Yoga Antigo = Upanishads ≠ Vedas ≠ Vedanta?

Miguel Homem - 10 de Maio de 2008 - 9 Comentários

Outro dia veio parar às minhas mãos um livro que li em tempos idos. A curiosidade fez-me voltar a folheá-lo. O livro contém uma cronologia histórica do Yoga semelhante a esta:

Cronologia Histórica do Yoga

Divisão

Yoga Antigo

Yoga Moderno

Tendência

Samkhya

Vedanta

Período

Yoga Pré-Clássico

Yoga Clássico

Yoga Medieval

Yoga Contemporâneo

Época

Mais de 5.000 anos

séc. III a.C.

séc. VIII d.C.

séc. XI d.C.

Século XX

Mestre

Shiva

Pátañjali

Shankara

Gorakshanatha

Aurobindo
Ramakrishna
Vivekananda
Shivananda

Literatura

Upanishads

Yoga Sutra

Viveka Chudamani

Hatha Yoga

Fonte

Shruti

Smriti

Segundo esta cronologia o Yoga antigo, pré-clássico, teria como fonte shruti, aquilo que foi revelado aos antigos sábios védicos, os rishis. A literatura base atribuída a este Yoga antigo (pré-clássico) são as Upanishads. E, na opinião do Autor deste livro, um Yoga antigo assente no Shruti e nas Upanishas é a antítese do Vedánta, e absolutamente incompatível com este.

Mas afinal, o que são as Upanishads? Segundo o famoso dicionário Sânscrito ? Inglês de Sir Monier Williams[1] (pag. 201, coluna à esq.), upanishad significa aproximar-se, sentar-se aos pés de alguém para ouvir as suas palavras. Ou seja, sentar-se aos pés do mestre. Ali diz-se ainda que o seu objectivo é a revelação do significado secreto dos Vedas que são vistos como a fonte do Samkhya e Vedanta.

No entanto, segundo esta cronologia, o Vedanta estaria associado apenas ao Yoga contemporâneo, o que, como já se começou a demonstrar, não corresponde à realidade.

Vejamos agora o que é Shruti. Segundo MW (pag. 1101, coluna à direita), shruti é aquilo que foi ouvido ou comunicado desde o início, conhecimento sagrado transmitido de geração em geração pelos brahmanas, os Vedas.

Os Vedas são os tratados onde assenta a tradição védica, conhecida como sanatana dharma, o dharma eterno (o que normalmente se identifica com o Hinduísmo). Os Vedas estão divididos em duas grandes partes: o karma kanda e o jñana kanda. A primeira parte, karma kanda, lida com a acção (karma) prescrita para os diferentes objectivos humanos (purushartha) e a ética. Esta é a parte mais extensa. A segunda parte dos Vedas, jñana kánda, é a menor e versa sobre jñanam, o auto-conhecimento. É na parte final dos Vedas que encontramos as primeiras Upanishads, e é a esta parte dos Vedas que o yogí mais se dedica. E quem se debruça sobre o estudo da parte final dos Vedas? O Vedanta.

Vedanta significa literalmente a parte final (anta) dos Vedas (veda + anta). Não se fiem em mim :) Consultem o amigo MW (pag. 1017, coluna à esquerda).

A verdade é que quem quer adquirir o conhecimento das Upanishads, do Yoga antigo, pré-clássico, ouve, estuda, reflecte e medita Vedanta, que é o mesmo que dizer Jñána Yoga. Isto não significa que apenas o Jñana Yoga seja relevante. Todos os yogas tradicionais são importantes e obrigatórios para todos os praticantes. Não se pode excluir nenhum, ou escolher um em detrimento do outro se se quiser, em segurança e confortavelmente, chegar ao objectivo. E todo o yogi, mais tarde ou mais cedo, se cruza com esta verdade ao longo do seu caminho.

Conclui-se, assim, que o autor da cronologia lavra em confusão ao qualificar o Vedanta como 'grave deformação do Yoga'. Por um lado, desenvolve uma teoria de incompatibilidade entre os diferentes darshanas do sanatana dharma (o dharma védico) que vai contra toda a tradição de ensino indiana. Os darshanas não são, nem poderiam ser, incompatíveis porque se debruçam sobre aspectos diferentes do Universo. Os darshanas são complementares! E sobre isso existe abundante literatura.

