Yoga Sutra, aforismos I:12 a 16: prática e não-apego

Swami Jñaneshvara Bharati - 09 de Dezembro de 2009 - Nenhum comentário

Dois Princípios Centrais: Prática (abhyasa, 1.13) e não-apego (vairagya, 1.15) são os dois princípios centrais sobres os quais o sistema inteiro do Yoga se apoia (1.12). É pela prática e cultivo destes dois princípios que as demais práticas do Yoga são desenvolvidas e pela qual a maestria sobre o campo da mente acontece (1.2), o que possibilita a realização do verdadeiro Eu (1.3).

1. Abhyasa / prática:  Abhyasa significa ter uma atitude de esforço persistente para alcançar e manter um estado de tranquilidade estável (1.13). Para ficarmos muito estáveis, este esforço deve ser feito por um longo período de tempo e sem interrupção (1.14). Nesta situação, as práticas profundas continuam a se desvelar, aprofundando-se cada vez mais na direção da experiência do centro eterno de nosso ser.

2. Vairagya / Não-apego:  A companhia essencial é o não-apego (1.15), pelo qual aprendemos a deixar de lado os apegos, aversões, medos e falsas identidades que obscurecem o Eu verdadeiro.

Os dois trabalham juntos:  A prática nos leva na direção certa e o não-apego permite que continuemos a jornada interior sem nos desviarmos por causa das dores e prazeres encontrados ao longo do caminho.

Não-apego supremo:  O não-apego se expande gradativamente para a profundidade dos sutis blocos de construção, que constroem a nós e o universo. Isto é chamado de paravairagya, supremo não-apego (1.16).  Eventualmente, na meditação profunda, os três gunas retornam para aquilo que os causou, causando a libertação final (4.13-4.14, 4.32-4.34).

 

1.12 Estes padrões de pensamento (vrittis) são regidos (nirodhah, regulado, coordenado, controlado, estabilizado, aquietado) pela prática (abhyasa) e não-apego (vairagya).

(abhyasa vairagyabhyam tat nirodhah)

 

* abhyasa = pela ou com a prática, prática repetitiva

* vairagyabhyam = não-apego, ausência de desejo ou paixão, neutralidade ou ausência de cor, sem atração ou aversão

* tat = daqueles, através de

* nirodhah = controle, regulação, canalização, maestria, integração, coordenação, entendimento, estabilização, aquietação, dotação

Duas práticas:  Abhyasa e vairagya são companheiros de prática e são os meios para a maestria (nirodhah, 1.2) dos vários níveis da mente, para assim experimentar o Eu verdadeiro (1.3). Todas as outras práticas do Yoga se apoiam nestes dois princípios.

Duas direções:  Existem duas direções na qual podemos ir na vida e nas ações, fala e pensamentos individuais. Uma direção é no sentido da verdade, realidade, Eu ou realização espiritual. A outra direção é o oposto, com aqueles estilos de vida, ações, fala e pensamentos que nos afastam das elevadas experiências espirituais.

Abhyasa significa cultivar um estilo de vida, ações, fala, pensamentos e práticas espirituais que levam na direção positiva, ao contrário de ir na direção oposta, para longe do positivo e no sentido do negativo.


Vairagya é a prática de abandonar gradualmente as cores mentais (1.5, 2.3)

que nos levam  para longe  do espiritual, não indo na direção oposta,

cedendo aos apegos e aversões.

 

Discriminação é a chave: Para estar apto a fazer estas práticas e desenvolver o não-apego, é necessário ficar cada vez melhor em discriminar quais ações, fala e pensamentos nos levam na direção correta, e quais são distrações (2.26-2.29, 3.4-3.6). A discriminação é uma prática fundamental e uma ferramenta sutil para a jornada interior.

      

1.13 Prática (abhyasa) significa escolher, aplicar o esforço, e fazer as ações que trazem um estado de tranquilidade estável (sthitau).

