Cronologias Histórica e Literária da Índia Antiga
Pedro Kupfer - 16 de Outubro de 2007 - Nenhum comentário
A cronologia histórica da Índia proposta pela nova geração de estudiosos, baseada em estudos arqueológicos e análise de referências vêdicas e purânicas, poderia ser assim estimada:
Ø Idade Vêdica: 7000-4000 a.C.
Ø Surgimento do Yoga pré-histórico: 7000 a.C.
Ø Fim do Período do Ramayana/Mahabhárata: 3000 a.C.
Ø Apogeu da civilização do Indus-Sarasvati: 3000-2000 a.C.
Ø Declínio da civilização do Indus-Sarasvati: 2200-1900 a.C.
Ø Sistematização do Yoga (Smriti: primeiras Upanishads, Araynakas e Brahmanas): 1900-1500 a.C.
Ø Período de caos e migração: 1900-1500 a.C.
Ø Síntese do hinduísmo clássico (Shruti: Sutras, Tantras e Épicos): 1400-250 a.C.
Como isto afeta o ponto de vista do Yoga? Feuerstein, Kak e Frawley respondem: 'Estritamente falando, o modelo da invasão ariana implica que a tradição do Yoga tem uma história fraudulenta: o Yoga teria sido criado pelas culturas nativas e subseqüentemente emprestado ou roubado pelos arianos nômades, que, supostamente tomaram o norte da Índia pela força. Depois, eles teriam apagado todos os traços deste empréstimo, como se eles próprios tivessem sido os criadores originais do Yoga. Esta noção não faz sentido, considerando o que sabemos sobre adoções e adaptações culturais. Faz menos sentido ainda, levando em consideração as evidências arqueológicas e literárias citadas no presente livro.' In Search of the Cradle of Civilization, p. 172.
Desses indícios podemos concluir que talvez esta civilização tenha sido a primeira e mais avançada do mundo antigo, e que o movimento civilizatório deu-se a partir do sub-continente indiano. Concomitantemente, o Yoga seria muito mais antigo do que se pensava até agora: poderíamos situar a sua idade, segundo a estimativa mais prudente, em mais de 7000 anos, o que o torna parte do mais antigo patrimônio da Humanidade.
A civilização que deu origem ao Yoga, ensinou-nos igualmente a viver em cidades e a conviver através do comércio e do trabalho industrioso. Também mostrou-nos como sobreviver às catástrofes naturais do planeta e a reconstruir a existência, afirmando-se na enorme força ancestral das suas convicções que foram postas à prova uma geração após a outra durante milênios. O que mais admiramos neles é que sua aventura espiritual através do Yoga continua tendo vigência: sua ousadia construtiva é hoje patrimônio de todos.
Concluindo, podemos afirmar que a única importância que a ait teve na interpretação histórica, foi a de distorcê-la e nos desviar dos nossos objetivos. É preciso deixar de lado essas tolices, para ver quais foram as reais contribuições desta civilização, tão habituada a vencer limites quanto o próprio Yoga.
Uma cultura capaz de resistir a terremotos e cataclismos e que mostra a concepção do mundo que esta possui, permite a seus homens trocar de domicílio mas não de identidade: continuam sendo eles mesmos. A densidade da literatura surgida durante e após o deslocamento para o vale do Ganges fala de muitos milênios de história espiritual. A excepcional complexidade da sua linguagem, de seu mundo metafórico e de seus recursos simbólicos continua sendo hermética para nós, porque perdemos a chave para decifrá-la. Não obstante, este obstáculo não pode servir de pretexto para subestimá-la.
Através do pouco que sabemos da história deste povo, percebe-se a sua força, advinda de uma convicção profunda num modo de ver a vida. A sua espiritualidade foi posta a prova não pelas catástrofes, mas pela própria experimentação dos seus rishis, os sábios ascetas que compuseram os Vedas. Esse mundo corresponde a uma realidade metafísica transcendente. Com o Yoga, eles criaram um canal prático e ousado que não faz senão resumir a trajetória milenar dos rishis, e que lhes permite, de modo nem místico nem religioso, comprovar a veracidade da sua cosmovisão.
