Aulas de abdômen, Yoga grátis!

Rosana Biondillo - 16 de Novembro de 2004 - 8 Comentários

A frase acima estampava uma faixa promocional em uma academia. A promoção era a nossa velha conhecida: pague por um produto e leve um magnífico brinde de cortesia! Mas, se por acaso, algum dia, você for comprar um Fusca e lhe oferecerem uma Ferrari grátis, desconfie.

Ironias à parte, eu não sei bem como é que funciona o esquema de administração e marketing nas academias, mas não pode ser muito diferenciado das demais empresas que vendem produtos e serviços diretamente ao consumidor - guardadas as diferenças básicas entre os produtos e serviços em si. Mas confesso que fiquei duplamente surpresa.

Primeiro, fiquei surpresa em saber que ainda há profissionais (?!) malpreparados a ponto de ainda darem aulas somente de exercícios abdominais (lembram-se das famosas e intermináveis séries para ficar com barriga de tanquinho?). Já é fato dito e sabido pelos legítimos profissionais das áreas do esporte e de condicionamento físico, que estudos recentes já comprovaram, que fazer 500 abdominais por dia só é bom mesmo para uma coisa: detonar a coluna vertebral de quem se submete a esse desnecessário sacrifício. Há outras alternativas muito mais eficientes, saudáveis e equilibradas no mundo do fitness, pois alguns paradigmas já foram há muito descartados pelos verdadeiros especialistas e profissionais dessa área.

Em segundo lugar, fiquei estarrecida com o fato de um estabelecimento comercial, que tem um nome a zelar e promover, conseguir oferecer aulas gratuitas de Yoga de forma não-altruísta. Isso porque o Yoga deveria ser uma modalidade de custo sempre mais elevado dentro de uma academia, pois encontrar um profissional competente nessa área é muito complicado. Um bom professor de Yoga precisa ser multidisciplinar, pois o Yoga é uma modalidade integrativa e holística. Portanto, quem trabalha profissionalmente com Yoga deve conhecer filosofia, psicologia, fisiologia, anatomia, cosmologia, física qüântica, religião, literatura, música e artes em geral, e ser, pelo menos, bilingüe. E essa é apenas a parcela mais elementar na formação desse profissional, pois há ainda os constantes cursos de aperfeiçoamento e reciclagem, as práticas e as leituras diárias, as quais tomam um mínimo de duas horas na vida de qualquer praticante medianamente esforçado. E, com o desenvolvimento e amadurecimento do praticante, esse período pode (e deveria) se estender a três ou quatro horas diárias de práticas e estudos. Com o passar do tempo, e com o efeito cumulativo de suas práticas diárias, o legítimo yogi (aquele que pratica e vive o Yoga com seriedade e comprometimento) começa a experimentar todos os preciosos momentos de sua vida como sendo Yoga: a separação, a cisão, a ruptura inicial entre o que é praticar e o que é viver a vida com toda sua complexidade e dificuldades já não existe mais.

E por falar em prática, voltando à parte prática deste texto, desculpe-me, mas não dá para engolir esse negócio de aulas de Yoga grátis em estabelecimentos comerciais, como é o caso de algumas academias. Porque, se não for por opção consciente do profissional, no mais belo estilo Karma Yoga, fazer parte desse esquema pode ser uma tremenda roubada para todos os clientes e consumidores desse magnífico produto em liquidação. Quando você for comprar um Fusca e lhe oferecerem uma Ferrari grátis, desconfie.


© 2004 por Rosana Biondillo. Todos os direitos reservados.
Proibida reprodução sem autorização da autora.

Visite o site da professora Rosana Biondillo em www.omyoga.hpg.ig.com.br

Respostas:

Léo

Postado em: 17 de Fevereiro de 2010 às 14h16

Professor de yoga deveria compreender fisica quantica??? Sei não heim...

