Mudras, os gestos do Yoga
Lúcia Maria de Oliveira Nabão - 13 de Fevereiro de 2005 - 6 Comentários
Mudras são gestos realizados com a mente, as mãos, os pés, a boca, os olhos ou com o corpo todo. São muito usados no Yoga e nas danças indianas, pois fazem uma reverência a vários aspectos das divindades hindus e da natureza. Nas palavras de Caio Miranda (1962), os mudras, "encerrando um profundo simbolismo, têm por objetivo unificar dualidades, como por exemplo, unir a consciência individual à consciência cósmica, o prana solar ao prana lunar, a matéria ao espírito, etc". Tanto os yogues como as dançarinas hindus dedicam muitos anos aprimorando-se na prática dos mudras, que exige treinamento e concentração nos detalhes.
No contexto do Hatha Yoga, os mudras são elementos que dão suporte à prática. Outros componentes dos suportes do Yoga são: os bandhas ou contrações, os kryias ou técnicas de purificação interna, os mantras ou sons sagrados. No Gheranda Samhita, texto clássico do Hatha Yoga, encontramos que "o processo útil que colabora nas práticas de pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi (1) se denomina mudra" (Souto, 2002). Constatamos, assim, que os mudras estão ligados às principais técnicas utilizadas no Hatha Yoga, e em geral são praticados concomitantemente com elas.
Nos textos tântricos, que expõem um Yoga muito antigo, os mudras estão diretamente ligados aos rituais. Associados à entoação de sons e à visualização mental, simbolizando o corpo (mudra), a palavra (mantra) e o espírito (visualização), acontece a invocação da divindade que se deseja estar em comunhão (Kupfer, 2001).
Os mudras não são exclusivos da Índia. São encontrados em muitas tradições espirituais do oriente e do ocidente. Os budistas, os sufistas, islamitas e também os cristãos usam os mudras, como apoio para suas orações e práticas espirituais (Rammm-Bonwitt, 1997).
Vale ressaltar que o Hatha Yoga busca integrar as polaridades representadas por HA - energia expansiva, solar, coletiva, macrocósmica, e THA - energia receptiva, lunar, individual, introspectiva, microcósmica. É nessa integração que o praticante vive um estado de consciência além do eu, um estado transpessoal, integrado com o Universo, de criatividade e cura.
Os mudras são ligados ao fluxo das energias, tanto na mente como no campo energético, e fazem correspondência com o corpo físico, especialmente por meio do sistema endócrino e do sistema nervoso simpático e parassimpático. Para o físico indiano e estudioso do Yoga, Harbans Lal Arora (1999), "eles produzem efeitos fisiológicos e psíquicos benéficos, proporcionando a saúde psicossomática, o equilíbrio dinâmico e a harmonia interna".
A palavra sânscrita mudra deriva de duas raízes, mud e ra, tendo diversos significados. Pode ser traduzida por deleite, alegria ou prazer, pois ao conectar as correntes de energia solar e lunar nos canais e centros energéticos ou psíquicos do praticante, esse experimenta a consciência do prazer. Segundo Dr. Gharote (2000), "um comentário de Raghavabhata no Sarada Tilaka 23:106 explica (...) que mudra dá uma sensação de bem-estar e felicidade."
Outro significado para mudra é magia ou encanto, pois, como num passe de mágica ou num encantamento, um determinado gesto corporal conduz o indivíduo a um respectivo estado de mente calma ou feliz. Assim, os mudras são também chamados gestos de poder.
São conhecidos como selos (Feurerstein, 2001), pois, por meio do controle das energias vitais, selam o corpo e geram alegria. Os grandes sábios da Índia, há mais de 4000 anos, conhecendo profundamente a anatomia e a fisiologia energética do ser humano, e compreendendo a estreita relação entre o aparato energético e o psíquico, perceberam que poderiam produzir estados mentais específicos a partir da colocação do corpo, ou partes do corpo, numa determinada posição gestual. Os gestos, como selos, fixam na mente um estado particular e favorável ao praticante do Yoga.
