O papel do yogi
Pedro Kupfer - 02 de Junho de 2010 - 4 Comentários
Viver é representar papéis. Não há existência sem cumprir deveres, realizar ações e obrigações. Somos mãe ou pai, filho ou filha, irmão ou irmã, etc. em cada uma dessas posições, cultivamos atitudes e modos diferentes de nos comunicar. A maneira em que falamos com nossos pais, por exemplo, é diferente da que usamos para nos dirigir aos nossos filhos.
Como filhos, cultivamos a gratidão em relação aos nossos pais, e isso se expressa na maneira em que falamos com eles. Como pais, somos responsáveis pela educação e formação dos nossos filhos, e essa responsabilidade também se manifesta nas atitudes e palavras que escolhemos para nos dirigir a eles. Representamos papéis no trabalho, na sociedade, na nação, no país, no bairro, em casa, o tempo todo.
Um papel é um dever, uma obrigação ou função que se cumpre na sociedade ou na família. Essas obrigações são chamadas vyavaharah em sânscrito. O conceito de vyavaharah é muito importante dentro da filosofia do Yoga. Ele pode ser traduzido como responsabilidade, esforço ou dever cotidiano.
Obviamente, isso está vinculado com as maneiras corretas de agir, que sempre devem estar em conformidade com o dharma, o princípio da harmonia social e universal. Dentre as diversas conotações que esta palavra pode ter, há o esforço pela conduta reta, o esforço por falar sempre a verdade, etc. Num outro sentido, esta palavra também significa litígio, procedimento legal ou julgamento (por um tribunal).
Atores e papéis.
Embora nossa existência não dependa da representação de quaisquer papéis, nós não podemos fugir deles. Portanto, deveríamos permanecer cientes de que a nossa felicidade não depende de representar ou deixar de representar um dado papel. A personagem somente existe porque o ator existe. A existência do ator não depende da representação do papel. Comparemos os papéis que desempenhamos na sociedade com a situação do ator que representa diferentes personagens, através de dois exemplos ensinados por Swami Dayananda.
Caso 1: confusão entre o ator e o papel.
Digamos que o ator João representa o papel do operário Luiz. O roteiro da peça indica que o operário Luiz leva uns socos do capataz Bernardo, representado pelo ator Francisco. Porém, acontece que o João naquele dia está sem paciência e confunde as coisas. Aí, após o primeiro sinal de agressão por parte do capataz, o operário revida os golpes e machuca de verdade o ator Francisco. Finda a peça, o diretor vai tirar satisfações com o João, que responde: “revidei, por que não ia deixar que ele me batesse mais. Eu não levo desaforo para casa!”
Este é o típico caso da pessoa que, envolvida como está com os papéis que representa, esquece que ela não é nenhum desses papéis. O ator João não agiu. Ele apenas reagiu emocionalmente. O amigo leitor pode achar engraçada esta situação, mas isso já aconteceu de verdade numa encenação do épico Ramayana em Tamil Nadu, sul da Índia. O ator que representava o príncipe Rama enloqueceu e feriu com golpes de espada o ator que encarnava o demônio Ravana.
Caso 2: representação consciente de um papel.
Numa outra hipótese, o ator João, que faz sucesso e prosperou graças ao seu talento, representa o papel de um mendigo que sofre e chora. O ator pode sorrir e pensar para si mesmo enquanto derrama copiosas lágrimas: “Que felicidade! Estou chorando bem como nunca!” Apesar dos graves problemas vividos pela personagem, o ator não é atingido por esses problemas.
Ele sabe perfeitamente que a representação é uma representação e mais nada. No fim da peça, pendura as roupas do mendigo, veste as suas e sai alegremente para jantar com os amigos. As lágrimas ficaram para trás. Neste caso, João era plenamente ciente de estar apenas representando um papel. A consciência de si mesmo como João estava presente antes, permaneceu durante a encenação do sofrimento do mendigo e permanece depois que a peça termina.
Relacionamentos inteligentes.
Relacionamentos inteligentes se constroem pela descoberta do espaço que há entre quem nós somos e os papéis que representamos. A realidade de qualquer relação é que sempre há um fator variável e um constante. Desde seu ponto de vista, você é o invariável, e todos aqueles que nos relacionamos com você (inclusive eu, ao escrever estas linhas), mudamos constantemente. Essa pessoa invariável que você é assume diferentes atitudes, dependendo dos papéis que estiver representando. No entanto, se você fizer uma lista dos seus problemas, descobrirá que eles estão ligados unicamente a esses papéis. Em suma, objetivamente falando, você não tem problemas para chamar de seus. Os problemas são inerentes aos papéis que você representa, mas não são seus.
