Tantra = sexo?
Pedro Kupfer - 23 de Julho de 2000 - 12 Comentários
Algumas pessoas têm me procurado através deste site solicitando informações sobre 'aulas de Tantra'. Como não sei exatamente o que elas entendem por Tantra, fico me perguntando como poderia ajudá-las a encontrar o que buscam, ou a evitar as armadilhas em que se arriscam a cair.
Para começar, vamos dizer o que o Tantra não é. Tantra não é um guru mequetrefe prometendo orgasmos múltiplos e iluminação e cobrando mundos e fundos por isso. Tantra não é uma prostituta com nome de deusa oferecendo seus serviços na internet. Tantra não é um grupo de alienados carentes se excitando e alisando em nome da hiperconsciência. Tantra não é sacanagem, nem infidelidade institucionalizada. Tantra não tem nada a ver com "soltar a franga". Tantra não é tara.
Aquilo que os clones tupiniquins de Osho chamam de Tantra, não é o Tantra (por favor, veja o esclarecimento no fim deste texto, antes de se ofender e interromper a leitura. Obrigado!). Os cursos de Tantra associados à sensualidade, técnicas sexuais e promessas de iluminação através da excitação sexual têm como objetivo sustentar a forma de vida de certos autodenominados 'mestres', que buscam satisfazer seus próprios desvios sexuais e desejos de manipular pessoas, ganhando um dinheirinho de quebra.
Então, o que significa essa palavrinha de seis letras? Tantra é o nome de um vasto leque de ensinamentos práticos que têm como objetivo expandir a consciência e libertar a energia primal do ser humano, chamada kundalini. O princípio comum a todos os caminhos práticos de Tantra é que as experiências do mundo material podem usar-se como alavanca para conquistar a iluminação, já que este é a manifestação de uma outra realidade, sutil e superior, que está conectada com a nossa própria natureza.
Nesse contexto, a visão do Tantra associada ao êxtase sexual é pateticamente superficial e parcial, se comparada com a verdadeira tradição. O Tantra não é hedonista nem orgiástico. O objetivo do Tantra é o despertar da força potencial no homem.
Um colega, professor de Yoga, comentou recentemente que apenas 10% dos textos tântricos tratariam sobre sexo. Pessoalmente, acho esse número demasiado elevado. Dos muitos shastras que consegui garimpar na Índia, em sânscrito e em inglês, não têm sequer um que trate em detalhe da sexualidade. Algumas técnicas sexuais, como a reabsorção seminal após a ejaculação (vajroli), se descrevem, por exemplo, na Hatha Yoga Pradípika.
A única obra hindu que conheço que trata explicitamente sobre sexualidade, e como aumentar a performance na cama, é o Kama Sutra, que não é um shastra tântrico e que, por sinal, fala muito mais sobre ética do que você poderia pensar sem ter a obra em mãos (1).
Embora existam diversas vertentes dessa tradição, todas têm o mesmo objetivo e usam as mesmas ferramentas para atingi-lo: mantras (sons de poder), yantras e mandalas (diagramas sagrados sobre os quais se exerce a concentração), chakras (centros da força vital), práticas de iniciação e purificação e um sistema ético que une e protege o grupo de praticantes. Essa lista de práticas é incompleta, pois os métodos dessa tradição incluem um espectro muito amplo de crenças e técnicas.
Tantra significa literalmente tecido, urdidura; pode ser traduzido como 'espargir o conhecimento' ou 'a maneira certa de se fazer qualquer coisa', tratado, autoridade, estender, multiplicar, continuar.
Também designa o encordoamento do sitar ou outro instrumento musical. É o nome de um movimento filosófico que compartilha suas principais premissas com a filosofia do Yoga, herança e patrimônio da cultura dos rios Indus e Sarasvati. O culto da Grande Mãe está presente na Índia desde o neolítico (8000 a.C.), mas os mesmos símbolos que o tantrismo utiliza hoje remontam ao paleolítico (20000 a.C.) e estiveram sempre presentes ao longo do continente eurasiano.
O Tantra assimilou e organizou os rituais da Magna Mater, transformando-os num método de emancipação que busca na psique humana a manifestação da própria força da Shakti. Esse movimento teve uma forte influência sobre a religião, a ética, a arte e a literatura indianas, havendo ressurgido com inusitada força entre 400 e 600 d.C., quando chegou a transformar-se numa moda que acabou por influenciar nos modos de pensar e agir da sociedade indiana medieval. Aqui ela se afirma, populariza e estende ainda mais, dando origem a um grande número de correntes e manifestações filosóficas, religiosas, mágicas e artísticas, algumas antagônicas.
