Ashtaanga Yoga Mantram e seu significado profundo

Marcelo Cruz - 15 de Julho de 2010 - 3 Comentários

Om vande gurunam charanaravinde
sandarshita svatma sukhava bodhe
nih shreyase jañgalikayamane
samsara halahala mohashantyai

abahu purushakaram
shankhachakrasi dharinam
sahasra shirasam svetam
pranamami patañjalim Om

Tradução:

Saúdo os pés de lótus dos mestres, que revelam o autoconhecimento, que me fazem realizar a verdade que é a plenitude final; evitando o feitiço, como o curandeiro da selva, [o autoconhecimento] aquieta a ilusão que vem do veneno do ciclo de encarnações.

Reverencio Patañjali que tem a forma humana até a cintura (o resto tem a forma de uma cobra), (com suas quatro mãos) segura uma concha, um disco e uma espada (com a quarta ele faz o gesto de ausência de medo), tem mil cabeças e cor clara.


Introdução:

Quando o mantra é entoado se pratica uma ação mental pedindo algo ou reconhecendo algo, trazendo, portanto, resultado. Como a intenção é um fator importante na ação, sem o conhecimento do significado, neste caso, não tem como este quesito estar presente. Também existem, tradicionalmente, pessoas que cantam mantra-s para memorização, desconhecendo seus significados, com a intenção de preservação dos textos de geração para geração.

Este canto e o praticado nas aulas de Iyengar Yoga são as invocações que se fazem anteriormente ao estudo dos Sutras de Patañjali. Cantados nas práticas de Hatha Yoga, honram o conhecimento advindo do estudo e vinculam a disciplina à sua parte filosófica, por assim dizer, apoiada nos sutras.

É importante salientar que a tradução do sânscrito envolve uma compreensão de todo o verso e uma interpretação, caso contrário pode ficar ininteligível ao leigo. Além, uma mesma palavra em sânscrito possui diversos significados. Alguns tradutores optam por completar as palavras literais, porém sem perder o sentido da frase.

 

Do mantra:

É um mantra devocional, de agradecimento e entrega aos Mestres. Faz referência à flor de lótus pura e intocada. As pétalas de sua flor possuem um óleo que as protege do toque da água. O lótus nasce no lodo, seu caule atravessa toda a água e, por fim, a flor desabrocha na superfície. Da mesma forma o conhecimento permanece intocado mesmo que viva no meio, digamos, mundano.

Através do conhecimento transmitido pelo guru o discípulo fica livre da ilusão do samsaara. A ilusão nada mais é do que a realidade relativa em que vivemos e para a qual atribuímos ser absoluta. Só a tradição de ensinamento mestre-discípulo sem opiniões pessoais e com fidelidade única (pura) pode revelar ao discípulo todo o conhecimento necessário para ser livre de condicionamentos. O samsaara, nos trazendo uma falsa identificação de quem somos, é chamado de veneno que intoxica a mente com sofrimento. Só a eliminação deste veneno (ilusão), através do antídoto (ensinamento) é que se alcança a plenitude (pode ser compreendida, inicialmente, por felicidade).

O mantra deixa claro que não são as práticas físicas que causam a libertação. Aaasana-s, praanaayaama-s, meditações, etc., são suportes para que o corpo tenha saúde e a mente tenha foco e concentração. A doença é uma causa de fracasso para o yogi e é apontada por Patañjali como um dos nove obstáculos ao autoconhecimento. Tanto que as séries de aasana-s do Ashtaanga Vinyasa são chamadas de cikitsa (terapêutica), ou seja, possuem objetivo enunciado e pré-determinado.

Independente de quantos aasana-s fizer ou qual postura conseguir elaborar, aasana é só aasana e com finalidade específica. O mesmo se diz de todas as demais técnicas do Hatha Yoga, como drshti-s, shatkarma-s, etc.

No segundo verso são indicados os símbolos do poder e habilidade do guru para que a ignorância de si mesmo, pertencente ao discípulo, seja destruída. Os naga-s, seres divinos metade homem metade serpente, são representações comuns no hinduísmo. A serpente é o símbolo da vida, infinita e atemporal, que sustenta todo o universo. As mil cabeças indicam que todas as direções do universo são observadas e que Patañjali é um avataara (encarnação) do deus serpente Ananta. Este, desejoso por ensinar o Yoga ao mundo, manifestou-se na forma do sábio nas palmas das mãos de uma yoginii. A cor clara remete à luz do conhecimento.

As quatro mãos sustentam uma concha, um disco e uma espada. A mão que não é mencionada é a que sempre está em abhayamudraa (gesto para dissipar o medo) em todas as divindades. É o gesto onde a mão é apontada para cima, mostrando-se a palma ao discípulo, significando “não tema”.

A concha é a representação dos cinco elementos da prakrti (matéria) que são terra, água, fogo, ar e espaço. Quando soprada, a concha produz o som do Absoluto que, segundo os Veda-s, deu origem ao universo, o pranava, o Om.

O disco é uma arma tradicional nas deidades e é uma arma utilizada para destruir as ações inapropriadas, o adharma. Esta destruição vem através da pratica dos yama-s e niyama-s, normas de condutas éticas e disciplinas de estudo e purificação. Também, como todo círculo, representa o infinito, sem início nem fim. É a indicação de que o mundo foi, é, e será sempre permeado por ações apropriadas e inapropriadas enquanto o autoconhecimento não for realizado pelo discípulo.

A espada, ligada ao conhecimento e à discriminação, é utilizada para cortar a cabeça do “demônio da ignorância” e trazer a luz para a escuridão. No hinduísmo, as características do universo são representadas por deidades ou demônios. Estes nada mais são do que os que agem pelo adharma, pelo ego, levados pelos desejos e pela confusão quanto à sua própria natureza.

