O mito da mente vazia

Pedro Kupfer - 24 de Novembro de 2009 - 13 Comentários

Um cidadão diz para outro: “meu filho está fazendo meditação”. O colega pergunta: “e o que é meditação?” O primeiro responde: “não sei, mas prefiro que ele faça meditação, a que fique sentado sem fazer nada”. Esta piada ilustra aquela visão de que fazer meditação equivale a nada fazer. Ela está baseada num dos muitos mitos que circundam o folclore do Yoga. Muitas vezes vemos comentários sobre os textos tradicionais que nos apresentam versões curiosamente deformadas da maneira em que o Yoga funciona. Uma dessas curiosas distorções diz respeito ao mito da mente vazia e ao que realmente acontece com a mente humana durante a meditação.

 

Defeito de fábrica?

O pensamento é natural. Não existe mente sem pensamento. Aliás, o corpo da mente é o próprio pensamento, ou melhor, a seqüência de pensamentos ou associações livres que surgem, aparentemente, de maneira aleatória. Não há nada de errado em relação a isso. Supor que a mente deva ser deixada em branco equivale a supor que o psiquismo humano já veio com um defeito de fabricação, que precisa ser consertado.

Não obstante, as evidencias em contrário, há muitos professores de Yoga que insistem em afirmar que é possível manter a mente vazia e que o estado de iluminação só acontece quando a mente é deixada em branco por um longo período. Ora, isso, não coincide com a experiencia real da imensa maioria dos praticantes de meditação, seja dentro do Yoga, seja noutros sistemas igualmente eficientes, como o budismo tibetano, ou o zen budismo.

Se o amigo leitor já tentou parar de pensar, sabe que é virtualmente impossível. Quaisquer esforços nesse sentido irão provocar uma reação mental oposta. Um amigo disse numa ocasião que a experiência de tentar parar o pensamento foi como fazer a tentativa de colocar um gato selvagem numa bolsa fechada.

Cabe lembrar que o próprio Swami Vivekananda, um dos maiores mestres contemporâneos de Yoga, confessou em carta a um discípulo que, depois de décadas e décadas de esforço, apenas conseguiu deixar a mente vazia de pensamentos em apenas duas breves ocasiões. A imensa maioria dos praticantes sequer conseguirá fazer isso uma única vez na vida.

Então, podemos concluir que talvez o problema não esteja na nossa experiência como meditadores, mas na maneira em que definimos as coisas. Ainda, na hipótese de que fosse possível deixar a mente em branco, temos outros problemas: essa proeza, por si só, seria capaz de trazer conhecimento, felicidade ou liberdade?

Não creio. O que acontece depois de um período sem pensamentos, é que a mente volta a pensar e, junto com ela, as preocupações retornam com a mesma força dantes. Portanto, nada é resolvido.

 

O olho não enxerga a si mesmo.

Mais uma inconsistência que vemos nesta questão da mente em branco é que se isso é feito com o propósito de “ver” o Eu (atma), então, o Eu iria se tornar um objeto que é visto. Os pensamentos não “apagam” o Eu: os pensamentos vêm, o Ser é; os pensamentos vão, o Ser é.

Por outro lado, acontece que os pensamentos não podem ser equiparados ao Ser, e que o Ser não pode, por sua vez, ser reduzido a um pensamento. Quem seria o sujeito que observa o Eu como um mero objeto, nesse caso? O Eu é o sujeito; ele nunca pode ser objeto da percepção, pois ele é, por definição, a testemunha que olha.

Quando eu não sei quem sou, o eventual silêncio da mente não poderá resolver por si só a questão da minha auto-ignorância. Durante o sono profundo, eu não tenho nenhuma atividade mental. No entanto, isso apenas dá um respiro para a minha mente, mas não me traz iluminação.

O Eu não pode enxergar a si mesmo, da mesma maneira que o olho não consegue olhar para si mesmo. Mesmo na hipótese de usarmos um espelho para que o olho olhe para si mesmo, o que o olho enxerga é o reflexo, não o olho real. Similarmente, não há um espelho para o Ser. Como somente há Ser,

 

Pensar é sofrer?

Outra questão essencial nesta discussão: os pensamentos, por si sós, não produzem sofrimento. A pessoa que acha que deve parar de pensar para parar de sofrer, acredita que pensar é sofrer. No entanto, a origem real do sofrimento é a crença de que somos o pensamento, ou de que ser é pensar.

O sofrimento é causado pela confusão que se estabelece quando, ao pensar, acredito que o conteúdo dos meus pensamentos seja o Ser. A verdade é que os pensamentos acontecem porque o Ser é. Os pensamentos não existem separados do Ser. Assim como o ímã é a causa do campo magnético, da mesma maneira o Ser é a causa do pensamento.

O campo magnético existe por que o ímã existe. A existência do ímã não depende do campo magnético, mas a existência do campo magnético depende da presença do ímã. O pensamento existe por que o Ser existe. Tirando-se o Ser, não pode haver pensamento.

Porém, até mesmo na hipótese de que o sofrimento fosse causado pelo pensar, a solução não estaria em parar de pensar. Parar de pensar indefinidamente, no melhor dos casos, irá me tornar uma espécie de vegetal, incapaz de me comunicar, sentir emoções ou crescer interiormente.

Poderia eu dizer, nesse caso, que estou tendo uma vida plena? Pensamentos equivocados, como achar que somos insignificantes ou indignos de felicidade não se resolvem parando de pensar, mas corrigindo esses pensamentos e substituindo-os por outros que sejam corretos. Será mesmo que eu sou indigno de ter felicidade? Esse tipo de questionamento, com sua resposta adequada, é o de fato que resolve o sofrimento.

