Porno Yoga

Pedro Kupfer - 07 de Outubro de 2010 - 18 Comentários

O observador atento da relação entre a mídia e o Yoga, na onda de popularidade crescente que este vive atualmente, já viu de tudo: Yoga e vinho, Yoga nu, Yoga para cavalos e cachorros, Yoga para acrobatas, Star Wars Yoga, etc. Enfim, Yoga deturpado em todas as suas formas. Essa enxurrada de atropelos e distorções pode provocar um efeito anestesiante na nossa comunidade, que já não se espanta mais com a próxima palhaçada new age ou invenção sectária.

Essa insensibilidade é similar ao marasmo que campa na nossa sociedade perante a infindável lista de escândalos do presente governo que, infelizmente, não escandalizam mais ninguém, nem terminam em punição para os envolvidos. Lá se foi o tempo em que Collor, o “caçador de marajás”, foi defenstrado da Presidência por causa de um Fiat Elba recebido como favor de corrupção.

Hoje em dia nossos políticos roubam bilhões nos níveis federal, estadual e até municipal, e isso não mais produz espanto ou indignação. Estamos anestesiados. Marx errou: o ópio do povo não é a religião, mas a política mequetrefe praticada pelos que governam este belo país atualmente.

 

Yoga + erotismo = $$$

Volto ao assunto do título: na onda da popularização do Yoga, multinacionais como Adidas, Puma e Nissan estão lutando para extrair seu quinhão de lucro, o que não surpreende. Agora, o que ninguém esperava, e que pode deixar muitos espantados, é a mistura de Yoga e pornografia, promovida pela revista Playboy para vender seus hipersexualizados “produtos”. Essa iniciativa visa, como as estratégias promovidas pelas demais multinacionais, o mesmo objetivo: lucrar com as nossas saudações ao sol e estilo de vida.

Nessa guerra pelo dinheiro, vale até usar até o chumbo grosso da apelação mais vil: a pornografia pura e dura associada à prática de ásana. Vai ser difícil aquele guru da mentira ou o criador da próxima palhaçada caírem mais baixo do que isto. Este é o fundo do poço, o fim da picada, mesmo. Não lembro de ter visto nada parecido nestes mais de 30 anos de convívio com todas as formas de Yoga, fidedignas e não fidedignas. O Porno Yoga deixou as demais distorções no chinelo. Tudo pelo lucro.


 

O corpo como objeto.

Aquela velha desculpa de que é melhor aceitar quaisquer práticas de ásana como sendo Yoga (pois quanto mais Yoga, mesmo deturpado, melhor para todos), não cola mais, nem pode ser mais aceita sem ressalvas. Na leitura de Yoga que a revista Playboy faz, o corpo da “instrutora” é um commodity, um mero objeto usado para excitar os sentidos dos “clientes” da publicação. Ninguém vai praticar em casa seguindo as ”instruções” contidas nestes vídeos. A Playboy não pode ser tão cínica como para afirmar isto.

Você consegue aceitar isso numa boa? Que significado tem, para você, seu próprio corpo? Você consegue perceber essa objetificação do corpo humano neste anúncio de meias cujo público-alvo somos os(as) praticantes de Yoga? Aqui, eu vejo o corpo da moça como um objeto, e o Yoga como um produto que se associa a esse objeto, para vender meias. Isso está certo?

 

Se aceitarmos isto como sendo Yoga, o que nos reserva o futuro? Já temos Playboy Yoga e Adidas Yoga. Qual vai ser o próximo passo? Monsanto Yoga? Petrobras Yoga? Disney Yoga? Globo Yoga? Quem vai ser o próximo capitalista demente a querer apropriar-se do Yoga? 

Em tempo, coloco aqui que não tenho nada pessoal contra a beleza do corpo nu, ou contra a sensualidade ou contra a celebração dessa beleza e dessa sensualidade. Pelo contário. Porém, creio que cada expressão deste tipo deve acontecer dentro de seu devido contexto. Qual é a diferença entre usar um corpo nu para vender pneus de caminhão e usar um corpo nu para vender meias? Ambos são igualmente degradantes para a mulher, no sentido de que reduzem o corpo, que é, per se, sagrado, e sua beleza e sensualidade, ao prosaico uso de um instrumento mercantil.

[Um aparte: você reparou no absurdo do produto que está sendo publicitado? Meias antiderrapantes para praticar Yoga? Onde se viu? Yoga se pratica, e sempre se praticou, de pés descalços. Aliás, exatamente o oposto do que se vê na foto acima: o corpo coberto (em caso de clima frio ou estarmos na Índia), e os pés descaços. Enfim...]

