Hatha Yoga Pradípiká, capítulo II

Yogi Svatmarama - 25 de Dezembro de 2001 - 1 Comentário

O yogi que pratica perfeitamente os ásanas, alimenta-se com moderação e controla seus sentidos, deve agora praticar pránáyáma seguindo as instruções de seu guru.

Necessidade do pránáyáma.
II:1.
O yogi que pratica perfeitamente os ásanas, alimenta-se com moderação e controla seus sentidos, deve agora praticar pránáyáma seguindo as instruções de seu guru.

II:2.
Enquanto a respiração (prána) for irregular, a mente permanecerá instável; quando a respiração se acalmar, a mente permanecerá imóvel e o yogi conseguirá a estabilidade. Por conseguinte, deve-se controlar a respiração (praticando pránáyáma).

II:3.
Enquanto houver alento no corpo, haverá vida. Quando o alento parte advém a morte. Por isso, é necessário restringi-lo através da prática de pránáyáma.

Nádí shodhana: a necessidade de purificar as nádís.
II:4.
Enquanto permanecerem impurezas nas nádís (ídá e pingalá), o prána não poderá entrar no canal central, sushumná. Desta forma, o yogi não conseguirá o estado de unmani avasthá nem terá sucesso nas práticas.

II:5.
Somente quando se tenham purificado todas as nádís que ainda estiverem impuras, o yogi poderá praticar pránáyáma com sucesso.

II:6.
Portanto, deverá se praticar pránáyáma diariamente, com um estado mental em que predomine sattva, até que sushumná fique livre de impurezas.
Nádí shodhana pránáyáma a respiração polarizada.
II:7.
Na postura padmásana, o yogi deve inalar (púraka) através da fossa nasal esquerda (chamada ídá ou chandra) e, após reter a respiração (kúmbhaka) tanto quanto lhe seja possível, deve exalar (rechaka) pela fossa nasal direita (chamada pingalá ou súrya).

II:8.
A continuação se deve inalar pela narina direita (pingalá), praticar kúmbhaka como antes, e exalar pela esquerda (ídá).

II:9.
Depois do rechaka deve-se fazer (sempre) púraka pela mesma fossa nasal. O kúmbhaka deve manter-se o máximo possível (até que o corpo comece a tremer). (Depois do kúmbhaka) deve-se exalar lentamente (pois exalando rapidamente, a energia do corpo irá reduzir-se).

II:10.
Ao inspirar prána através de ídá, se deve exalar através de pingalá; a continuação inspira-se (prána novo) por pingalá e se exala por ídá, sempre depois de ter retido a respiração (kúmbhaka) o máximo tempo possível. O yogi que se aperfeiçoar na prática da ética e que praticar esta respiração alternada (nádí shodhana), purificará todas suas nádís em três meses.

Fases do pránáyáma.
II:11.
Deve-se praticar pránáyáma quatro vezes ao dia: na primeira hora da manhã, ao meio-dia, pela tarde e à meia-noite, progredindo de forma gradativa até que se possam fazer oitenta kúmbhakas (em cada sessão).

II:12.
Na primeira fase há transpiração, na segunda há tremores e na fase superior o prána chega ao lugar mais excelso (brahmárandhra, a abertura do canal axial, no topo da cabeça). O pránáyáma deve praticar-se desta forma.

II:13.
Se houver transpiração, deve se aplicar uma massagem (esfregando a pele, para reabsorve-la); desta forma, o corpo se torna leve e forte.

II:14.
No início da prática (de pránáyáma) o yogi deve tomar os alimentos misturados com leite e ghee. Quando a prática evoluir, estas restrições não serão mais necessárias.

Prática correta.
II:15.
O prána deve controlar-se gradualmente, igual que se domam os leões, os elefantes e os tigres (pouco a pouco, com paciência e energia), pois do contrario o praticante poderia morrer.

II:16. A prática correta de pránáyáma libera de todas as doenças, mas uma prática incorreta pode produzi-las.

II:17.
Uma prática incorreta (de pránáyáma) pode ocasionar moléstias em olhos, nariz e ouvidos, dores de cabeça, soluço, asma e outras dolências (pulmonares)


II:18.
Para obter a perfeição na prática (siddhi) deve-se inalar e exalar lentamente, procedendo também de forma gradual com o kúmbhaka.

Efeitos.
II:19.
Quando as nádís estão purificadas, o corpo emagrece e brilha de forma natural.

II:20.
Então, o yogi é capaz de reter a respiração à vontade, se ativa o fogo gástrico, o náda (som interior) se faz audível e a saúde é perfeita.

