O yogi e a bebida

Miguel Homem - 06 de Fevereiro de 2010 - 21 Comentários

Muito já se escreveu sobre o que o yogi põe no prato. Não tanto o sobre o que o yogi coloca no copo. Este texto não se destina aos praticantes não tenham um grau de compromisso elevado com a forma de vida do Yoga, mas àqueles que se dedicam a ensinar Yoga.

O Yoga é como a mãe que acolhe o seu filho independentemente de como este se relacione com ela, sendo o seu filho o praticante. Diferente é o papel daquele que ensina.

Há algumas semanas fui a um jantar de Yoga. E nesse jantar sentaram-se dois amigos professores de Yoga e decidem, para acompanhar a refeição, escolher uma bela garrafa de vinho maduro tinto. Desde essa altura, por uma forma ou outra tenho-me cruzado algumas vezes com esta cena.

É normal? É salutar?

Não estamos a falar do hábito cultural ou social, mas deste hábito particular dentro da cultura do Yoga. Não me proponho citar Vedas e Gita para sustentar um ponto de vista. Antes quero reflectir partindo de uma base comum e um consenso que parece ser generalizado entre os professores de Yoga.

 yoga_wine4

Aqui há uns meses largos um amigo enviou-me um link do New York Times, em que se dava conta de um retiro promovido por professores de Yoga dos Estados Unidos, em Itália, numa Quinta de vindima e produção de vinhos que combinava Yoga com degustação de prestigiados vinhos. Alerto que a proposta não era Yoga e embriaguez, mas sim Yoga e degustação.

Quando veiculei a notícia, foi consensual (direi naturalmente consensual) a reprovação daquela iniciativa. Alguma coisa inerente ao Yoga faz com que a generalidade dos professores de Yoga desaprove aquela ideia. Alguma coisa inerente à tradição do Yoga é contrária à ideia de degustação de vinhos por entre o Yoga.

Para os curiosos, este episódio de Yoga e vinho não foi um caso isolado. Veja-se o New Yorke Times de hoje:

http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?sec=travel&res=9E02E2DF1231F936A25751C1A9609C8B63

Pergunto-me então o que separa a iniciativa do retiro de Yoga e vinho do professor que decide beber uns copos ao jantar ou umas cervejolas numa festa com amigos?

Dir-se-á que no caso do retiro o hábito do consumo é estimulado e no outro não. É este um argumento válido?

Vejamos, se eu acho que existe coerência entre Yoga e vinho, porque não levar os meus alunos para em ambiente calmo e descontraído, por entre a natureza e sol de Itália a provarem e degustarem algumas delícias da vinicultura? Se por outro lado eu reconheço não haver coerência, vale o argumento: olha para o que digo, mas não o que faço? O professor de Yoga faz o não apropriado, mas não o incentiva, nem o recomenda. Isto é ensinar?

Felizmente em alguns círculos de Yoga existe já um consenso acerca de que o Yoga não é um “amazing workout”[1]. O Yoga é uma cultura. Ouve-se nas práticas repetidamente que o Yoga não acontece no tapetinho, mas mais importante no dia-a-dia.

A questão então é: se eu sou professor de Yoga, que exemplo dou no meu dia-a-dia? O que mudou desde que comecei a praticar e em algum momento decidi passar adiante a cultura e tradição do Yoga?

Se antes o meu tempo livre girava à volta de cinema, futebol, cabeleireiro, compras, jantares e festas com amigos e agora gira à volta do mesmo; mas mais importante se eu encontro recorrentemente tempo para ver a bola, ir ao shopping comprar mais qualquer coisa, um jantar ou uma festa, mas não consigo encontrar o mesmo tempo para estar comigo, para praticar, meditar ou estudar, onde está o meu Yoga fora do tapete? Infelizmente o Yoga fora do tapete torna-se numa serie de frases repetidas nas aulas, mas sem conteúdo… não existe coerência entre o que se diz e o que se faz. Não existe um valor completo pelo que seja o Yoga, a sua cultura e a responsabilidade de ensiná-lo. Existe apenas um meio valor. Aquilo que espero dos demais que ensinam e me ensinam é claro, por isso não aprovo o retiro de yoga e vinho. Mas o mesmo valor aplicado a mim cede à pressão interna e social: a pressão do palato, a pressão para ser aceite e estar integrado na maioria. Esta dissociação entre aquele que pensa e aquele que gera traz certamente um conflito ao professor de Yoga, mas cada um com as suas opções por conflitos internos. O que me preocupa é o exemplo que é passado.