 

Yogis nus, lá e cá.

Um sadhu fazer Yoga sem roupa numa montanha sagrada da Índia e muito diferente de uma coelhinha da Playboy fazer demonstrações com direito a caras e bocas (essa parte estou imaginando, pois não assisti o vídeo para cujo link aponta a imagem abaixo no site da Playboy, embora seja certo que haja caras, bocas e muitas outras partes expostas do corpo da modelo).

O yogi nu da Índia não tira a roupa com a intenção de apelar ou despertar o desejo sexual em si mesmo ou nos demais. Pelo contrário: ele desnuda seu corpo como un sinal externo de desapego, que acompanha uma série de outras atitudes desapegadas em relação à sociedade e a si mesmo. Esse desapego, bem compreendido, é um passo importante no processo de moka, no qual o praticante deve se desvencilhar daquilo que não tem valor para si.

 

Isto não significa que todos os praticantes devamos tirar a roupa ou praticar o nudismo. A maneira em que interpretamos o desapego está em função do tipo de prática que precisamos fazer. Existem práticas tamásicas, rajásicas ou sáttvicas, de acordo com a necessidade de cada praticante. Porém, não há prática do Yoga erótico ou pornográfico, como quer a tal publicação. Yoga, associado a esse tipo de conteúdo é o oposto do Yoga e do que ele propõe.

Agora, vejamos um caso de nudez humana, bem usada para publicitar uma boa causa. Eis um grupo de professores de Yoga numa campanha da PETA ("Povo pelo Tratamento Ético dos Animais") para não usarmos artigos de couro, considerando os direitos dos animais. "Prefirimos andar NUS do que usar couro", diz a frase abaixo, em inglês. O leitor amigo saberá perceber a diferença entre a duvidosa intenção das imagens acima e a intenção inequívoca desta que vem a seguir. Aqui não há apelo nem uso do corpo como um objeto para vender algo.

 

O Yoga na sociedade de consumo.

A sociedade de consumo reduz tudo a dois tipos de produto: os que dão lucro e os que não. Por enquanto, o Yoga vende bem, ao que parece. A sexualização do Yoga, sua associação com o erotismo e a pornografia, é mais um capítulo que degrada e afasta aquilo que hoje se conhece como Yoga, do Yoga de raíz, o original. O problema da pornografia é que ela mostra tudo, menos o essencial. O yogi busca ver o essencial, como bem sabemos.

Yoga como distração ou entretenimento não é Yoga. Yoga é uma ferramenta para a liberdade. Não tem, nunca teve, a pretensão de entreter ou divertir ninguém. Se você olhar com cuidado, verá que a sociedade destina os maiores pagamentos aos maiores “distraidores”: atores, políticos, rock stars, “celebridades” e falsos gurus. O Yoga sempre esteve à margem desses acontecimentos, tanto no seu lugar de origem, quanto aqui em Ocidente. Até agora.

O autor destas linhas não considera que o Yoga deva receber algum tipo de tratamento especial na sociedade de consumo. O fato de não gostar da mercantilização e o uso questionável que se faz atualmente da imagem do Yoga está inserido num contexto maior. Pessoalmente, não gosto da comercialização do Yoga assim como tampouco gosto da comercialização da arte, do erotismo e de todas as manifestações culturais. Essa extrema comercialização é ruim para todos nós, para a nossa cultura e para o mundo. Só isso.

Assim sendo, penso que o praticante consciente não deve dar força nem ficar calado perante esse tipo de distorção. Afundamos cada vez mais na kali yuga, a era do egoísmo e dos conflitos. Salve-se quem puder. Salve o Yoga, quem puder. Porém, antes de declararmos a morte do Yoga por choque de capitalismo, pensemos o que podemos fazer para tirá-lo da UTI onde se encontra agora.

Namaste!

Respostas:

Andrea Attis

Postado em: 02 de Outubro de 2011 às 10h28

Comecei a dar instruções de Yoga recentemente... a turma, inicialmente de uns 25 alunos, é, agora de umas dez alunas.

Tive, então, que fazer a minha primeira escolha como instrutora: "Vou ensinar Yoga puro, Hatha Yoga, no meu caso, como está descrito em vários textos de mestres consagrados e seguir Patanjali? Ou vou dar o meu jeitinho e talvez agradar meus aluninhos?"