"Não se trata de uma religião nova, senão de uma nova caracterização de fatos que pertencem ao hinduísmo comum, mas que, às vezes, só se apresentam precisamente em suas formas tântricas. Percebe-se o selo do tantrismo na mitologia e na cosmogonia, mas, principalmente, no ritual. O gérmen se remonta com freqüência aos Vedas, especialmente ao Atharva Veda, que pode considerar-se um hinário pré-tântrico." Jean Renou, El Hinduismo, p. 89.
O Tantra não pertence à tradição ortodoxa hindu, já que não existe um darshana com esse nome. Sua visão do mundo é herança e síntese da Índia aborígene e da Índia vêdica, muito mais antigas do que imaginaram os estudiosos ocidentais do século XIX. É uma forma de ver a vida e cada um de seus aspectos.
Há diferentes linhas do tantrismo: o Dakshinachara, linha da 'mão direita', ou de tantrismo branco, se justapõe, através dos 'rituais de compensação', ao Vámachara, corrente da 'mão esquerda', do tantrismo negro, corrente na qual se destaca a escola Kaula, fundada por Matsyedranatha por volta de 900 d.C.
O tantrismo negro se caracteriza pelos rituais de transgressão, como o pañchamakara (os cinco m), no qual o praticante utiliza a ingestão de bebidas embriagantes, carnes e o coito ritual como meios de chegar à sacralidade. Podemos identificar alguns desses rasgos no Rig Veda, nas libações ceremoniais do soma e nos rituais sexuais. No ritual de compensação do Dakshinachara, o vinho é substituído por água, a carne por coco seco, o coito pelo culto da Shakti, etc.
O Yogini Tantra (V:14) diz:
"Madya, o vinho, é o conhecimento intoxicante do Parabrahman adquirido através do Yoga, que isola o praticante do mundo exterior. Mamsa não é a carne, mas o gesto em que o sadhaka consagra todos seus atos à Shaktí. Matsya, o peixe, é o conhecimento sáttvico pelo qual o adorador sente compaixão pelo prazer e a dor de todos os seres. Mudra, o cereal tostado, simboliza a renúncia a todas as formas do mal, que conduzem a novos condicionamentos. Maithuna é a união da kundalini shakti com Shiva no corpo do adorador."
Um dos artigos de fé do povo vêdico era, portanto, que a união sexual conduzia à bem-aventurança do além e devia cumprir-se com verdadeiro espírito religioso para assegurar o bem-estar espiritual, censurando-se severamente a lascívia." S. B. Lal Mukherjí, ensaio em Shakti y Shakta, de Sir John Woodroffe, p. 83.
A visão cosmogônica do Tantra, com suas perguntas essenciais, evidencia uma atitude especulativa sobre a antropogênese que a vincula ao Samkhya. A cosmogonia se caracteriza pela união dos opostos: isto é, se trata de uma coincidentia oppositorum, conjunção dos opostos que se complementam. Essa idéia não é original do Tantra: existiu em outras cosmovisões ao longo da história da Humanidade; mas o tantrismo recupera para si esse princípio, muito mais antigo que ele próprio.
Esses dois princípios em coincidentia oppositorum são Shiva e Shakti. Os rishis, sábios ascetas do alvorecer do pensamento hindu, chamaram Brahman ou Shiva o princípio primordial. Tudo existe em função dele, tudo é reflexo e evidência da sua realidade. Não há noção de criação do mundo nem há Deus: no plano macrocósmico, Shiva é, parafraseando Aristóteles, o motor imóvel do mundo. É o Princípio Imutável e Eterno, nem ativo nem criador. Ele não faz nada: apenas é. Sua manifestação é Shakti, palavra que significa energia e, por extensão, esposa. Shakti é a Prakriti, a Natureza do Samkhya, a energia criadora que provoca a manifestação do Universo.
Shiva é inabalável: a ele pertencem o Ser e a Consciência; à Shakti correspondem o movimento, a mutabilidade e a geração. Esses dois princípios se representam na iconografia do tantrismo unidos no viparíta maithuna: Shiva aparece deitado ou sentado, imóvel, enquanto Shakti está sempre sobre ele, ativa no ato da manifestação.
Esse modo de pensamento não é religioso, dogmático ou doutrinário, mas estritamente especulativo. Dessa maneira, o Tantra, assim como o Samkhya, se aparta de outras visões que incluem os conceitos de criação, divindade, origem do mundo, et coetera.
