O Yoga de Patañjali

Pedro Kupfer - 24 de Julho de 2000 - Nenhum comentário

Coloquemos a nossa lente zoom no Ashtánga Yoga, o sistema organizado pelo sábio Pátañjali. Este sistema tem oito partes: yama, niyama, ásana, pránáyáma, pratyáhára, dháraná, dhyána e samádhi.

As duas primeiras partes, yama e niyama, são as prescrições e proscrições éticas. Yama significa controle ou domínio. São o pontapé inicial.

Yama são as cinco proscrições: não usar nenhum tipo de violência (ahimsá); falar a verdade (satya); não roubar (asteya); não desvirtuar a sexualidade (brahmacharya); e não apegar-se (aparigraha). Esses refreamentos pretendem purificar o yogin, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, órgãos sexuais e excretores.

Niyama, as prescrições psicofísicas compreendem cinco disciplinas: a purificação (shauchan); o contentamento (santosha); a austeridade ou esforço sobre si próprio (tapas); o estudo de si próprio e da metafísica do Yoga (swádhyáya); e a consagração a Íshwara, o arquétipo do yogin perfeito (Íshwara pranidhána). Estas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção (jñánendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal do praticante.

Ásana, o terceiro estágio, são as posições físicas, firmes e confortáveis: 'o ásana torna-se perfeito quando desaparece o esforço por realizá-lo, de forma que não haja mais movimentos no corpo.' O Yoga Sútra de Pátañjali não é para iniciantes. É para mestres. Daí a importância do estilo dos sútras. Cada palavra é significativa. Por exemplo, a definição de ásana: sthirasukham. Ele não diz sukhamsthira. Porque primeiro, o corpo precisa ficar imóvel. Depois, vem sukham, o conforto. Su significa prazer. Kha refere-se aos indriyas, órgãos dos sentidos. O que significa que os sentidos ficarão automaticamente sob controle.

A posição sentada correta permite a prática de pránáyáma e pratyáhára, os próximos passos. Mas isso só é possível quando há força, firmeza e flexibilidade no corpo. Para o yogi, o processo do ásana passa necessariamente pela construção de um corpo novo. Um corpo onde a energia não mais tem obstáculos para circular.

Pránáyáma é o processo de expansão da energia vital, usando a respiração. A palavra é a combinação de dois termos: prána, que significa alento, força vital, respiração, energia, vitalidade e ayáma, expansão, controle, domínio, retenção, pausa. Segundo o Yoga Sútra, 'pránáyáma consiste em controlar o processo de inspirar (shwása) e expirar (prashwása).' Na meditação, aumentamos o caudal de energia dentro do organismo. Mas, se o corpo não estiver preparado, haverá conflito.

Embora ásana e pránáyáma possam ser praticados para melhorar a saúde, aumentar força e flexibilidade, etc., a intenção original dessas técnicas é equilibrar o fluxo da energia no organismo, e prepará-lo para as técnicas que seguem. É impossível sentar para meditar se não estivermos acostumados a manter uma posição por um certo tempo, sem sentir o mínimo desconforto, sem que apareça nenhuma dor, nenhum movimento inconsciente, nenhuma dificuldade para respirar. Estas técnicas fortalecem o sistema nervoso, regulam o metabolismo, melhoram a respiração, e nos ajudam a manter sob controle as emoções, atitudes e pensamentos.

Pratyáhára, a retração dos sentidos, é a faculdade de liberar a atividade sensorial do domínio das imagens exteriores. A mente é o maior obstáculo para meditar. Entretanto, antes de começar a trabalhar nela, precisamos colocar os sentidos sob controle. Desde o dia do nosso nascimento estamos sendo continuamente bombardeados por impressões, imagens, sons e sensações. Essas experiências alimentam o pensamento e nos arrastam para a experiência externa. Vivemos voltados para fora. O pratyáhára serve para desvincular-nos dessa invasão das coisas do mundo exterior. Sem ele, é impossível alcançar a meditação.

Ásana, pránáyáma e pratyáhára não são fins em si mesmos: objetivam unicamente dar ao praticante uma infra-estrutura física e mental firme para que possa suportar as transformações decorrentes do despertar da energia potencial: kundaliní. Através destas técnicas preliminares, úteis também para superar os obstáculos iniciais (dúvida, preguiça, angústia, dispersão, etc.), o meditador se prepara para o Yoga em si, que começa com as técnicas de contemplação.