(tatra sthitau yatnah abhyasa)

 

* tatra = dos dois (abhyasa e vairagya)

* sthitau = estabilidade, constância, tranquilidade estável, calma imperturbável

* yatnah = empenho, esforço persistente e prolongado, manter a luta

* abhyasa = pela ou com a prática, prática repetitiva

Duas palavras para a prática:  Existem duas palavras diferentes que são traduzidas com frequencia como prática. Uma é abhyasa e a outra é sadhana, esta última sendo o título do capítulo 2 do Yoga Sutras (Sadhana Pada). É importante entender a diferença entre as duas palavras.

Abhyasa significa prática, mas em um sentido geral e muito abrangente. Significa escolher com buddhi, o sábio conselheiro nos cursos de ação alternativos. Significa fazer decisões com base naquilo que trará grande tranquilidade e paz na mente, pois estes são a preparação para as práticas profundas e sutis que levam a Auto-realização.

Sadhana significa prática em um sentido mais específico, relacionado com as práticas diretas que fazemos. O que inclui os métodos e técnicas específicos que trabalham com o corpo, respiração e mente, assim como a aplicação de princípios específicos ao lidar com o mundo externo e as pessoas. Por exemplo, os oito braços do Yoga (2.29) são parte do sadhana.

 Stithau possui duas partes: Abhyasa é definido neste sutra como escolher ou cultivar aquilo que nos leva a sthitau. Para entender o significado de sthitau, é necessário combinar dois princípios. O primeiro é a tranquilidade, calma ou paz na mente. O segundo é estabilidade, constância, ou estar em solo firme. Assim, sthitau significa uma forma estável de tranquilidade. Em outras palavras, é a busca de uma equanimidade que estará sempre conosco. 

A estabilidade não é só uma questão de recuperar a paz na mente após tê-la perdido, como quando nos afastamos do trabalho no fim de semana ou nas férias. Podemos ter a capacidade de conseguir alguma tranquilidade temporária, ao evitarmos as principais decisões na vida, atitudes e práticas. Mas, para ter uma tranquilidade estável que sempre, ou na maior parte do tempo, estará conosco, é necessário caminhar passos extras no planejamento de uma vida que apoie a meditação. Este é o significado de sthitau.

Exércício com Abhyasa: Abhyasa é a prática de escolher o que traz sthitau, ou um estado de tranquilidade estável. Se aplica a todos os níveis, desde as ações, fala e pensamentos mais externos e mundanos até os aspectos mais sutis de nosso ser. É mais fácil começar a prática  de Abhyasa com o mais denso e gradualmente ir trabalhando com coisas mais sutis.

Um meio simples de melhorar a prática de Abhyasa, é sentar em silêncio e refletir quais são as ações, fala e pensamentos que nos levam na direção de sthitau e quais nos afastam. Coloque duas colunas lado a lado em um pedaço de papel e escreva suas reflexões pessoais sobre sua vida.

Em uma coluna coloque “Ações, fala e pensamentos que me levam na direção da calma ou tranquilidade estável, constante, imperturbável. Preciso fazer mais destas coisas”.

Em outra coluna coloque “Ações, fala e pensamentos que me afastam da calma ou tranquilidade estável, constante e imperturbável. Preciso fazer menos destas coisas”.

 “Me aproxima”                                  “Me afasta”

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Na coluna “me afastam” provavelmente serão colocados hábitos negativos que não são úteis na jornada. Na coluna “me aproxima” provavelmente serão colocadas práticas de yoga e ações positivas que são úteis na jornada. Este exercício simples pode ser bastante inspirador e auxiliar para a construção de uma fundação sólida para a meditação. 

Aumentando nossa participação consciente nas escolhas da vida e nos caminhos nos quais usamos nossa energia pessoal, e progressivamente priorizando o que está na coluna “me aproxima”, veremos aquilo que está na coluna “me afasta” enfraquecer e desaparecer.

    

1.14 Quanto a prática é feita por um longo período de tempo, sem interrupção e com devoção sincera, ela se transforma em uma fundação firmemente enraizada, estável e sólida.

