Dos significados mais soltos

Manuela Mendonça - 17 de Outubro de 2007 - 1 Comentário

Palavras são palavras. Significados são múltiplos e palavras não bastam ao entendimento. Um significado flexível se faz necessário para que se compreenda a palavra em determinado contexto. No yoga não existe apenas o contexto. Existe o contexto do contexto, a dimensão. E é por isso que muitas vezes a confusão se estabelece por aparentes contradições. Já que o significado muda conforme o contexto. 
 
A palavra equilíbrio no contexto subjetivo, que quer dizer o que eu penso, o que significa pra mim, pode ser qualquer coisa. Pode ser a calma, a paz e a estabilidade. Ou pode ser a capacidade de estar presente e consciente, acompanhando os movimentos, as mudanças e sabendo da impermanência da natureza. Pode ser o que for. É para mim e talvez não seja igual para o outro. 

A mesma palavra no contexto relativo vai ter mais a ver com o que diz o dicionário ou a ciência. Com o significado comum a mais pessoas. Algo que se verifica facilmente do lado de fora. No caso do equilíbrio, tudo que lembre uma não-oscilação. Mas a mesma palavra, já no contexto absoluto, pode significar ordem. O equilíbrio do universo é a ordem. Tudo funcionando direitinho. Mesmo que aparentemente seja caótico. Se existe ordem, então existe equilíbrio.
 
O interessante de pegarmos uma palavra e analisarmos o seu significado em diferentes contextos é que o sentido se amplia e o entendimento também. Posso passar a perceber que a mesma ordem que existe no universo, e que se expressa como equilíbrio, existe no meu corpo, que funciona e tem uma ordem. Que essa mesma ordem, quando não se apresenta na minha mente, se expressa como confusão. E assim percebo meus estados desequilibrados, quando perco meu centro de mim, minha ordem que me esclarece. 

É muito importante que se analise o significado relativo. Este conhecido, superficialmente por todos. Ou este atribuído por um coletivo e que permite o entendimento sem grandes explicações. Mas a tendência é construir um significado que solidifica a palavra e que limita o entendimento de seu sentido mais abrangente. Corpo é uma delas. Corpo é lembrado como matéria. Carne e osso.

Mas pode ser também um conjunto de pessoas com a mesma função, um cadáver ou ainda a parte central de certos objetos. Poderíamos falar do corpo do corpo. Poderíamos falar de um conjunto vivo ou de algo inerte. E para que fosse possível a percepção de nosso próprio corpo como muito mais do que carne e osso, seria necessário uma análise do que é corpo. Esse todo que vive, que pulsa, que se organiza, que tem uma ordem. Essa matéria que pode ser sutilizada e ser percebida para além do que é geralmente. 
 
O Yoga desconstrói significados. Desconstrói porque quer chegar no sentido maior. No mais amplo e na pluralidade de possibilidades. Assim não se fixa, não se congela ou mobiliza nada. O yoga revela o subjetivo e aproxima o relativo do absoluto. Percebo a respiração. Respiração para mim. A minha respiração. Ar que entra e sai. Troca gasosa. Manutenção do corpo. Mais além, a mesma respiração é nascimento e morte. Criação e destruição. Receber e deixar.

Mais do que a manutenção do corpo, a batida do ritmo cósmico sustentando a vida. Aqui, com os meus botões, em minhas reflexões, vou encontrar a respiração em mim. A subjetividade pode aproximar o infinitamente grande do infinitamente pequeno ou isolar-se completamente em pura ilusão e mundo só seu. Talvez essa seja a diferença entre a loucura e a lucidez máxima. 
 
A flexibilidade dos significados conforme o contexto é que nos trás a possibilidade de ver diferente. A rigidez se faz na absoluta certeza de um aspecto que é na verdade, muitos. Se não fosse possível o questionamento do significado de eu ou de pessoa que sou, não seria possível sermos o corpo, a mente e nada disso ao mesmo tempo. Sim eu sou o corpo, sou carne e osso, mas sou mais do que isso. Sim, sou minha mente, meus pensamentos e sentimentos, mas muito mais do que isso. E não me fixo em mim assim como pessoa. Às vezes, para que se flexibilize o significado, é necessário negá-lo. Eis o princípio de neti, neti: "Isto não, Isto não", que é exercício de desconstrução que leva a um conhecimento maior.

Não limitado por um único contexto ou um único ângulo percebido. É a flexibilização do significado estabelecido, pela análise em diversos contextos, que nos leva ao discernimento. E como é difícil soltar as certezas nossas. verdades construídas, sustentadas há tempos e que enganam. O significado subjetivo, tão nosso, quando flexibilizado, nos deixa em pelo nu, soltos no ar. Esta é a hora de não ter medo e voar em busca de significados maiores, deixando para trás o sapato velho e apertado. Descobrindo assim o estar descalço e livre para caminhar para qualquer direção. 
 
Enfim, que tal começarmos analisando palavrinhas tão comuns em nossas vidas como realização e sucesso? E que tal trabalho e esforço? Melhor ainda, o que significa dar o máximo de mim? Tudo isso, tão presente, deve e pode ser observado. Faz parte do Yoga flexibilizar o corpo para ajudar a amolecer as palavras. A vida não fica mole, fica possível.

Manu é yogini e professora de Yoga no Rio. Ela postou este artigo no seu blog, www.yogapadah.blogspot.com e nos autorizou a reproduzí-lo aqui. Se quiser entrar em contato com ela, escreva para manuelamendonca@hotmail.com.

Respostas:

Jaime Júnior

Postado em: 01 de Novembro de 2007 às 16h40

Olá Manu tudo na paz. Também concordo que o ser humano tem que agir com pensamento flexivel e não com pensamento rigido achando que é assim e pronto. Primeiro que a vida se prova pelo movimento, quanto maior flexibilidade tivermos maior será nosso de grau de compreensão, porque a persistência vence a resistência.

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