Não use o Om do Bill Gates!

Pedro Kupfer - 16 de Setembro de 2006 - 44 Comentários

Faz alguns anos já, a Microsoft, indústria gigante de software, disponibilizou uma imagem do sagrado Om hindu, dentro do sistema operacional mais largamente usado no mundo, conhecido entre alguns dos seus usuários como "Ruindows". O resultado foi a disseminação massiva e instantânea do Om entre os usuários de computadores pessoais.

Pessoalmente, desde o início achamos as linhas daquele desenho desproporcionais, carentes de força e harmonia. Porém, até aí, tudo bem. Como diziam os romanos, "gosto não se discute: se lamenta". O detalhe, que irritou muita gente e mobilizou até mesmo algumas organizações hindus na Índia e nos Estados Unidos em protesto, é que o Om de Mr. Gates é mal-traçado.

Temos visto esse Om apócrifo em roupas, cartazes, livros, e até mesmo tatuagens, quase onipresente na própria Índia. Ao que parece, ele se tornou o padrão universal, a maneira mais conhecida de se traçar o mantra sagrado.

Desde as primeiras Upanishads, antiqüíssimos textos de Yoga do III milênio antes de Cristo, o Om é considerado Shabda Brahman, o "Corpo Sonoro de Brahman". Brahman é a Consciência Universal, O Absoluto, que tudo permeia, que está vivo e presente em todas as criaturas vivas e objetos inanimados, que se manifesta através da lei do karma, o princípio de causalidade, e as demais leis naturais, e que mantém o mundo coeso através do dharma, a justiça universal.

Em se tratando de algo tão sagrado, os sábios ensinaram a maneira correta de se traçar este yantra (símbolo) no alfabeto devanagari. Essa maneira, assim como a maneira correta de se pronunciar o mantra sagrado, de respirar entre as repetições e de meditar sobre seu significado, obedece a certas regras que não foram respeitadas pelo "artista" que cometeu esse traçado.

Olhando nessa perspectiva para esta versão do nosso amado símbolo, podemos afirmar que o Om do Bill Gates está para Shabda Brahman assim como o as bandas militares estão para a música. Ou seja, não tem nada a ver!

Se o amigo internauta estiver precisando utilizar um Om, sugerimos que evite usar esse. Ele é mal traçado, tendo o círculo à direita feito em sentido anti-horário, o que vá contra as normas de se traçar corretamente este yantra. Para se fazer corretamente o Om, devemos sempre fazer movimentos em sentido horário com a mão que desenha (até mesmo se estivermos usando o mouse de um computador).

Eis aqui alguns exemplos da força contida nas linhas do Om autêntico.

 

Tendo imagens tão belas feitas por artistas da Índia, porque usarmos essa coisa feia, feita por um milionário americano para ficar ainda mais rico? Diga não ao Om do Bill Gates!

Resposta do autor a alguns comentários postados recentemente:

Este autor pede desculpas à pessoas que sentiram este texto ofensivo, tendencioso e arrogante. Acontece que, na percepção do autor, que vive segundo os preceitos hindus, a disseminação do Om traçado ao contrário pode parecer tão ofensiva para um hindu quanto poderia parecer ofensiva para um cristão a imagem de um crucifixo de cabeça para baixo.

Se a Microsoft tivesse veiculado uma imagem da cruz ao contrário, ao invés deste Om traçado em sentido anti-horário, temos certeza de que diversas organizações cristãs iriam protestar. Portanto, na nossa modesta opinião, neste caso, a forma correta é sim bastante importante, assim como é importante a pronúncia correta e a respiração correta durante o mantra. Da mesma maneira, é importante fazermos os ásanas de maneira a não nos lesionar na prática, pelo que podemos dizer que existe uma forma correta de praticar para cada corpo, e uma forma inadequada, que pode lesionar o praticante, não é mesmo?

Por outro lado, a intenção deste autor escrevendo o artigo é alertar a família dos yogis para um dos efeitos deletérios da globalização. Como admirador da cultura indiana e viajante que visita regularmente a Índia desde 1987, fico muito preocupado quando vejo que, onde antes havia dúzias de bebidas locais, feitas com os as frutas sazonais da terra, hoje há apenas Coca-Cola. Onde antes viam-se belíssimos chapéus regionais, de lã e algodão bordados, hoje há apenas bonés de beisbol da Nike. Onde antes viam-se traçados belos e únicos do yantra sagrado Om, hoje vemos somente o Om de Mr. Gates. Pode chamar isso de preconceito, se o leitor quiser.

Porém, gostaria de frisar que a intenção do texto é levar uma reflexão para essa espécie de rolo compressor que é a colonização cultural, que nivela por baixo todas as manifestações e suprime muitas das mais belas e diferentes. Peço desculpas aos leitores se não consegui expressar isso de uma maneira mais clara, mas saiu desse jeito, como um vômito contra a parte ruim da globalização. Namastê!