(sah tu dirgha kala nairantaira satkara asevitah dridha bhumih)

 

* sah = aquela (prática)

* tu = e, mas, entretanto

* dirgha = muito tempo (dirgha = muito; kala = tempo)

* nairantaira = sem interrupção, continuamente,

* satkara = com devoção, sinceridade, respeito, reverência, atitude positiva, ação correta

* asevitah = perseguir, praticar, cultivar, cuidar, feito com atenção constante

* dridha-bhumih = estável, fundação sólida, firmemente enraizado, em solo firme (dridha = firme, bhumih = solo, chão) 

Mantenha a prática: Um dos princípios mais importantes da meditação do yoga é o da prática contínua sem interrupção. Com frequencia, um meditador inicia a prática, pratica por algumas semanas ou meses e depois pára por um tempo devido a alguma situação na vida. Depois, inicia a prática novamente. Embora seja bom voltar a praticar, é melhor ainda escolher um nível de prática que sabemos que podemos manter sem interrupção. Se, por exemplo, tentamos praticar por 2 ou 3 horas por dia quando estamos muito cientes que não temos tanto tempo dispónível em nosso estivo de vida atual, criamos uma situação que irá gerar interrupção na prática. É muito melhor escolher uma quantidade de tempo que sabemos dispor para praticar de forma consistente. 

Escolha o seu nível de prática: Devido a importância da prática persistente, os sutras 1.21-1.22 sugerem que escolhamos um entre nove níveis de prática para nos comprometermos.

 

Perguntas e Resposta Sobre Práticas que Levam a Tranquilidade

 

Pergunta: Tenho uma vida muito atarefada. Por quanto tempo tenho que praticar?

Resposta: Por muito tempo! Continue sempre e nunca desista, mesmo que “muito tempo” signifique dias, semanas, meses ou anos.  Entregar sim, desistir? Nunca!

Pergunta: Não tenho certeza que seja isto que meu coração queira. Posso caminhar penosamente com uma má atitude e ainda assim obter progresso?

Resposta: Faça as práticas que levam a tranquilidade com toda a convicção,devoção e sinceridade que possa encontrar. Cultive o que é positivo e deixe de lado o que é negativo. A persistência gentil e amorosa é o caminho para a paz.

Pergunta: Com que frequencia posso interromper a prática? E se eu estiver muito cansado ou muito ocupado por alguns dias? Posso tirar férias destas práticas e simplesmente voltar a praticar do ponto onde parei.

Resposta: Sem interrupções! Nos alimentamos todos os dias. Dormimos todos os dias. Usamos o banheiro todos os dias. Comentamos sobre a vida alheia e temos pensamentos e emoções negativos todos os dias. Se podemos fazer tantas coisas todos os dias, então todos os dias também podemos fazer  as práticas que levam a tranquilidade, sem exceção.

Pergunta: Qual é a recompensa de todo este trabalho? Parece ser muito difícil fazer isto por um longo período de tempo sem  nem mesmo umas férias. O que eu ganho com isto?

Resposta: Sua prática se tornará uma fundação firme e enraizada para as experiências sutis pelas quais seu coração tanto anseia. Um dia você verá que suas práticas são uma parte bela, elegante, simples e recompensadora de sua vida. Certamente você verá que isto é o bem mais valioso que possui na vida, o que irá deixar um sorriso em seu rosto.

Desenvolvendo a atitude: A atitude stkara contem os princípios da devoção, sinceridade, respeito, reverência, persistência e escolha correta. Quando escolhemos o nível apropriado de prática e decidimos fazê-la diariamente, a atitude virá mais facilmente. É como ter no coração uma pequena chama de desejo pelos frutos da meditação e, então, lentamente, começar a experimentar seus benefícios. Esta pequena chama crescerá de forma lenta e consistente, e se tornará um incêndio, que guiará nosso desejo, nossa vontade e nossas vidas na direção da realização espiritual.

