Os yogis não somos geladeiras!

Pedro Kupfer - 12 de Novembro de 2006 - 2 Comentários

Já ouvi várias vezes esta pergunta: 'é verdade que quando o praticante entra no estado de Yoga ele se torna uma pessoa mais fria, indiferente às coisas do mundo, ao afeto ou aos problemas dos demais?' A resposta é um categórico não!

É bom lembrarmos que o Yoga não suprime nem reprime percepções, pensamentos ou sentimentos. Através da 'sattvificação' do psiquismo, i.e., tornando cada vez mais puros pensamentos e sentimentos, o yogi torna-se capaz de incorporar uma vida afetiva mais rica e profunda, na qual ele não sofre mais por conta das aflições nascidas da ignorância.

Nessa nova afetividade assim construída, ele integra todos os aspectos práticos em relação às pessoas e ao mundo ao invés de negá-los, uma vez que passa a perceber a totalidade das manifestações da natureza (Prakriti), bem como a si mesmo, como partes do mesmo corpo da Existência Única.

O cultivo de sentimentos como a alegria, a compaixão, a amizade e a neutralidade, propostos por Patañjali no aforismo I:33 do Yoga Sutra, é uma parte indispensável da jornada do yogi em direção ao auto-conhecimento e ao aprofundamento nos níveis mais sutis da prática. Isso implica que atitudes indesejáveis como egoísmo, indiferença e frieza, já foram descartados ao longo do caminho.

Então, não há repressão, mas reconciliação em relacão às próprias atitudes e karmas passados. Isso, por sua vez, produz um estado de cura das emoções, crescimento, transmutação do psiquismo e construção de um novo senso de ser, que torna o yogi um ritambhara, 'aquele que leva a verdade em si mesmo'.

Ou seja, o discernimento que o yogi conquista acerca de si próprio e do mundo faz com que veja a sucessão de acontecimentos da sua vida em perfeita harmonia com o todo e com as leis naturais. Portanto, esses acontecimentos não lhe suscitam reações, mas apenas a escolha consciente das suas reações às diferentes situações.

Respostas:

Andressa

Postado em: 17 de Novembro de 2006 às 15h28

Pedro! Comentar o que?! Você disse tudo! E é com grande admiração, e profundo respeito, que venho aqui te elogiar e elogiar o teu serviço, o teu caminho! Passei por uma situação parecida, há pouco tempo atrás, com pessoas que "nos" acham frios... bom, cada um tem direito de achar o que quiser, não é mesmo?! Grata pela contribuição, sua e da Ângela! Abraço do pessoal aqui do Yogabhumi, de Joinville (Andressa, Mickaela e Rafael) Namaste! Namo Namah Om!

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Teresa Mota

Postado em: 14 de Novembro de 2006 às 09h43

Obrigada, Pedro, por seres tão claro nas tuas exposições, que criam-me uma sensação de tanto conforto, que aproveito para refletir. Conversando com os meus alunos sobre o papel do observador, surge um comentário: mas, se me observo, perco a espontaneidade, e isso eu não quero. A resposta que me surge é a seguinte: numa primeira fase, tudo nos parece estranho até se dar a interiorização, onde tudo passa a acontecer de forma natural e a espontaneidade regressa. Ocorre-me a voz do poeta Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se" Namaste.

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