Yoga Sutra e Ashtanga Yoga

Rosana Biondillo - 16 de Agosto de 2005 - 2 Comentários

Por volta do século III a.C. surgia o primeiro tratado filosófico dedicado exclusivamente ao Yoga: o Yoga Sutra. Seus 195 sutras, ou aforismos, foram compilados por Patañjali - sábio yogi indiano que, segundo algumas passagens, era também médico e gramático renomado. Há sobre ele uma espécie de invocação que diz:

"Inclino-me perante o mais nobre dos sábios, Patañjali, que trouxe a serenidade da mente, com sua obra sobre o yoga, clareza no falar, com sua obra gramatical, e pureza do corpo, com sua obra médica." (Iyengar, em A Luz da Ioga)

Os aforismos do Yoga Sutra estão distribuídos em quatro capítulos, entitulados pela ordem: Samadhi Pada (51 aforismos), Sadhana Pada (55 aforismos), Vibhuti Pada (55 aforismos) e Kaivalya Pada (34 aforismos). Algumas edições têm 196 sutras - fato este que não altera o sentido da obra de Patañjali.

Desde seu surgimento, o Yoga Sutra se constituiu como um texto dedicado especialmente ao Yoga, servindo como base para os estudos mais recentes e como um precioso manual de orientações para todos aqueles que praticam e pesquisam esta tradição de maneira séria e autêntica.

 

As causas do sofrimento

Nesse tratado, Patañjali escreve que:

"Tudo é sofrimento para o sábio." (II:15)

Embora, como bem constatou Mircea Eliade:

"Mas Patañjali não é nem o primeiro nem o último a constatar esse sofrimento universal. Bem antes dele, o Buddha proclamara: 'Tudo é dor, tudo é efêmero'. Está aí o motivo principal de toda a especulação indiana pós-upanishádica. As técnicas soteriológicas, assim como as doutrinas metafísicas, acham sua razão de ser nesse sofrimento universal, pois não possuem valor senão na medida em que libertam o homem da 'dor'. A experiência humana, de qualquer natureza que seja, engendra sofrimento." (em Yoga, Imortalidade e Liberdade)

Em termos gerais, a base que fundamenta a filosofia do Yoga descrita por Patañjali é a de que todo sofrimento humano advém da falta de conhecimento que temos de nossa natureza primordial. Isso equivale a dizer que somos "ignorantes" quanto à nossa verdadeira essência. Essa "ignorância" nada tem a ver com a falta de conhecimento intelectual. Não era a esse conceito que se referia Patañjali.

Esse tipo especial de ignorância, ao qual verdadeiramente se refere Patañjali, é chamado de avidya, e é considerada a causa matriz de todo o sofrimento humano - não nos lembramos quem somos de fato e, portanto, sofremos. Esse esquecimento cósmico mascara a verdadeira natureza humana, que é ser feliz, pois, para Patañjali, a felicidade é o estado natural e saudável da mente pura. E essa pura felicidade, explica-se, segundo Georg Feurstein, pelo fato que:

"Essa felicidade não é a simples ausência de dor ou desconforto, nem é um estado que depende do cérebro. Está além do prazer e da dor, que são estados do sistema nervoso." (em A Tradição do Yoga)

Patañjali denomina as causas da miséria e do sofrimento humanos de klesas - palavra sânscrita que significa dor, aflição ou miséria. O primeiro dos cinco klesas é avidya (ignorância), seguido por asmita (egoísmo), raga (apego), dvesa (aversão) e abhinivesa (algumas vezes traduzido como medo da morte, por vezes é melhor compreendido como o amor extremado à vida, ou à vontade compulsiva de viver).