Dháraná, a concentração em um ponto só, se faz para limitar a atividade da consciência ao interior da imagem sobre a que se está meditando. Essa unidirecionalidade da consciência não pode conseguir-se sem prática regular. Paradoxalmente, na prática de concentração não devemos forçar as coisas, não devemos entrar em conflito com a nossa mente. Uma concentração forçada não é real, pois só provocará mais tensão.

Dhyána, a meditação em si, consiste em parar o fluxo do pensamento. A meditação é o resultado espontâneo da concentração da consciência, e constitui a preparação necessária para atingir o objetivo do Yoga, o estado de iluminação. A meditação não pode ensinar-se. A rigor, as instruções sobre como meditar terminam na concentração. Depois, o praticante deve continuar sozinho. Todas as técnicas levam você a esse estado, desde que praticadas com regularidade. Não há palavras para descrever dhyána. A única coisa que podemos dizer é que vale a pena o esforço. Se você não experimentou esse estado, as palavras só irão provocar confusão e intelectualização. Ou seja, você vai ficar de fora de experiência real. Se você tiver a experiência, saberá que as palavras sobram, e que não podem ser usadas para descrevê-la.

Samádhi é a liberação final, o estado de iluminação, em que o contemplador se absorve no Purusha, a Consciência Universal. No samádhi, o yogi se defronta face a face com experiências totalmente inacessíveis através do instinto ou da razão.

O que acontece com o sistema nervoso durante a meditação? Francisco Varela, neurobiólogo e diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica de França afirma que 'com enorme surpresa, temos visto que nos momentos de profunda introspeção não acontece nada de raro ou diferente do habitual no cérebro. Só que esta capacidade dos grupos neuronais para entrar em harmonia, torna-se mais eficaz e rápida. Isto é, que em lugar daquela melodia flutuante e indefinida da experiência cotidiana, o ato da reflexão produz uma música potente. Portanto, a capacidade que o homem tem de olhar para si próprio não é um desdobramento, senão uma maneira de tornar um processo comum, algo mais forte e poderoso. Você aprofunda algo que já tinha.' E é exatamente isso o que o Yoga faz com a gente! Nos torna conscientes do que já tínhamos: uma espiritualidade explorável usando a consciência. É tão simples que não parece possível. Mas é. E está mais perto do que você imagina. Pátañjali disse que 'o samádhi está próximo para os que o anseiam com intensidade. Os frutos desse anseio serão proporcionais à sua intensidade.' Yoga Sútra, I:21,22.

Não vemos a realidade como ela é, mas como somos nós mesmos. Mas o que é a realidade? Ram Dass explica que 'crescemos com um plano de existência que denominamos o real. Identificamo-nos por inteiro com essa realidade, tida por absoluta, e descartamos as experiências não compatíveis com ela como sonhos, alucinações, insanidade ou fantasia. O que Einstein demonstrou na física aplica-se também aos outros aspectos do cosmos: toda realidade é relativa. Cada realidade é verdadeira apenas dentro de certos limites; é apenas uma versão possível do modo de ser das coisas. Sempre há múltiplas versões da realidade. Despertar de uma realidade relativa é reconhecer-lhe a natureza relativa. A meditação é um instrumento para fazer precisamente isso.'

Os últimos três estágios do Yoga de Pátañjali, concentração, meditação e iluminação, constituem a técnica tríplice chamada samyama e são conhecidos como antaranga, membros internos, por oposição aos anteriores (bahiranga = externos), que regem a vida exterior. Isto, porque no samyama não se precisa nenhuma técnica fisiológica nova. A partir daqui, tudo acontece da pele para dentro.

E uma das coisas que acontece quando você medita, é a aparição dos poderes psíquicos, chamados siddhis. Qualquer estado mais elevado de consciência desencadeia os siddhis. Os siddhis vêm sozinhos com a prática, mas não são importantes. Importante é o seu desenvolvimento. Se poderes específicos surgirem ao longo do caminho, tudo bem. Pátañjali adverte sobre o perigo que se esconde na tentação de usar os siddhis. Pois quando alguém os obtém e começa a utilizá-los, esquece do objetivo do Yoga. É como se você pegasse uma chave de fenda para fazer algum conserto, mas, ao invés de trabalhar, ficasse olhando extasiado para o reflexo do sol nela e esquecesse para que você a pegou. Pátañjali dedica um capítulo inteiro do Yoga Sútra aos siddhis, porque você precisa saber o que é inútil também. Se ele não descrevesse os poderes, um a um, o praticante poderia se perder. Tudo o que você não entende lhe dá medo. Mas se você souber exatamente o que é um siddhi, quando ele se manifestar, você não entrará em pânico nem perderá o controle da situação.

Extraído do livro Yoga Prático.

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