Yoga Vira-Latas? Voltei recentemente de uma temporada de estudos na Índia, onde o Yoga é uma prática baseada em princípios e valores milenares.
Diferentemente dos ocidentais, os yogis daquele país estão mais preocupados em saber o que você faz para melhorar o mundo que em conhecer suas ideias.
As comunidades yogikas estão tradicionalmente empenhadas em melhorar as condições de vida das populações carentes, mantendo hospitais e escolas, distribuindo alimentos e gerando emprego através do Karma Yoga, o Yoga da ação social.
Essa experiência no berço do Yoga contrasta de maneira chocante com o que percebemos chegando de volta ao Brasil.
Lá, é absolutamente normal deparar-se com yogins que dedicaram suas vidas à prática e ao estudo da filosofia.
O que é o Yoga vira-latas?
Aqui, além de esse primeiro tipo ser raro, existem “profissionais” que envergonhariam os sábios de outrora, que só não se reviram de indignação nos túmulos porque foram cremados.
Em nosso país, o Yoga virou uma mercadoria usada por charlatões para enriquecer, seduzir e extorquir.
Desde novatos psicografando currículos anabolizados para impressionar potenciais clientes a temerários que ensinam o que ignoram e mestres facínoras, impera em algumas áreas do Yoga um certo clima de impunidade, de “liberou geral”, no qual os oportunistas fazem a festa.
Essas pessoas têm uma visão tão mequetrefe do Yoga que a prática acaba virando uma espécie de ginástica com incenso. É o que chamo de vira-latização do Yoga. Ou Yoga vira-latas.
Na verdade, a presença de pessoas despreparadas ou mal intencionadas no Yoga não é nova. O Dattatreya Yogaśāstra, um antigo tratado sobre essa nobre filosofia, adverte:
“Há algumas pessoas que dão discursos sobre Yoga ou ostentam os sinais do yogin, mas não praticam o que pregam. Estão enganando os demais, somente para obter benefícios e satisfazer seus desejos”.
Nesse panorama de “vale-tudo” destacam-se, pela periculosidade, algumas seitas intolerantes, disfarçadas de redes franqueadoras autodenominadas “universidades”, que tratam esse antigo ensinamento como se fosse fast food e enxergam os praticantes como se fossem notas de dinheiro com pernas.
Essas seitas de Yoga vira-latas com fins lucrativos, oferecem um vasto leque de produtos, que vão desde formação profissional (para o bom entendedor, lavagem cerebral pura e simples) a sexo tântrico (leia-se lascívia desenfreada), sob a supervisão totalitária do mestre.
Espertamente, especializam-se no público jovem, mais fácil de manipular.
Os adeptos são orientados a não misturar-se com pessoas de “nível energético inferior”, não ler livros ou fazer práticas de outras formas de Yoga que a preconizada pelo líder e outras instruções que têm como objetivo alienar o indivíduo, enfraquecê-lo e torná-lo mais manipulável.
Quando há algum questionamento em relação ao autoritarismo ou a pessoa se afasta da faixa etária ideal, ela é impedida de continuar freqüentando o curso, descartada como bagaço da laranja.
É lamentável, mas compreensível, ver a nossa juventude seduzida por esse tipo de ideologia reacionária. Essas seitas se apresentam sempre sob uma forma light e criam uma identidade com a linguagem, as atividades e as inquietudes dos jovens.
No entanto, por trás do marketing enganoso, escondem-se a exigência de obediência cega, o doutrinamento, o culto da personalidade e a devoção ao mestre, estabelecida através de juramentos e outros rituais patéticos.
As palavras Yoga e seita são, por princípio, contraditórias. É impossível haver uma seita formada por yogins de verdade. Se ela existir, estará formada por um embusteiro e seus asseclas, sejam enganadores, sejam enganados.
Pode um patife ditatorial e sedento de poder, que impõe o culto patológico a sua personalidade, ser um yogin? A resposta é não.
Cabe lembrar que o Yoga é uma ciência complexa e profunda que busca a realização do potencial humano.
Essa realização é chamada nirvāṇa, uma palavra sânscrita que significa literalmente “sem [apego aos] desejos”, exatamente o contrário do que se preconiza nesse tipo de instituição.
Praticar Yoga é levar uma vida que exige transformações profundas: desde o esforço por superar-se na prática e no cotidiano, aplicando a consciência a cada ação, até o cultivo das virtudes nos relacionamentos.
Digo tudo isso, com o máximo de respeito pelos vira-latas de quatro patas que convivem harmoniosamente com os humanos há tantos milênios.
॥ हरिः ॐ ॥
Publicado originalmente na edição de maio de 2004 da revista Superinteressante. Infelizmente, este texto não perdeu a atualidade.
Saiba mais sobre o Yoga Vira-Latas:
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॥ हरिः ॐ ॥
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