Vi o teu professor de Yoga na fila do churrasco!
Ana Sereno - 06 de Agosto de 2009 - 27 Comentários
Tornei-me vegetariana há apenas seis meses. Deixei de comer carne há dois anos mas continuei a comer peixe ocasionalmente. Não queria que a mudança fosse demasiado brusca para o meu organismo e também na minha cabeça preferi que a nova situação fosse ganhando espaço, embora não achasse que os peixes tenham menos direito à vida do que as vacas, porcos ou galinhas. Certa ou errada, foi apenas a forma que encontrei para tomar esta decisão.
Pratico yoga há seis anos e nunca o discurso do vegetarianismo me foi imposto por nenhum professor ou colega de prática. Era um assunto que frequentemente vinha 'à baila', mas sempre ouvi as opiniões pró e contra com a mesma intenção desinteressada e 'apolítica'. Inversamente, e passando do plano da opinião para o do ensinamento, fui percebendo que na tradição védica, tradição que enquadra a minha prática e visão do yoga, a questão é clara e centra-se no princípio básico de ahimsa (a não-violência), o primeiro yama de Patãnjali. A regra é básica 'não faças aos outros aquilo que não gostarias que fizessem a ti.'

Será que nós seres humanos gostaríamos de servir de alimento a outra espécie? Será que nós, seres humanos, somos de alguma forma superiores às outras espécies para nos impormos como predadores com armas tão desiguais? Será que nós, seres humanos, dotados de livre-arbítrio e capacidade de discernimento, devemos alimentarnos do sofrimento de outros seres quando somos os primeiros a ter alternativa?
Todas estas questões e muitas mais me foram invadindo o pensamento. Foram palpitando na minha mente e sobretudo no meu coração. Nada me estava a ser imposto, repito, e fisicamente sentia-me bem, não posso dizer o contrário. Apenas o meu coração começou a comunicar com o cérebro, transmintindo-lhe esta inquietude própria de quem percebe que está a magoar. Percebi que seria uma incoerência com aquilo que andava a estudar com tanta dedicação, e que rapidamente se tornou o meu código de conduta, pelo que decidi: 'não vou continuar a alimentar-me de animais'. Por mais que digam que pouca diferença faz porque milhões de pessoas continuarão a alimentar-se deles, eu repito aquilo que sempre disse: 'se ao longo da minha vida com esta decisão tiver contribuído para salvar uma vaca, dois porcos e dez galinhas já terá valido a pena!'
As acusações de fundamentalista do yoga a que fui sendo sujeita, na maior parte das vezes em tom de brincadeira é certo, sempre mexeram um pouco comigo. Para mim, fundamentalistas são aqueles que se recusam a ver para além dos paradigmas que a sociedade lhes impõe, mas lá me fui defendendo dos golpes de amigos e familiares, à direita e à esquerda, da forma mais diplomática que consegui.
Agora, e quando a questão se põe no seio da própria comunidade yogika? É certo que não somos todos iguais. Nós yogis e yoginis não somos uma massa uniformizada de indivíduos com rastas (que não tenho), com aptidão para as massagens (que não tenho) ou medicinas alternativas (que não tenho) e com OM's tatuados (que também não tenho). No entanto, se nos afirmamos como praticantes sérios, se nos apresentamos como professores de yoga temos de ser coerentes com aquilo que é o yoga. O yoga descondiciona-nos para nos permitir ver e sentir aquilo que somos, a nossa verdadeira natureza. O yoga não procura mudar aquilo que somos, apenas livrar-nos da ideias erradas que temos acerca daquilo que somos, como tal há que atravessar um processo, uma espécie de limpeza, em que as concepções erróneas vão sendo afastadas e o caminho vai ficando livre para ser trilhado. Em algumas pessoas a imagem correspondente seria a de uma retroescavadora a invadir um terreno baldio derrubando tudo o que lhe aparece à frente ? estes são os radicais que se rendem ao yoga numa semana, mas que depois se esquecem que é preciso manter o terreno para que as ervas daninhas não voltem à carga. Noutros o processo é mais comparado a uma limpeza gradual e sustentada, com utensílios mais subtis permitindo conservar aquilo que é benéfico e descartar aquilo que já não nos serve.
O vegetarianismo é um dos estágios deste processo de limpeza. Ao pararmos de nos alimentar do sofrimento de outros seres (que não importa agora estar a descrever mas que é por todos mais do que conhecido, sobretudo no que respeita a criação intensiva de animais e a forma como estes são mortos), estamos a limpar o nosso próprio coração da violência que isso envolve. Pois bem, infelizmente há muitos elementos, dos mais acérrimos até, da comunidade yogika que não entenderam o básico.
