Felicidade, conhecimento, liberdade

Swami Dayananda Saraswati - 12 de Abril de 2010 - 1 Comentário

A consciência não pode se tornar um objeto para a observação de outro sujeito. Saber disso é moksha. Porém, cabe perguntar aqui por que seria necessário o conhecimento para se ter moksha? Mesmo se Atma for auto-evidente, é necessário conhecê-lo. Os animais não questionam quem é o karta ou o bhokta, o agente das ações ou aquele que as desfruta, mas tampouco se conhecem como satchitananda, realidade, consciência e plenitude. Tanto o ser humano como o animal são ignorantes, mas somente para o humano é possível sair da ignorância nesta vida. Todos os objetos derivam a sua existência de mais alguma coisa: a camisa depende, para existir, do tecido. O tecido depende do fio. O fio depende da fibra. A fibra, da molécula, etc. Noutras palavras, nada existe separado do Todo, nada existe separado de Brahman.

 

Plenitude ou alegria?

Nesse sentido, nós conhecemos a plenitude, conhecemos a felicidade? Sabemos o que estamos buscando? Você já experienciou a felicidade, já se sentiu completo, com a sensação de que nada estava faltando? Se você segue o dharma, elimina os conflitos, fica tranquilo e a plenitude se revela. Como sensação, como experiência, a felicidade pode durar mais ou menos. Porém, sendo uma sensação, pensamento ou sentimento, essa felicidade será, forçosamente, limitada: começa num determinado momento, e noutro momento acaba. Quanta felicidade um humano pode ter? Uma passagem da Taittriya Upanishad, Brahmanandavalli, 8, diz:

“Imagine um homem de bem, jovem, forte, saudável e que possui toda a riqueza do mundo. Tome isso como uma unidade de felicidade humana. Agora, multiplique isso cem vezes. O resultado será a felicidade dos manushyagandharvas e daqueles que compreenderam os Vedas e destruíram o samskara. Multiplique isso mais cem vezes e você terá a felicidade dos sábios e daqueles que estudaram os Vedas e destruíram o samskara. Multiplique isso cem vezes e terá a felicidade dos karmadevas, aqueles que alcançaram a libertação pelo domínio do karma”.

Esta citação da Taittriya ilustra até que ponto um humano pode conquistar a felicidade através das ações, seguindo o dharma, e como isso é limitado, em comparação à plenitude advinda de moksha. Assim, a felicidade, como sentimento, pode aumentar ou diminuir, mas tem um limite. Sendo parte das dualidades, sua contraparte é a ausência de felicidade, chame-se tristeza, infelicidade ou o que for. Quando a felicidade termina, começa seu oposto, que também tem certa duração no tempo e depois, por sua vez, dará lugar a mais um momento de felicidade.

Plenitude não é felicidade, não é alegria, não é uma sensação ou uma emoção que se manifesta num momento e no momento seguinte desaparece. Segundo a Taittriya, esse sentimento é algo insignificante, comparado com a plenitude. Mas, é necessário lembrarmos que essa plenitude não é uma emoção, não pertence às dualidades, não começa nem termina, mas é aquilo que nós somos. Nesse sentido, ananda não depende de riqueza, saúde, prazer, conforto ou segurança.

Esse é o motivo pelo qual preferimos traduzir ananda como “plenitude”, e não como felicidade, para não confundir este ananda que você é com uma emoção que acontece na sua mente ou no seu corpo num momento dado, e depois desaparece. É por isso que insistimos na compreensão de que moksha não é uma experiência, anubhava, mas uma maneira de ver a vida, e ver a si mesmo nela. Os anubhavas são sempre limitados. Ananda é ananta, ilimitado: não começa nem termina. Essa é a natureza de Atma. É isso o que precisa ser compreendido. Assim, as experiências, por dhármicas ou prazerosas que sejam, não podem nos trazer plenitude.

 

Necessidade do autoconhecimento.