Todos nós experimentamos o caráter arquetípico dos mudras quando, num determinado estado emocional ou numa situação específica, realizamos um gesto que qualquer outro ser humano, em qualquer parte do planeta e em qualquer outra época, também o faz. Por exemplo, quando juntamos as mãos em prece para orar, reverenciar ou em sinal de agradecimento. Ou quando abanamos a mão para cumprimentar uma pessoa, num encontro ou numa despedida. São gestos universais, que as pessoas fazem, em todas as partes, desde a antiguidade. Muitos gestos corporais estão no inconsciente coletivo, como diria o psicanalista suíço Carl Gustav Jung, ou, como dizem os orientais, estão no Akasha, o espaço cósmico, onde estão armazenados todos os conhecimentos da Humanidade, desde os primórdios (Miranda, 1962).
Um gesto freqüentemente usado no Hatha Yoga para dar suporte à concentração e à meditação é o jñana mudra, símbolo da sabedoria ou do conhecimento, em que a ponta do indicador e a ponta do polegar se unem e ou outros dedos permanecem estendidos. O polegar representa a alma universal, e o indicador, a alma individual, que se unem para facilitar o estado interior de integração. Assim como este, existe outros mudras, com um simbolismo próprio.
Concluindo, citamos a bailarina e pesquisadora dos mudras, Sabrina Mesko (2003), da Eslovênia, dizendo que "mudra é a senha de acesso aos dados do seu computador interior - seu poder invisível".
(1) Pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi são respectivamente respiração que controla a energia vital, recolhimento dos sentidos, concentração, meditação e auto-realização.
Bibliografia Consultada e Referência Bibliográfica:
Arora, H. L. A Ciência Moderna à Luz do Yoga Milenar. Nova Era, Rio de Janeiro, 1999.
Feuerstein, G. A Tradição do Yoga. Pensamento, São Paulo, 2001.
Gharote, M.L. Técnicas de Yoga. Phorte Editora, Guarulhos, 2000.
Gharote, M.L. Yoga Aplicada - da teoria à prática. Phorte Editora, Londrina, 1996.
Mesko, S. Mudras que Curam - Yoga para suas mãos. Pensamento, São Paulo, 2003.
Miranda, C. Hatha Yoga - a ciência da saúde perfeita. Ed. Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1962.
Radha, S.S. Hatha Yoga - the hildden language. Jaico Publishg House, Mumbai, Índia, 1996.
Ramm-Bonwitt, J. Mudras - as mãos como símbolo do cosmos. Pensamento, São Paulo, 1995.
Souto, A. El Yoga de la Purificación - Traducción y Comentario del Gheranda Samhita, Editora Lonavla Yoga Institute, Buenos Aires, 2002.
Souto, A. Uma Luz para o Hatha Yoga Transliteración, Tradccion e Comentário y Notas sobre el Hatha Pradipika, Editora Lonavla Yoga Institute, Bos Aires, 2000.
Yogendra, S. Hatha Yoga Pradipika - luz sobre o Hatha Yoga. Instituto Dharma, Florianópolis, 2002.
