Tic-tac, tic-tac: o tempo na visão hindu
Pedro Kupfer - 06 de Janeiro de 2011 - 5 Comentários
O dicionário nos diz sobre a palavra tempo: “duração relativa das coisas que cria no ser humano a idéia de presente, passado e futuro; período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem”. A ideia que surge desta definição, característica de como o ocidente enxerga o tempo, é a de uma progressão linear. Essa visão é aplicada no estudo das cronologias históricas. O que veio antes, o que está acontecendo agora, e o que ainda não aconteceu, ocupam lugares contíguos ao longo de uma linha imaginária, nas páginas dos livros de história, geologia ou cosmologia. Aprendemos, dessa maneira, que o que já aconteceu não se repete, e que o que ainda não veio, nunca aconteceu antes.
No pensamento da Índia, assim como no de outras civilizações antigas, a ideia do tempo linear não existe. Ou existe, mas de outra maneira muito diferente: o tempo é cíclico, e se repete incessantemente. O que está acontecendo agora, já aconteceu antes. O que ainda virá, já aconteceu também no passado. O curioso, é que essa percepção do tempo como um ciclo infinito não é exclusiva dos indianos: para os alquimistas medievais da Europa, o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, é símbolo da eternidade. Essa serpente quebra a linearidade do tempo fechando-se sobre si própria. O círculo representa o eterno retorno, a renovação constante, o renascimento redentor. Essa imagem também nos leva a pensar no kalachakra, na roda do tempo da qual falam budistas e hindus.
O sono de Vishnu e os ciclos cósmicos.
Nos Puranas, antiqüíssimos textos que falam, dentre outros temas, sobre a origem do universo, o termo yoganidra (aliás, usado no Yoga para designar as técnicas de relaxamento), alude ao sono do deus Vishnu (nidra significa sono). Vishnu, como preservador da criação, descansa nas águas causais, deitado sobre a serpente de mil cabeças Anantasesha, a infinita. Ele dorme e sonha: durante seu sonho surge-lhe do umbigo uma flor de lótus, da qual emerge o deus Brahma para criar o mundo, dando início a um ciclo cósmico de quatro eras (mahayuga).
Na cosmogonia indiana, um yuga é uma idade ou era cósmica. A visão hindu do tempo como recurso para medir a eternidade é extraordinária e difícil de se conceber utilizando a ideia de tempo à qual estamos habituados. Uma era cósmica é um ciclo completo de nascimento, vida e destruição do Universo. As eras são quatro: krita (a da verdade, ou de ouro), treta (a da tríade, ou de prata), dvapara (a do par, ou de bronze) e kali (a do vício, ou de ferro). O conjunto destes quatro ciclos é um mahayuga. Mil mahayugas constituem um kalpa ou um único dia na vida de Brahma. Brahma vive um mahakalpa (100 anos de 360 dias cósmicos, ou seja mais de 300 bilhões de anos terrestres), que é apenas um piscar de olhos de Vishnu! A morte de Brahma determina o mahapralaya, a reabsorção e dissolução do Universo, após a qual o ciclo recomeça.
Os nomes krita, treta, dvapara e kali referem-se ao chaturanga, um antigo jogo indiano de dados em que há quatro combinações possíveis dos dados, sendo satya a melhor e kali a menos boa. Nele, esse nos remete ao Mahalila, ao Grande Jogo Cósmico. Esse Grande Jogo é uma metáfora para refletirmos sobre a realidade como resultado da manifestação da Consciência Manifestada, Ishvara. Assim como as quatro estações se sucedem ao longo de um ano, da mesma maneira, as quatro grandes eras se repetem ao longo do tempo, reproduzindo uma estrutura fractal que é perceptível no infinitamente grande, no infinitamente pequeno, e no que há no meio.
O tempo cíclico, a Humanidade e a Natureza.
Assim como a serpente que morde a própria cauda, essa ideia do tempo como uma infindável sucessão de ciclos, nos convida para relativizar a condição humana e o nosso papel na criação. Diferentemente daquilo que poderíamos concluir olhando para o tempo linear, em que poderíamos colocar aqui no presente, e de maneira bastante confortável, a presença humana na criação, a visão do tempo cíclico nos convida a perceber a transitoriedade e fragilidade dessa presença. Conseqüentemente, nos traz de um lado uma sensação de maravilhamento perante a grandeza da criação e, de outro, uma necessária e saudável dose de humildade.
Acredito que uma parte dos problemas que a Humanidade enfrenta atualmente deva-se justamente à falta de humildade, àquela atitude de excesso que os gregos chamavam hybris. Esse termo significa em grego ”aquilo que passa da medida justa”. Presunção, arrogância e insolência em relação à natureza e às formas de vida não-humanas são manifestações de hybris. Isso, temperado pela ideia de que o homem ocuparia um lugar especial na criação, cujo corolário é que tudo na natureza existe para o nosso benefício e bel-prazer, nos levaram à situação crítica que estamos vivendo agora em relação ao meio-ambiente.