O shatkarma, as purificações físicas.
II:21.
O shatkarma deve constituir a primeira prática para as pessoas fleumáticas e de constituição débil. Em outro caso (com vata, pitta e kapha equilibrados), não é preciso.

II:22.
As seis ações (shatkarma) são dhauti, vasti, neti, trátaka, nauli e kapálabháti.

II:23.
Estas ações que purificam o corpo são secretas. Possuem múltiplos, surpreendentes resultados e são tidas em grande estima pelos yogis.

Dhauti, a purificação do trato digestivo.
II:24.
Dhauti: engole-se lentamente uma tira de pano umedecida, de quatro polegadas de largura e quinze palmos comprimento e se retira em seguida, seguindo as instruções do guru.

II:25.
O Dhauti é efetivo contra a asma, as doenças bronquiais, problemas no fígado, a lepra e muitas outras doenças que surgem por causa do desequilíbrio da fleuma (kapha). Não há dúvida sobre isto.

Vasti, a lavagem intestinal.
II:26.
Vasti: em utkatásana (sentado de cócoras, com os pés juntos e as nádegas sobre os calcanhares) e submergido em água até o umbigo, se introduz no reto um tubo fino de bambu e se contrai o esfíncter anal (e o abdômen, para puxar a água, faze-la circular dentro do ventre e, finalmente, expeli-la).

II:27.
A prática de vasti é eficaz contra o inchaço dos órgãos internos e o fígado, doenças estomacais e todas as enfermidades advindas do excesso ou do desequilíbrio de vata, pitta e kapha.

II: 28.
A prática correta de vasti, purifica os constituintes corpóreos (dhatus), os órgãos dos sentidos (indriyas) e a mente (antahkarana); deixa o corpo brilhante e aumenta o poder digestivo, eliminando todos os desequilíbrios fisiológicos.


Neti, a purificação dos seios nasais.
II:29.
Neti: introduz-se um fino cordão, de um palmo de comprimento, por uma das fossas nasais e se puxa pela boca.

II:30.
Purifica o crânio e melhora a acuidade da visão, eliminando rapidamente todas as moléstias que possam surgir acima da linha dos ombros.

Trátaka, a purificação dos olhos.
II:31.
Trátaka: olha-se fixamente, sem pestanejar, um objeto pequeno, até surgirem lágrimas nos olhos. Os mestres chamam esta prática de trátaka.

II:32.
Elimina a preguiça e todas as doenças oculares; deve manter-se cuidadosamente em secreto, como uma caixa de jóias.

Nauli, a purificação do abdômen.
II:33.
Nauli: inclinar os ombros para frente apoiando com firmeza as palmas das mãos no solo; fazer girar o ventre para a esquerda e para a direita, como um redemoinho em um rio. Os siddhas chamam esta técnica de nauli.

II:34

Nauli
Esta excelente prática de Hatha Yoga elimina a inêrcia do fogo gástrico, estimula a digestão, deixa uma sensação agradável e elimina todos os males e desajustes dos humores.

Purificação dos pulmões e dos seios cranianos.
II:35.
Kapálabháti consiste em fazer rechaka e púraka rapidamente, como o fole de um ferreiro. Esta técnica denomina-se kapálabháti e elimina todos os males atribuídos à fleuma (kapha dosha).

II:36.
Estas seis práticas eliminam a obesidade, os transtornos da fleuma e as impurezas; fazendo pránáyáma a continuação, se alcança o sucesso sem esforço.

Purificação de todas as nádís.
II:37.
Alguns mestres opinam que as nádís podem ser purificadas somente através da prática de pránáyáma, e que o shatkarma é desnecessário.

II:38.
Gajakaraní: com ajuda de múla bandha, se faz subir o apána para a garganta e regurgitar o que houver no estômago; com a prática gradual desta técnica do Hatha Yoga se podem controlar todas as nádís.

Conclusões.
II:39.
Todos os deuses, incluído Brahmá, têm se dedicado à prática do pránáyáma, livrando-se assim do medo da morte; portanto, é conveniente praticar o controle respiratório.

II:40.
Enquanto o prána estiver controlado, a mente calma e estável e o olhar fixo entre as sobrancelhas, não deve temer-se à morte.

II:41.
Uma vez purificadas as nádís com a prática regular de pránáyáma, o prána atravessa a entrada da sushumná nádí e penetra nela facilmente.

II:42.
Quando o prána flui através da sushumná nádí, a mente se estabiliza; esta fixação da mente se chama unmani avasthá (ou manomani avasthá).

