Ir à Índia? Para que?
Pedro Kupfer - 14 de Fevereiro de 2006 - 2 Comentários
Este texto é a continuação do artigo 'Dicas de viagem à Índia', disponível para o distinto internauta em http://www.yoga.pro.br/artigos/511/3017/novas-dicas-de-viagem-para-a-India. Embora o assunto seja o mesmo, dar mais algumas dicas sobre a viagem, optamos por fazer um artigo diferente, já que a reflexão sobre os motivos que possam nos levar à Índia merece um espaço separado.Pode continuar a leitura com este outro texto, se quiser: http://www.yoga.pro.br/artigos/439/1/memorias-de-rishikesh
É muito conveniente, face ao desejo ou à vontade de visitar terras indianas, refletir sobre as seguintes questões:
O que eu quero fazer lá?
Qual é o propósito da minha viagem?
Como vou realizar esse propósito?
Sem alguma resposta objetiva e prática a essas três perguntas, a sua viagem corre o risco de se tornar um naufrágio em todos os sentidos.
Já vimos gente indo para a Índia sem ter feito o planejamento adequado, o que inclui necessariamente ter conseguido responder estas perguntas antes de subir no avião. O que acontece geralmente com estas pessoas, é que elas ficam tremendamente frustradas, sem compreender a profundidade da cultura nem a visão indiana da existência, simplesmente porque visitaram os lugares errados e se encontraram com as pessoas erradas.
Provavelmente, você não irá achar Yoga genuíno em lugares turísticos como Goa, Agra, Hampi ou Shimla. Esses são lugares interessantes para se visitar se você tiver interesse no que tem lá para ser visto ou experienciado. Em Goa, por exemplo, tem muitas festas regadas a música techno e drogas pesadas. Em Agra, um belo monumento cheio de turistas e abutres (em ambos os sentidos). Em Hampi tem ruínas de templos antigos, muita maconha e escalada em rocha. Em Shimla, alguns prédios da época da colônia inglesa e neve no inverno. Uma viagem de Yoga não precisa incluir esse tipo de destino. Provavelmente, o tipo de pessoa que você encontrará em lugares como esses não terá sempre como propósito primordial a busca pelo auto-conhecimento.
Você não tem direito algum de voltar da Índia dizendo 'lá o Yoga morreu' ou 'o Yoga da Índia é totalmente comercial' se visitar apenas lugares como esses. Simplesmente, porque o Yoga verdadeiro nem sempre se encontra nesse tipo de local. Seria, salvando as distâncias, como visitar a Espanha numa peregrinação religiosa e, ao invés de fazer o Caminho de Santiago, ficar somente nas praias do sul ou nos bares de Barcelona, e ainda, voltar dizendo que o misticismo cristão morreu na Espanha.
Portanto, o bom planejamento de uma visita à Índia com o propósito de aprender Yoga, precisa incluir os destinos apropriados. Esses destinos devem estar em função do tipo de Yoga que você gostaria de aprender ou aperfeiçoar. Se o peregrino não encontra o que foi buscar em sua jornada, o problema é do peregrino, e não do país que ele visitou.
Já recebi vários emails neste tom: 'Vou à Índia para mergulhar no Yoga. Você tem alguma dica para me dar? Para onde devo ir? Estou indo sem expectativas.'
Ora, este tipo de pergunta é impossível de se responder objetivamente, considerando a vastidão que o Yoga é em termos de abordagens, pontos de vista e práticas, e considerando que cada pessoa, a cada fase da própria vida, deve encontrar o método mais adequado e eficiente.
Se você estiver buscando Hatha Yoga, planeje com antecedência a visita a uma escola bem estabelecida. Anuncie-se com tempo, avise que está indo, dê uma referência pessoal ou uma indicação de alguém, se isso for possível, para facilitar o contato.
Se o Bhakti Yoga for sua praia, e você gostar do vaishnavismo, não pode deixar de visitar lugares com Mathura, Vrindavan ou Sri Rangapatnam. Se você for devoto de Shiva, viaje em julho ou setembro e suba as montanhas do Himalaya, em direção a Kedarnath e Gangotri. Se você gostar de Ganesha, visite os inúmeros templos do Maharastra. Se você gostar de Devi, vá para a Bengala e para o Tamil Nadu.
Se o que você quiser é Jñana Yoga, procure as escolas sérias, como o Dayananda Ashram em Coimbatore, Nagpur ou Rishikesh, a Chinmayananda Mission ou a Ramakrishna Mission, que têm sedes em várias cidades indianas.
Se quiser conhecer o trabalho dos continuadores de Sri Shankaracharya, visite os quatro mathas, que ficam nos quatro cantos da Índia: Uttarkashi, Sringeri, Kanchi e Dwaraka.
Se você quiser estudar Nada Yoga, o Yoga do Som, busque a Grahana da sua preferência e encomende a construção do seu instrumento musical, se for o caso, com um construtor bom, ao invés de comprar instrumentos já prontos.