Mas por que precisamos do conhecimento, se Atma é auto-evidente? Qual é a necessidade desse conhecimento? Digamos que eu já seja feliz e esteja satisfeito com a minha vida, pois tenho o hábito de tomar LSD e isso me deixa tranquilo e feliz, como descreve Alan Watts no seu livro Joyous Cosmos. O problema é que esta felicidade que as experiências como a do LSD podem me dar, sempre, cedo ou tarde, forçosamente acabam. Mesmo as experiências de felicidade mais profundas uma hora terminam, e depois, naturalmente, segue o contrário delas.

Ishvara é o Todo e, a maneira de se viver em plenitude, é através do meio de conhecimento adequado para conhecer Ishvara. Esse pramana, esse meio de conhecimento é Brahmavidya. Como já vimos, esse meio de conhecimento é diferente dos outros como a percepção, o testemunho ou a inferência. Mesmo com toda a sofisticação dos silogismos complexos e demais cálculos que os seres humanos somos capazes de fazer, que nos permitem inferir a existência dos buracos negros e desvendar a estrutura do elétron, esses meios de conhecimento não são capazes de revelar Atma.

 

O papel dos meios de conhecimento.

As limitações do corpomente são evidentes. Não conseguimos olhar para as nossas costas, nem mesmo para o nosso rosto. Com todas estas limitações em termos físicos ou de meios de conhecimento, como podemos fazer para nos conhecer? Precisamos do meio de conhecimento adequado. Esse pramana para o autoconhecimento não é como os pramanas que a ciência usa. Até mesmo se estabelecermos uma causa para a existência do Universo usando a lógica, ela, o raciocínio e a inferência, dentro deste pramana peculiar que é o autoconhecimento, estão em função de moksha, que é o único objetivo, e trabalham conjuntamente com e em função do ensinamento dos ®astras.

A lógica, a razão e a inferência são usadas para descartar tudo o que for crença, condicionamento ou simples tolice, que são coisas que, muitas vezes, vêm junto com as religiões, o Yoga ou a espiritualidade de modo geral. É necessário descartar, usando essas ferramentas auxiliares, tudo o que não for conducente a moksha. Essa é a função que o raciocínio tem no Vedanta. Mas, o pramana mesmo não é a razão. O pramana é o Veda. O objetivo é moksha. E moksha, é agora. É necessário, então, dar uma oportunidade ao pramana para ver se funciona mesmo. A visão do Vedanta me diz que eu sou ilimitado. Tudo o que é negado por essa visão, simplesmente desaparece na presença dele. Atma é ilimitado. Eu sou Atma.

 

O ser é auto-evidente.

Aceitar que o Ser é auto-evidente, auto-efulgente, pode implicar um eventual erro, que pode ser corrigido: esse erro é tentar observar o Ser como se fosse um objeto. Qualquer conclusão que você possa tirar sobre si mesmo não pode ser negada. Eu me dirijo a você, o que implica a minha aceitação da sua pessoa. Sua presença aqui não pode ser negada por ninguém. Eu não posso, tampouco, negar a minha própria presença aqui. Então, a negação do Ser não é possível, mesmo na hipótese de eu ser ignorante sobre mim mesmo.

“Eu achei que existia algo abençoado, que eu precisava experienciar”. Esta postura é uma das muitas formas do samsara: achar que é necessário encontrar determinadas experiências que irão, finalmente, nos tirar da aflição. Em verdade, tudo o que você experiencia, tudo mesmo, é o Ser. Todas as experiências são experiências do Ser. O samsara é como uma montanha russa: todos nós estamos andando nela, alguns morrendo de medo, alguns rindo, outros chorando de nervosismo.

Se a ignorância deve ser removida, deve haver um meio de conhecimento, um conhecedor e um conhecido. Quem é esse conhecido? Quem é esse conhecedor? Conhecedor e conhecido são svaprakasha Atma, o Atma auto-efulgente. Ele não pode ser objetificado. Através das palavras, recebemos conhecimento indireto.

 

O papel da palavra e o testemunho.

Há um lugar chamado Gangnani não muito longe de Uttarkashi, onde tem duas fontes: uma de água quente e outra de água fria. As pessoas vão lá para se banhar. Eu posso descrever este lugar em todos seus detalhes, mas isso não significa que você, depois de me ouvir, irá saber tudo sobre esse lugar. Seu conhecimento sobre Gangnani será indireto. Se você considera que eu sou uma fonte confiável, de boa fé, você aceita minhas palavras como são e pode até falar sobre este lugar para mais pessoas.