Entre si, os klesas desenvolvem um processo seqüencial de causas e efeitos, onde uma ação leva a uma reação, e assim sucessivamente. Não são compartimentos ou estados estanques ou separados. Para Mircea Eliade, Patañjali descobriu nos klesas:

"(...) cinco 'matrizes' produtoras de estados psicomentais(...) Não se trata de cinco funções psíquicas separadas pois o organismo psíquico constitui um todo, mas seus comportamentos são múltiplos. Todas as classes de vritti são 'dolorosas' (klesa); por isso a experiência humana em sua totalidade é dolorosa". (em Yoga, Imortalidade e Liberdade)

O árduo trabalho do yogi é trabalhar e manipular as várias formas mentais e comportamentais assumidas pelos klesas (que constituem um fluxo psicomental ininterrupto) até conseguir sua total anulação. Essas incontáveis formas aprisionam o corpo e a mente dos seres humanos, transformando-os em escravos ao invés de senhores de sua própria vida. Eliade ressalta ainda que:

"Só o Yoga consegue suprimir os vritti e abolir o sofrimento."

Como já foi colocado, essa não é uma preocupação alimentada somente por Patañjali, pois no sexto capítulo do Bhagavad Gita, Krishna explica a Arjuna o significado do Yoga como:

"Uma libertação do contato com a dor e a tristeza."

Nesse sentido, o Yoga é um processo revolucionário de libertação de todos os condicionamentos humanos, admitindo que a realização da vida como uma programação universal de dor e sofrimento é condição sine qua non para que esse processo de efetiva libertação se concretize. Não há pessimismo aliado a essa concepção, mas há, sim, a constatação de que esse sofrimento universal tem intrinsicamente um valor positivo, estimulante e corajosamente revelador das potencialidades humanas adormecidas.

Em palavras bastante poéticas, mas carregadas de verdade e abalizadas por Patañjali, o Yoga é o caminho para a liberdade suprema.

 

Mas como alcançar a liberdade suprema?

O sutra número dois oferece a definição "Yoga é a parada dos turbilhões da mente". Em sânscrito "yogaschittavrittinirodhah". Em outras palavras, Yoga é a parada voluntária dos pensamentos. Isso se traduz, entre outras coisas aparentemente impossíveis de se alcançar, no controle da mente ao ponto de transcendê-la num estado chamado samadhi. Alcançar esse estado, para o qual não há uma descrição possível pelo uso das palavras, é a meta da proposta do sistema delineado por Patañjali, como o é para todos os demais sistemas de Yoga. Porém, para alcançar tal intento, Patãnjali esquematizou um grupo de técnicas divididas em oito (=asht) partes (=anga), chamado Ashtanga Yoga.

Cada uma dessas oito partes estão intimamente interrelacionadas entre si, bem como com a totalidade do processo. Não há como separá-las em compartimentos estanques, pois a parte anterior é sempre um pré-requisito para a posterior, que deve ser alcançada apenas depois da correta prática de sua antecessora. Portanto, não há como pular etapas, pois é a partir desse relacionamento contínuo que se vai consolidando a estrutura sólida necessária à prática do Yoga.

Os oito passos que compõem o sistema de Patañjali são:

1. Yama - Refreamentos, ou antídotos para os condicionamentos individuais e sociais. São eles: ahimsa (não-violência), satya (verdade), asteya (não roubar), brahmacharya (controle sobre os impulsos sexuais, não os transformando numa forma de compulsão) e aparigraha (renúncia à possessividade).

2. Niyama - Refinamento dos processos internos/interiores na forma de uma autopurificação. São eles: saucha (pureza do corpo e da mente), santosha (contentamento; também diante das adversidades), tapas (autodisciplina e dedicação), svadhyaya (estudo e aprofundamento dos textos sagrados do Yoga) e ishvara-pranidhana (práticas de conteúdo devocional).

3. Asana - São as posturas psicofísicas que conferem firmeza e estabilidade ao corpo e à mente. Segundo Patañjali, o asana deve ser confortável e estável para propiciar maior permanência durante a prática da meditação. Nesse sentido, o asana prepara o corpo e tranqüiliza a mente para os processos meditativos. Não são classificados como exercícios físicos, no sentido como estes são concebidos no Ocidente.

4. Pranayama - Controle e expansão da energia vital, conhecida como prana. Daí o nome pranayama = prana (energia vital) e ayama (controle, expansão). Para Patañjali, apenas o controle respiratório por si só não basta para se conseguir o sucesso nessa fase. Deve haver o controle das fases de inspiração (=puraka), expiração (=rechaka) e, especialmente, da retenção (=kumbhaka). Sem está ultima fase, não há samadhi.