Se você quiser fazer uma formação formal em Yoga, escolha uma dentre as várias opções que oferecem esses treinamentos, em cursos intensivos com diferentes durações, geralmente entre um e seis meses. Os mais sérios e confiáveis são os do Sivananda Ashram, em Rishikesh, os da Bihar School of Yoga em Monghyr, os do Sivananda Yoga Vedanta, em Trivandrum, ou os do Vivekananda Yoga Kendra, em Bangalore. Todas essas instituições oferecem cursos regulares que acontecem algumas vezes por ano. É preciso se inscrever com bastante antecedência.
Sobre a formação, é conveniente esclarecer que, na Índia, ainda existem pessoas que se dispõem a 'formar' você individualmente, ensinando tudo o que um bom professor precisa saber, mas fora do contexto de uma formação formal. Esse tipo de professor não irá lhe entregar um certificado de conclusão de curso, e provavelmente irá rir se você pedir um documento desse tipo, como já aconteceu com várias pessoas.
Aqueles que tiveram a chance de estudar nessas condições, retornam da viagem com uma bagagem tão boa quanto à dos que passaram por uma formação formal. Portanto, ambas as opções (formação formal ou aprendizado sob a tutela de um yogi por um longo período) são muito boas.
Obviamente, a lista de opções não se esgota por aqui. Para o marinheiro de primeira viagem, a dica mais valiosa é seguir o conselho de pessoas que já tenham visitado a Índia e possam nos recomendar cursos ou aulas do estilo que nós estejamos praticando ou desejando conhecer. Esses conselhos de primeira mão de outros peregrinos yogis são mais preciosos que qualquer guia ou lista de dicas.
Porém, mesmo se você optar por viajar sem planejamento algum, lembre que nem tudo o que brilha é ouro. Nem todas as pessoas que usam turbante são santas, nem todos os que usam roupas cor de açafrão são yogis, nem todas as pessoas que se aproximarão de você o farão com boas intenções. Use sempre seu bom-senso e confie na sua intuição!
Encontros com yogis verdadeiros ou pessoas muito especiais podem acontecer nas circunstâncias e nos lugares mais inusitados, e ser profundamente transformadores. Em toda viagem, especialmente para a Índia, existe uma amplia margem para o imponderável. Isso significa que nem sempre irá acontecer o que nós planejamos, e que isso será bom, até mesmo se nós não compreendermos o porque das mudanças.
Mantendo o foco na busca do Yoga, e sabendo para onde e porque estamos indo para onde vamos, a jornada indiana tornar-se-á muito mais significativa, produtiva e realizadora. Então, uma vez que você tiver resolvido essas questões, cabe sim, nos despedir dizendo: 'Boa jornada! Aproveite bastante sua estadia na Terra do Yoga!'
Respostas:
Gustavo Cunha
Postado em: 31 de Maio de 2008 às 05h45
Os textos do Pedro sobre a viagem à Índia foram os meus guias para preparar a minha incursão num camp de Vedanta com Swami Dayananda, no seu ashram, em Coimbatore, Tamil Nadu. Posso dizer que tomei todas as medidas necessárias menos uma - não levei a medicação devida. Fiz a vacina da hepatite A e B, febre tifóide, a do tétano estava em dia, tomei os comprimidos para malária/paludismo (que, por acaso, não provocaram efeitos secundários nenhuns) e, por sugestão do Miguel Homem, fui tomando Acidophilus o que ajudou a prevenir diarreias, pois as comidas são muito picantes. Para além disso, levei repelente de insectos e um anti histamínico. Faltou mesmo foi levar a medicação que eu, por decisão própria, parei de tomar. Acontece que tive necessidade de tomar essa medicação e assim tive de recorrer a um hospital privado para ser atendido. O serviço foi excelente e passados uns dias fui transferido para o hospital do ashram e tudo correu bem. De resto, as pessoas são muito amistosas, ensinaram-me algumas palavras em tamil, e no ashram vive-se Yoga a todo o momento. Sinto que renasci na Índia e voltei cheio de energia para desfazer os nós do coração e transmitir esses ensinamentos a quem desejar. Obrigado, Pedro, por desbravares o caminho que agora trilho. Se quiserem ver fotos do ashram e de Anaikatti/Coimbatore acedam ao site www.flickr.com/photos/gustavorudra. Harihi Om!
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Hercílio Morais Silvaigite
Postado em: 28 de Setembro de 2007 às 14h39
Para quem vai visitar a Índia, apesar de nunca tê-lo feito, vale ressaltar que conhecer algo relacionado à Paramahansa Yogananda e aos lugares em que sua organização Satsanga Society of India está estabelecida é muito importante. Saber do passado de mestres como Lahiry Mahasaya, Sri Swami Yukteswar e Babaji e seus ensinamentos é muito recomendável para o verdadeiro buscador.
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