A literatura Hindu e a síntese do hinduísmo
Hinduísmo é o termo empregado para designar as instituições culturais, religiosas e sociais da grande maioria da população indiana. O hinduísmo faz a sua aparição no contexto da primitiva civilização hindu, durante o alvorecer da nação indiana. Embora não exista uma data precisa a partir da qual possa se dizer que surge a civilização hindu, poderíamos localizá-la entre o declínio da civilização vêdico-harappiana (2200-1900 a.C.) e o século vi a.C., a partir do qual possuímos registros escritos. Não temos evidências históricas para o milênio anterior à época clássica na Índia, mas temos abundante material nos planos filosófico e religioso. As primeiras escrituras do hinduísmo não possuem uma data precisa, foram compostas e transmitidas oralmente durante um lapso de tempo incerto antes de serem transcritas, embora a tradição oral (parampará) estivesse largamente desenvolvida.
O termo hinduísmo não deve restringir-se apenas ao âmbito religioso, pois não seria uma religião tal como se concebe no Ocidente: não possui um fundador, nem hierarquia, dogmas, liturgia ou profetas. Aliás, nem sequer existe uma palavra para designar essa instituição em sânscrito. A que mais se aproximaria é dharma, que se traduz mais precisamente como lei humana ou social. Também não existe um termo para designar Deus.
Distinguimos quatro grandes momentos na formação do hinduísmo clássico:
1) O período vêdico (1400-500 a.C.), que compreende a transcrição para o nágarí de obras de tradição oral que remontam à idade vêdica (7000-4000 a.C.): Vedas, Brahmánas, Upanishads e Áranyakas, que formam a base de uma importante porção ulterior da filosofia hindu.
2) A literatura épica: o Mahabhárata, o Rámáyána e os Puránas, epopéias e escritos mitológicos surgidos com anterioridade ao ano 3000 a.C. e transcritos para o nágarí entre os séculos iii a.C. e iv d.C.
3) A grande síntese hindu, momento em que começam a se configurar as seis escolas filosóficas tradicionais (darshana), o dharma, o sistema de castas, o uso do sânscrito como língua sagrada e a diferença entre Revelação (Shruti) e Tradição (Smriti), de 1400 a.C. até o século v d.C.
4) O Bhakti Yoga ou hinduísmo devocional, que embora tenha raízes antigas, alcançou força considerável entre os séculos vii e xvi d.C.
1) O Período Vêdico.
A) O gênero mais antigo é o dos Vedas, uma coleção de hinos e fórmulas rituais através dos quais o oficiante e harmonizava com as forças naturais. Embora de temática aparentemente limitada, estes livros revelam-se obras primas do ponto de vista literário, dando-nos uma visão global da cultura, dos valores e da forma de vida do povo vêdico. Existem quatro Vedas: o Rig, o Sáma, o Yajur e o Atharva.
O primitivo panteão hindu era muito complexo e até contraditório, pois os diversos autores inseriram ao longo dos séculos inúmeras concepções diferentes. Mesmo assim, podemos identificar claramente as diferentes forças da Natureza encarnadas nestes deuses: Súrya, Vishnu e Savitr são divindades solares, Agni personifica o fogo; Váyu relaciona-se com o vento, Rudra-Shiva é o deus terrível, Mitra e Varuna são os conservadores da criação e Indra o deus guerreiro.
B) Os Brahmánas são tratados escritos pelos sacerdotes que versam sobre a prática litúrgica e expõem a cosmogonia primitiva do Purushasukta: o nascimento do homem primordial através de ascese extrema (tapas) e sacrifício, que garante a continuidade da criação através da repetição do gesto criador.
