Gentileza gera anugraha
Pedro Kupfer - 22 de Setembro de 2010 - 7 Comentários

O Profeta Gentileza estava em plena atividade quando eu morava em Saquarema, no final dos anos 1980 e início da década de 1990. Nascido José Datrino, este paulista de Cafelândia teve uma epifania que o levou a ajudar vítimas de um incêndio na cidade de Niterói e, depois disso, dedicou o resto da sua vida a confortar os demais com palavras e ações amorosas. Um verdadeiro exemplo de dharma em movimento.
Diz a Wikipédia sobre esta grande alma: "Desde sua infância José Datrino era possuidor de um comportamento atípico. Por volta dos treze anos de idade, passou a ter premonições sobre sua missão na terra, na qual acreditava que um dia, depois de constituir família, filhos e bens, deixaria tudo em prol de sua missão. Este comportamento causou preocupação em seus pais, que chegaram a suspeitar que o filho sofria de algum tipo de loucura, chegando a buscar ajuda em curandeiros espirituais."
Se o Profeta Gentileza tivesse nascido na Índia, certamente seria considerado um sábio e santo, e jamais seus pais teriam pensado que ele era louco. Quando eu chegava de ônibus na rodoviária do Rio de Janeiro, via os esplendorosos murais que ele pintava ao longo do Viaduto do Cajú e me perguntava o que isso significaria, e quem teria deixado essas mensagens.
O adágio que mais se repetia naquelas inscrições, recentemente restauradas, era "Gentileza gera Gentileza. Amor". Vim saber dele muito tempo depos, quando já havia falecido. Porém, o legado dele, a importância de tratar os demais com consideração e respeito, continua.
Quando pensamos em emoções, atitudes ou virtudes, e a maneira em que elas são vividas e sentidas nas diversas culturas, reparamos que elas podem ter distintas nuanças, como as das cores usadas por diferentes pintores. De cada paleta surgem diferentes universos de cor, que são similares entre si e, no entanto, absolutamente únicos. Assim, não há uma tradução direta e exata com uma única palavra para designar esse tipo de emoção ou atitude, de cultura para cultura.
Há duas palavras para dizer gentileza em sânscrito, todas ligadas à vida de Yoga: prasada e anugraha. Prasada é o termo mais freqüente usado na língua sânscrita para denotar graça ou gentileza. Essa palavra deriva da raiz sad, que significa “estabelecer-se” ou “sentar”.
Prasada tem dois sentidos: por um lado, designa qualidades como gentileza, serenidade e bom-humor enquanto que, por outro, ainda significa calma, pureza e clareza. Se este termo está ligado sempre as manifestações mais harmoniosas da divindade, é por que a gentileza, a graça e as demais qualidades são de fato divinas.
A segunda maneira de dizer gentileza é anugraha. O Bhagavata Purana usa repetidas vezes o termo anugraha como expressão da compaixão de Ishvara por todas as criaturas. Adi Shankaracharya, ao longo de toda sua obra, igualmente menciona anugraha como a graça que possibilita a libertação, a saída do samsara, o ciclo de nascimentos e mortes.
O oposto de anugraha é nigraha, que pode ser compreendido como obstrução para a liberdade, ou ficar preso aos condicionamentos. Seja qual for a palavra que usarmos em sânscrito para dizer gentileza, essa gentileza tem duas dimensões: a divina em relação ao humano, e a da convivência entre os humanos.
A gentileza, seja como prasada, seja como anugraha, sempre aparece nos textos de Yoga ligada ao estado de graça produzido pela contemplação, o êxtase ou o arrebato devocional. Gentileza é aquilo que naturalmente surge quando a pessoa amadurece emocionalmente ou se aproxima desse estado de consciência que é moksha, a liberdade. Como todas as demais virtudes, a gentileza é um efeito colateral da maturidade emocional.
Nesse sentido, creio que a nossa sociedade poderia ser mais feliz se descobrisse o valor da gentileza. Para isso, como ensinou o Profeta Gentileza, todos nós devemos fazer a nossa parte no sentido de tornar o mundo um lugar mais agradável.
Assim, podemos pensar em nos colocar na pele dos demais e trabalhar pequenas atitudes, como ceder a passagem no trânsito, não querer sempre chegar em primeiro lugar, ajudar desinteressadamente os necessitados, deixar os outros vencerem de vez em quando, e não sermos tão duros com nós mesmos. Namaste!
Respostas:
lucianna
Postado em: 09 de Março de 2011 às 11h11
NOIS TODOS PODERIAMOS SE COMO ELE.. PORQUE GENTILEZA GERA GENTILEZA . É ASSIM VAMOS TE UM MUNDO MELHOR *---* MUITO OBRIGADO . GENTILEZA PELA SUA FORÇA DE VOLTADE PARA FAZER UM MUNDO MELHOR . FICA COM DEUS FICA NA PAZ DESCANSE EM PAZ BY ; LUCYANNA SANTOS
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Lucy Ana Di Priolo
Postado em: 27 de Setembro de 2010 às 10h00
Ja cantava Marisa Monte:
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta.
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Sara Rios
Postado em: 24 de Setembro de 2010 às 09h17
Namaste Pedro :)
Este texto veio mesmo na altura certa. Que possamos todos sintonizar constantemente na Gentileza. Que eu o possa fazer sempre sem esperar Gentileza em troca.
Imensamente grata,
Sara.
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Mirella
Postado em: 24 de Setembro de 2010 às 00h29
Olá Pedro! Obrigada pelo texto! Vejo gentileza como uma forma de amor. E sendo cristã, quando li "(...) essa gentileza tem duas dimensões: a divina em relação ao humano, e a da convivência entre os humanos", logo relacionei àquela passagem bíblica onde alguém pergunta para Jesus qual dos mandamentos é o mais importante, e Ele responde: Amar Deus (que é o Alfa e o Omega) acima de todas as coisas, e amar o próximo como você ama a si mesmo.
Se analisármos, todos os outros mandamentos são essencialmente dependentes destes dois, pois o amor gera paz em nós e no mundo... Mais ainda, o esforço necessário para atingí-los é grande, é uma dedicação de vida inteira para que eles sejam não só alcançados, mas também mantidos, constantes. O desafio para nós então, é meditarmos na necessidade de trazer amor para o mundo de maneira mais prática, de forma expressiva, no sentido de cotidiano, contínuo, natural e orgânico...
Namastê.
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Patrícia
Postado em: 23 de Setembro de 2010 às 14h29
Maravilhoso!
Vi ontem uma camiseta assim! Desconhecia a história dessa iniciativa, e também a visão de Shankaracharya.
Concordo plenamente que nossa sociedade seria mais feliz . Como você disse, me sinto feliz e desprendidada quando consigo praticá-la.
Grata pela gentileza do texto.
Namaste!
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Amélia
Postado em: 23 de Setembro de 2010 às 09h19
Namaste Pedro,
Não estou sentindo muita gentileza por parte de algumas pessoas onde estou no momento.
Foi uma verdadeira prasada ler teu texto!
BeijOM Amélia.
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Fernando
Postado em: 23 de Setembro de 2010 às 00h08
Bravo! Precisamos mesmo de mais gentileza sim! Obrigado pelo texto. Namaste! Fernando.
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