Yoga em academias: impressões de um outsider

Pedro Kupfer - 23 de Julho de 2008 - 16 Comentários

Se estivermos vendo uma polémica estúdios versus academias se formando, é preciso ponderar as razões por trás disso. Sem querer tomar partido nem jogar lenha na fogueira, deixo aqui a minha contribuição para uma reflexão que seja construtiva para todos.
 
Venho de uma época e de um lugar em que academias de ginástica eram algo raro. Em Montevidéu, onde nasci e cresci, não existia o conceito de academia de ginástica. Havia clubes esportivos, onde as pessoas seguiam aquela receita básica: futebol, basquete, ginástica calisténica e natação.
 
Comecei a praticar Yoga aos 16 anos, depois de haver passado alguns anos da minha infância tentando aprender esportes de bola, nos quais sempre fui uma nulidade. O ambiente do Satyananda Niketan, onde conheci a prática, era muito diferente do encontrados nos clubes que havia freqüentado anteriormente. Lá, me senti em casa.
 
Quando descobri que de fato havia nascido para praticar Yoga, nunca mais me interessei por voltar para um clube de esportes. Creio que posso contar nos dedos das mãos o número de vezes na vida que entrei em academias, e nunca foi como cliente.

Afora as práticas de Yoga, que me acompanham diariamente há mais de 25 anos, as outras atividades, como surf, escalada, corridas ou pedaladas, aconteciam e continuam acontecendo exclusivamente ao ar livre.
 
Assim, essas atividades, "físicas", se podemos dizer que escalada ou surf sejam algo físico apenas, eram complementadas pela prática mais internalizada do Yoga: ásana, pranayama, mantra e meditação. Como sempre morei em praias, no mato e em lugares afastados, nunca tive a necessidade que alguém de um centro urbano teria de ir para algum lugar para me exercitar, uma vez que o exercício já acontecia nos movimentos do cotidiano.
 
Cortar lenha, por exemplo, é um ótimo antídoto contra o estresse. Mas, para isso, você precisa ter uma lareira para queimar a lenha, um lugar onde colhé-la e um machado para cortá-la. Não são coisas fáceis de se achar em cidades.
 
Quando vi que as práticas de Yoga estavam começando a migrar para as academias, pensei: "é bom para quem freqüenta esses lugares, pois é melhor praticar Yoga, mesmo que seja num ambiente diferente do convencional, do que passar longe desta forma de vida".
 
Assim sendo, concordo totalmente com as palavras da professora paulistana Kathy Lobos: é muito mais difícil ensinar Yoga fora de uma escola de Yoga. Dei aula durante cinco anos no presídio masculino de Florianópolis e sei que de fato, ensinar Yoga em ambiente de Yoga é infinitamente mais fácil que nos outros lugares. Quem pratica fora dos estúdios de Yoga, às vezes, pode estar muito mais motivado do que quem os freqüenta. A dificuldade funciona para essas pessoas como um estímulo extra.
 
Tenho muitos bons amigos que trabalham em academias no Rio e em São Paulo e sei positivamente que eles são excelentes professores, praticantes dedicados que transmitem o Yoga da maneira mais fidedigna. Ninguém com dois dedos de testa poderia considerar que professores do nível de Rui Afonso, Ana Malagueta, Bruno Jones, Dany Sá ou Edi Lisboa (só para citar uns poucos), estejam banalizando o Yoga pelo fato de ensinarem em academias.

Obviamente, em todos os ambientes podemos encontrar pessoas motivadas para alcançar a meta do Yoga e outras que não querem ir além de benefícios como bem-estar, saúde, e gerenciamento do estresse. Mas, o foco de cada praticante nem sempre coincide com a visão do professor. Pessoas simplesmente praticam porque ouviram dizer que é bom, e cada um o faz com uma motivação diferente.

Creio, por outro lado, que o preconceito, se existe, possa estar baseado numa certa rivalidade entre alguns professores de Yoga e outros de educação física que, sem haver compreendido bem o que seja o Yoga, tendem a achar que não precisam estudar Yoga para dar aulas, uma vez que as academias, tradicionamente, sempre foram território dos professores de educação física. Isso tampouco exclui a constatação de que existem excelentes professores de Yoga formados em educação física. Mas esses são assuntos para outra matéria.

Gosto de pensar no Yoga como uma imensa e frondosa árvore que generosamente dá seus frutos para quem quiser pegá-los. Cada praticante irá colher aqueles frutos que, desde sua motivação, consegue enxergar. Assim, se eu preciso uma solução para minha insônia, praticarei com esse intuito. Se preciso melhorar a minha auto-estima, meu foco estará nessa tarefa. Alguém me negaria o direito de ir para o Yoga com essas finalidades?

Se, depois de haver praticado por um bom tempo, depois de haver resolvido os probleminhas básicos que habitualmente nos levam para a prática (ansiedade, falta de concentração, etc.), ainda olhamos um pouquinho além e percebemos que o objetivo final do Yoga é a liberdade, vislumbraremos esse objetivo na forma dos frutos menos visíveis e óbvios dessa grande árvore. Esses frutos estão escondidos atrás das formas e aparências.
 
Para sermos fiéis à tradição do Yoga, como professores, nunca deveriamos deixar de praticar e ensinar com o intuito da liberdade. Essa é a responsabilidade de cada professor. Dentro ou fora das academias. Dentro ou fora dos estúdios de Yoga. Namaste!