Em vários momentos me tenho apercebido que muitos praticantes de algumas tradições das mais exclusivistas, eu diria até snobs, do universo do yoga, nunca ouviram falar de vegetarianismo. Estes, que se apresentam como os verdadeiros representantes do yoga, criticando e subestimando os praticantes de outras tradições, são os primeiros na fila do churrasco. São os mesmos que defendem a lealdade aos seus mestres mas que são infiéis a si próprios pois não vivem em harmonia com aquilo que ensinam, simplesmente porque não o praticam.
De que serve seguir cegamente um mestre se a cegueira nos tolda o discernimento até na hora de escolher o que colocamos no prato? De que serve viajar até à Índia para aprender directamente da fonte se esquecemos de beber a àgua? Viagem até à Índia sim mas não queiram apenas aprender a forma mais bonita de fazer o vinyasa, ou a técnica mais elaborada para utilizar o bolster, o cinto ou as cordas e chegar à postura perfeita, aprendam primeiro a cultura, o enquadramento em que o yoga nasceu e depois, se realmente quiserem fazer parte dela, esqueçam o ásana e concentrem-se na ética. Só através dela conquistarão o espaço necessário para se instalarem em harmonia com o ser pleno que somos, que é a plenitude do próprio universo e em última instância a liberdade.
Respostas:
Paulo
Postado em: 10 de Agosto de 2009 às 10h27
Cara Ana, não deveriamos considerar como sendo himsa (violência) cortar vegetais e frutos? Para se extrair o palmito, tem-se que abater a árvore. Acaso isso não é himsa? Há muitos mitos sobre a carne vermelha, porém nada cientificamente comprovado. Precisamos de vitamina B12, só presente em alimentos de origem animal. Tudo bem que podemos obtê-la nos laticínios e ovos, mas somos exigentes quanto ao paladar. Muitos remédios que ingerimos foram frutos de pesquisa científica feito com animais em laboratório. Acaso o sofrimento impingido nesses animais não é himsã? Matar o vírus da gripe suína é himsa? Certa vez, deixei de comer carne por três meses. O apelo social para que voltasse a ingerí-la foi grande, porque a cultura em que vivemos é onívora. Entendo que essa cultura deverá mudar não pelo conceito de ahimsã, mas pela necessidade da preservação ambiental. Estudos demonstram que gasta-se muito mais água para criar gado do que para se plantar. Além disso, os dejetos do gado estão poluindo os lençóis freáticos, rios e mares. Não é à toa que se tem proliferado uma enorme quantidade de algas desembarcando em nossas praias. A turma do surf que o diga. Também tem a questão do aquecimento global. Na época da engorda, muda-se a alimentação do gado, o que provoca intensa flatulência. Os gases liberados, se não me engano, gás metano, fica na camada de ozônio e aquece o planeta. Portanto, mesmo que não concordamos sobre a questão do ahimsã, parabenizo você por estar contribuindo para a preservação do planeta, não ingerindo carne. Cordiais saudações, Paulo.
Responder esse comentário
Paulo
Postado em: 08 de Agosto de 2009 às 21h31
Oi Ana. 6 meses é pouco para se afirmar como vegetariana. Consegui ficar 3 meses sem comer carne, mas sucumbi à pressão. Acaso não é violento o ato de arrancar a cenoura da terra e comê-la? Para que o palmito seja extraído, não é preciso matar a palmeira ou o açaizeiro? Não entendo como himsã o ato de comer carne. Precisamos de vitamina B12 e ela só está presente em alimentos de origem animal. Tudo bem que se possa encontrar nos laticínios e ovos, mas a questão é o paladar. O Velho Testamento diz que Deus colocou os animais na Terra para nos alimentar, e aí? Como muito menos carne do que antes, é verdade. Tem dias que eu passo muito bem sem carne. Mas, quando pinta um peitinho de frando bem passado na panteiga, uma moquequinha mista de robalo, camarão, lagosta, polvo, caranguejo e dendê, hum! se a boca pedir eu caio matando. Hoje mesmo eu comi um rosbife delicioso com a minha família, em casa. Valeu mais pela comunhão do que pelo alimento. Não estou te gozando, não. Estou querendo te dizer que