Na prática, o ideal é chegar a bons termos com a nossa própria mente. Isso significa fazer, eventualmente, um acordo de paz com ela. Trocando em miúdos, quando sentamos para meditar, damos à nossa mente a liberdade para que ela seja como é, mas nos damos o direito de nos concentrar no tema que escolhemos para aquela meditação.

Eventualmente, a agitação natural do primeiro momento dará lugar a um estado de maior tranqüilidade e estabilidade, no qual nos tornamos capazes de olhar para a mente desde a perspectiva da testemunha, que é o próprio Eu.

É questão de perseverar sem forçar, de maneira compassiva e ao mesmo tempo firme. Portanto, a solução para esta charada não está em tentar manter a mente vazia, mas em perceber o Eu invariável que somos, presente em todos os momentos, antes, durante e depois de cada pensamento. Quando compreendemos que os pensamentos não escondem o Eu, mas que ele permeia todos os conteúdos, o conflito nascido da ideia de deixar a mente em branco, simplesmente desaparece. Namaste!


 

Publicado originalmente na revista Prana Yoga Journal: www.eyoga.com.br

 

Respostas:

Ronaldo

Postado em: 11 de Julho de 2011 às 00h06

Eu acho que dá, sim, para ficar sem pensar, numa meditação, pelo menos, por alguns segundos ou, talvez para outros, por alguns minutos. Eu falo por experiência, pois já consegui ficar sem pensar durante algumas práticas meditativas. No meu caso, foram segundos.

Eu não sei explicar exatamente o que se passa nesse momento em nível de mente ou cérebro, mas a gente perde o contato com o mundo, com a vida. Eu também não sei se isso traz ou não benefícios espirituais para a pessoa, mas que se pode ficar sem pensar por alguns instantes, isso pode sim. Também quero dizer que eu não tenho praticado muito meditação. Muito obrigado.

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Marcela

Postado em: 20 de Maio de 2011 às 17h46

Muito a calhar o texto, muito esclarecedor, nas minhas aulas tenho recomendado seu blog para os praticantes.

A questão é extremamente pertinente já que mesmo que o observador pudesse de fato "enxergar o próprio olho" ainda assim ele precisaria de instrução de alguém (no caso um instrutor habilitado) para poder perceber se, esse olho visto estivesse triste ou chorando.

Quer dizer que a condução para que o "olho visto" pudesse "melhorar" ou "ascender" precisaria vir de fora já que o obsevador já está envolvido numa tarefa árdua que é a de ver o próprio olho...

Namastê!

Marcela.

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Diego

Postado em: 08 de Dezembro de 2009 às 22h44

Boa noite, gente,

O pensamento existe por que o Ser existe. Tirando-se o Ser, não pode haver pensamento?

Desde Descartes, com a imagem da vela, abordamos esta importante questão buscando luz, e que assim seja.

Obrigado, Pedro e galera, por mais uma esforço para nos conhecer melhor, e um abraço,

Diego.

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Andrea

Postado em: 08 de Dezembro de 2009 às 20h34

Oi Pedro,

Como me sinto bem ao ler teus textos! Eles exalam libertação de padrões pré-concebidos, da ansiedade de se aceitar, de procurar a felicidade lá fora em algum lugar que não se sabe onde, da tristeza de não ser o que quer ser, de "fórmulas mágicas" para o tão desejado equilíbrio.

Este texto como tantos outros parece um oásis no deserto das minhas buscas. Uma água pura que mata a minha sede sem fim, que me acalma e me restaura do cansaço de tão longa caminhada em busca de mim mesma. Aos poucos vou acreditando que já sou o bem e a felicidade que desejo. Um bom final de ano.

Namastê!

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Marcelo Cruz

Postado em: 02 de Dezembro de 2009 às 09h48

Olá Amigo, namaste!

Todos os mitos, sejam do Yoga ou não, induzem a viver o místico. Como diz Svaamii Dayaananda, "we are reality people!". Quanto mais as pessoas focarem na objetividade em viver, mais se libertarão dos altos e baixos que a mente carrega como qualidade. Nada mais que o samsaara. A mente purificada é a mente objetiva. Se alguém afirmar que meditar é esvaziar a mente, basta opor que para "experenciar" o vazio tem que haver um pensamento de vazio. Ou seja, até o "não-pensar" é um pensamento de "não pensar"

Harih Om!

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Prof. André

Postado em: 01 de Dezembro de 2009 às 11h35

A questão pensamento e mente, ainda é muito complexa, pois o principalmente no ocidente não fomos educados a pensar, mais sim cobrados a ter resultados desde pequenos, com a pratica meditativa vamos aprendemos a administrar melhor os pensamentos, e reduzindo os nossos condicionamentos. Com a pratica e disciplina os pensamentos diminuem de forma natural podendo chegar à neutralidade, e é verdade pode levar uma vida inteira.

Muita Paz Om!

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Fabiana Novais

Postado em: 28 de Novembro de 2009 às 14h46

Obrigada Pedro!!!

Descobri Yoga recentemente, estava justamente na busca da mente vazia, cansada de tanta perturbação. Já estava percebendo que isto não aconteceria assim tão facilmente, mas não queria acreditar até que alguém me contasse.

Namaste!

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André Luis Aguilar de Azevedo

Postado em: 28 de Novembro de 2009 às 14h09

Olá Pedro e Bom dia a todo o pessoal...

Sim, referente ao seu texto... também tenho uma visão similar: para conseguirmos uma evolução, devemos permanecer em paz conosco e nos conhecer cada vez melhor. Acredito que a meditação e seus recursos, são métodos de centralização (nós já nos conhecemos, porém estamos nos realinhando com o nosso Eu) . Mas esta é apenas uma opinião.

Um grande abraço.

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