Tudo se baseia na atenção: Em toda a ciência da meditação do Yoga, a atenção é um princípio importante para se praticar. A atenção aguçada, clara e sempre presente (asevitah) é essencial se queremos desenvolver uma atitude convicta para praticar por um longo período de tempo, sem interrupção, como descrito neste sutra.  “Atenção, atenção, atenção!” é a receita, para seguir de forma bondosa e amorosa para consigo mesmo.

 

1.15 Quando a mente perde o desejo até mesmo pelos objetos descritos na tradição ou nas escrituras, ela adquire um estado de ausência absoluta de desejo (vashikara), chamado de não-apego (vairagya).

(drista anushravika vishaya vitrishnasya vashikara sanjna vairagyam)

 

    * drista = visto, percebido

    * anushravika = revelado, na forma das escrituras sagradas, ouvido da tradição

    * vishaya = objetos, tema, assunto da experiência 

    * vitrishnasya = daquele que é livre de desejo e paixão

    * vashikara = supremo, regência, controle total

    * sanjna = atenção, consciência, conhecer

    * vairagyam = não-apego, ausência de desejo ou paixão, neutralidade ou ausência de cor, sem atração ou aversão

 

Solte e não pegue: O meio mais simples de descrever o não-apego é como um processo de abandonar. Aprendemos gradualmente a abandonar nossos apegos e aversões, nos movendo sistematicamente para níveis cada vez mais sutis de apegos da mente. Entretanto, o não-apego vai além disto. Não é apenas a prática de abandonar. Antes, é uma prática de não adquirir.

 

Amor é o que resta

 quando abandonamos

tudo o que amamos.

 

Não-apego não é supressão: Não-apego não é só um simples traço de personalidade que praticamos ao lidar com outras pessoas no mundo. É fácil enganar a si mesmo ao pensar que estamos praticando o não-apego, quando na verdade o que está acontecendo é que estamos fingindo ser não-apegados. É como dizer que perdemos nosso desejo interior sobre algum objeto, quando, na verdade, estamos desejando intensamento por ele. Não-apego não é um processo de supressão ou repressão de desejos, vontades, pensamentos ou emoções. O não-apego acontece pela prática progressiva de estar atento a existência de apegos (kleshas, 1.5, 2.3) e gradualmente deixá-los desperar (2.4).

Não-apego é o cessar:  Se o apego acontece (seja atração ou aversão), de modo que a atenção se envolve ao redor de uma impressão mental profunda, o não-apego posterior consequente vem da cessação desta adesão ou envolvimento no objeto mental, e não do ato de desviar a atenção forçadamente.  É fácil ouvir sobre a filosofia do não-apego e então, enganosamente, passar a mentir para si mesmo, dizendo internamento algo como “não sou apegado, não sou apegado". Isto não é não-apego. É melhor ver realisticamente onde nossas mentes estão apegadas e então aprender sistematicamente a enfraquecer as cores através das práticas internas e externas da meditação do yoga.

Não-apego não é desapego:  Não é mera semântica dizer que não-apego é diferente de desapego. Desapego implica em dizer que primeiro existe um apego, e depois aplicamos uma técnica ou método para desconectar o apego. Implica na ação de fazer algo que faça a separação acontecer. Não-apego, por outro lado, significa que a conexão simplesmente não aconteceu. Não-apego não é “fazer alguma coisa”. Não-apego é “não fazer algo”. Significa que a consciência não se envolve ao redor da impressão no campo da mente.

Como dois ex-fumantes: Embora este princípio se aplique aos níveis denso e sutil, um exemplo no nível denso deve facilitar o entendimento. Pense em duas pessoas que pararam de fumar fazem alguns anos. Uma ainda está apegada ao cigarro e quando vê um, o desejo desperta. Quando ela resiste a agir movida por este desejo, e deixa o desejo ir embora, isto é desapego. A outra pessoa também fumava, mas quando vê um cigarro, literalmente não existe reação.  O desejo desapareceu completamente em todos os níveis da mente, seja consciente ou inconsciente. Isto é o significado de não-apego. O apego não foi liberado, simplesmente não existe mais. É a ausência ou a não existência do apego.

