Realidade ilusória?
Pedro Kupfer - 28 de Outubro de 2009 - 4 Comentários
O elefante irreal.
Uma vez, um yogi vivia numa densa floresta com seus discípulos. Ele ensinava o desapego e repetia incessantemente para os estudantes que o mundo manifestado é pura ilusão, que a natureza é uma miragem e que somente o Ser tem existência real. Um dia, um elefante furioso e faminto atacou a ermida onde eles moravam. Todos os praticantes, junto com o professor, se refugiaram no alto de uma grande árvore enquanto o elefante se refestelava no estoque de arroz deles.

Quando o animal foi embora, um estudante bastante perspicaz perguntou ao mestre: “Sempre aprendemos de você que o mundo é ilusório e que não tem existência real, mas não pude deixar de observar que, quando fomos atacados pelo elefante, você se refugiou junto conosco no alto da árvore. Se de fato o mundo é ilusório, não bastava ter ficado quieto no lugar enquanto a ilusão do elefante passava?” O mestre, sem perder a pose, respondeu: “Olha, nós sabemos que o mundo é uma ilusão, mas o elefante não sabe. Por isso, tive que fugir junto com vocês”.
Ouvi esta piada do meu mestre, Swami Dayananda quem, aula sim, aula não, nos lembra: we are reality people. “Somos gente da realidade”. Ele sempre nos convida para mantermos os olhos bem abertos, para não misturar as coisas e não perder o pé da realidade. Lembremos que o Yoga é mais sobre compreender a realidade e manter os pés firmes no chão, do que sobre ficar equilibrando-se nas mãos ou na cabeça.
O mundo é uma miragem?
A palavra maya se traduz freqüentemente como “ilusão”. Porém, é um erro traduzirmos maya dessa maneira. Esta palavra nunca foi utilizada nesse sentido pelo grande mestre Adi Shankaracharya, e nunca apareceu dessa forma nas escrituras. Os intérpretes do Neovedanta trouxeram esse novo significado que, infelizmente, confunde até hoje muitos praticantes. Supor que maya, que é o próprio universo manifestado, possa ser uma ilusão, nos leva a olhar para a vida e todas suas manifestações como algo irreal, o que é uma tremenda equivocação.
Quando alguém me diz que o mundo é ilusório, convido a pessoa para atravessar as paredes de um salto, para me demonstrar que isso é verdade. Até agora, não encontrei ninguém que pudesse demonstrar que o mundo não tem consistência. Qualquer tentativa nos leva de volta para a piada do elefante faminto: o mundo é ilusório, mas as pessoas não sabem; o mundo é irreal, mas tem alguns teimosos que afirmam que ele é real.
Significados de maya.
Indo ao dicionário sânscrito, veremos que, em primeiro lugar, maya significa “sabedoria”, “poder extraordinário”. Num segundo nível de significado, é também “truque de mágica”, “feitiçaria”, “fantasma”, e designa, ainda, algo falso ou irreal. Num outro nível ainda, a palavra maya aponta para as manifestações da Deusa.
Misturar níveis de significados ou descontextualizar um significado específico, levando-o para outro contexto, só pode resultar em errar o alvo. Por exemplo, se formos traduzir a palavra Yoga como “união”, e sutra como “barbante”, o nome Yoga Sutra poderia ser traduzido como “barbante da união”. Ninguém pode negar que essa tradução seja correta. No entanto, se formos nos referir à obra do sábio Patañjali, o certo seria traduzirmos o nome Yoga Sutra como “Aforismos do Yoga”. Ora, bem sabemos da importância que tem no estudo o uso correto da palavra. Como a palavra é usada para revelar conhecimento, a maneira de manejá-la exclui esse tipo de extravagância cirúrgica, que pode resultar num verdadeiro Frankenstein filosófico.
Podemos usar três diferentes categorias para classificar aquilo que percebemos na realidade: 1) real, 2) falso, e 3) inexistente. Basicamente tudo aquilo que fazemos na vida está pautado pela compreensão da diferença entre o que é verdadeiro, o que é falso, e o que é inexistente. Desde o ponto de vista de cada um, existem coisas que são mais importantes e outras menos. Damos obviamente prioridade àquilo que consideramos essencial. No entanto, pode haver uma confusão entre o que é e o que não é importante. Maya não é verdadeiro, nem falso, nem inexistente, como veremos a seguir.
Ouro e ornamento: satyam e maya.
Vamos aqui considerar a questão forma-essência refletindo sobre o exemplo clássico do metal e os ornamentos feitos com ele. Uma pulseira de ouro é essencialmente igual a um colar ou a um anel de ouro, no sentido que todos os ornamentos são somente ouro, sob formas distintas. Aquilo que chamamos pulseira, colar ou anel, é maya, o relativo, aquilo que muda. O ouro é a essência imutável, da qual os ornamentos estão feitos. Chamemos essa essência imutável de satyam, que significa verdadeiro, real.

Objetivamente falando, não existem pulseiras, colares ou anéis, mas somente ouro. Da mesma maneira, ensina Swami Dayananda, é com a realidade. Maya não é uma ilusão ou algo irreal: tem existência objetiva. No entanto, a existência de maya depende da presença do Ser. Desta forma, tudo o que existe é o Ser, assim como todos os ornamentos são, essencialmente, ouro. Não podemos afirmar que os ornamentos sejam ilusórios ou inexistentes. Mas, se precisarmos vender as jóias, o comprador irá nos pagar somente pelo peso do ouro, independentemente da forma que esse ouro tenha.
Portanto, o ouro é a verdade, e a jóia é o relativo. O que é o real, então? O ouro. O peso de uma pulseira não pode ser separado do peso do ouro com o qual ela está feita. A realidade da pulseira é ser ouro. A textura da pulseira é a textura do ouro. A pulseira não está no ouro. A pulseira é ouro.