Todos nós recebemos o Yoga de alguém. Alguém ensinou e deu o exemplo. Graças a isso o Yoga chegou até nós. Um gesto vale mais do que mil palavras. É bem verdade. Todos sabemos como o exemplo marca. Todos têm um exemplo ou já ouviram alguém referir-se ao professor de Yoga fulano, como um exemplo. Eu admiro aquela pessoa, a opção de vida dela, a disciplina, o compromisso. O exemplo daquela pessoa inspira à mudança. Aquela pessoa existe porque alguém também lhe deu o exemplo e assim vêm vindo: vidas de yoga que transformam as pessoas geração após geração e ficam como o exemplo vivo da verdade do ensinamento do Yoga.

Acontece que todos os que estão vivos e são o exemplo vão partir. É a lei da vida. Os que ficarem vão dar o exemplo. Ensinar o Yoga é assumir uma responsabilidade. Se a minha vida continua o que sempre foi, mas adquiriu uns ares de espiritualidade com que dou umas aulas de manhã e ao fim da tarde, o que vou passar adiante?

Se o Yoga é fora do tapete, se eu já tenho inerente em mim uma noção do que é apropriado dentro do Yoga, se até sei os porquês, impõe-se me agir em conformidade.

Que exemplo queremos deixar para o futuro? O professor que por entre umas passas de um charro de erva (plantada biologicamente claro!) fala sobre Brahman e como tudo é Brahman ou aquele que reúne os alunos ao fim da tarde junto à praia para uma cerveja fresquinha para refrescar seguida de uma meditação?

Se não vemos isso como Yoga porque damos o exemplo? Quando assumimos a responsabilidade de ensinar Yoga tornamo-nos exemplos, quer queiramos quer não. Que exemplo queremos ser? Fica o convite à reflexão, quem sabe à mudança… com o desejo de que ninguém se sinta ferido.

[1] Expressão usada por um célebre professor de Yoga dos Estados Unidos para definir o Yoga num DVD de Yoga que circula na net e outros circuitos comerciais.

Respostas:

Luiz Carlos

Postado em: 27 de Agosto de 2010 às 15h29

Os artigos do Miguel são sempre bons. Esse suscitou uma série de comentários interessantes. Alguns contra e outros indiferentes à bebida.

Não há na tradição tântrica nada contra o alcool. Inclusive ele é estimulado no Vama-Tantra no ritual da maithuna. Mas não é disso que trata o artigo. Ele fala do exemplo a ser dado pelos professores. Acho que o exemplo a ser dado é o do equilibrio e alegria de viver, pois tudo está na ordem.

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André

Postado em: 26 de Agosto de 2010 às 15h11

Quem bebe não está fazendo mal a ninguém. O que é contraditório é professores de Yoga que comem ovos e laticínios que exploram os animais. Isso sim é um absurdo.

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Marco Aurélio

Postado em: 02 de Abril de 2010 às 10h39

Mais importante do que o que se come ou o que se bebe, é o que se pensa e como se age a partir deste pensamento. Conheço muitas pessoas que são extremamente focadas na sua alimentação (não comem carnes vermelhas, não bebem nada alcoólico, etc...), mas estão presas em grandes apegos, em muita vaidade, orgulho, prepotência e por fim em um Ego que se sente superior a todos os outros que não compactuam com seu modo de Vida.

Neste ponto, passam a julgar os outros e se perdem nestes julgamentos. Cada um tem o direito e a liberdade de fazer com seu corpo aquilo que entende ser o melhor para si. Reprimir ou bloquear determinados interesses ou desejos pode gerar um ruído muito mais prejudicial na cabeça da pessoa e acabar fazendo muito mal a saúde da mesma, muito mais do que um copo de vinho ou uma cerveja gelada com os amigos.

Um abraço; Marco Aurélio http://gruponossacasa.wordpress.com

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Leonardo

Postado em: 24 de Fevereiro de 2010 às 13h09

Caro, seu texto é radical demais, embora a reflexão seja válida. Não falo de causa própria porque sou abstêmio; acho que te falta uma ida ao Vedanta-Sutra, ao Yoga-Sutra (Patanjali diz que um dos meios de se chegar ao samadhi é por drogas... (!) ), e ao Ayurveda, que inclusive indica bebidas alcólicas para determinados biotipos.

Na tradição vinda de Shiva a "intoxicação" é bem vista (bem vinda?) tanto quanto a desintoxicação. Outra coisa, Yoga não é cultura, isso é uma falácia, Yoga é um método e um fim. Um meio de perceber a alma e se conectar.

Se bebidas e drogas afetassem a alma, tudo seria diferente. A alma não se contamina jamais, ela é pura. E como diz no Shiva-Sutra: "alma é consciência". Contanto que o sujeito não fique num "estado de bêbedo", um estado de consciência drogado, e assim, doente, por certo, o equilíbrio é muito bem vindo.