C) Já nos Áranyakas (Livros da Floresta) e nas Upanishads (ensinamentos ouvidos aos pés de um Mestre), os hindus passam a aplicar as técnicas contemplativas, havendo uma transferência de interesses do mero ritual para a meditação. Começam assim a questionar o universo, a natureza da realidade suprema, o porque da existência humana e as relações entre essa realidade e o homem. Inferiram que a natureza suprema é igual à natureza humana e que é possível alcançar a fusão dessas realidades através das técnicas contemplativas. Há treze Upanishads reveladas (Shruti), das quais três tratam do Yoga e descrevem técnicas de meditação: Svetáshwatara, Maitrí e Kena. Todas as outras são posteriores, e pertencem à Tradição (Smriti).
2) A literatura épica.
Ganha popularidade ao mesmo tempo em que se delineiam as principais tendências do hinduísmo: o shivaísmo, o vaishnavismo e o culto de Shaktí nas suas diversas formas. As epopéias mais importantes são o Mahabhárata e o Rámáyána.
A primeira obra, O Grande (Combate) dos Bháratas, é um poema épico escrito em 100.000 slokas, estrofes de dois ou quatro versos, oito vezes maior do que a Ilíada e a Odisséia juntas. Descreve a cruenta batalha renhida entre os Pándavas e seus primos Kauravas pelo reino de Bhárata. Essa guerra, embora real, é uma verdadeira alegoria sobre o ser humano e a eterna conflagração de poderes entre o bem e o mal. Posteriormente será acrescentada à sua estrutura a Bhagavad Gítá, poema no qual o avatára[2] Krishna, ensina ao príncipe guerreiro Arjuna os princípios de três tipos de Yoga: Karma, Jñána e Bhakti Yoga.
O Rámáyána, ou Feitos de Ráma, que possui numerosas versões, conta as aventuras de Ráma para resgatar a sua amada Sítá do seu raptor, o demônio Rávana.
É necessário precisar que as datas aqui mencionadas referem-se ao momento em que estas obras, de transmissão oral, foram transcritas para pergaminhos ou folhas de palmeira (pushtaka). Existem atualmente estudiosos que situam a origem do Veda e dos épicos na última era glacial, ao redor de 8000 anos atrás.
Paralelamente às epopéias surgem os dezoito Grandes e os dezoito Pequenos Puránas, crônicas, mitos e lendas arquetípicos utilizados desde tempos imemoriais como fonte de educação popular. Os Puránas e os épicos possuem para a nação hindu o mesmo valor exemplar e a mesma importância que o Ocidente outorga à História.
3) A Síntese Hindu.
É o momento em que se definem as grandes instituições e tendências filosóficas, acontece no fim do período upanishâdico. Neste período perfilam-se as seis grandes escolas de filosofia (darshana) e outras instituições tradicionais: a concepção do sistema de castas (varna), os códigos da lei (dharma) e a literatura sânscrita clássica, que inclui textos sobre fonética, gramática, astronomia, matemática e outras ciências.
As epopéias (Mahabhárata, Rámáyána), Puránas (crônicas e mitos populares), Ágamas (manuais de culto), Tantras (tratados filosóficos) e darshanas (pontos de vista filosóficos), constituem a Tradição (Smriti), oposta e posterior à Revelação (Shruti), que inclui os Vedas, Brahmánas, Áranyakas e as treze primeiras Upanishads.
Os seis darshanas, pontos de vista ou escolas filosóficas, formam três pares: Sámkhya/Yoga, Nyáya/Vaisheshika e Mímánsá/Vedánta. O Sámkhya e o Yoga formam sem dúvida o par mais antigo de darshanas, tendo suas raízes profundamente fincadas na Índia aborígene.