Visite o website da professora Lúcia Nabão em www.ganeshanet.com.br
Respostas:
Shankarnath
Postado em: 15 de Outubro de 2010 às 20h08
Sobre pronúncia do termo (não consegui responder diretamente ao tópico) Adesh, Isabel Figueiredo, a pronúncia depende da prática em questão. O termo translitera-se mudrA, sendo que este "A" maiúsculo representa um a alongado (pronuncia-se "aa" como em outras vogais que existem com alongamento diferenciando o a do aa, o i do ii e o u do uu). É comum confundir alongamento com tonicidade, mas uma coisa não tem a ver com a outra, a não ser nas regras de entoação da métrica usada pelos brahmanes para entoações rituais. Escreve-se sempre mudrA (algo como "mudra-á"), porém como no sanskrito o "a" é sempre aberto ("á", pelo menos eu nunca vi um "ã") a pronúncia depende de escutar os sons pessoalmente, visto que o devanagari não possui uma acentuação como a da Língua Portuguesa. A palavra mudrA, apesar de escrever sempre mudrA (mudrá-á) tem sua tonicidade alterada conforme o significado do termo: Caso 1) mudrA ( como oxítona, onde a tônica fica na sílaba "drA", pronunciando-se "mudrá" - com o respectivo alongamento no "a" ): significa alegria e é um termo usado para designar os hastamudra, que são os gestos de mão usados nos rituais para deixar a divindade "alegre", assim favorecendo o oficiante na obtenção de favores divinos, em seu mito. São gestos doadores de alegria. Estes gestos de mão não fazem parte do yoga em si, e sim das tradições tantrikas que o acercam. Caso 2) mudrA (como paroxítona, onde a tônica fica na sílaba "mu", pronunciando-se "múdraa"): significa selo e é o que nós nathas usamos dentro do hatha yoga, pois eles "removem o véu de percepção de si mesmo", já que são a técnica mais característica do "Hatha Yoga", visto que sua definição é quase a mesma do sistema Hatha Vidya (um processo de manipulação sensorial rumo ao despertar de uma sutilização crescente da PERCEPÇÃO até que aquele que percebe o mundo perceba Shiva dentro do seu corção e depois veja a si mesmo como Shiva. Onde o yogi, após perceber o mundo, "percebe" Aquilo que percebe - e paradoxalmente isso jamais pode ser percebido, pois é justamente o que percebe). Espero poder ter ajudado. OM namaH shivAya Monge Shankarnath Maharaj Natha Sampradaya
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Mario Russo
Postado em: 27 de Julho de 2010 às 11h26
Prezada Lúcia Maria,
Tenho uma dúvida com relação ao Chin (Jnana) Mudrá: às vezes vejo que os praticantes deixam as palmas voltadas para baixo e, outras vezes, para cima. Existe, portanto, alguma diferença significativa, em termos energético, entre essas duas formas de praticar o Mudrá.
Grato,
Mario Russo.
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Isabel Figueiredo
Postado em: 25 de Outubro de 2009 às 18h03
Oi Lucia Maria,
Seu artigo é bem esclarecedor sobre os gestos e seus propósitos!
Gostaria de saber a pronúncia correta da palavra: " Múdra" ou "Mudrá"?
Eu tive um professor que dizia que a pronuncia múdra é um palavrão na Índia.
Aguardo e agradeço,
Bel.
Bauru - SP.
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Bel querida,
Tudo bem? Saudades!
Então, quando, numa palavra sânscrita há um encontro consoantal, como é o caso desta, muD-Rá, acontece uma pequena parada na forma de pronunciar esse vocábulo.
Essa "paradinha" faz com que o U apareça "como se" fosse acentuado, mas sem ser.
O A final, sendo longo (dirgha), se pronuncia tambem "como se" fosse acentuado, mas não é.
A verdade é que em sânscrito, não existe acentuação com o sentido que nós damos a esse termo, mas apenas uma sucessão de vogais curtas e longas.
Então, sem conseguir aqui neste email lhe colocar um arquivo sonoro para ouvir a pronúncia, arriscaria lhe dizer que nenhuma das opções acima é correta: nem "Múdra", nem "Mudrá".
Aí, você pode pronunciar múd-ráa, fazendo uma breve e quase impercetível pausa entre o D e o R, e vai chegar perto da pronúncia correta. Será que deu para entender? ;)
Beijo para você e abraço para o Marco.
Harih Om!
Pedro.
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Camila Camilot
Postado em: 17 de Junho de 2009 às 00h07
Adorei este site vou recomendar aos amigos que praticam comigo o Yoga.
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Elisabete
Postado em: 28 de Março de 2008 às 14h57
Alguem poderia me indicar yoga em Guarulhos? Obrigada.
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Alessandro
Postado em: 08 de Janeiro de 2010 às 14h29
Olá Elisabete,
Tem a academia GTC em Guarulhos que tem aula de Yoga. É mais voltado para a parte fíica pois trata-se de uma academia, porém engloba bastante a parte da mente também.
Comecei a fazer esta semana e gostei muito.
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