Assim, devemos cantar o mantra com o significado em mente, para que a luz do conhecimento termine por revelar o que já somos, entendendo que nada há que ser produzido por qualquer tipo de ação. Nossa natureza é plenitude ilimitada. Sofremos por acreditar que somos o limitado, pois nos sentimos dessa maneira. Só o guru, liberado do samsaara, é capaz de revelar nossa identidade com o Todo.

Om Shri Gurubhyo namah!

 

Respostas:

Maykon Bernardo

Postado em: 18 de Julho de 2010 às 22h44

Achei otimos os comentarios... entretanto no segundo paragrafo esta escrito que este mantra é ensinado no Iyengar Yoga..... mas este não é o Mantra praticados na aulas de Iyengar Yoga.... Este é o Mantra Inicial da Pratica de Ashtanga Vinyasa Yoga (Pattabhi Jois).... por este Motivo se chama: Ashtanga Yoga Mantra.

O Mantra Inicial das aulas de Iyengar Yoga, tambem fazem uma reverencia ao mais nobres dos sabios, Patanjali.... geralmente (pelos praticantes) chamado de Iyengar Yoga Mantra......é o mantra abaixo..... yogena cittasya padena vacam malam sarirasya ca vaidyakena yopakarottam pravaram muninam patanjalim pranajaliranato\\\'smi abahu purusakaram sankha cakrasi dharinam sahasra sirasam svetam pranamami patanjalim.

Uma das traduções possiveis é: " Reverenciamos o mais nobre dos sabios, Patanjali, que nos legou o Yoga para a evolucao da consciencia, a gramatica para a pureza da palavra e a medicina para a perfeicao da saude. Inclino-me humilde frente ao sabio Patanjali, encarnacao humana de Adisesa (serpente de mil cabecas), portador da espada (simbolizando discernimento), concha (o som divino) e o disco (a eternidade) do segundo paragrafo em diante é igual... mas o inicio é diferente..... espero ter auxiliado de alguma maneira....

Namaste!

Responder esse comentário

Marcelo Cruz

Postado em: 19 de Julho de 2010 às 22h11

Olá Maykon,

Obrigado pelo comentário. O mantra chama-se Ashtanga Yoga mantra e não ashtanga vinyasa yoga mantra, como deve ater-se ao título da matéria, já que o segundo verso é retirado da invocação à Patañjali, e o primeiro retirado do Yoga Taravali, atribuído a Adi Shankaracharya, com pequenas modificações, mas com o mesmo significado. Muitas outras práticas de Hatha Yoga o fazem, além dos estilos mencionados.

Percebo que você, na leitura, confundiu "e" com "é". O texto diz: "Este canto e o praticado nas aulas de Iyengar Yoga são as invocações...""

O mais importante, acredito, é manter-se focado no que o mantra quer indicar, independente de buscar uma "titularidade", já que como você deve saber, na Índia há o costume dos textos serem atribuídos aos mestres, porém, sem serem de sua autoria. Quanto à tradução, como mencionei, o sânscrito permite uma liberdade em escolher as palavras mais adequadas para a completa interpretação do texto, claro, sempre à luz da linhagem de ensinamento.

No caso mencionado por você, o ideal seria todo o desdobramento explicando o que seria "evolução da consciência", etc. A escolha das palavras é fundamental para evitar a confusão. Estas frases devem ser desdobradas para que o ensinamento seja compreendido e a pessoa que estiver entoando o mantra saiba o que está pedindo.

Uma outra tradução, mais poética que a minha anterior, se me permite, para os versos que você menciona, combinados (pois o segundo é idêntico e é nele que traz a descrição de Patañjali, e não no primeiro), seria:

"Minhas saudações ao mais nobre Mestre Patanjali, que ensinou o yoga para serenidade mental e também como medicina para o aperfeiçoamento físico. Minha saudação ao Mestre que ensinou a gramática para um falar puro e nobre. A parte superior de seu corpo é humana e suas mãos seguram uma concha e um disco. Tu és coroado com mil cabeças de serpentes. Oh!, encarnação de Adishesha, minhas saudações a ti."

Novamente, obrigado por contribuir. Harih Om!

Escreva sempre!

Namaste!

Responder esse comentário

Gustavo Cunha

Postado em: 16 de Julho de 2010 às 06h40

Excelente artigo Marcelo!

Por favor, continua a escrever e a esclarecer o significado e intenção deste e de outros assuntos ligados à cultura védica e do Yoga.

Harih Om.

Responder esse comentário

Li e concordo com os termos de uso

SEÇÃO DO MÊS

  • Mantra
    Quem mantra, seus males espanta!

MAIS LIDOS

ANÚNCIOS

CURSOS E EVENTOS

  • 24 de Fevereiro a 10 de Março de 2013

    Staff yoga.pro.br

    Índia: Viagem de Yoga e Cultura com Pedro Kupfer e Ângela Sundari

    Esta proposta de viagem foge às convencionais, centradas no turismo, no lazer e nas compras. Visitaremos cidades sagradas e históricas, escolas de Yoga e ashrams, rurais e urbanos. Visitaremos as multicoloridas feiras indianas, conheceremos a excepcional cultura deste país, sua história e seu passado

  • 02 a 29 de Julho de 2012

    Pedro Kupfer

    Formação em Yoga

    Temos o prazer de anunciar para os próximos meses de julho e setembro, os Módulos II e I da Formação em Yoga, que acontecerá na praia de Mariscal, no belo litoral de Santa Catarina.

[veja todos]