O não-apego se aprofunda em todos os níveis:  Patanjali explica que o não-apego é aplicado progressivamente aos níveis mais profundos de nosso ser. Embora possamos começar no nível dos apegos mais superficiais, como os objetos e pessoas do dia a dia, a prática se aprofunda e acaba por abranger todos os objetos e experiências sobre os quais possamos ter só ouvido alguma coisa, incluindo os vários poderes e experiências dos reinos físicos e sutis. Gradualmente vemos que estas coisas são apenas distrações na jornada da Auto-realização, e  também aprendemos a deixá-las de lado.

Exercício com Vairagya: Com frequencia, Vairagya ou não-apego não é tão óbvio assim. Normalmente, o não-apego vem em estágios (Leia Sutra 2.4 sobre estágios).

Para entender melhor o não-apego, é útil explorar exemplos pessoais de apegos e aversões (na verdade a aversão é apenas outra forma de apego). Escrevendo nossos exemplos pessoais em um pedaço de papel (como nas colunas abaixo), podemos ver atrações e aversão atualmente ativas, e atrações e aversões antigas, para as quais já testemunhamos e experimentamos o processo de abandona-los.

Atrações Atualmente Ativas: Idéias, crenças, opiniões, pessoas, organizações ou instituições, pelas quais sinto atração, e que são inúteis.  Preciso abandonar gradualmente estas atrações.        

 

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Aversões atualmente ativas: Idéias, crenças, opiniões, pessoas, organizações ou instituições, pelas quais sinto aversão, e que são inúteis. Preciso abandonar gradualmente estas aversões.

 

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 No espaço em branco #:___, coloque o grau de atração ou aversão, em uma escala de 1 a 10, sendo 10 o mais alto.

 

Algumas atrações antigas que eu já abandonei.

 

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Algumas aversões antigas que eu já abandonei.

 

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Coloque o grau atual, de 0 a 10, da atração ou aversão que você praticamente abandonou. Observar os graus de número baixo pode reforçar ou prover alguma inspiração sobre o processo de abandono, do não-apego. Se abandonamos apegos e aversões no passado, podemos fazer o mesmo no presente e no futuro, e de modo até mais eficiente e perfeito, através processo de meditação do yoga.

O que fazer com os apegos: Enquanto lemos este sutra sobre não-apego, é bom manter a perspectiva de que o processo inteiro do Yoga está relacionado com a maestria e integração das flutuações no campo da mente, como introduzido no Sutra 1.2. Isto permite que o observador descanse em sua verdadeira natureza, o estado de Auto-realização, como colocado no Sutra 1.3.  Ter em mente as categorias ou grupos de sutras (veja a figura “Jornada através do Yoga Sutras” no artigo “Quatro aforismos fundamentais do Yoga Sutra, disponível neste site www.yoga.pro.br), torna fácil perceber que precisamos gradualmente estabilizar a mente, enfraquecer os apegos e começar o processo progressivo de abandoná-los por completo.  Enquanto isto, procuramos a experiência direta do Absoluto, de forma que possamos fazer um trabalho cada vez mais eficiente de abandonar os apegos. Para entender melhor este processo, veja os capítulos abaixo:

    * Esforços e compromissos (1.19-1.22)

    * Obstáculos e soluções (1.30-1.32)

    * Estabilizando e clareando a mente (1.33-1.39)

    * Diminuindo as cores densas (2.1- 2-9)

    * Lidando com pensamentos sutis (2.10-2.11)

    * Quebrando a aliança do karma (2.12-2.25)

    * Os oito braços e a discriminação (2.26-2.29). (Nota do tradutor: artigos ainda não traduzidos)

 

1.16 A indiferença para com os elementos sutis, princípios constituintes e qualidades (gunas), adquirido por um conhecimento da natureza da consciência pura (purusha), é chamada de supremo não-apego (paravairagya).