Respostas:

Fabio

Postado em: 24 de Janeiro de 2012 às 12h32

Olá, Pedro! Eu não entendi muito bem. Dentre os símbolos apresentados como corretos há um, o da segunda linha, na extrema esquerda de quem vê a tela, que parece, ao menos parcialmente, feito em sentido anti-horário. Refiro-me àquele "til" sobre o que parece um trinta (agora deve estar todo mundo rindo do analfabeto em sânscrito aqui! Não que eu me importe!) Por que esse "til" pode ser traçado em sentido anti-horário, diferentemente (eu não sou analfabeto em português, viu? Uso os advérbios muito bem!) dos outros? Você pode explicar? Forte abraço!

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Jacque

Postado em: 10 de Janeiro de 2012 às 15h10

Estou confusa...o primeiro la em cima está errado?O único que me pareceu errado é esse último com a tarja.Aguardo resposta,penso em tatuar e a ultima coisa que quero é tatuar algo errado. Namaste.

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Gabriela

Postado em: 03 de Janeiro de 2012 às 18h12

Oi Pedro, com todo o respeito... Pelo que eu conheço do traçado de Om, o primeiro lá em cima está errado. Na área em que vc colocou exemplo de traçados corretos, existe um errado, o envolto por um sol. O que está com a tarja de proibido me parece correto, apesar do traçado ter um design moderno. enfim, acredito que cada um tem o direito de se identificar com o Om que bem entender. Um conselho soaria melhor. Namastê

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Lilian Pereira

Postado em: 01 de Novembro de 2011 às 17h56

Pra quem questionou a comparação com a cruz invertida.... Se vc observar bem o simbolo do OM tbm ficou invertido..... Os simbolos são importantes para tds religioes, assim como as palavras.... Se fosse o crufixo seria uma profanação... E quanto ao simbolo do OM?

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marcos

Postado em: 26 de Outubro de 2011 às 22h08

A que considerar a possibilidade de O mister Gates e seu staf juridico , como bom americano judeu que é, se precaverem de uma eventual demanda de direitos autorais ao copiarem o yantra do sagrado OM com alguma diferenciação. Vejo seu ato como muito positivo no sentido de propagar tal simbolo aos intusiastas da TI , contribuindo assim para o conhecimento da relativa verdade que existe entre um e outros conceitos de existencia e realidade, coexistindo com a virtual, Namastê

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Pandit

Postado em: 24 de Outubro de 2011 às 16h55

É muito importante o esclarecimento, mas a forma de traçar o OM não é suposto ser iniciática, transmitida secretamente de Mestre a discípulo pelo parampará e não propriamente ser exposta assim num site?

======

Os supostos proprietários do Yoga podem até alegar isso que você está colocando aqui, Pandit, mas isso é apenas uma reserva de mercado, se você me entende. Dizer isso é igual a dizer que o mantra para meditação deve ser secreto. Os camaradas que dizer isso ou exigem algum juramento no sentido de não revelar a técnica estão, na verdade, criando um monopólio.

Namaste!

Pedro Kupfer.

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Marcela

Postado em: 04 de Agosto de 2011 às 18h14

Achei o comentário um pouco raivoso demais já que o Om dessa figura não está DE PONTA CABEÇA? Está? Desculpe mas não podemos entrar nessa coisa xiita... Sempre recomendo estes artigos para meus alunos pela seriedade e bom senso com que todas as matérias são colocadas, sou leitora desse sítio mas me pareceu exagerado... Que todos tenham paz e sejam felizes!

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Alexandre

Postado em: 21 de Dezembro de 2011 às 13h45

Achei corretíssimo o texto, alem do que já foi dito, no oriente assim como no ocidente nas tradições esotéricas, círculos a direita denotam a energia positiva e a esquerda negativa. um exemplo simples disso comum é a suástica usada pelo nazismo, na Índia milenarmente a súastica sempre foi usada expressando movimento a direita porem os nazistas á usavam a esquerda intencionalmente.Outra coisa que não entendo é como pode existir escola de Yôga que não crê em um Deus se a própria palavra expressa essa união, se são ateus por que usam o ÔM já que ele representa Braman (Deus ) ? Todas as escolas de Yôga são caminho diferentes pra se chegar ao mesmo lugar, Braman. Se existe alguma escola que não busca isso ela pode ser tudo menos uma coisa YÔGA.Seria o mesmo que alguem se dizer cristão mas não crê em Jesus, " ora eu faço todas as praticas e rituais cristãos mas nesse tal de jesus eu não acredito !" estranho .

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Roberta

Postado em: 22 de Março de 2011 às 09h13

Parabéns por esclarecer o caminho de muitos!Namastê! Um abraço

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