Senti-me mais segura em seguir as instruções clássicas de Hatha yoga. Quem se identificar, fica e evolui. O yoga não é o único caminho de união e de desenvolvimento pessoal, na minha opinião.

Não precisamos nos preocupar e tentar "salvá-lo". Cinco mil anos e tanto de história já estão bem definidos. É só seguir a risca as instruções! Adoro seus textos, professor.

Namastê!

Puja Ananya
(Andrea Attis)

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Valéria

Postado em: 01 de Outubro de 2011 às 15h27

Pedro, Namastê! Quanto mais chamarmos a atenção para esse tipo de mídia, mais ela se fortalecerá! Eles devem ter adorado esse espaço aqui no seu site. Cuidado com as armadilhas amigo... bjs

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Greice Costa

Postado em: 21 de Outubro de 2010 às 16h20

Querido Pedro,

Parabéns pelo texto! Conforme comentamos, esse assunto está pegando fogo entre os leitores da Yoga Journal americana depois que a professora Judith Lasater enviou uma carta questionando este exato anúncio das meias que você postou.

Muitos posts interessantes defenderam lados opostos dessa questão. Para mim ainda é difícil saber até onde a vulgarizacão do Yoga pode trazer alunos devotos e responsáveis (como a Madonna, que de maneira bem banal aproximou muita gente que considero seríssima para a prática) ou se tudo é parte da banalização geral que deixa os praticantes mais anestesiados, as corporações mais poderosas, e as mulheres mais desvalorizadas e oprimidas.

Aqui vão os links do debate em inglês (não é propaganda, não ganhamos nada com esses clicks!):

yogajournal.com/lifestyle/3058 blogs.yogajournal.com/yogadiary/2010/08

Namaste!

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ze

Postado em: 20 de Outubro de 2010 às 06h13

Pois é, caro Pedro,

Está ficando um pandang generalizado. Mas isso é detalhe. O foco da nossa atenção/energia tem de estar nos "mestres" que utilizando o Yoga pintam o que podem nas meninas/meninos destruindo suas cabecinhas e corpinhos para seu belo prazer.

Não tem isso de etica profissional, tem mesmo é de gritar esses nomes aos quatro ventos (e à policia quando for o caso) se o mestre/professor/amigo for yoguin nao existe playboy que chegue ao aluno/praticante/iniciante.

Aqui em Portugal ainda nao existem "dissidentes" (eta palavrinha com conotaçao feia) existe sim,ainda mais agora que os brasileiros estao acordando para certos tipos de mestres/yoga, um mercado imenso, com porta de entrada para toda a Europa, para os mestres/dissidentes que perderam a credibilidade e encontram nesta zona do globo uma legião de desinformados prontos a papar tudo o que lhes for VENDIDO(a preços exorbitantes) com o nome de Yoga. Esta, no meu darshan, é que e a verdadeira pornografia.

Já vai longo o desabafo, não chateio mais : )

Boas ondas Pedro, ad astra.

Zé.

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William

Postado em: 19 de Outubro de 2010 às 11h02

"Prejudice dwells in the eye of the beholder".

========

Caro William,

É fácil dizer isso, "o preconceito está no olho de quem vê". Aqui, creio, o tema não orbita em torno de algum preconceito e sim na percepção que a sociedade tem do que seja e o que não seja Yoga, bem como do significado do corpo nu, notadamente o feminino, e a mercantilização do mesmo, com a desculpa disso ser "Yoga".

Namaste!

Pedro Kupfer.

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Mark

Postado em: 12 de Outubro de 2010 às 22h21

Concordo com tudo Pedro, sacanagem isso né?

Deturpa a imagem do Yoga... Mas, gostei da loirinha, não vou mentir.

Libera o link; libera!

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Fabio

Postado em: 11 de Outubro de 2010 às 01h29

Puxa Pedro,

Libera o link pra gente ver as fotos da loirinha...

Show, demais!

Abraço.

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Ana Rita Simonka

Postado em: 10 de Outubro de 2010 às 12h49

Nào sei não... com o faro que eu tenho, se entra uma aluna com esse perfil na minha turma, eu chamo para conversar... sei lá... onde foi que ela aprendeu tudo o que sabe? Por que as práticas espirituais acabaram tão vulgarizadas?

Vale a velha frase: é muito cacique para pouco indio... tem "mestre" sobrando, e faltando "aluno de verdade"... tem momentos que o professor tem, sim, que chamar um aluno para conversar... é o que eu penso!

NAMASTE!

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