preferi ficar em paz comigo e com os outros, sem perder minha identidade. O final do seu texto é legal só que eu não consigo enxergar o Yoga sem a prática de ásanas. Ética tem em várias filosofias e religiões. Ásanas, somente no Yoga. No mais, parabéns por sua iniciativa. Mesmo se não concordarmos sobre a questão da ahimsã, saiba que está contribuindo para o desaquecimento global. A quantidade de gado existente no planeta já polui os lençóis freáticos, o leito dos rios e os mares com os degetos animais. A quantidade de pum que o gado bovino solta na época da engorda, fase em que muda a limentação, produz muito gás metano, o qual contribui para o aquecimento global. Grande abraço,
Responder esse comentário
Patrícia Marsigli Afonso
Postado em: 07 de Agosto de 2009 às 14h21
Ana, me lembrei muito do documentário "Terráqueos", tão triste quanto maravilhoso. Os que não viram, preparem os lenços... Algumas pessoas, por ignorância ao Ser ainda se acham visitantes preferenciais aqui no planeta! Algumas vezes, dreads, Oms tatuados, lealdade a mestres, viagens á Ìndia, etc, viram modismos impostos socialmente quando essas pessoas os compram achando que ao vestirem tais formas externas se tornarão yogis ou yoginis. Engolir o que a sociedade nos impõe, atinge os desatentos -- yogis ou não -- que ,como já vi , passam a não comer carne simplesmente pela moda de ocasião. Essas mesmas pessoas falam que quando sentem vontade mesmo, comem carne sim. Falam orgulhosas da soberania de seu desejo. Percebo então que estão ainda sob o jugo de seus egos egoístas, dominadas pelos prazeres dos sentidos. Por exemplo, eu particularmente deixei de comer carne há nove anos (às vezes comia frango e peixe). Havia três anos deste feito quando sem almoçar, faminta, senti o cheiro do sanduiche de linguiça acebolada numa barraquinha aqui no parque do Ibirapuera, e comi! No meio de meus questionamentos quando já havia saciado a fome, lembrei que deixara de comer carne não só por achar não fazer bem ao meu corpo físico, e sim, por acreditar em ahimsa- percebi então que fui escrava do meu desejo. Realmente , se cheiro de carne não me apetece, muito menos a lembrança do gosto na boca, não nego que o cheiro duma alheira frita me dá água na boca! A partir dessa auto-observação , tive de fazer uma escolha: ceder á tirania do meu paladar e satisfazê-lo sempre que ele pedir, ou me firmar em tapas e domesticá-lo. Preferi a segunda alternativa, pois sinto que tapas junto com ahimsa é muito importante, pois prefiro que meus sentidos Me sirvam, e não ao contrário. Mas o amor às criaturas é algo que ninguém vende, é conquistado. É isso o que nos une. A ética é o amor em movimento. Obrigada Ana, por nos lembrar que o que une não está fora, está dentro. Om namah Shivaya! Namastê!
Responder esse comentário
SEÇÃO DO MÊS
- Mantra
Quem mantra, seus males espanta!
MAIS LIDOS
- Tantra = sexo? - Pedro Kupfer - 23/07/2000
- O significado do símbolo Om - Swami Dayananda Saraswati - 25/12/2001
- Não use o Om do Bill Gates! - Pedro Kupfer - 16/09/2006
- Bibliografia recomendada - Staff yoga.pro.br - 23/07/2000
- Mudras, os gestos do Yoga - Lúcia Maria de Oliveira Nabão - 13/02/2005
- O que é o Yoga? - Pedro Kupfer - 24/07/2000
- Que Yoga devo praticar? - Pedro Kupfer - 21/10/2002
- Repensando o Ashtanga Vinyasa Yoga - Rodrigo Carvalho - 11/07/2007
- Vegetarianismo e Yoga - Pedro Kupfer - 14/06/2005
- Shiva Samhita - Coleção de Ensinamentos de Shiva - Pedro Kupfer - 14/07/2005
- A preparação para praticar - Pedro Kupfer - 24/07/2000
- Bhuta shuddhi: prática para sublimar o medo - Pedro Kupfer - 17/07/2005
- Kriyás, as purificações orgânicas - Pedro Kupfer - 24/07/2000
- Bhuta shuddhi: prática para sublimar o ciúme - Pedro Kupfer - 18/07/2005
- Prefácio do livro Dicionário de Yoga - Pedro Kupfer - 24/07/2000
- Novas dicas de viagem para a Índia - Pedro Kupfer - 27/12/2009
- Bhuta shuddhi: a purificação dos elementos - Pedro Kupfer - 15/07/2005
- Glossário sânscrito - Pedro Kupfer - 25/07/2000
