O Sámkhya (lit., número, discriminação) é uma filosofia especulativa de fundo dualista que poderia ser definida como emanacionista: os seus vinte e quatro princípios (tattwa) formam uma estrutura vertical, na qual cada elemento ou grupo de elementos emana dos anteriores, e todos do par original Purusha/Prakriti. Através dos diferentes tattwas circulam três estados (guna) que definem por interação todo o existente: sattwa (leveza, equilíbrio), rajas (ação, emoção), e tamas (inércia, escuridão).
O Yoga é um conjunto sistematizado de técnicas que visam a alcançar o estado não condicionado da hiperconsciência (samádhi). À diferença dos outros darshanas, que são meramente especulativos, o Yoga utiliza práticas contemplativas para atingir o estado do não condicionamento. O Yoga está inextrincavelmente ligado ao Sámkhya, e faz suas as premissas deste último.
Antes de ser reconhecido como darshana, o Yoga já tinha alguns milênios de existência, estando ligado ao Niríshvara Sámkhya, ou Sámkhya ateísta. A partir da sua inclusão na grande síntese hindu, já com o status de darshana, passa a receber também o nome de Sêshwara Sámkhya, ou Sámkhya teísta, pois reconhece a existência de um Princípio Criador que estava fora das asserções do Sámkhya ateísta, mais antigo.
O Nyáya e o Vaisheshika são ramos separados da mesma escola, complementam-se entre si e ficaram virtualmente amalgamados em um único sistema filosófico. Nyáya (penetrar, compreender) é uma palavra que significa investigação analítica, e foi tomada em um sentido menos amplo como lógica. Esta é a corrente que mais se aprofundou nos processos e leis do pensamento, e baseia-se em compreensão exata e argumentação correta, estabelece uma clara diferença entre matéria e espírito. O Vaisheshika expõe o ponto de vista atomista, explicando a origem, a estrutura e a evolução do Universo. O mundo material é composto de átomos (anu), unidades especiais, eternas e imutáveis que se caracterizam apenas pela sua particularidade (vishêsha), donde o nome.
O Mímánsá (exame, forma, regra) ou Púrva Mímánsá não é um sistema filosófico propriamente dito, mas um dogmático sistema de interpretação das escrituras vêdicas que versa sobre como devem ser feitos os rituais e as cerimônias religiosas.
O Vedánta (o fim do Veda) é um darshana monista (adwaita[3]), que tem como objetivo acabar com a ignorância metafísica. Está baseado na interpretação das Upanishads e propõe a teoria da máyá (ilusão), segundo a qual o mundo não é real da forma como o percebemos. Também recebe o nome de Uttara Mímánsá.
4) O Hinduísmo devocional.
O culto devocional (bhakta) de Shiva, Shaktí e Vishnu possui os seus próprios textos: os Ágamas e os Tantras. O culto de Shiva e Vishnu já aparece nos épicos, sendo de grande importância no sul da península indiana. Existem diversas correntes do shivaísmo e do shaktismo que integram práticas do Yoga e do Tantra. Nelas reconhecemos formas de culto à Natureza que remetem às populações proto-australóides da Índia pré-histórica.
Cronologia histórica
Nota: Em princípio, todas as cronologias são mentirosas. Elas ajudam a nos situar e são necessárias para uma primeira compreensão. Entretanto, existem pontos de vista diferentes, alguns até mesmo antagônicos entre os historiadores. Portanto, o autor deixa claro aqui o seu escrúpulo perante as evidentes limitações deste quadro. As fontes aqui usadas foram o Atlas Histórico, editado pelo New York Times, o Vedic Glossary of Indus Seals, do Dr. Natwar Jha, The Indus-Saraswatí Civilization: problems and issues, do Dr. S. P. Gupta, In Search of the Cradle of Civilization de G. Feuerstein, S. Kak e D. Frawley e outros trabalhos mencionados na bibliografia.
[1] Entende-se por sub-continente indiano aquela área que abrange não apenas a Índia, mas também Paquistão, Bangladesh e Nepal.
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