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Carlos Galli Junior

Postado em: 13 de Dezembro de 2009 às 10h22

Concordo com o artigo , o professor para se manter atualizado, levar a pratica todos os ensinamentos precisa ter uma remuneração , necessita cobrar pelo serviço. Se existe yoga gratis é muito dificil um professor se dedicar integralmente ao yoga, afinal ele deve ter uma profissão paralela onde a qualidade cai, mas também o professor de yoga dedicado integralmente pode e deveria dedicar pelo menos algumas horas da semana de forma desinteressada a um trabalho voluntário em alguma instituição como hospitais, clinicas, asilos e escolas. Acho que tudo é questão de equilíbrio.

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Rosana Biondillo

Postado em: 21 de Fevereiro de 2009 às 11h42

Agradeço por todos os comentários, mas vou responder à questão específica da Júlia: Acho que o Yoga deveria, sim, continuar a ter um valor mais elevado que outras modalidades em uma academia pelo dispendio financeiro que acarreta. Esse é um dado estatístico. Agora, talento, dedicação e desapego não podem e não devem entrar sozinhos nesse computo, mesmo porque, eles não têm preço!!! Falando por mim, minhas aulas gratuitas ou pagas não têm diferença nenhuma! Pagar ou não pagar não faz diferença mesmo, porque o meu talento, dedicação e respeito pelas pessoas que confiam em mim e no meu trabalho é imensurável. Agora, Yoga não é brinde! Yoga é um presente, uma dádiva, um ofertório... Nesse sentido, cobrar ou não cobrar, pagar ou não pagar, dependo do contexto e das necessidades de cada um. Namaste!

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Julia Matos

Postado em: 15 de Janeiro de 2009 às 17h20

É realmente deplorável a desvalorização de uma filosofia milenar, sendo a sua revolta absolutamente compreensível. Mas não acha que exagerou ao afirmar que a yoga deve ter um custo mais alto? A melhor experiência que já tive com a yoga foi de graça. Havia palestras e meditação e era possível sentir uma energia muito positiva no ambiente. Eram apenas pessoas com mais conhecimento na área passando suas experiencias pra que outras pudessem vivência-las também. Nada de professores bilingues ou coisa parecida. Tudo simples e autêntico.

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Marcio

Postado em: 21 de Outubro de 2008 às 12h01

Ola, como vai? gostaria muito de praticar yoga, mas os lugares que ja vi, e muito caro onde tem de graça os horarios nao batem. como posso fazer? espero que pessoas de bom coraçao possa me ajudar, pois e muito caro. atenciosamente Marcio...

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jane gomes figueiredo hefler

Postado em: 03 de Maio de 2008 às 18h26

Acho que como professores de YOGA no Ocidente devemos sempre estar atentos. No Brasil infelizmente se tem essa mania de transformar até a mais pura filosofia em fast food. Mas cabe a nós mudar isso, esse talvez seja nosso maior desafio. NAMASTE!

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Gisele de Carvalhosa

Postado em: 11 de Março de 2006 às 22h15

Concordo com esse artigo. Nós, Professores de Yoga, temos que viver o Yoga em todos os momentos de nossas vidas. Não podemos ensinar aquilo que não praticamos. O Yoga não pode ser algo meramente intelectual, como sabermos sobre escrituras e nomes difíceis. Tem que ser feito com a alma, tem que se ter o dom. E, o principal de tudo, o Professor tem que praticar a Meditação (Raja Yoga), pois essa é a finalidade do Hatha Yoga, preparar o corpo, os centros energéticos, nadis, deixar a coluna vertebral alinhada para que a energia vital flua com mais facilidade, e se tenha conforto na hora de meditar, e assim alcançar, com o tempo e a prática, a perfeita consciência e a Suprema Bem-aventurança.

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Leandro

Postado em: 20 de Novembro de 2005 às 10h31

Adorei esse texto. Ele consegue ser muito sério e ao mesmo tempo irônico. Parabéns.

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