O Ser está em todas as formas. O Ser transcende todas as formas.
Porém, precipitadamente, concluímos que, se a pulseira é ouro, o ouro também será pulseira. Esse é justamente o problema. E é aí que o conhecimento adequado do Ser pode indicar o sentido das coisas. Ouro é ouro. Compreendendo a natureza do ouro, constatamos que as eventuais formas que ele possa assumir não fazem parte dessa natureza. Por isso, somos capazes de reconhecer o ouro, independentemente da forma que este assuma. O ouro transcende as formas. Compreendendo que o ouro transcende todas as formas, somos capazes de reconhecê-lo sob qualquer forma.
Similarmente, se quisermos nos livrar de algum problema vinculado com as formas, é questão de lembrar que somos essência. Isso resolve todos os problemas existenciais, emocionais e outros. Há inúmeras formas, mas um único Ser. Não podemos afirmar que as diversas formas da criação não existam. Entretanto, tampouco podemos dizer que elas sejam verdadeiras (satyam), já que elas dependem da presença do Ser para existir. A realidade do ornamento é que ele não é satyam. Satyam é o ouro, e somente ele. O ornamento não é nem verdadeiro, nem falso, nem não-existente. O que é o ornamento? A resposta: maya.
Quando dizemos pulseira de ouro, a palavra ouro torna-se um adjetivo da pulseira. Um adjetivo que o diferencia das demais pulseiras. Assim surge a dualidade. Existem diferentes pulseiras. O ouro é satyam, é a realidade. A pulseira depende da existência do ouro. A palavra, assim, revela a nossa compreensão da realidade. A pulseira não é satyam; é maya. Para mantermos a clareza, precisamos lembrar que satyam jamais deveria tornar-se um adjetivo. A palavra satyam cobre aquilo que é; a palavra maya, aquilo com o que lidamos no mundo das formas. Maya é aquilo que possui uma forma, que exerce uma função na criação, que é útil.
Somente precisamos descartar os nossos erros.
Então, este Ser, este satyam, dá origem às miríades de objetos, da mesma forma que do ouro surgem todos os ornamentos. De uma tonelada de ouro, derivam os diferentes ornamentos. Depois desses ornamentos serem confecionados, quanto ouro existe? A mesma tonelada. A tonelada de ouro foi reduzida a um milhão de jóias. Antes, havia uma tonelada. Agora, há uma tonelada. Isso nos remete ao belo mantra Purnamadah, que diz: “tirando-se a Plenitude da Plenitude, somente a Plenitude permanece”.
Reconheçamos a verdade: somos ouro, não ornamentos. O significado das diversas palavras é maya, pois todas elas dependem da Consciência. Não obstante, o significado da palavra Consciência (desde que não seja usada como adjetivo), é somente satyam.
Felizmente, esta Consciência é auto-revelada. Esse é o significado da palavra você na afirmação védica tat tvam’asi: “você é Isso [a Consciência]”. O ponto em que a palavra você se resolve, é em Você mesmo: Você é Ilimitado. Não estamos descartando nem negando mais nada, além das nossas próprias confusões. Não estamos negando os objetos. Somente os erros. Não precisamos, portanto, negar as coisas do mundo. Não precisamos negar aquilo que é relativo para compreender o verdadeiro. Não precisamos negar maya para compreender satyam. Namaste!
*******
Publicado originalmente na revista Prana Yoga Journal: www.eyoga.com.br
Respostas:
Ana Clara
Postado em: 25 de Fevereiro de 2011 às 00h06
Eu amo ouro.
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Vanessa
Postado em: 20 de Maio de 2010 às 07h51
Muito obrigada pelo texto. Gostaria de ter lido muito tempo antes, teria me poupado muita confusão existencial. Mas vou acreditar que veio na hora certa :)
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Eduardo Nogueira
Postado em: 01 de Novembro de 2009 às 16h40
A palavra ilusão em português, segundo o Dicionário Aurélio, significa
1. Engano dos sentidos ou da mente, que faz tomar uma coisa por outra.
2. Sonho, devaneio.
Neste sentido, o mundo não é uma ilusão, mas o compreendemos como uma ilusão, pois estamos identificados com o que vêm através dos nossos sentidos e pensamentos.
A identificação sim é a ilusão, não o mundo. Não sabia que o termo maya, não era utlizada por Shankaracharya como ilusão, como sempre li a respeito. E não concordava e não concordo ainda, com a afirmação de que o mundo não é real. Sempre vi o termo "mundo ilusório" como uma fuga de responsabilidade, uma forma de colocarmos a responsabilidade além de nós.
Como resolver este problema se a "ilusão" não está em nós? Acho que a ilusão de que o vedanta fala está mais na nossa identifcação das coisas do mundo que são filtradas pelos nossos sentidos do que no mundo em si.
Lendo este artigo, vejo que eu não estava errado e a cada dia me aproximo mais do Vedanta através dos ensinamentos do mestre Dayananda. Excelente texto. Muito obrigado, Pedro.
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Gabi
Postado em: 29 de Outubro de 2009 às 22h23
Questoes resolvidas em volta de anos a origem tras o retorno daquele tempo onde a forma eh diversa. Por exemplo os modelos de funçoes adjetivas que trasformam palavras em paisagens vivas, mudam a visão daquele ser que pensa pensa e tenta compreender o pequeno, o grande , ou até sendo o relativo na origem de alguma paisagem nao permanece a miragem daquela lembraça, logo nao podemos ser a propria paisagem entao recortarei e arquivei ...pq achei legal recordar , arquivar, as imagens na paisagem imaginativa da palavra de um texto com um dialogo de origem vedica. As origens sao como o berço de um feto em formação.. hahah kpz.
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