A experiência de primeira mão é diferente do conhecimento indireto. Através do meu testemunho, você cria na sua imaginação esse lugar a partir da minha descrição. Cada um de nós poderá construir o lugar de uma maneira diferente, tendo como base exatamente as mesmas palavras. Ora, acontece que as Upanishads são feitas de palavras, certo? Ouvir essas palavras, até mesmo quando expostas e esclarecidas por um professor, é ainda esse tipo de conhecimento indireto, como no caso da descrição de Gangnani.

O hemisfério cerebral esquerdo é intelectual, puramente racional. O direito é emocional, criativo. Você não é nem o hemisfério direito, nem o esquerdo, nem o que tem no meio. Você é tudo. As palavras, repito, dão lugar a conhecimento indireto. Tem gente que pensa que o Vedanta é uma teoria. Elas querem algum sadhana, algum tipo de “prática”.

Se eu falar de Gangnani, que fica no Himalaya, esse lugar, em termos geográficos, é distante de você, que está aqui escutando. Gangnani também é distante em termos de tempo, pois leva tempo chegar lá, seja de ônibus, carro, a pé ou usando o meio de transporte que for. Porém, quando falamos de Atma, Atma não é “algo”, não é um objeto, que esteja distante, nem em termos de tempo, nem em termos de espaço, daquilo que você é agora.

 

A natureza de Atma.

Você é Atma. Atma é você. Você não precisa de fé para aceitar isso, pois você existe, e sabe que existe. Se eu dissesse “eu sou”, todos nós deveríamos compreender. “Eu sou”, já deveria ser suficiente para compreendermos isto, já que o Ser é auto-evidente.

Atma é auto-efulgente, não precisa de nenhuma outra fonte de luz para iluminá-lo. Atma revela a si mesmo. Não vem ou volta. Não é sujeito a mudanças de nenhum tipo. Permanece o mesmo, o mesmo “eu sou”, em todas as circunstâncias, sob todos os papéis representados. Este “eu sou”, que é invariável, é Atma. Este Ser é a causa de tudo. O conhecimento do Ser nega, neutraliza a ignorância sobre quem sou.

Quando você vê esta flor, sua mente assume o vritti da flor. Aí, você reconhece: “estou vendo a flor”. Se a flor estiver distante, você não sente o cheiro, mas pode ter uma lembrança dos cheiros de rosas que você já sentiu anteriormente. Assim, este objeto externo, constrói um vritti no seu pensamento. Ele se torna o objeto do seu pensamento. Você conclui, então: “isto é uma flor”.

Atma não é, como já dissemos, um objeto. Não obstante, a ignorância sobre Atma precisa ser, mesmo assim, removida. Expondo-nos ao ensinamento, que é o meio de conhecimento, temos a revelação direta de Atma. Não há nada no mundo que eu possa apontar como satyam, que não seja este Atma. As conclusões que eu possa tirar sobre quem eu sou, como agente ou desfrutador das ações, karta ou bhokta, são papéis superimpostos a Atma. O conhecimento de Atma como satchitananda remove essa eventual confusão, que é a causa do sofrimento.

Dizer “eu conheço Atma” é uma força de expressão. Negando aquilo que eu não sou, a identificação com o papel do karta ou o do bhokta, a ignorância se esvai junto com essa identificação. Isso não envolve novas ações. Dar-se conta não é uma ação. O trabalho do professor é mostrar isso ao estudante. Este não é conhecimento banal. Portanto, eu não me vejo mais como um pramata, um conhecedor, nem sou um objeto que precisa ser conhecido. Me vejo como satchitananda. Ponto.

 

Respostas:

Patrícia

Postado em: 20 de Abril de 2010 às 17h59

Que beleza de texto!

No infinito e imutável Ser que sou vive a plenitude. Nos desejos e na impermanência dos meus personagens vive a felicidade. Saber dar os nomes de cada qual e saber onde estão faz a diferença. Me trouxe mais clareza sobre o que sentia mas não conseguia nomear.

Om namah shivaya! Grata.

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