(tat param purusha khyateh guna vaitrshnyam)

 

    * tat = aquele

    * param = é elevado, superior, supremo, transcendente

    * purusha = consciência pura, Eu

    * khyateh = pelo conhecimento, visão, discernimento

    * guna = elementos, principais qualidades , constituintes, atributos, (os três gunas sattvas, rajas e tamas)

    * vaitrshnyam = estado de liberdade do desejo ou paixão (pelos gunas)

 

Não-apego para com os blocos de construção: O sutra 1.15 descreve o não-apego como um processo que é desenvolvido progressivamente enquanto a prática se aprofunda. Eventualmente, pode levar ao supremo não-apego, descrito neste sutra. Paravairagya significa que existe o não-apego até mesmo para com os blocos de construção mais fundamentais de toda a manifestação. Este nível de não-apego vem pela experiência direta da consciência pura ou purusha (3.56).

Três níveis de não-apego: Podemos pensar no processo sistemático de desenvolver o não-apego (vairagya) com tendo três níveis:  

1- Mundo denso:  Existem muitos objetos no dia a dia pelos quais nossas impressões mentais são coloridas com diversos graus de atração ou aversão. Este é o primeiro nível de libertação destas amarras para ser desenvolvido, e assim experimentar grande paz interior.

2- Tudo entre os dois níveis:  Existem muitos tipos de objetos entre os níveis do mundo denso e os sutis blocos de construção. Após a estabilização da mente (1.33-1.39), estes níveis sutis são explorados e deixados de lado, através do não-apego e da discriminação. Por exemplo, a meditação e o não-apego para com a energia pránica (3.40), os cinco elementos (3.45), os sentidos (3.49) e os aspectos sutis da mente (3.50).

3- Blocos de construção sutis:  Existem três elementos primários (gunas) que são abordados neste sutras. A idéia é que o yogi se torne não-apegado até mesmo para com os sutis blocos de construção (paravairagya).

Semelhante a liberdade para com as partículas atômicas:  Este conceito de níveis pode parecer estranho, mas somos familiarizados com ele no nosso mundo. Se fizermos uma comparação com o universo físico, poderia ser algo como ficar não-apegado aos protons, eletrons e neutrons, que são as partículas que formam os átomos. Perceba que o universo físico também é construido em camadas ou níveis:

    * Partículas (protons, eletrons e neutrons)

    * Átomos

    * Moléculas

    * Compostos

    * Objetos

Imagine que somos livres do apego e aversão para com as partículas (protons, eletrons e neutrons). Então, em nossa metáfora, também poderíamos ser livres do apego e aversão em relação a todos os desdobramentos do átomo, como moléculas, compostos e os demais objetos do mundo físico.

Não-apego supremo: De forma semelhante, esta é a sugestão do não-apego supremo (paravairagya) para com os gunas, os três elementos primários que os yogis dizem ser os constituintes primários da matéria manifesta e não manifesta (prakriti). O não-apego para com os gunas incluem não-apego em relação não apenas para com o mundo denso, mas também para com os planos astral, físico e sutil, e também o plano causa do qual estes emergem.

Paravairagya vem após a Auto-realização:  Em um nível prático, não significa que devemos alcançar o nível paravairagya para conseguir a experiência direta do centro da consciência (purusha). O que está sendo descrito é o fim da jornada do não-apego, quando tivermos o recurso do samadhi e da experiência direta. 

Traduzido do original “Yoga Sutras 1.12-1.16: Practice and Non-Attachment “, de autoria de Swami Jñaneshvara Bharati, disponível em SwamiJ.com.

Sutras anteriores: 1.5-1-11 - Descolorindo seus pensamentos.

Próximos Sutras: 1.17-1.18 - Concentração

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Texto generosamente traduzido pelo yogi Rogério Maniezi, de Florianópolis.

 

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