Yoga e depressão: a experiência de Arjuna
Ricardo Freitas - 21 de Janeiro de 2010 - 7 Comentários
O príncipe Duryodhana, vendo o exército dos Pandavas alinhado para o combate, aproximou-se de seu mestre falando-lhe assim: "Vê, mestre, a poderosa hoste dos filhos de Pandu, alinhada para combate por teu inteligente discípulo, o filho de Drupada. Vendo todos esses parentes frente à frente, prontos para lançar-se à luta". Arjuna, invadido por grande piedade, assim falou, com desânimo e tristeza:
"Ó Krishna! Vendo aqui os meus parentes e amigos prontos a empenhar-se numa luta fratricida, meus membros fraquejam, minha boca se resseca, todo meu corpo treme e meus cabelos se eriçam."
"O arco Gandiva escapa-me das mãos, minha pele queima, não posso manter-me de pé, meus pensamentos formam um turbilhão, vejo sinistros presságios, ó Krishna! Em nome do que devo matar meus parentes nessa luta sangrenta? Ó Keshava, não quero a vitória, nem a soberania, nem os prazeres."

Tendo dito essas palavras no campo de batalha, Arjuna deixou-se cair no assento de seu carro, abandonando o arco divino e a aljava inesgotável, com o espírito oprimido pela angústia. Disse Arjuna:
"Com a alma oprimida por uma piedade culposa, confuso quanto ao dever, apelo a Ti para que me indiques claramente o melhor caminho. Refugio-me em Ti como Teu discípulo. Esclarece-me. Nada vejo que possa dissipar a angústia que embota meus sentidos, mesmo que eu obtivesse na terra um reinado sem rival, ou mesmo a soberania dos deuses."
Krishna respondeu: "Que fraqueza é esta? É indigna de ti. É por nada que os homens te chamam de destruidor de inimigos? Livra-te desta covardia, Arjuna, levanta-te muda a postura. Volte a sorrir! Tua tristeza não serve de nada. Agora te mostrarei o Yoga que conduz à saúde perfeita!"
Krishna pede para Arjuna estender seu tapetinho em meio ao campo de batalha. Então, ensina para o jovem guerreiro supta baddhakonásana e diz para Arjuna: "Esta postura, grande guerreiro, abre seu peito, acalma a sua mente e ajuda a aliviar a ansiedade em tempos de estresse."
Depois, Krishna demonstra para seu discípulo adhomukha svanásana e diz: "Arjuna, faça essa postura. Ela combate a depressão, acalmando o cérebro e aumentando a circulação sanguínea no peito. Nesta postura, encontrarás forças para destruir o exército inimigo."
Arjuna então faz a postura por alguns minutos e quando sai da postura sente que a força de Shiva alinha e balanceia o seu chakra do coração, que fica verde como uma esmeralda.
Demonstrando ustrásana, Krishna diz: esta postura melhora a capacidade pulmonar e a circulação. Faça agora urdhva dhanurásana para melhorar sua circulação, estimular seu sistema nervoso e gerar uma sensação de bem-estar.
Arjuna, grande guerreiro, tem uma certa dificuldade em fazer as posturas mas consegue fazê-las sem se machucar. Sai confiante, e com o sistema circulatório mais irrigado que os rios Ganges e Yamuná juntos.
Krishna disse: ensino-te agora o asana secreto, sarvangásana, que vai suprir as glândulas tireóides e paratireóides com sangue fresco e oxigenado. Vai também suavizar os seus nervos, estimular os rins e acalmar o cérebro.
Arjuna repete a postura e responde: "Pensava que acalmar o cérebro fosse mais difícil que parar o vento. Agora com essa postura vejo que é possível parar a mente. Estou me sentindo calmo e sereno."
Enrolando seu tapetinho e subindo novamente na carruagem de guerra, o príncipe disse: "por tua graça, Sri Krishna, minhas ilusões foram dissipadas. Minha mente está firme e as duvidas desapareceram. Estou livre da depressão e da tristeza. Obrigado pela prática! Namaste!"
Advertência: este texto é uma parodia do diálogo do primeiro capítulo da Bhagavad Gita. Não tente curar sua depressão aplicando as técnicas aqui listadas.
Hoje li mais um artigo sobre Yoga e depressão. É fácil perceber que as pessoas que o redigiram tal texto nunca sofreram de depressão. Ao mesmo tempo, tenho a sensação de que elas tampouco entenderam exatamente o que é Yoga. Na sátira deste texto escolhi a Bhagavad Gita, texto onde o senhor Krishna é chamado varias vezes como o Senhor do Yoga.
O primeiro capítulo da Gita, chamado O Desespero de Arjuna, mostra claramente que o príncipe guerreiro passa uma grande crise existencial com sintomas de depressão e síndrome do pânico.
É triste perceber que as pessoas e os meios de comunicação tentam vender o Yoga como uma pratica milagrosa, sem realmente estudarem e entenderem que o Yoga ensinado pelo Senhor do Yoga, Krishna, é um estilo de vida para o autoconhecimento.
Na Bhagavad Gita, o principal texto que fala sobre Yoga, em nenhum momento é citada uma prática de ásana ou pranayama. Resolvi então mudar um pouco a história da Gita para que possamos entender como seria esse Yoga segundo essa revista e compreender que não é isso que foi ensinado pelo Senhor do Yoga.
Gostaria de deixar bem claro que eu pratico e ensino Hatha Yoga. As técnicas do Hatha Yoga servem como preparo da mente para o autoconhecimento, mas não servem para curar uma depressão ou libertar do sofrimento, da sensação de que somos limitados.