Por outro lado, o Vedánta é qualificado negativamente de espiritualista, em contraposição à linha seguida pelo autor, qualificada como naturalista. Ora, eu aprendi e aprendo Vedánta com o Swami Dayananda. O Swami Dayananda aprendeu com seu mestre e asssim segue até Shankaracharya[2] e antes dele. A importância de um mestre vivo de quem o discípulo possa receber o conhecimento é tão importante na tradição que o mantra de invocação da paz do Rg Veda termina assim:

Que Brahman me proteja. Que proteja o professor.
Que Brahman me proteja. Que proteja o professor.
Que haja paz, paz, paz.

O estranho é que nós, espiritualistas, aprendemos com pessoas de carne e osso e o autor naturalista aprendeu com um mestre, em sonhos. Ao que parece não havia ninguém vivo com competência para o ensinar? O tal mestre aparecia ao autor em sonhos e a alguns motoristas de táxi :).

Curioso é, ainda, que o autor afirme que o Yoga que criou é o melhor e mais completo Yoga do mundo. Este Yoga de marca registada é uma das diversas modalidades de Hatha Yoga que hoje existem.

Se entrar numa sala de aula e o professor mandar fazer shirshásana (ficar de cabeça para baixo), paschimottanásana (flexão sentada com as pernas esticadas) ou qualquer posição semelhante que não seja sentada, já sabe que está a fazer Hatha Yoga.

Existem hoje várias modalidades de Hatha Yoga. Algumas adoptaram os nomes de mestres e outras não, mas em ambos os casos um Professor competente e honesto irá confirmar que aquela é uma modalidade de Hatha Yoga. Mas não é este o caso do nosso autor que também aqui se lança numa guerra de distinção entre o seu método e o Hatha Yoga.

E entre essas importantes diferenças ficamos a saber que o seu método tem como público alvo 'intelectuais, artistas, escritores, cientistas, jornalistas, empresários, executivos, profissionais liberais, universitários e desportistas, na maioria adultos jovens entre 16 e 50 anos, na sua maioria homens e com nível cultural superior e médio'. Já o Hatha Yoga seria praticado por 'alternativos, espiritualistas, idosos, enfermos, nervosos, gestantes e senhoras donas de casa, na sua maioria acima dos 50 anos, mulheres e com nível cultural médio e básico'.

O preconceito salta destas palavras do autor, sem necessidade de se fazer mais comentários. Aos sem casta, pobres, idosos, mulheres e iletrados, em meu nome e de todos os professores sérios convido-vos a praticarem, estudarem e assumirem a tradição cultural do Yoga. Ela também é para vós!

A verdade, satya, está no início da aprendizagem do Yoga. Satya não significa apenas falar a verdade, mas também não deixar a não verdade impune. Hoje, este é o meu satyavrata, o meu voto de verdade com muita compaixão.

No Yoga, como em tudo na vida, é preciso ter um olhar crítico. Às vezes permanecemos presos a determinadas concepções ou relações, porque julgamos que são o melhor que podemos encontrar e que não existem alternativas. Elas existem sempre! E se existiram para mim, existirão certamente para outros. Deixo-vos este pensamento do Swami Chinmayananda:

'Vá devagar. Não há pressa. Não acredite cegamente. Questione cada declaração. O seu pensamento independente e entendimento são de importância fundamental. Só então o nosso conhecimento pode revelar quem somos.'

Om asato ma sadgamaya
tamaso ma jyotirgamaya
mrtyorma amrtam gamaya
Om shantih shantih shantih

'Que eu seja levado (pelo conhecimento) do irreal para o real; da escuridão (da ignorância) para a luz (do conhecimento); da morte (sentido de limitação) para a imortalidade (a libertação). Que haja paz, paz, paz.'

[1] Identificado de agora em diante como MW.

[2] Esclareça-se que Adi Shanakaracharya não foi o criador do Vedanta, mas um renomado mestre e reformador do Dharma Hindu.

Respostas:

Flávio Vitor

Postado em: 01 de Outubro de 2010 às 01h01

Miguel Homem.