II:43.
A fim de conseguir tal estado, os yogis expertos praticam diferentes kúmbhakas, obtendo assim maravilhosos resultados (siddhis).

As oito técnicas de respiração.
II:44. Há oito kúmbhakas: súryabhedana, ujjayí, sítkarí, sítalí, bhastriká, bhrámarí, múrcchá e pláviní.

Os bandhas, as contrações que se fazem durante o pránáyáma.
II:45.
Ao final de púraka deve-se praticar jalándhara bandha; e ao final de kúmbhaka e principio de rechaka deve-se fazer uddiyana bandha.

II:46.
Praticando jalándhara bandha, múla bandha e uddiyana bandha ao mesmo tempo (durante a expiração), o prána flui por sushumná.

II:47.
Impulsionando o apána para cima (com múla bandha) e fazendo descer o prána desde a garganta (com jalándhara bandha), o yogi se libera da velhice e torna-se um jovem de dezesseis anos.

Súryabhedana, a respiração solar.
II:48.
Súryabhedana: o yogi deve sentar-se em um ásana adequado, em um assento confortável, e inalar lentamente pela a fossa nasal direita (pingalá).

II:49.
A continuação deve praticar kúmbhaka até que senta o prána penetrar em todo seu corpo, desde a ponta dos cabelos até as unhas dos dedos dos pés; então deve exalar lentamente através da fossa nasal esquerda (ídá).

II:50.
Este excelente súryabhedana deve praticar-se uma e outra vez, pois despeja o cérebro (lóbulo frontal e seios), combate as parasitas intestinais e cura os males causados por excesso de vata.

Ujjayí, a respiração que outorga a vitória.
II:51.
Ujjayí: com a boca cerrada, inalar lentamente por ambas as fossas nasais, de tal forma que o ar produza um ruído (surdo) ao passar pela garganta para os pulmões.

II:52.
Praticar kúmbhaka como antes e exalar pela narina esquerda (ídá); com esta técnica eliminam-se os problemas de fleuma na garganta e se incrementa a capacidade digestiva do corpo.

II:53.
Também cura a hidropisia e os desequilíbrios nas nádís e nos dhatus; este kúmbhaka se pode praticar de pé, tanto imóvel como caminhando.
Shítkarí, a respiração refrescante.

II:54.
Shítkarí: inalar pela boca produzindo um som sibilante, ao manter a língua entre os dentes, e exalar a continuação pelo nariz; a prática continuada desta técnica torna o yogi belo como o deus do amor, Kámadeva.

II:55.
Então, se torna muito atrativo para as yoginís, controla suas ações, não sente fome, nem sede e não se vê afetado pela sonolência o a preguiça.

II:56.
Com esta prática consegue força física e se torna em mestre de Yoga, livre de todas as misérias terrenas.

Shítalí, a respiração refrescante.
II:57.
Shítalí: inalar através da língua em forma de tubo, como o pico de um pássaro, projetada um pouco por fora dos lábios; a continuação, exalar lentamente através do nariz.

II:58.
Este kúmbhaka cura as doenças do abdômen e do baço, entre outras; também evita a febre, a tendência a sofrer transtornos biliares, a fome, a sede e os efeitos dos venenos.

Bhastriká, a respiração do fole.
II:59.
Bhastriká: adotando padmásana, ao colocar os pés sobre as coxas (contrários), se eliminam os efeitos nocivos de todas as doenças.

II:60:61.
Após haver adotado corretamente tal postura, com as costas e a nuca alinhadas, cerrar a boca e exalar com energia pelo nariz de tal forma que se sinta a pressão no coração, a garganta e a cabeça; a continuação, inalar com rapidez até que a respiração alcance o loto do coração.

II:62:63.
Repete-se a expiração e a inspiração da mesma forma uma e outra vez, igual que um ferreiro manejando seu fole com força; desta maneira se consegue uma circulação constante de prána pelo corpo; quando se senta o corpo cansado exalar (lentamente) por pingalá.

II:64.
Depois de encher o interior do corpo com prána, fechar ambas as fossas nasais com o polegar, o anular e o mínimo; fazer kúmbhaka como antes e exalar (lentamente) através de ídá.

II:65.
Isto elimina os desequilíbrios causados pelo excesso de pitta, kapha e vata e estimula o fogo gástrico do corpo.

II:66.
Este procedimento desperta a kundaliní rapidamente, purifica as nádís, é agradável e benéfico; desta maneira se elimina a mucosidade que obstrui a entrada da sushumná.