Texto escrito originalmente para a revista Prana Yoga Journal, edição de julho de 2008. Visite o website da revista em www.eyoga.com.br.

Respostas:

Kathy

Postado em: 20 de Setembro de 2008 às 13h19

Sempre admirei seu jeito de escrever e confesso que fazia tempo que não lia nada escrito por você; nao por desinteresse mas andei em outras leituras e outros caminhos buscando e ensinando yoga,mas como participamos da mesma entrevista acabei por entender algumas dificuldades em imaginar yoga em academias e algumas mundanças a partir da informação. Nada mais yogui do que ser livre. Adorei... Namastê! Kathy Lobos.

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Pedro Ferreira

Postado em: 02 de Setembro de 2008 às 19h45

Boa Noite a todos. Eu sou iniciante no yoga, faz agora 3 meses que comecei. Acho que começo aos poucos a tomar consciencia do quanto é bom e de como me tem feito bem praticar yoga. Para mim o yoga é tão completo que nos permite encara-lo de mil e uma formas. Tenho de confessar que inicialmente fui desconfiado, para mim fazer yoga foi uma experiencia completamente nova, mas hoje identifico-me com varias filosofias do yoga a minha percepção do yoga é que é uma modalidade para todo o tipo de pessoas cada uma com as suas motivações. Quanto a alguns artigos que li sobre o tema, falam-se várias coisas. Eu pratico num centro de yoga, nunca pratiquei num academia ou ginasio por isso nao tenho uma opinião bem formada mas pelo que conheço dos ginasios acho muito dificil conseguir criar um ambiente externo propicio ao yoga que se consegue criar num centro de yoga .

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Silce Santoni Inacio

Postado em: 26 de Julho de 2008 às 23h41

Olá Pedro! Eu sou iniciante no yoga, pratico tanto em casa como na academia, eu sei bem que lá não é o melhor lugar para praticar, mas é o que eu posso no momento, e o mais importante de tudo isso, é o que eu estou buscando, a minha busca pelo presente e pela liberdade. Concordo mais uma vez com suas palavras, que o importante é a intenção do instrutor e a busca pessoal de cada um, ou até aqueles, que mesmo não tendo um objetivo, um dia vão descobrir a maravilhosa arte que é o yoga! Namastê! Silce.

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Simone Murai

Postado em: 23 de Julho de 2008 às 16h27

Oi Pedro, fiz um comentário no outro artigo sobre "Yoga em Academias". Muito boas as suas palavras para explicar essa polêmica criada em torno do assunto. Penso da mesma forma. Conheci o Yoga em academia, fiz curso de formação de professor fora e voltei a dar aula em academia. Acho que, como disseram abaixo, com um trabalho sério podemos mudar essa visão. Muito obrigada pela reflexão! Namastê!

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Márcio

Postado em: 22 de Julho de 2008 às 18h15

Pedro, Seu artigo é uma aula de Yoga. Com humildade, vê virtude em todo lugar onde é possível vê-la. Não segrega, não discrimina, não coloca ninguém na torre zebúrnea de um grupinho especial, nem desmere ninguém por causa do lugar onde ensina. Apenas tece uma opinião, em cujas entrelinhas podemos ler o Yoga. Artigo e escritor sem pretensões, mas, por isso mesmo, grandes!

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Mario Casasanta

Postado em: 22 de Julho de 2008 às 00h23

Caríssimos: Este érealmente um tema que tem chamado a atenção de muitos praticantes hoje em dia. Conheci o Yoga em um ambiente bem incomum, em um convento para padres; um peregrino nos pediu abrigo e foi acolhido em nosso convento, mal imaginávamos que era um instrutor de Yoga formado, discipulo da grandiosa Regina Shakti, lá ele conseguiu alterar o dia a dia de muitos mendigos que moravam conosco e tb de muitos freis; naquela época nem sonávamos com incenso ou mantra mas simplesmente com a prática em si. Portanto, porque não? O Yoga em academias, embora o ambiente seja um pouco turbulado, pode sim, através de uma boa prática atrair bons adeptos... Pedro, gostei do artigo e recomendarei a muitos que ainda condenam a prática em academias. Namastê!

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Beatrice

Postado em: 21 de Julho de 2008 às 14h02

Es un muy lindo artículo. Es conciliador, es tolerante, es abierto. No he practicado yoga realmente y es algo que me he cuestionado. Pero la sola lectura de un artículo escrito así, es muy alentador. Refleja un pensamiento y una forma de ver la vida que ojalá pudiéramos alcanzar todos en todos los niveles de nuestra vida, en todas nuestras actividades. Gracias. Me hizo bien.

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Dany Sa

Postado em: 12 de Julho de 2008 às 21h20

Oi Pedro, Realmente ensinar Yoga em Academia é uma tarefa difícil, mas não impossível. Conheci o yoga dentro de uma academia e hoje sou uma prfessora que ensina em academias. Não é o lugar mais adequado, mas tenho certeza que com um trabalho sério , nós professores, conseguimos plantar sementinhas nos corações de muitos alunos, fazendo despertar o Yoga. Isso é muito gratificante! Obrigada pelo artigo! Namastê, Dany.

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