Contudo, o Tantra possui uma certa semelhança com algumas formas de panteísmo: O que está aqui, está em toda parte; o que não está aqui, não está em parte alguma (2). Daí provém o culto à Natureza e à feminilidade. Para o Tantra, o mundo tangível é bem real: ilusório é pensar que o Ser (Shiva) intervenha ativamente no Universo manifestado.
Agora, vamos falar um pouco sobre a parte do Tantra que se ocupa do sexo ritual. A incompreensão do Tantra e o simbolismo que o transmite colaborou para considerá-lo repulsivo, vergonhoso e digno de escárnio. A preocupação daquele que condena o Tantra é fruto da sua própria obsessão com a questão sexual, que o leva a querer coartar a liberdade dos demais. Nesse sentido, o tantrismo é totalmente natural, e a sua abordagem do sexo não é patológica, mas absolutamente sadia, de uma espontaneidade difícil de aceitar para os padrões da 'decência' cristã.
Maithuna, o ritual sexual, não tem nada a ver com pornografia ou licenciosidade, muito pelo contrário, é um instrumento que revela a dimensão divinal da natureza humana. Entretanto, nos últimos tempos, têm surgido mestres inescrupulosos que vendem sexo como se fosse superconsciência, o que acaba por divulgar e tornar conhecidas no Ocidente unicamente as formas mais vulgares e degradadas do Tantra.
"O maithuna é a técnica tântrica que mais fascina os ocidentais, que com demasiada freqüência confundem-na com uma indulgência para com os apetites sexuais, em vez de vê-la como meio para dominá-los." Daniel Goleman, A Mente Meditativa, p. 98.
Enquanto alguns buscam a elevação através da repressão ou da eliminação do desejo sexual e suas raízes (samskaras), para o tantrismo a sua utilização é condição básica. O homem deve evoluir executando as mesmas ações que causam a sua perdição. Assim, afirma o Kularnava Tantra:
Quando caímos no chão, é com o auxílio do chão que nos levantamos.
"Pelo próprio fato de não se tratar de um ato profano, mas de um rito, no qual os participantes não são mais seres humanos senão que estão 'desprendidos', como deuses, a união sexual não participa mais do nível kármico. Os textos tântricos repetem com freqüência o adágio: 'pelos mesmos atos que fazem com que muitos homens se queimem no inferno durante milhões de anos, o yogin obtém a salvação eterna'. (...) O jogo erótico se realiza num plano transfisiológico, porque nunca tem fim. Durante o maithuna, o yogin e sua náyiká (4) incorporam uma 'condição divina', no sentido de que não somente experimentam a beatitude, senão que podem contemplar diretamente a realidade última." Mircéa Éliade, El Yoga. Inmortalidad y Libertad, pp. 194, 197.
Um esclarecimento a eventuais leitores desatentos: quando escrevo "clones tupiniquins de Osho", não estou, de maneira alguma, querendo ofender Osho ou seus discípulos. Um clone é uma cópia. No dicionário encontramos a seguinte definição de clone. É "o que aparenta ser a cópia de uma forma original". Tupiniquim, ainda segundo o dicionário, significa "indígena pertencente ao grupo dos tupiniquins. Uso: informal, jocoso ou pejorativo". Um "clone tupiniquim", portanto, é um imitador que não chega aos pés do original; uma cópia malfeita, chinfrin, um imitador barato, um auto-didata aspirante a "mestre" de sexo tântrico. Conheço algumas pessoas desse naipe que, por exemplo, promovem cursos de "nudismo consciente" e outras palhaçadas. Minhas desculpas se o tom de algumas seções deste texto ofende pessoas que consideram que o Tantra seja mesmo uma terapia sexual. Na dúvida, perguntem ao Dalai Lama, um tântrico da melhor estirpe. Namastê!
(1) Recomendo a tradução de Alain Daniélou, The Complete Kama Sutra, Park Street Press, Rochester, Vermont.
(2) Vishwasara Tantra (citado por Sir John Wodroffe, Shakti y Shakta, p. 216).
(3) Indrabhuti, Jñanasiddhi, 15.
(4) Nayika: heroína, mulher nobre, shakti. Uma das formas de Durga.
Respostas:
Rashmi
Postado em: 22 de Janeiro de 2010 às 19h15
Olá Pedro!