Em sua obra Estudo da História, o inesquecível historiador Arnold Toynbee enxerga, nessa atitude de arrogância extrema, uma possível causa do colapso das civilizações. O oposto desse excesso de hybris é sofrósina, que é prudência, parcimônia e bom-senso. Se essas virtudes fossem aplicadas, se tomássemos consciência da insignificância do bicho humano diante da grandeza do tempo e da natureza, deixaríamos de ver a nós mesmos como a cereja no bolo da criação.
Em sânscrito, tempo se diz kala. Mas, essa palavra também significa morte, fim, destruição. Esses termos, da mesma maneira, nos remetem à humildade e nos fazem repensar que, tal vez, o nosso papel na ordem universal não seja assim tão central e que, quem sabe, deveríamos enxergar com olhos mais respeitosos e compassivos as formas de vida não humanas e as demais manifestações da natureza. Pecebendo a dimensão abismal dos ciclos cósmicos, relativizamos aquilo que entendemos como a história linear, e nos tornamos assim capazes de viver o presente da melhor maneira. Namaste!
Respostas:
Evandro Andre de Souza
Postado em: 11 de Dezembro de 2011 às 04h34
Perder "tempo" para falar de tempo...Todos nós, humanos, estamos sujeitos ao tempo...O tempo deixou de ser algo importante quando o professor de HISTÓRIA deixou de falar dos fatos e passou a ver seus alunos ficarem mais velhos... A cada história o tempo se vai. O meu filho vai fazer 15 anos e a minha pequena 10, a mole minha ja tem quase 40, o tempo passa e nao é ele o culpado.... Aos momentos intermináveis e à brevidade do instante...
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Carlos Ordovas Lopes
Postado em: 01 de Março de 2011 às 23h06
Na verdade quando dizemos que o tempo e mensurado em ciclos é porque queremos dizer que o tempo se repete de maneira diferente, mas igual. Dá pra entender o que quero dizer se repete de maneira diferente, mas igual?
Pois bem, o que te ocorreu num determinado passado pode vir e deverá vir a repetir, mas de outra forma e de uma visão tua diferente do fato passado. As experiências da vida vão te dando certa maturidade, ou não, para que aquele momento do tempo onde parece se repetir a mesma coisa, você a encare diferente e de uma outra maneira mais clara.
Ou você sofrerá mais uma vez e assim por diante durante vários períodos da sua existência sem que se de conta de como pode ultrapassar aquela situação que lhe causou um sofrimento. E assim viver mais uma vida nesta existência.
Obrigado Pedro, por este magnífico texto, que me fez pensar.
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Rodrigo F.S.
Postado em: 20 de Fevereiro de 2011 às 12h33
Na fase atual de minha existência, penso que o tempo não existe. Penso que o tempo, tal qual entendido, seja linear, seja cíclico (como na brilhante exposição), é apenas uma "medida entre dois extremos, entre dois pontos, por assim dizer".
Passado, presente e futuro não passariam de nomes inventados para compreender a finitude e a impernanência dos acontecimentos. Talvez para um "mosquito" que dura em torno de 24horas, essa pequena etapa de sua existência seja maior do que imaginamos!
Enfim, penso que a vida se manifesta numa espiral "ascendente" e que é uma fenômeno "atemporal". Para me valer de um termo trivial, poderia dizer que "estamos num agora contínuo".
Mas, afora esses assuntos de tempo, penso que importa mesmo é nos tornamos pessoas melhores, pois mais cedo ou mais tarde iremos compreender essa "magia" da vida, sem dúvida, maravilhosa!
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ANDREA
Postado em: 10 de Janeiro de 2011 às 12h42
Que delícia de texto! Melhor ainda é a entrega do meu ser ao cosmo. É me sentir fazendo parte de algo maior e melhor ainda É SABER E SENTIR que não tenho controle sobre tudo. Que peso enorme tiro do meus ombros. FAZER PARTE DO CICLO DA VIDA A AGRADECER POR ISSO. NAMASTÊ
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Washington Oliveira
Postado em: 07 de Janeiro de 2011 às 15h50
Tudo o que tem real valor na vida é Uno, o amor, a paz , a felicidade, aquilo que nos proporciona a plenitude, perceber Deus em nós. Só Nele somos unos com tudo e o todo, em todas as direções, em todas as dimensões, pela eternidade, sem início e sem fim. Tudo aquilo que se pode contar em unidades, tudo aquilo que vem e que vai, gera apego, e portanto, dor e sofrimento, tem um valor relativo e transitório. O amor, por exemplo, não importa à quantos se ame, ainda assim ele é só um, abrangente, inclusivo, inesgotável. Serenamente não pede e nem espera retorno. Em nossa finitude, naquilo que podemos compreender, Deus é o amor absoluto. Assim como a gota d'água se reconhece no oceano, pelo amor podemos reconhecê-Lo em nós e assim sermos unos com Ele. O Tempo também é Uno. Por único deve ser intensamente vivido. O aqui e agora é o nosso presente momento. Não pode ser embrulhado, guardado, poupado ou cedido. Sou uma tentativa tênue de aprendiz iniciante, grato pelo aprendizado que absorvo de tudo que leio neste sítio sublime. Namaste. Washington
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