Resenha do livro Caminho de Fogo e Luz, volume 2
Rodrigo Gomes Ferreira - 27 de Janeiro de 2007 - 1 Comentário

Este livro é o segundo volume do outro, com o mesmo nome, que foi resenhado na edição 2 dos Cadernos de Yoga, portanto peço que recorra àquele texto caso queira saber mais sobre o Swami Rama e o Himalayan Institute.
O conteúdo deste volume 2 é aquele de um curso avançado ministrado pelo Swami Rama no Himalayan Institute, em 1987, e tem a intenção de complementar o volume 1. Não é uma transcrição direta das palestras, mas possui uma escrita bem marcada pela oralidade. Apresenta mais assuntos filosóficos, cotidianos e mentais do que o primeiro volume, que se foca bastante em pr???y?ma. São doze capítulos praticamente independentes uns dos outros. O primeiro aborda filosofia de vida. Nele o autor enfatiza o fato de sermos os grandes responsáveis pela nossa prática; colhemos o que plantamos. Ele coloca que a principal causa do sofrimento não vem do 'céu', mas de nós, com nossas ações. Critica a devoção piegas, contudo diz que só podemos usar a mente até certo ponto e que estudar apenas reúne informações. Swami Rama afirma que não podemos controlar a mente, apenas direcioná-la; e evitar o seu uso também não ajuda. Precisamos entender pontos-chave, como a morte, o nascimento, o rumo da vida e a lei do karma, para nos iluminarmos em vida. Isso não significa deixarmos de fazer coisas normais como conversar ou comer. Devemos apenas estar no momento presente e saberemos do nosso futuro, pois tudo acontece dentro de nós antes de se materializar.
No segundo capítulo, o autor continua filosofando sobre a vida, mais especificamente sobre o seu fim (ou recomeço): a morte. O medo da morte deve ser analisado, pois é o que causa dor, e não a morte em si. Swami Rama afirma que não podemos viver eternamente, e devemos nos preparar para a morte para que ela não tenha efeito sobre nós, pois não passa de uma extensão e expansão do sono e um hábito do corpo.
A transformação de padrões de pensamentos negativos é o assunto do terceiro capítulo. Com vários exemplos, o autor dá o recado: treine sua mente para abandonar padrões que só o atrapalham, ou, melhor dizendo, pare de se absorver no mundo sensorial. Para tanto, Swami Rama sugere termos um forte desejo de iluminação como forma de não se desapontar1. Acho que esta tática ? a de desejar a iluminação ? deve ser encarada com cautela para que não vire só mais uma ratoeira, porém com um queijo mais 'nobre'. No entanto, mesmo como um desejo, pode ser encarado como uma técnica em determinado estágio da prática para tirar um praticante de um estado muito tamásico ou rajásico, visto que abandonar o desejo de transcendência é algo bastante avançado2. Há uma reflexão sobre isto na A?avakra G?t?3, que ilustra de várias maneiras exatamente esta possível pegadinha: não deseje nada, nem mesmo se iluminar, pois dá no mesmo problema. Agora, se o autor aqui quis colocar uma referência a mumukutva, a vontade de transcendência, que não é um desejo (k?ma), já é outra coisa4. Mesmo assim, fica aqui um convite para você refletir sobre a natureza de seu ímpeto pela transcendência.
No quarto capítulo, o autor fala da compreensão sobre a mente como um ponto importante na prática, mais especificamente, sobre a noção dos diferentes estados de consciência (vigília, sonho, sono profundo e transcendência). Segundo Swami Rama, tudo começa com o trabalho no estado 'vigília', no qual podemos aprender a coordenar os sentidos e estabelecer uma função coordenada com o mundo externo. Aqui ele mostra que podemos conjugar perfeitamente a vida espiritual com uma vida em sociedade, pois tudo pode ser usado para a prática. Esta idéia é, por sinal, um ponto forte nos ensinamentos do Swami Rama, bem como o fato de não irmos contra nossas tendências naturais de personalidade nas escolhas do s?dhana. O outro grande ponto abordado nesta parte é a importância de analisarmos mais nossos sonhos e, segundo o autor, não depois que acordamos, mas permanecendo conscientes durante os mesmos. Ele também acha que é um mito o fato de que devemos dormir 8 horas por dia; uma perda de tempo, e podemos diminuir esta quantidade aprendendo a aproveitar melhor o tempo usado durante nosso descanço.
