Karma Yoga II - A atitude correcta

Miguel Homem - 16 de Junho de 2008 - Nenhum comentário

Supor que Karma Yoga consiste em realizar acções sem expectativas, sem esperar resultados, é criar um conceito insusceptível de ser realizado. Como Krshna poderia tocar a flauta sem esperar que fosse produzido som e ele fosse ouvido?

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Ninguém pode agir sem esperar resultados. O resultado das nossas acções pode ser de quatro tipos:

  • 1) exactamente igual ao que esperávamos;
  • 2) mais do que esperávamos;
  • 3) menos do que esperávamos, ou
  • 4) completamente diferente do que esperávamos.
  • Se eu não quiser produzir som não posso bater as palmas das mãos. Se eu pedir às mãos para não fazerem barulho, elas vão continuar a fazer, porque isso está de acordo com as leis da física, com a Ordem Natural. Posso escolher bater ou não as palmas, mas não posso escolher o resultado. Os resultados estão de acordo com a ordem de Íshvara. A ordem é Íshvara e o resultado também é Íshvara. Por isso a Gítá (II-47) ensina:

    karmanyevádhikáraste ma phaleshu kadácana |
    má karmaphalaheturbhúrmá te sango'stvakarmani || 47||

    Temos uma escolha sobre a acção, mas não, em nenhum tempo, sobre os resultados; Não te tomes como o autor dos resultados da acção, nem te apegues à inacção.

    Os resultados podem ser aceitáveis ou não aceitáveis. No enfrentar e lidar com os resultados das nossas acções reside o Karma Yoga. Para isso precisamos de um certo entendimento da ordem do Universo ? de Íshvara. O resultado das nossas acções é sempre um resultado que está de acordo com a ordem do Universo, com as leis da Natureza. O presente é sempre o momento cósmicamente perfeito, por isso devemos aceitá-lo como prasáda, como um objecto que nos é doado. A atitude deve ser de grata aceitação, prasáda buddhi.

    Cultivar prasáda buddhi em relação aos resultados da acção é Karma Yoga.

    Quando pratico uma acção, no exacto momento em que a pratico, ela deixa de ser minha. E nesse momento todas as leis do universo passam a agir sobre ela. No momento em que executo uma acção, as leis universais entrem em acção e devolvem-me o efeito da acção, sejam essas leis, a gravidade ou outras que desconheço. As leis universais existem de forma a manter a harmonia da existência e do mundo. Assim, quando ajo e o faço com esta consciência, recebo o fruto da acção como prasáda, que não pode ser rejeitada, não pode ser criticada e deve ser recebida com agradecimento. Isto é Yogah, e desta forma, gozo de uma mente equanânime ? samatvam

    yogasthah kuru karmáni sangam tyaktvá dhanañjaya |
    siddhyasiddhyoh samo bhúvá samatvam yoga ucyate ||

    Realiza todos os teus actos em Yoga, renúncia aos apegos, ó Dhanañjaya, e na perda e no ganho permanece o mesmo. Equanimidade (da mente) é Yoga. Bhagavadgítá, II:48.

    Karma Yoga permite o chitta shhuddi, permite-me perceber que todos os meus problemas na vida não são causados pelo mundo mas pela forma errada com que eu tenho de lidar com o mundo. Forma essa causada pela minha ignorância. O eu ignorante lida com o mundo de forma errada e por isso sofre.

    Miguel é professor de Yoga no Porto, Portugal. Ele edita o site www.dharmabindu.com, onde este texto foi originalmente publicado.

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