Do vegetarianismo

Tereza Freire - 26 de Setembro de 2007 - 9 Comentários

Quando assisti ao documentário A Carne é Fraca, tive que tomar uma atitude imediatamente. Deixou de ser uma questão pessoal e virou uma questão política. Um ato de cidadania. Parar de comer carne não apenas por compaixão ou por seguir os princípios da não violência numa conduta espiritual. Mas por convicção político-filosófica-econômica.

Porque não posso ser parte de uma rede que vende tortura e morte em forma de filet mignon. Não posso compactuar com uma indústria que sobrevive às custas do sangue alheio. E na pior das hipóteses, caso eu não pensasse na violência contida no meu ato, não poderia comer um alimento que, para chegar mais rápido ao mercado, é bombardeado com medicamentos que causarão, por sua vez, a morte de quem consumir esse produto.

Porque é dado tanto antibiótico ao animal para que ele produza mais rápido e macio, que certamente esta quantidade bestial remédios vai interferir na saúde de quem pensa que não pode viver sem seu bife de cada dia. Pesquisas confirmam que nunca houve tantos casos de doenças graves relacionadas ao sistema digestivo. Óbvio! A carne recebe altas doses de antibiótico. As pesssoas comem carne. Logo, as pesssoas comem antibiótico.

Como diz o Dalai Lama, seja generoso nem que seja por egoísmo. Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você mesmo. Digo sempre a meus amigos que se não estiverem dispostos a abandonar este hábito, é melhor não ver o filme. Porque é impossível não tomar uma atitude. Nem que seja no sentido de diminuir o consumo.

Já é alguma coisa. Como me disse um amigo, 'vou comer apenas três vezes por semana'... Se para ele já é um sacrifício, tapas, então está valendo. Mas gostaria mesmo era de ter dito a ele que ia acabar ficando doente mesmo comendo carne apenas três dias por semana.

O filme mostra a crueldade em série que é a indústria dos animais. Baby beef, carne tão apreciada e tão cara, é um filhote que nem tem direito de aprender a andar, para não endurecer sua carne. É criado preso, num cubículo, desde que nasce e só tem direito a poucos meses de vida (que vida?)...

Vaca é sugada até o bagaço, literalmente. Aparelhos sugam suas tetas noite e dia e se o leite acaba, hormônios garantem a fabricação de mais e mais.

Com as aves, é ainda pior. Pinto é jogado no lixo como guardanapo usado, não presta para nada. Os que nascem com algum defeito (e é óbvio que muitos nascem com problemas, por causa dos hormônios), são descartados e triturados como lixo. Provavelmente, viram os nuggets que compramos prontos no supermercado. Os que sobrevivem parecem aberrações, pois não tem pernas, são apenas peito e tem seus bicos cortados para não comerem uns aos outros. Os frangos de hoje viraram carnívoros!!!

Como se não bastasse esta violência, saber que os grãos que alimentam o gado poderiam acabar com a fome do mundo e que as florestas estão sendo devastadas para fazer pasto!!! Matam a natureza para colocar o gado que também será morto e que não matará a fome de quem precisa porque nem chegará na mesa porque nem mesa eles tem, muito menos dinheiro pra comprar bife...

Tiram a floresta e colocam grama. Tiram gente e colocam gado. Hoje em dia existem mais cabeças de gado do que seres humanos na Amazônia... Nada contra os bois, tudo a favor das vacas sagradas que são, mas derrubar florestas em época de aquecimento global, secas, é no mínimo, burrice. Estupidez a longo prazo...

Sabemos que a urina do gado é responsável pela contaminação dos lençóis freáticos e os gases que eles liberam poluem mais do que muitos automóveis. Não terão famílias as pessoas que enriquecem às custas de vidas alheias? Não pensarão nos seus descendentes, vivendo numa terra devastada? Mesmo que seja por egoísmo, seja generoso. Mais uma vez, fala o Dalai Lama: A toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade. Causa e efeito.

No entanto, o problema é que, segundo a lei, animal é propriedade, assim como casas, automóveis. O proprietário tem direito de fazer o que quiser com eles. No entanto, se nos assemelhamos aos animais em alguma coisa, é na capacidade de sofrer.

Interessante... Tantas pessoas amam seus bichos de estimação como gente e ao mesmo tempo permitem que os que não são de estimação morram cruelmente... E ainda comem estes mesmos bichinhos que poderiam ser os seus pobres pets.

Porque é apenas uma questão cultural comer picanha ou carne de cachorro... Tortura-se animais simplesmente para satisfazer o paladar, porque está mais do que provado que não precisamos de carne para viver. Pelo contrário, qualquer nutricionista consciente desaconselharia ou pediria moderação no consumo.

A decisão é de cada um. Não se pode obrigar ninguém a nada, mas pelo menos, se for consumir carne, opte por um consumo consciente, escolha as de procedência orgânica e não violenta. Pelo menos, estará comendo um animal criado solto e livre dos hormônios e da violência implícita numa criação em grande escala unicamente para fins de enriquecer o produtor.

Acredito, cada vez mais, que as próximas revoluções não freqüentarão debates nem passeatas, muito menos empunharão armas. Ao contrário, serão pacíficas e silenciosas, movidas pela compaixão. Silenciosamente, podemos fazer nosso protesto.

E o protesto que eles, os produtores ouvirão é não consumirmos seus produtos. Não manchar nossas mãos de violência contra seres que, ao contrário de nós, não possuem o livre arbítrio. O discernimento para agir conscientemente pelo bem de todos.

Namastê!

 

 

Tereza é yogini. Mora e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.

Respostas:

André Oliveira

Postado em: 28 de Setembro de 2007 às 07h59

Obrigado por mais este pequeno GRANDE texto que tão claramente ilucida e explica os maleficios do consumo de animais indefesos. São precisas intervenções destas, com uma natureza baseada no Amor e na Liberdade, para que este mundo evolua no verdadeiro sentido da palavra "Evolução". Muito obrigado! Continuem com o bom trabalho!

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