Existe relatos (Puranas) que na tradição védica a bebida era usada sem preocupação! É o ponto de ver até quando isto te afeta ou não, bem, e você sabe, isso é de cada um, será um processo individual, sempre. Sem falar que estamos em Kali-yuga, a coisa muda demais.

Abraços.

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Lea Terra

Postado em: 24 de Fevereiro de 2010 às 11h00

SAUCHA, já nos dá uma dica...sugiro aos meus alunos q pensem a respeito...mas eles é q vão decidir qdo e como...tto AHIMSA, q me fez ser vegetariana qto SAUCHA, me sustentam na convicção d q é melhor para mim...o exemplo é seguido ao seu tempo, respeitando-se o espaço e processo evolutivo d cda um.

Trabalho c/ alcoolismo há mto ... Corajoso é enfrentarmos os obstáculos d cara e mente limpas!!! coragem p/ ser abstêmia d drogas e vegetariana...pressão do meio é forte, mas as escolhas tranquilas e conscientes afastam as tentativas d "defesa d ptos d vista" d opções contrárias as minhas.

Como reikiana, tento passar a ENERGIA DO AMOR UNIVERSAL a tdos os seres...e acredito q é por aí...a minha MENTE já me dá mto trabalho p/ tentar uma vida harmoniosa e feliz...deixo os outros fazerem suas escolhas...tem dado certo...Om Shanti!

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Diva Paiva

Postado em: 23 de Fevereiro de 2010 às 14h22

Parabéns Miguel, adorei!

Vamos ser bem francos, o vinho não é o remédio, nem o complemento alimentar que tem sido divulgado por aí, o vinho é álcool. O álcool embota a mente, limita a energia, o prana.

O professor de Yoga que não bebe, não fuma e não come carne está ensinando shaucham, purificação de fato. Pelo que sei, não há outra forma de se ensinar isso, a não ser sendo um professor exemplo. Isso é difícil?

Mas quem disse que o caminho do Yoga é moleza?

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Luiza

Postado em: 22 de Fevereiro de 2010 às 18h39

Álcool e Yôga definitivamente não combinam. Se um dos objetivos do Yoga é libertar o seu corpo e, consequentemente, sua mente, o álcool entra como um dos principais obstáculos para alcançá-la. Acredito que muitos professores de yôga, e até mesmo discípulos, alunos ou praticantes esporádicos, não consigam largar o álcool simplesmente por uma questão social: deixarão de ir a encontros, botecos...

O álcool, assim como comer carne e derivados animais é, além de tudo, um comportamento social e cultural que muitas pessoas não querem abrir mão. Para se alcançar o mínimo de evolução espiritual, é preciso renunciar a algumas coisas - a renúncia é uma prática espiritual -; e o yogi que realmente esteja interessado em evoluir e passar seus ensinamentos a outras pessoas, deve ter o mínimo de responsabilidade sobre si mesmo e sobre o que faz com os outros, dando como exemplo o desapego às questões sociais ilusórias que prendem o corpo material a essa existência.

Deixar de consumir álcool deveria ser a primeira atitude ética a ser tomada por aqueles que desejam incorporar a yoga como filosofia de vida.

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Anônimo

Postado em: 19 de Fevereiro de 2010 às 12h27

Quando vi o texto achei que fossem falar sobre o papel da bebida expansora de consciencia Soma em toda fundamentação dos Vedas e consequentemente em todas as escolas que dele se influenciaram na Índia incluindo tudo de Hatha Yoga.

Já tive experiências com uma planta medicinal que expande a consciencia e sou muito grato a elas, porque reconheço em mim e em muitos a falta de predisposição e tempo para nessa encarnação usar meu corpo e respiração para chegar no diamante que existe dentro de cada um de nós.

Além de muitas compreensões universais ela me fez vomitar como alguns kriyas do Yoga que nunca tive coragem de fazer e foi maravilhoso a sensação de limpeza e disposição para servir o bem geral. Fui conduzido ao real estado de meditação e vacuidade e graças a essas experiênicas agora tenho inspiração e disciplina na trilha do Yoga.

Nunca me dei bem com a maconha nas poucas vezes que experimentei, mas também não é novidade para quem lê o básico de Patanjali identificar o uso da erva como aliada em toda concepção do seu Yoga e como ela é difundida na Índia. Sou contra a apologia porque acredito que existem contra indicações nem sempre fáceis de serem identificadas, o que torna o tema muito delicado, porém, acho que já passou da hora de reconhecerem o papél de um expansor de consciencia, de uma planta medicinal, na fundamentação raiz de todo Yoga.

Plantas que silenciarão e redimirão muitos yogis cheios de razão e crenças distantes da experiência, mas ávidas para alimentar o separativismo contra o próprio sagrado. Divulgar esse texto trará alguns escondidos nessa verdade para esse site.

Namastê!

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