Todos já ouvimos falar de ahimsa, o sistema de não-violência que Gandhi tornou mundialmente conhecido ao expulsar o Império Británico da Índia sem disparar um tiro sequer. O que não todo o mundo sabe, é que esse poderoso sistema forma o alicerce do Yoga. A prática do Yoga começa (ou deveria começar) na prática da não-violência. Ela é a condição fundamental para que as demais disciplinas éticas do Yoga funcionem: veracidade, honestidade, não-posessividade, etc.

Somente depois de cultivar a ética é que as outras técnicas, como ásana, pranayama e meditação, começarão a produzir resultados. Portanto, podemos dizer que, sem uma prática sólida de não-violência não poderá haver progresso nem realização no Yoga.

Existem duas dimensões diferentes na não-violência, que estão intrinsecamente ligadas: uma pessoal e uma social. A primeira tem a ver com a forma como a gente se relaciona consigo mesmo e com sua prática pessoal de Yoga. A segunda tem a ver com a maneira em que vivemos a vida em sociedade, com nossa familia, nossos amigos, vizinhos ou colegas de trabalho.

A segunda dimensão da não-violência, a social, depende diretamente da primeira, assim como a unha está ligada à carne. Se os praticantes de Yoga ficarem conscientes o tempo todo da ahimsa, haverá uma transformação profunda na sociedade. Imagine uma sociedade brasileira sem violência! Imagine uma sociedade brasileira sem exército! Quanta paz e quantas coisas úteis poderiamos fazer com o dinheiro que o estado destina a comprar armamento e manter o aparato de guerra?

A Índia, como país, está atravessando imensas dificuldades, porém pode nos ensinar com o exemplo da não-violência: é o país mais tranquilo do mundo para se viajar, apesar de seu território ser três vezes menor que o do Brasil e sua população ser quase sete vezes maior. shanti, a paz social, impera lá (muito embora não possamos dizer o mesmo em relação à paz política ou à religiosa).

Aqui no Brasil, temos a sensação, devido a escalada de violência, que o espaço nas grandes cidades acabou, que a violência tomou conta das áreas que antes eram de todos nós. Acredito que isso esteja vinculado com a forma em que o indivíduo percebe a si próprio na sociedade, com a educação e os valores que recebemos quando crescemos.

Pessoalmente, apanhei muito quando criança. Meus pais se comunicavam comigo e meus irmãos através do castigo físico. Diziam-se muitas coisas através da violência, física ou verbal. Violência física é uma das piores coisas que você pode usar contra uma criança. Entre nós, irmão, não era diferente. Ainda tenho as cicatrizes nos punhos das marcas das nossas brigas.

Como os relacionamentos na família aconteciam através da violência, isso deixou impregnada na memória subconsciente das crianças (meus quatro irmãos e eu), a crença de que a violência faz parte de toda relação. Ao banalizar a violência, ela embrutece e cega o indivíduo, que passa a agir de forma torpe e brutal.

Muitos anos depois, ao iniciar no caminho do Yoga e descobrir que existia algo chamado não-violência, achei esse negócio chato e desnecessário. Não havia entendido. Hoje, quase 25 anos depois, percebo como preciso ainda atualizar a não-violência dentro de mim para apagar esses vasanas, essas impressões subconscientes que estão obstaculizando meu crescimento.

Isso criou uma série de dificuldades nos meus relacionamentos, mas percebo que a transformação profunda é possível. Se não houver uma mudança genuína e profunda em meu interior, acaberei por passar essa crença ("a violência faz parte dos relacionamentos") para meus filhos e para as pessoas com as quais me relaciono, alimentando ainda mais o círculo vicioso.

Quem conhece hoje essa senhora aprazível que é minha mãe, não consegue imaginar como ela era antigamente. Sua especialidade era o arremesso de tamanco. Quando começei a praticar Yoga, e ela percebeu as primeiras mudanças de hábitos e atitudes, a transformação que estava se gestando dentro de mim, começou igualmente a praticar e se transformar.

Hoje em dia, minha família passou por um processo de purificação no qual o Yoga teve um papel essencial. Todos meus irmãos, em maior ou menor grau, praticaram a se beneficiaram com o Yoga e isso nos ajudou a reconstruir os relacionamentos e cicatrizar as feridas.

Desse exemplo, podemos inferir que, se quisermos uma sociedade mais justa e pacífica, e uma vida pessoal mais plena e feliz, precisaremos necessariamente usar a não-violência.

Shanti, a paz, é a antítese e o antídoto contra a violência. Paz é a condição essencial para uma vida feliz. Nós estamos sempre correndo atrás da felicidade, achando que ela depende de conseguirmos e mantermos as coisas pelas quais nos ensinaram a lutar. Estamos sempre correndo atrás do amor, da saúde e do dinheiro, mas esquecemos completamente que, se não tivermos paz para desfrutarmos das coisas que realizamos, não haverá felicidade possível nesta vida.

A violência é um dos mecanismos que nos amarra na ignorância, que nos mantêm afastados de nossa própria natureza, que é plenitude e felicidade. Não estou escrevendo estas palavras bonitas porque tenha conseguido superar e controlar a minha raiva ou porque tenha conseguido realizar alguma coisa nesse plano, mas porque eu mesmo estou precisando ouvi-las. Para concluir, vou parafrasear Confúcio:

Se a não-violência se estabelecer no indivíduo, haverá paz na família.
Havendo paz na família, haverá harmonia na sociedade.
Havendo harmonia na sociedade, haverá justiça na nação.
Havendo justiça na nação, haverá paz e felicidade na terra.

Então, amigo internauta, queria convidar você para refletir e praticar isso ao longo destes dias. Se gostar, poderá praticar a não-violência durante sua vida inteira. Om shanti!

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