Por que Yoga?
Pedro Kupfer - 10 de Julho de 2009 - 9 Comentários
Por que deveria eu fazer praticar Yoga? Não acho que você deveria praticar por ser mulher ou homem, jovem ou velho. Você deveria considerar a prática de Yoga, em primeiro lugar, porque você é um ser humano. E o Yoga é para seres humanos. É um caminho que ensina os humanos a vivermos uma vida mais tranqüila e feliz. Para além dos benefícios físicos, energéticos, mentais ou emocionais que esta prática possa trazer para uma mulher ou um homem, o Yoga é uma arte que nos ensina a viver felizes.
O Yoga como prática e como escola de vida.
O Yoga é uma escola de auto-conhecimento, com uma tradição milenar que, como você deve saber, nasceu na Índia. Hoje em dia, a visão do Yoga, embora tão antiga, continua fazendo perfeito sentido, uma vez que, sem ser uma religião, pode responder aos anelos que as religiões preenchiam até um tempo atrás. O Yoga é diferente das religiões que, de modo geral, estão centradas em nos trazer conforto. O Yoga não conforta nem afaga. O Yoga liberta, ajuda a crescer.
Sem ser uma ciência, apresenta as coisas de uma maneira muito empírica, o que deixa bem à vontade àqueles que não gostam muito de coisas que não possam verificar por si mesmos. Sem ser uma arte, na prática, percebemos que tem algo similar à arte, pois nos ensina a arte da felicidade, que não é uma arte menor. Muito se fala sobre a filosofia do Yoga, mas essa filosofia não é algo que esteja desconectado do nosso cotidiano, da maneira em que vivemos o dia-a-dia.
Em resumo, o que podemos dizer sobre a filosofia do Yoga é que ela nos ensina que nos já somos a felicidade que estamos buscando. Que não precisamos ser diferentes do que somos para sermos felizes. Que não precisamos correr atrás de nenhuma das quimeras que a sociedade nos impõe para termos uma vida tranqüila. Que não precisamos que algo aconteça do lado de fora para trazer a felicidade para dentro das nossas vida (e isso exclui até a busca pelo príncipe azul ou pela princesa encantada!).
O problema da minha auto-imagem.
Geralmente, quando penso em mim mesmo ou em mim mesma, não me vejo como alguém completo ou feliz. Esse problema não vai ser resolvido tirando todos os demais problemas da minha vida. Esse problema está mais vinculado com a falta de conhecimento que tenho sobre mim mesmo do que com alguma situação ou experiência que eu esteja vivendo. Portanto, isto se resolve através do auto-conhecimento, e não de evitar ou atrair determinadas situações em minha vida.
Comumente, quando me olho no espelho, vejo uma pessoa incompleta, carente, que precisa de alguma coisa para se completar e assim, ser feliz. Vejo alguém que não é, ou pelo menos não se sente, completamente feliz. Poderíamos chamar isso de crença ou feitiço: uma força que, baseada num pressuposto equivocado sobre mim mesmo ou mim mesma, me condiciona a agir de uma determinada maneira e acaba por me colocar em situações de conflito, desconforto ou sofrimento desnecessários.
O que o Yoga me ensina é que, dentro dessas limitações ou imperfeições que possa ver em mim mesmo ou mim mesma, sou simplesmente perfeito ou perfeita. Ou seja, não preciso sair de onde estou, ou renunciar ao meu trabalho, ou me mudar para outra cidade, ou mudar de família, para ser feliz.
Não estou dizendo, com isto, que devamos nos conformar e nos acomodar em situações que atentem contra a nossa dignidade, contra nossos direitos, ou nas quais nos sintamos desconfortáveis. Só estou dizendo que as ações que possamos fazer nesse sentido, embora possam ser vistas como boas, ou doadoras de satisfação, não são capazes de trazer a felicidade para nossas vidas.
A solução: cultivar o discernimento.
Reflita sobre isto, repetindo mentalmente estas palavras:
Que eu tenha força para mudar o que deve ser mudado. Que eu tenha paciência para aceitar o que não pode ser mudado. Que eu tenha discernimento para compreender a diferença entre ambos.
A questão não está no que você faz, nem naquilo que você chama de Yoga, mas na sua intenção, no propósito pelo qual você faz suas ações. O fato de eu fazer posturas não significa que esteja fazendo Yoga, se não fizer a prática focado na minha libertação. O fato de praticar respiratórios ou meditação tampouco significa que eu esteja fazendo Yoga, se não fizer a prática focado na minha libertação.
Conclusões.
Nesse sentido, se eu pratico Yoga para aprender sobre mim mesmo ou mim mesma, se souber tirar da minha prática lições que possa aplicar na vida, e isso me ajuda no processo da minha liberdade pessoal, então, posso chamar a prática de Yoga. Por outro lado, se eu fizer posturas ou meditação com um propósito diferente dessa meta que é a liberdade, então perco o direito de chamar aquilo de Yoga.
Recomendaria aos interessados, então, que comecassem a caminhada no Yoga pela prática do Hatha, o Yoga do corpo, para perceber o quanto aqueles efeitos das posturas, relaxamentos e respiratórios, aparentemente sutis, vá transformando aspectos da sua vida com os quais não haveria conexão aparente. Eventualmente, a sede pelo auto-conhecimento virá e será saciada em algum momento desse processo. Lembre que é nessa direção que estamos caminhando. Boas práticas! Namastê!