Essas quatro primeiras fases podem ser consideradas como práticas externas ou preparatórias, pois sem elas não há como se obter êxito nas fases seguintes. As quatro últimas fases trabalham com o mundo interno do praticante e gradualmente o conduzem à meditação. São elas:

5. Pratyahara - Libertação da mente do jugo dos sentidos e das formas externas, traduzindo-se numa forma de controle destes. É algo parecido com escutar sem ouvir, olhar sem ver, sentir sem tocar. Os sentidos não são mais a forma principal de avaliação e percepção do mundo, especialmente do chamado mundo interior. Pratyahara induz a um estado de relaxamento profundo e consciente, preparatório para a meditação.

6. Dharana - Atenção extrema, ou concentração, que pode ter como apoio um objeto para observação. Por exemplo, um símbolo, uma deidade ou um som específico. Em dharana, a atenção deve atingir sua mais elevada graduação.

7. Dhyana - Concentração extrema, ou meditação. Quando, em dharana, a atenção chega a seu ápice, transforma-se em concentração extrema, ou dhyana - que é uma forma de meditação. Nesse momento, o objeto de observação e o observador se fundem em pura consciência, tornando-se um só.

8. Samadhi - Iluminação ou a manutenção desse estado de pura consciência por determinado período e com suspensão da respiração, ou kumbhaka. Nesse estado, vai-se além do corpo, da mente e da própria consciência. Segundo os grandes mestres de Yoga de todos os tempos, não há como descrevê-lo. Deve-se experimentá-lo, vivenciá-lo.

Ao conjunto de dharana, dhyana e samadhi, Patañjali denominou samyama.

 

Estado de Samadhi

É o nome do poema escrito por Swami Sivananda que, com certeza, irá inspirar e motivar todos os sinceros praticantes de Yoga:

"Oh! Que alegria! Que Bem-aventurança!

Todos os desejos estão agora realizados

Todas as coisas foram alcançadas

Eu sou Imortal, eterno,

Eu sou a Consciência Eterna

Eu sou o Grande e o Sublime

Tudo é simplesmente Moksha

Apenas Moksha está em toda parte

Isso é para ser conhecido

E experimentado por cada um.

O ego agora se dissolveu

O Vasanas foi queimado

No fogo da sabedoria

Há Manonasa

Ou aniquilamento da mente

Todas as distinções desapareceram

Todas as diferenças sumiram

Não há nem 'eu' nem 'você'

Em verdade, tudo é Brahma

Esta é uma Bem-aventurança homogênea

Essa experiência total é inefável

Faltam palavras para descrever esse estado

Sinta-o você mesmo em Samadhi."


Rosana Biondillo é professora, fundadora do Shanti Yoga Studio - Centro de Estudos em Yoga, localizado em Guarulhos, SP, e autora de artigos para portais, jornais e revistas.

© 2005 por Rosana Biondillo. Todos os direitos reservados.
Proibida reprodução sem autorização da autora.

Visite o site da Rosana em www.yoga.hpgvip.com.br

Respostas:

Sueli Ruis Fazano

Postado em: 18 de Novembro de 2009 às 00h35

Esse conhecimento me trouxe um alinhamento com o meu Eu. Sou conhecedora apenas através dos ensinamentos do meu guru interno Tinaka, e dos ensinamentos de Hermógenes. Obtive através da meditação algumas saidas do meu corpo físico, me alinhei a uma encarnação passada na qual eu vivia na India, obtive tambem uma época, eu ficava sem respirar e isso me dava pânico. Muito obrigada a todos que veem me ajudando no processo de aprendizado,o qual ainda sou ignorante.

Responder esse comentário

Miguel F. Linhares

Postado em: 17 de Dezembro de 2006 às 12h46

Esse texto é uma verdadeira aula de Yoga, por ser um resumo muito completo. Gostaria de agradecer, porque me ajudou bastante a compreender alguns tópicos fundamentais do Ashtanga Yoga. Meu muito obrigado. Namaste!

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