Que bacana ler teu texto esclarecendo aos incautos que Tantra e sexo não são a mesma coisa. Infelizmente algumas pessoas demasiadamente moralistas se utilizam de certos artifícios para, supostamente, justificar a prática de orgias, e coisas do tipo, dando-lhes um nome mais respeitável. Como bem sabemos, há MESTRES e \\\'mestres\\\' por aí.
O meu Guru amado - Shrii Shrii Anandamurti ou Bábá, escreveu bastante sobre o assunto, cheguei a publicar em meu blog devido a minha preocupação com esta mistura ingrata que se criou, inclusive já li artigos sérios sobre Tantra em revistas conceituadas, que no entanto, tiveram a infeliz idéia de acrescentar imagens eróticas que nada tinham a ver com o assunto tratado por pessoas sérias.
Achei bem importante tu teres tratado do tema \\\'sexo\\\' com naturalidade, afinal, sexo não é pecado, deve ser vivenciado de forma plena e responsável, para a nossa evolução, e não para satisfazer nossos instintos puramente fisiológicos: é a mente que comanda o corpo e não o contrário.
Caso interesse a alguém, o livro "A LIBERAÇÃO DA MENTE ATRAVÉS DO TANTRA YOGA" que é uma compilação dos ensinamentos do Bábá, traz informações valiosas sobre este assunto - pode ser adquirido no site da Ananda Marga.
Um grande abraço Pedro, continue escrevendo sempre, teus textos são iluminados.
Namaskar!
Rashmi.
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Joyce Fernandes
Postado em: 02 de Janeiro de 2010 às 12h46
A cada artigo que leio a respeito do Yoga fico maravilhada de tão grande que é.
Me envolvo mais e mais. Namastê!
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Gabi
Postado em: 27 de Outubro de 2009 às 21h37
Bem ou mal, nascimento apos nascimento o desejo brotou. O mundo se criou, é uma pena que lhe dou o falso comentario o distante ser que esteve desejando durante milhas estas em um próximo nascer.
Creio em 2010 resgatar o falso ser que talvez tenha que melhorar a pratica em um seminario, pois um dia se manifesta em cada nascimento. Nascer está sendo o desejo de proximas atuaçoes de corpos vivos respirando, pensando, de luz a vida eh cheia.
Namaste.
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Roberta Savaris
Postado em: 12 de Outubro de 2009 às 15h58
Muito bom esse esclarecimento sobre Tantra: como é importante ser ético, a iluminação depende de cada um. Abraços.
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Paolo Prabhu
Postado em: 11 de Março de 2009 às 16h13
Muito bom o texto sobre Tantra. Vejo o Tantra como a maneira correta de se fazer sexo.
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Augusto
Postado em: 21 de Outubro de 2009 às 13h38
Caro amigo, atente para o fato de que o texto deixa claro que o tantrismo é um movimento cultural complexo e multifacetado, cujos métodos (que nem de longe são somente sexuais) buscam a emancipação. Logo, o Tantra é muito mais do que "a maneira correta de se fazer sexo". Abraços.
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Júllia
Postado em: 24 de Agosto de 2008 às 08h23
Adorei a forma em que descreveu o Tantra. Sou leiga e sei que internet tem suas armadilhas. Tantra me desperta muito interesse desde que ouvi sobre, e isso a muito pouco tempo. Muito boa sua descrição.
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Elaine Santos
Postado em: 04 de Abril de 2008 às 18h16
Parabens ao esclarecimento sobre o tantrismo, ja fiz uma seçso e a pessoa foi muito profissional....realmente mexe com as emoçoes e tanto. Achei tudo muito confuso, mas vi que era tudo muito profissional. abraços
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Magnus Tantra Yanng
Postado em: 14 de Novembro de 2007 às 14h53
É MUITO BOM SABER QUE AS PESSOAS COMEÇAM A TER UMA VISÃO MAIS CLARA SOBRE TANTRA. O TEXTO Tantra = Sexo? É FELIZ PORQUE FOI EXATAMENTE ASSIM QUE EU O CONHECI. NENHUM APELO INFANTIL OU INCONSEQUENTE PARA O SEXO, MAS UM CONVITE PARA ENCONTRAR AQUILO QUE REALMENTE SOMOS: AMOR,PAZ, EQUILÍBRIO, HARMONIA. ENQUANTO MUITOS PERSEGUEM OS MÚLTIPLOS ORGASMOS,O VERDAEIRO TÂNTRICO BUSCA O ORGASMO ÚNICO E PROFUNDO COM O UNIVERSO, COM O TODO. PARABÉNS PELO TEXTO!!! MTY
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