Respostas:
Tales
Postado em: 03 de Agosto de 2009 às 22h44
O ilustre Sherlock Holmes e seu fiel companheiro Watson estavam em busca de solucionar mais um mistério. Durante a busca, precisaram dormir no campo. No meio da noite, Holmes acorda, cutuca o seu parceiro e pergunta: "Watson, abra os olhos e me diga o que você vê de diferente". Watson olha para o céu e diz: "O céu está limpo, as estrelas estão brilhando. A luz dessas estrelas leva milhões de anos para chegar até nós. Elas briham com luz própria, enquanto a lua que está no céu, reflete o sol que em breve nascerá. É isso que vejo. E você Holmes, o que vê?". Responde então o ilustre detetive: "Vejo que roubaram a nossa barraca". A historinha nos mostra como nós não enxergamos o óbvio. O Yoga e textos assim nos fazem lembrar dessas obviedades que esquecemos. Valeu Pedro!!!
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Eduardo
Postado em: 23 de Julho de 2009 às 09h48
"É esta a ciência de ver, que não é nenhuma" Fernando Pessoa como Alberto Caeiro. Claro e objetivo. Obrigado!
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Mary Carmen Niella
Postado em: 17 de Julho de 2009 às 23h59
¡Pedro querido siempre tan accesible y claro en tus escritos, tan prácticos! Tenés realmente el don de llegar con sinceridad y eficiencia al lector, y al mismo tiempo con mucho conocimiento de causa. No hay duda de que hablás desde la experiencia, el corazón y la reflexión profunda. ¡Muchas gracias por permitirnos a los que estamos lejos participar de esta forma de esta comunidad tan viva y generosa! ¡Aguije!
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Lu
Postado em: 17 de Julho de 2009 às 20h31
Gostei muito desse seu artigo, Pedro. Obrigada por nos proporcionar essa reflexão tão fundamental sobre o que nos motiva, ou melhor, o que deveria nos motivar a praticar Yoga. Namastê!
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Marina
Postado em: 17 de Julho de 2009 às 14h29
Obrigada pelo texto! É gratificante poder ler cada palavra escrita aqui. Namastê!
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Paulo
Postado em: 15 de Julho de 2009 às 15h13
Olá Pedro. Esse texto me fez pensar bastante. O aforisma veio bem a calhar. É sábio e pode ajudar a nortear nossas ações em diversas circunstâncias. Conheci o Yoga há três anos. Receio nunca ter conseguido meditar, mas consigo aquietar a mente; nunca consegui fazer um yoganidrá perfeito, mas consigo relaxar o corpo; ásanas? Talvez, posturas com alongamento, equilíbrio e força; pranayama? Talvez sim; Yamas, nyamas ... difícil seguir todos os princípios, mas consigo não roubar e não mentir. Certa vez, alguém me perguntou por que faço Yoga. Eu lhe respondi perguntando-lhe por que alguém decide jogar vôlei, capoeira, tocar piano, escalar, pedalar ou surfar. Faço yoga porque gosto. Entendo que os ásanas são a porta de entrada do yoga. Por serem tangíveis e sedutores, são eles que me atraíram para a prática. Gostei muito de uma definição que ouvi de você em um vídeo. Você definiu yoga como sendo uma cultura. Mas se vivo em uma cultura capitalista, que come carne, bebe cerveja, consome TV, cinema, restaurantes, etc., como fazer do yoga uma cultura se já vivo em uma? O ponto em que quero chegar é que pode haver ásana sem yoga, mas não pode haver hatta yoga sem ásana. Quando praticamos boas ações, estamos cumprindo os yamas. Acaso isso é yoga? Uma pessoa religiosa também costuma fazer boas ações. Quando alguém medita e alcança pratyahara, está praticando yoga. Mas quando um engenheiro desenvolve um projeto e passa um bom tempo concentrado naquilo, está também fazendo pratyahara, mas não é um yogi. Corrija-me, por favor, se estiver errado, mas não consigo enxergar a prática do Yoga sem execução de ásanas. Parabéns pelo texto e boas ondas.
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Danielle Gerber
Postado em: 09 de Julho de 2009 às 21h00
Agora entendi pq eu faço Yoga... Puxa num tinha pensado nisso... Acho que era por isso que estava inconstante na minha prática... Muito grata a quem escreveu esse texto!
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Fátima Faro Lopes
Postado em: 09 de Julho de 2009 às 15h16
Hoje recebi uma correspondência que dizia: ?se a ultima pétala der mal-me-quer, então, procure outra flor?. Fiquei encantada com essa nova ?aquisição?, já que coleciono aforismos e não o conhecia. Agora, lendo esse artigo fico pensando, cá comigo, que o Yoga pode ser considerado uma dessas flores que buscamos e acabamos por encontrar, a cada dia, um pouquinho mais, sendo que cada um tem seu motivo de buscá-lo, e mérito por encontrá-lo de forma livre, não equivocada, continuamente. E isso, independentemente da pétala que mais nos identificamos, pois todas elas constituem a mesma flor (pelo menos as pétalas que podem ser dignas de compor a flor do yoga, ou melhor, as que primam por proporcionar a arte do autoconhecimento, libertação dos condicionamentos psico-sociais, e por aí afora). Por sua vez, tudo isso me faz lembrar Emmanuel Munier e o seu Tornar-se Pessoa através do processo constante e perene de construção do ser humano, que, a meu ver, se associa muito bem com o yoga. E de ?posse? de ferramentas dessa natureza, o que temos a fazer senão agradecer a Deus (qualquer que seja o nome que lhe emprestemos) pela dádiva concedida? Paz & bem!
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