Homem! Satya, veracidade! Não deixar a não-verdade impune! Corretíssimo o conceito e interpretação de Satya.

Espiritualista? Então o meu lado espiritual me fez abandonar de vez esta "escola", porque meu lado intuicional me levou para um Yoga, O YOGA.

Que bom, pois não precisei que me mostrassem. Pior se precisasse e fosse tarde. Antes tarde do que nunca no entanto. Acolhamos sempre aqueles que procuram a verdade. Perdoai a todos!

Compaixão por todos.

Flávio Vitor.

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Adrian

Postado em: 29 de Maio de 2008 às 12h41

Parabéns Miguel! Artigo providencial! Confesso que foi através do marketing do tal mestre mequetrefe que cheguei ao Yoga, ou melhor, aquilo que me vendiam com Yoga "Antigo", e que acabou mudando radicalmente a minha vida. Será que se não tivesse caído na rede charlatã eu estaria hoje completamente envolvido com Yoga (Hatha Yoga tradicional) e Vedanta? Hoje sou professor de Yoga e amo minha profissão, mas talvez pudesse ainda estar vivendo como o arquiteto frustrado de outrora...É por isso que aceito a atitude daqueles que tentam mostrar o lado positivo da experiência de ter sido enganado pela $eita. Entretanto, não concordo em fazer vista grossa para as mentiras institucionalizadas desse tal método. Muita gente rompe com a rede, mas pensa que o conhecimento absorvido lá (prática e teoria) é correto, e mesmo estando fora da $eita continuam espalhando erros absurdos como o quadro desmascarado neste artigo. Outro dia vi um cartaz com a chamada: "Aulas de Hatha Yôga", assim mesmo com o circunflexo no ô... Então, é muito válido esclarecer, mas sem ofender, esses enganos que a praga da rede semeou e continua semeando. Ao tornar público artigos como esse, possibilitamos que alguma vítima da $eita tenha acesso ao texto, e se tiver sorte, ao ler fique com a pulga do disconfiômetro atrás da orelha, abrindo caminho pra liberdade. Ao Miguel, desejo que ele continue no seu satyavrata e que novos artigos como este venham trazer a luz do discernimento para aqueles que estão nas trevas da matrix. Harih Om!

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Alessandra

Postado em: 26 de Maio de 2008 às 12h12

Namastê! Parabéns pelo texto esclarecedor, entretanto, concordo com um dos comentários que nos sugere esquecermos este Mestre. Para não ser repetitiva, gostaria de acrescentar que apesar dele ter, aparentemente, adoecido do seu próprio ego precisamos reconhecer que prestou um grande favor a muitas pessoas: colocou-as em contato com o ioga. Me sentia muito irada quando percebi que, ao frequentar aquela rede, estava submetendo-me a um processo de lavagem cerebral. Mas, com o tempo, comecei a lembrar de que este autor em diversas vezes escreve que se não estamos dispostos a seguir suas regras, devemos deixar a rede. Assim, muitas e muitas pessoas fizeram e procuraram outras escolas. Para algumas pessoas, de ego extremamente cristalizado, o contato com o ioga só pode se dar através de uma escola como aquela. A maioria dos alunos vêm de academias e também a grande maioria acaba encontrando o caminho verdadeiro do ioga. Neste caminho verdadeiro, provavelmente cabe o perdão a nós mesmos por termos atraídos para nós uma prática tão estranha e sectária e cabe àquele Mestre, no mínimo o esquecimento. Nesta luta contra o ego, os riscos e as dificuldades pregadas por ele podem ter sido suas próprias armadilhas. Isto me parece ser uma grande pena e perda para o ioga mas acima de tudo para ele mesmo. A paz.

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Mark

Postado em: 22 de Maio de 2008 às 22h12

Essa passagem tem tanto de genial como de hilária, ri muito! "O estranho é que nós, espiritualistas, aprendemos com pessoas de carne e osso e o autor naturalista aprendeu com um mestre, em sonhos. Ao que parece não havia ninguém vivo com competência para o ensinar? O tal mestre aparecia ao autor em sonhos e a alguns motoristas de táxi :)."

