A derradeira questão
Ciro Castro - 02 de Junho de 2009 - 3 Comentários
Muito se fala sobre os objetivos maiores, mais profundos, ou mesmo, os verdadeiras metas do Yoga em livros, aulas e palestras. Professores preocupados em transmitir essa tradição de forma fiel ao que lhes foi ensinado apontam para o conceito de libertação, de moksa, como o alvo que o yogi deve atingir.
Partindo do denso para o sutil, como já sabemos, o estudante deve pôr seu corpo à prova executando ásanas, elevar seu nível de energia respirando nos pranayamas, procurar adaptar seu estilo de vida ao que é sugerido nos conceitos apresentados nos yamas e niyamas. A partir daí o caminho mais interno, mais sutil, desta cultura milenar se abre de forma mais clara. Retrair os sentidos e focar a mente num único ponto até que essa concentração seja absoluta e contínua. Eis de fato uma prática completa de Yoga.
Os frutos em se superar caminho tão estreito e disciplinador são belos e estimulantes. Conhecer sua verdadeira natureza, conhecer o Ser, aquele que tudo permeia e a nada pertence, aquele que não é palpável, porém do qual fazemos parte como um todo absoluto. Não existe tesouro maior para um ser humano receber. Essa realização acontece ao utilizar-se a prática do Yoga como um contexto no qual refletir sobre o conhecimento de si mesmo, produto do auto-estudo que deve obrigatoriamente acompanhar as práticas.
Contudo, muitos não irão tão longe em suas práticas, muitos nem mesmo a começarão! Boa parte ficará perdida no labirinto do ego, acreditando em verdades tão confiáveis como anúncios de televisão. Boa parte terá como objeto maior a elasticidade, a plastica dos asanas, a vitalidade dos pranayamas. O restante, que passou pelo funil, ainda percorrerá por desafios maiores. Acreditar que uma mente focada e extremamente sagaz seria a liberdade. Não perceber que um grande poder focado em motivações pouco nobres ou mesmo egoístas certamente causaram grande estrago para o praticante e também para outros.
Superar, deixar de lado, ter o poder nas mãos e com a humildade celebrada por nobres santos de desfazer do que poderia ser uma arma perigosa. Como um presidente de uma grande nação, como o herdeiro multimilionário que teria o mundo ao seus pés e mesmo assim procura adequar sua vida a um bem maior, o verdadeiro yogi supera a si mesmo provavelmente na maior prova de austeridade conhecida pela humanidade e, ao final, depara-se com a derradeira questão: se apegar a sua própria grandiosidade ou diluir-se no amor infinito do Ser primordial?
De cara ao espelho, como um narciso as avessas, este supremo praticante esta prestes a realizar o ato cabal de sua existência. Sair como a estrela do espetáculo para receber os louros e fama de um artista internacional? Ao fim, o oposto se realiza. Ele sai pelos fundos, horas depois do ultimo espectador do espetáculo chamado vida, como um humilde faxineiro que encara seu rotineiro, pacato e árduo trabalho com naturalidade, e que acima de tudo tem a suprema consciência que tudo está relacionado, sendo cada faceta do mesmo rosto importante e essencial como a face supostamente mais bela.
Ciro é professor de Yoga em Floripa. O email dele é ciroyoga@gmail.com e seu blog, www.keepom.blogspot.com.
Respostas:
Vicente Morisson
Postado em: 04 de Junho de 2009 às 12h06
Belo texto, Ciro! Parabéns!!! Om!
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Ana Paula
Postado em: 04 de Junho de 2009 às 10h20
Namaste. Esta visão do yoga como moksha é muito difundida indicando que o Ser, atma, pode ser obejtificado ou experenciado. Hatha Yoga não traz moksha, apenas uma experiência de samadhi de olhos fechados e que, ao abri-los, termina imediatamente. Ler textos que falam sobre moksha sem ter contato com um mestre fundado em uma tradição e numa linhagem de ensinamento leva a enganos como o que está escrito neste texto. A pratica de asanas, pranayamas, meditação, etc., como descrita nos Sutras de Patanjali são instrumentos para o corpo e a mente. Através destes instrumentos adquirimos saúde e mente focada para sentar e ouvir o ensinamento que levará, aí sim, a moksha. Asanas são bons para o corpo, bem como os pranayamas. Seus objetivos: terapia para obter saúde. Esperar que, como o autor menciona, a prática irá levá-lo a "conhecer o Ser" é o engano mais difundido no mundo do Hatha Yoga. Daí as frustrações que com o tempo, inevitavelmente, vem. O Ser somente é "conhecido" (entendido) através de palavras, shabda pramanam, e estas levarão o aluno a entender atma como satyam jñanam anantam brahma. O Ser é auto-evidente da mesma maneira que o pote não existe sem o barro. O barro está a todo momento alí, mas o pote pensa ser pote. Os siddhis (poderes) mencionados no texto que podem ser obtidos, com certeza não é através desta prática de ásanas e limitados pranayamas que vemos pelas "escolas de yoga". São práticas dioturnas de pranayamas ( 4x por dia, pelas manhã, meio-dia, a tarde, e meia-noite) com horas de duração; meditações longas, dietas, satkarmas,etc. Basta ler os textos tradicionais como Hatha Yoga Pradipika, Gheranda Samhita, etc. Isto que é praticado, séries de ásanas, só leva a saber fazer ásanas e ter saúde. Só! Ir além é um ledo engano. Entendo que o autor, com todo o respeito, mostrou uma maneira bela em enxergar o hatha yoga, mas que não condiz com a realidade. "Se apegar a sua própria grandiosidade ou diluir-se no amor infinito do Ser primordial?" é lindo em se dizer mas é um mito que traz muitos problemas e tem afastado as pessoas, pois espera-se algo da prática que ela não pode dar. Toda a grandiosidade é Brahman, todo o poder é de Ishvara, tudo nos é dado e por um certo tempo. O Ser não é amor infinito, pois amor é uma experência que tem início, meio e fim. O "Ser primordial" é sempre existente. Se fosse primordial teria o segundo, o terceiro e assim por diante. Por esta razão o ensinamento é não-dual e não, monista. Monista indica a extistência de outro e não dual indica: "não existem dois". Já somos tudo, já temos tudo, só não sabemos. Om Ta Sat.
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Marcos F. Taschetto
Postado em: 03 de Junho de 2009 às 15h00
Simples, direto e profundo. O texto me deixou imagens muito significativas da prática e da vida. Belo texto. Namastê.
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