II:67.
Este kúmbhaka, denominado bhastriká, deve praticar-se especialmente, pois faz com que o prána atravesse os três nós (granthis) que estão ao longo da sushumná (brahmágranthi, vishnugranthi, rudragranthi).
Bhrámarí, a respiração do zumbido.
II:68.
Bhrámarí: inalar rapidamente, produzindo o som do vôo de um zangão, e expirar a continuação com lentamente (depois de fazer kúmbhaka), produzindo o som do vôo de uma abelha; com a prática de este exercício, os grandes yogis experimentam uma felicidade indescritível em seus corações.

Murcchá, a respiração extenuante.
II:69.
Múrcchá: ao final de púraka se executa um firme jalándhara bandha e depois se espira lentamente; este kúmbhaka reduz a atividade mental de forma muito agradável.

Pláviní, a respiração flutuante.
II:70.
Pláviní: quando se enchem os pulmões completamente de ar, o yogi pode flutuar facilmente na água, como uma folha de loto.

Tipos de retenção respiratória.
II:71.
Há três tipos de pránáyáma: rechaka, púraka e kúmbhaka. O kúmbhaka é também de dos tipos: sahita (com púraka e rechaka) e kevala (sem púraka nem rechaka).

Kevala kúmbhaka, a retenção absoluta.
II:72.
Kevala é um kúmbhaka independente de púraka e rechaka, durante o qual se retém prána sem esforço algum; enquanto que não se domine totalmente kevala, se deve praticar sahita.
II:73.
Certamente, quando se pratica kevala kúmbhaka (retendo a respiração à vontade), se obtêm o estado de Rája Yoga.

II:74.
Quando se domina o kevala kúmbhaka, sem necessidade de púraka e rechaka, não existe nada no mundo (interior) que esteja fora do alcance do yogi.

II:75.
Por meio de kevala kúmbhaka se desperta kundaliní e sushumná fica livre de obstáculos, alcançando-se (gradualmente) a perfeição em Hatha Yoga.

Rája Yoga e Hatha Yoga.
II:76.
Não se pode aperfeiçoar o Hatha Yoga sem a prática do Rája Yoga e vice-versa; portanto, deve-se praticar ambos até que se obtenha a perfeição em Rája Yoga.

II:77.
Ao final da retenção do alento no kúmbhaka, deve-se afastar a mente de todos os objetos; praticando assim se alcançará o estado de Rája Yoga.

Efeitos da prática.
II:78.
Quando se aperfeiçoa o Hatha Yoga aparecem os seguintes sinais: agilidade física, brilho no rosto, manifestação da vibração sutil interior (náda), olhar penetrante e claro, saúde, controle do fluido seminal (bindu), aumento do fogo digestivo e total purificação das nádís.

[Aqui conclui o segundo capítulo do Hatha Yoga Pradípiká, que versa sobre a purificação das nádís (nádí shodhana), a expansão da força vital (pránáyáma) e as purificações corpóreas (shatkarma).]

Índice temático (com referência ao número do verso) Capítulo II Necessidade do pránáyáma, 1-3 Necessidade de purificar as nádís, 4-6 Nádí shodhana, 7-10 Fases do pránáyáma, 11-14 Prática correta, 15-18 Efeitos, 19-20 Purificações, 21-23 Dhauti, 24-25 Vasti, 26-28 Neti, 29-30 Trátaka, 31-32 Nauli, 33-34 Kapálabháti, 35-36 Purificação de todas as nádís, 37-38 Conclusões, 39-43 Técnicas de pránáyáma, 44 Bandhas nos pránáyámas, 45-47 Súryabhedana, 48-50 Ujjayí, 51-53 Shítkarí, 54-56 Shítalí, 57-58 Bhástriká, 59-67 Bhrámarí, 68 Múrcchá, 69 Pláviní, 70 Tipos de kúmbhaka, 71 Kevala, 72-75 Rája e Hatha, 76-77 Efeitos da prática, 78

Respostas:

Romã

Postado em: 25 de Novembro de 2009 às 21h11

Olá, Pedro.

Gostaria de agradecer pela disponibilização das traduções das escrituras aqui no site. Em relação as interpretações que existem sobre os yamas, vi que aqui no Hatha Yoga Pradípiká, no II:54 e no II:55, talvez tenha uma informação que nos remete ao yama brahmacharya. Achei curioso o texto citar que a prática do Shítkarí torna "o yogi belo como o deus do amor, Kámadeva" e afirmar que com ela o yogi "se torna muito atrativo para as yoginís". Isso não me parece nenhuma prédica de \\\'liberou geral, somos tântricos\\\', mas também está longe de ser um aviso como \\\'cuidado, afastem-se mulheres, yogi meditando\\\'.

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