Swami Dayananda ensina: “Se você tiver problemas como pai, filho, esposo ou esposa, você deve compreender que está confundindo a si mesmo com seus papéis. Se você confunde um papel com si mesmo, não há problema algum. Mas, se confunde a si mesmo com um papel, então, definitivamente, essa confusão vai levar você a um estado de sofrimento e desespero. Você precisa compreender que o Eu é livre de todos os papéis e situações, livre até mesmo da própria mente. Apenas com essa compreensão dos truques da mente você irá se tornar mestre dela, usando-a como um instrumento para aprender, para apreciar, para amar.”
A sala de Yoga é o lar do yogi.
Dentre a infinidade de papéis que representamos, há um que é bem peculiar: o do yogi, o praticante. Este não é um papel que você possa “representar”, como quem cumpre uma obrigação burocrática. Por definição, ser yogi é renunciar conscientemente tanto às ações impulsivas quanto às mecânicas. Essa consciência se cultiva na prática de Yoga. Quando falo sobre prática, não estou me referindo à execução de técnicas, mas à reflexão sobre quem somos, o que inclui certamente a constatação de que os problemas não são nossos, mas estão vinculados aos papéis que representamos.
Gosto de ver a sala de prática, esse espaço ao mesmo tempo sagrado e público, como um lar. Minha esposa e eu viajamos muito, indo de país em país, de cidade em cidade ou de praia em praia. Às vezes, durante longos períodos, não passamos mais do que duas noites no mesmo lugar. Porém, em cada lugar por onde passamos nos sentimos em casa, pois sempre visitamos salas de prática. Cada sala é diferente e única em si mesma, mas todas compartilham a mesma energia, já que são sempre construídas com esse intuito de servir como um templo para a reflexão. A sala é basicamente um lugar tranqüilo e seguro, onde o praticante pode “ensaiar” a arte de viver de maneira consciente. Podemos dizer que a sala é uma espécie de laboratório onde nos treinamos para a vida.
Assim, quando surge algum sentimento de fragilidade, raiva ou tristeza, apenas paramos o que estivermos fazendo e vamos para a prática, refletir sobre o que já sabemos sobre nós. Ao longo da prática, é normal nos sentirmos em paz e mais preparados para acompanhar o fluxo dos acontecimentos com tranqüilidade. Quando a ansiedade desaparece, conseguimos ver que o Eu não sofre. Desta maneira, nos desgrudamos dos nossos problemas e não mais tentamos fugir do presente. Namaste!
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Publicado originalmente na revista Prana Yoga Journal: www.eyoga.com.br.
Respostas:
Fabricio Rosa
Postado em: 01 de Agosto de 2010 às 14h14
"Relacionamentos inteligentes se constroem pela descoberta do espaço que há entre quem nós somos e os papéis que representamos."
Adorei o texto.
Valeu!
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Pedro Ferreira
Postado em: 10 de Junho de 2010 às 14h27
Obrigado pelo excelente artigo . É muito bom poder ter "locais" como este onde tenho lido sempre como uma óptima referência para uma orientação no caminho com o Yoga. Assim como é bom encontrar pessoas que outrora nos ajudaram e saber que por aqui também estão de certa forma nos desperta um sentimento de reconforto :) .
Muitas vezes me questionei e talvez tenha questionado outros de qual o seu papel. E realmente nos vários papeis que desempenhamos na vida existem acontecimentos que nos deixam a mente entupida pela dúvida do desempenho do nosso e dos papeis dos outros. Assim só com serenidade ultrapassamos toda a incompreensão da mistura que nós próprios criamos e voltamos com amor determinação e alegria a desempenhar os nosso papeis.
Namastê!
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Fabiana
Postado em: 06 de Junho de 2010 às 10h53
Gostei muito do artigo. Você sempre escreve de modo lúcido, sereno. Quando falou das salas de prática, lembrei de uma aluna minha que saiu da aula e disse: "Agora vamos voltar para a vida real." Eu não disse nada, mas queria dizer: "A sala de aula já é a vida real..." Abraço.
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Marie Seltzer
Postado em: 02 de Junho de 2010 às 12h41
Obrigada ppor mais um muito interessante artigo! Sempre me fascino quando vejo como que também através da arte e seus paralelismos conseguimos atravessar as nossas camadas e passo a passo caminhar até à fonte de toda a criatividade, Ishvara. E mais me fascino sempre que vejo que o Yoga nos dá todas as ferramentas e conhecimentos necessários para que esse caminho seja seguro e cheio de amor. Namaste! Marie
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