Para compreender o Yoga e o que essa tradição tem para nos oferecer é preciso escutar o ensinamento sobre os textos do Yoga, com um professor que aprendeu dentro da tradição. Somente assim podemos colher os frutos que o Yoga tem para nos oferecer que é a liberdade do sofrimento humano.
Respostas:
Patricia
Postado em: 04 de Fevereiro de 2010 às 17h14
Olá a todos!
O motivo de meu comentário não é para contrariar ou causar qualquer tipo de discusão aqui no site, quando coloquei minha opinião é porque acredito nela, mas não sei se estou totalmente certa. Tenho entrado diariamente para verificar os comentários mas até agora nada... Ricardo, me responda por favor rsss... Já deixei o e-mail disponivel caso ache melhor, pois acho o mais importante de tudo e não ficar em dúvida, ou formular um conceito errado sobre o assunto.
Aguardo retorno.
Obrigada.
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Paulo
Postado em: 03 de Fevereiro de 2010 às 11h13
Como vai Ricardo?
Envie há dias duas respostas ao seu comentário à Patrícia. Gostaria de saber se você os recebeu.
Att.,
Paulo.
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Patricia
Postado em: 28 de Janeiro de 2010 às 14h28
Olá Ricardo!
Obrigada por responder, ficou claro sim! Quando li o artigo não pensei sobre a razão ilegítima do sofrimento, e concordo plenamente que o meio para libertar-se é o conhecimento. Não sei se estou errada (ainda estou estudando e aprendendo muita coisa) mas acredito que a maioria dos professores de hatha Yoga ensine essas palavras tão importantes que estão dentro da tradição aos seus alunos durante as aulas, que a maioria deles (pelo menos deveria ser assim) acompanhe seus alunos e dêem o suporte necessário para o autoconhecimento, e neste sentido acredito que as coisas se completam...
Eu tive uma professora assim, não sofria de depressão mas aula a aula(ação) fui a aprendendo sobre a verdadeira identidade do ser, sobre o Eu verdadeiro que é livre e eterno, e talvez por isso digo que vejo pessoas curando a depressão com o hatha Yoga (pelo menos aqui na minha escola), não vejo a aula só como uma prática física, mas sim como uma prática completa para o autoconhecimento.
Se você se referir ao Yoga utilitário, realmente não devemos colocar a cura de qualquer moléstia como objetivo principal do Yoga, mas não podemos negar os ?efeitos colaterais? de cura que a mesma poderá proporcionar. Se o hatha Yoga é o que vemos em academia, como uma ginástica, você está certo, é somente ação, mas do contrario não, também é autoconhecimento. Se estiver errada, por favor, me corrija! :) Pode responder diretamente no meu e-mail tbm ok! Agradeço novamente.
Namastê.
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Sidney
Postado em: 26 de Janeiro de 2010 às 11h48
Concordo com suas palavras, onde você diz :
As técnicas do Hatha Yoga servem como preparo da mente para o autoconhecimento, mas não servem para curar uma depressão ou libertar do sofrimento, da sensação de que somos limitados.
Posso dizer-lhes que cheguei ao Yoga (alguns anos atras) com a intenção de investigar O Que é o Yoga? E não por algum problema fisico ou emocional. Logicamente, ao longo das práticas fui constando o amplo alcance do Yoga na minha vida pessoal e que contribui tambem imensamente para melhor na minha saude orgânica.
Obrigado pelo seu texto.
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Ricardo
Postado em: 24 de Janeiro de 2010 às 21h22
Querida Patricia,
tudo bem?
Grato pelo seu comentário. Krishna diz para Arjuna, " a Razão do seu sofrimento é ilegitimo". Ilegitimo, porque na verdade o sofrimento existe devido a ignorância que temos em relação aquilo que somos. Por isso se faz necessario um meio de conhecimento que me revele aquilo que eu sou. Se o ser que eu sou é eterno, não pode ser produzido a partir de nenhuma pratica ou ritual. Se a razão do sofrimento é a ignorancia, então o meio para libertar do sofrimento é conhecimento.
Não há nada que uma ação realize para revelar a liberdade porque obstáculo real para a liberação é a ignorância. A ação (hatha Yoga e rituais) está ligada ao corpo, a mente ou ao emocional. Mas para libertar do sofrimento é preciso de autoconhecimento, conhecer a si mesmo com livre e eterno. Esse autoconhecimento se dá atraves do escutar das palavras de um professor dentro da tradição e não por ações. Ficou claro?
Grande abraço e tudo de bom!
Ricardo.
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Patrícia
Postado em: 22 de Janeiro de 2010 às 18h54
Querido Ricardo, como vai?
Ótimo texto, mas gostaria de esclarecer uma coisa... Você diz no final do texto que a prática de hatha Yoga não serve para curar a depressão, mas sim como preparo da mente para o autoconhecimento, mas se preparmos a mente não sofreremos mais de depressão!
Sendo assim acho que esse preparo cura sim uma depressão, você não acha? Uma pessoa que sofre da doença e começa a praticar yoga, logo começa a ter esse preparo, começa a se libertar e não sofrerá mais. Assim acredito que uma coisa leva a outra...
Conheço muitas pessoas que com depressão procuraram o yoga, se redescobriram, quebraram os condicionamentos, perderam o medo da morte e assim passaram a viver melhor!
Namastê.
Patrícia
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Elisa
Postado em: 21 de Janeiro de 2010 às 14h34
Excelente texto Ricardo!
Se não formos nós, praticantes e professores a esclarecer até onde o Hatha Yoga pode nos levar, quem poderá fazê-lo?
Namastê!
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