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Shiva Shankara

Postado em: 22 de Maio de 2008 às 14h59

Caríssimo colega: Entendo perfeitamente sua inquietação com relação ao autor do livro, mas no seu lugar não faria o que não somente você, mas diversos professores e instrutores de Yoga fazem, que é propaganda gratuita para ele, divulgando seus livros com forte conteúdo indutor e hipnótico. Por melhor que seja a intenção, por favor jamais - JAMAIS!!! - publique parte dessa obra equivocadíssima. Talvez ainda não perceba, mas o que este senhor pode esperar a seu favor é que pessoas de bem como você saiam por aí reproduzindo de alguma forma seus disparates. Por favor, deixemos que ele se recolha em nosso esquecimento! É o que podemos fazer de melhor! O caminho para a evoloução está na busca pela paz, pelo belo e pelo puro, Satchidananda! Isso inclui o perdão e o amor incondicional, inclusive por pessoas de baixa evolução como este senhor, que optou pelo caminho negro. Ainda assim o livre arbítrio dele deve ser respeitado, mesmo que ele desrespeite o livre arbítrio dos seus seguidores, "mentalmente dopados" e incapazes de perceber isso. Essas pessoas talvez precisem mais do que muita gente, do nosso amor e carinho. Solicito veementemente que não propague mais sua obra, que sequer pronuncie seu nome... Somente assim poderemos impedir que sua discordia reverbere por aí... Não devemos contribuir com esse "mantra" para o universo. Desejemos que eles acordem e encontrem a felicidade! Tenhamos mais tato e inteligência para alertar nossos próximos! Basta dizer a todos que yoga é uma coisa só, e que fazer divisões e obrigar pessoas a ler qualquer coisa para praticá-lo NÃO É YOGA. É uma outra coisa que nem sei que nome que tem... Divulguemos o yoga como algo não segregário, elementar, pleno, que não inspira nenhum praticante a fazer nenhuma crítica ou atribuir características pejorativas às demais linhas, ou aos demais seres. Divulguemos que qualquer linha séria de yoga, que use seqüência de posturas em pleno século XXI, há de ser declaradamente proveniente do Hatha Yoga, e que o que existia lá atrás nada mais era do que meditação. Num belo dia esse conhecimento foi sistematizado por Patanjali com o nome de Yoga, mas seguramente muito mais atrás do que os 5.000 anos aos quais alguns autores atribuem sua origem, o mesmo conhecimento já existia com outro nome, em outros lugares, desde que o homem desenvolveu sua inteligência. Para que toda a espécie humana tenha passado a desenvolver seu racicínio, algum de nossos antecedentes pré-históricos teve que desenvolver seu percepção e se iluminar para contagiar os demais. HARI OM! QUE POSSAMOS TODOS CONHECER A MAGNITUDE DE BRAHMAN!

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Anônimo

Postado em: 21 de Maio de 2008 às 21h24

Foi diagnosticado recentemente que esse mestre sobre o qual vós falais, sofre de uma doença raríssima que ataca o cérebro: Síndrome de Shiva.

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Luiz Carlos

Postado em: 14 de Maio de 2008 às 18h01

Êste pseudo mestre eu conheço bem, começou muitos anos atrás até bem intencionado acho, porém deturpou sua visão, o ego em vez de ser dissolvido cresceu, e como bem disse sem um mestre autentico se perdeu e leva centenas com ele. Cego guiando cegos. Mas, para quem é estudioso da matéria, e lê livros sérios percebe logo o professor que tem. Tem um método bom, porém com conteudo ruim. Hiper valoriza os ásanas, proibe leituras que não as indicadas, etc. Porém existe de fato um Yoga tantrico aqui no Rio, com todo o arsenal tântrico, voltado para terapia e o auto conhecimento com técnicas que pouco havia lido antes ministrado por um mestre realizado e formado por um mestre com certificado de qualidade, fundador do Vidya Mandir, centro de estudos de Vedanta. É o professor Paulo Murilo Rosas. Vale apena conhecer e estudar lá.

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Jan

Postado em: 14 de Maio de 2008 às 15h35

Parabéns Miguel pela sua satyavrata. É realmente lamentável a confusão acerca do Yoga, mas muito esclarecedor o seu texto.

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