Os relacionamentos amorosos são o foco do capítulo seguinte, mantendo-se a linha da perfeita possibilidade de usar isto como parte da prática espiritual. Afora as mesmas máximas citadas anteriormente, só que agora contextualizadas para os relacionamentos em si ? não criar expectativas, falar a verdade, a não-violência etc. -, Swami Rama toca em alguns temas interessantes sobre as influências da vida a dois na caminhada espiritual individual, principalmente quando os dois são praticantes. Ele fala sobre a possibilidade do desenvolvimento do amor, passando do nível físico para o mental e para o espiritual, como uma prática de ahi?s?, e também do fortalecimento de um relacionamento sólido como base para práticas avançadas. Devemos estar abertos para dar liberdade para nossos parceiros e, por exemplo, não puxá-los para a nossa prática.
Nos capítulos 6 e 7, o autor aborda alguns passos para iniciar-se uma autotransformação. O primeiro é sentar para meditar todos os dias no mesmo horário para desenvolver novos hábitos na mente. Segundo, desenvolver um diálogo mental interno consigo mesmo - este ponto é ilustrado de maneira bem humorada, com várias situações simples. O terceiro passo é estabelecer uma postura de meditação firme, sendo recomendado o siddh?sana. O próximo passo é o estabelecimento de uma respiração serena, com pr???y?ma. Aqui há uma certa contradição com o volume 1, pois Swami Rama não recomenda os exercícios de troca das narinas predominantes na respiração, recomendados por ele mesmo no livro anterior.
O poder da determinação e da vontade é tratado no capítulo 8 e é o quinto passo, chamado de sa?kalpa akt?. Aqui o autor aborda a 'briga' que a mente faz no decorrer da prática, que é algo que precisamos enfrentar. Os nossos pensamentos são um mundo dentro de nós e podemos tratá-los como pessoas, ou seja, aprender a deixá-los irem embora ? este é o sexto passo. Os últimos dois são: desenvolvermos a introspecção e desenvolvermos a capacidade de 'testemunharmos' nossos pensamentos.
Seguindo mais um capítulo, o assunto é a ciência do som, que é chamada de sv?rod?ya. Nesta parte do livro, há muita referência à prática com mantras. Ele comenta que você perceberá o bons efeitos desta prática quando sua mente consciente falhar e você puder ver o inconsciente já marcado pelo mantra. Para se ter uma marca forte, o autor recomenda o uso de apenas um mantra, e salienta a importância da prática no plano sonoro, ou seja, o som também tem sua função.
Os dois capítulos seguintes referen-se a kudalini, os chakras e os exercícios. Apesar de fazer uma descrição detalhada dos sete chakras principais, Swami Rama diz que isso é só para entendermos algumas coisas que possam vir à tona quando meditamos e para não ficarmos confusos, pois as informações nunca têm fim. Um dos exercícios descritos é o yoganidra, que serve para aprendermos o que ordinariamente não podemos no estado acordado. Outros dois exercícios, os dos 61 pontos e ?thali kara?a, são para o relaxamento e basicamente feitos com a rotação da consciência com focos em partes do corpo físico. O outro exercício é agnis?ra, que consiste em fazer movimentos específicos de contração e relaxamento do baixo abdômen como forma de gerar calor e energia solar.
O livro termina com um apanhado geral dos capítulos. Este volume não possui um índice remissivo como o primeiro, mas apresenta igualmente uma pequena biografia do Swami Rama, informações sobre o Himalayan Institute e um glossário dos termos em sânscrito ? com vários termos diferentes do primeiro volume. É um livro de leitura fácil e que apresenta uma visão do Yoga bem conjugada com a vida dos que optam pela prática 'no mundo'. Mesmo tendo um conteúdo, às vezes, repetitivo e um pouco desorganizado ? talvez pelo fato de ser basicamente uma transcrição de palestras em diferentes momentos ?, acho que vale a pena lê-lo, principalmente pela riqueza técnica do 'dia-a-dia como Yoga'.
Rodrigo trabalha com os Cadernos de Yoga.
Essa sua resenha foi originalmente publicada nas páginas 121 a 123 da edição nº 04, do Primavera de 2004, dos Cadernos de Yoga.
Respostas:
Maria Augusta Baptista
Postado em: 19 de Março de 2007 às 21h32
Gostaria de parabenizar esta excelente resenha feita por Rodrigo Gomes Ferreira. O texto é claro e objetivo, achei muito bom!
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