Lutar contra este "nada" é impossível e assim, quem está ansiedade, permanece no desamparo. Desta forma é fácil ver como nenhuma ação pode liberar-nos desta ansiedade.

É neste ponto que jaz não apenas a maior contribuição que o Yoga tem como solução para este impasse, mas justamente seu cerne. O Ser, descrito nas escrituras como Satyam, é existência eterna e imutável que tudo sustenta. Não há margens nesta realidade. A concepção do não-ser e sua ansiedade decorrente, abhinivesah, só pode vir da ignorância e se desfalece através do conhecimento sobre o Ser, brahmavidya.

Esta infundada rede de aflições produz tamanha inquietude que impossibilita que o observador desvie sua atenção das modificações mentais para si próprio, como o Yoga é definido no Yoga Sutra. Cortada a ansiedade da finitude existencial em sua raiz pela foice do discernimento e auto-conhecimento, cortam-se também as demais ansiedades que dela se ramificam. Isto relaciona-se com outra definição do Yoga presente na Bhagavad Gita: “a ruptura de toda a relação com o sofrimento”.

Através desta verdadeira liberação, é possível melhorar de maneira significante e definitiva a qualidade de nossas vidas, e neste ambiente de paz, haver as condições apropriadas para que o melhor no ser humano floresça. Isto, na linguagem dos shastras, é vencer a morte. Apenas o conhecimento pode trazer a vitória sobre este sofrimento, pois ele é intrínseco à ignorância - no entanto, é para esta percepção que devem estar orientadas nossas práticas.

Respostas:

Rapha

Postado em: 03 de Maio de 2013 às 10h28

Muito bom! Diogo, estou precisando do seu RG para enviar a tela... ela esta parada por causa disso. Meu email raphaellangowski@gmail.com abraço!

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tiberio

Postado em: 11 de Novembro de 2012 às 23h16

Olá, Qual a diferença entre o hinduismo e o vedanta?

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André

Postado em: 19 de Outubro de 2012 às 10h07

Sim, concordo com o texto, o medo da morte é a fonte de todas as outras neuroses. Há pelo menos quatro anos venho me curando da sindrome do pânico através do Yoga. A prática veio de novo a me convencer que existe um Deus, que não nos abandona, ou melhor que está conosco. Eu já desacreditava! O Prof Hermogenes em seu livro Yoga para Nervosos demonstra bem como devemos fortalecer nosso "eu" (self) para combater esses processos mentais. Hoje, entendo mais ainda que a Fé é o primeiro passo. Seria o passo principal. Eu acreditei em Mim, em Deus e na Yoga como meio de encontrar a Deus. Quando os pensamentos de "morte" vinham logo pensava em Deus, depois começava a "respirar" (yoga), e canalizando tudo isso pra fora, passava pelas crises. O medo da morte era o meu maior receio. Hoje compreendi algo que me salvou, que há uma energia que mora em nós nunca morre (transcende a matéria). Seja ela chamada de "Espírito Santo de Deus," seja "Energia", seja "força vital", "luz na vida". Esta estará sempre presente em mim, e acreditem em todos nós (e em você também). Talvez o homem tenha esquecido que dentro dele existe uma grande força, nas palavras de Hermogenes, mais do que "energia nuclear", mas com tanta força dentro de nós, estamos mendigando pírulas, experiencias de "fé", de amor, de alegria, quando tudo isso está aqui dentro. Sim, vecemos a morte quando acreditamos que Deus, em seu extremo amor, plantou vida em todos nós. E esta vida plantada é eterna.

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Luiz Carlos Souza Gomes

Postado em: 20 de Agosto de 2012 às 17h26

Excelente texto, bem didático, mas acho que vencer a morte de acordo com os shastras é reconhecer que somos uno com a consciencia pois aí não existe nascimento nem morte pois a Consciencia é, não tem origem,não tem fim, e o yoga é uma das várias ferramentas que podem nos fazer reconhecer aquilo que já somos, e apesar de sabermos intelectualmente ainda não conseguimos vivenciar essa realidade. Hari Om

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Patrícia

Postado em: 26 de Agosto de 2012 às 00h04

Justamente isso!

Obrigada Luiz, por ter sido mais didático que o texto!

Namaste!

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Silvio Lopes

Postado em: 19 de Agosto de 2012 às 19h28

Demais!

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Li e concordo com os termos de uso

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