"O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos.
Sem início, nem fim, transcendendo além do tempo,
do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável.
Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte".

Nesta passagem da Kaṭhopaniṣad está o real sentido do Yoga: a busca pela imortalidade. Este é um tema recorrente tanto nesta mesma Upaniṣad quanto em outros śāstras. É um ponto digno de discussão não apenas para examinar sua profundidade metafórica, mas também por compreender as mais notórias definições do Yoga e seu verdadeiro propósito. 

Dentre estas, talvez a mais conhecida esteja no início do primeiro capítulo dos sūtras de Patañjali - o Yoga como o bloqueio (a desidentificação) dos padrões mentais, para que assim o observador resida em sua verdadeira natureza. Este observador (draṣṭuḥ) é o próprio Ser, e percebendo sua própria natureza identifica-se consigo mesmo.

Como a passagem da Kaṭhopaniṣad menciona, isto é processo perceptivo - vem de um “dar-se conta” e não o resultado de uma ação. No entanto, o Yoga é chamado comumente de uma prática. Pode a prática do Yoga levar a esta realização? Ela ajuda no direcionamento da atenção para esta realidade e desvia a atenção das aflições mentais, e como resultado, estas mesmas perdem sua força.

Estas aflições são descritas minuciosamente também nos aforismos de Patañjali, e nos ajudam a entender qual a relação que as escrituras fazem com o Yoga e a questão da mortalidade humana. A partir do terceiro sūtra do segundo capítulo do Yogasūtra são descritas, na visão do Yoga, as raízes de todo o sofrimento humano na forma de pañcakleśa, as cinco dores. O fascinante desta explanação e o que faz do texto um valioso tratado de psicologia é sua relação lógica e interdependente destas dores.

A primeira dor é avidyā, a ignorância quanto à ilimitada natureza do Ser, que ressalta a aparência da separatividade entre sujeito e objeto. Partindo desta ignorância, o sujeito em um processo óbvio assenta sua identidade no complexo psico-físico e sua natureza inconstante, o que é chamado asmitā e é a segunda aflição.

Nasce daí um falso e superficial senso de self, composto de relacionamentos com objetos avaliados como prazerosos ou dolorosos. Como um código binário em enormes blocos, é destas constatações de apego e aversão, rāga e dveśa, que é composta a interface deste “falso eu”. Isto faz um sentido intuitivo quando pensamos em como é difícil definir nossa própria personalidade sem mencionar tudo o que gostamos e desgostamos.

Com a identificação com o complexo psico-físico e suas limitações e mutabilidades, há uma grande ansiedade pela sustentabilidade deste veículo que, agravada por sua dependência dos objetos de prazer e a receio diante da perda destes objetos, causa constante agitação mental.

Diante deste cenário culmina a descrição das aflições humanas com o que é normalmente é traduzido como "desejo por continuidade". Isto é chamado abhiniveśaḥ. É o medo da morte em que muitos autores ocidentais dizem ser a fonte de todos os temores humanos.

O medo da morte é, essencialmente, a ameaça do não-ser. Mesmo outros dos mais arraigados temores humanos, como a culpa, a condenação, e a insignificância, são também temores frente ao não-ser - neste caso, diante da auto-afirmação moral ou do propósito do homem. Mas é na morte que este se depara com a ameaça do não-ser em sua forma mais puramente existencial. A morte serve, assim, como a base e fonte para todos os demais temores.

O  não-ser é difícil de ser concebido. Significa um vazio, uma ausência de sujeito e de sua suas relações objetais. Não é um objeto concreto a ser enfrentado, mas uma idéia tão abstrata que o próprio termo é uma negação: "não-ser". Existe apenas como conceito. Já a realidade do ser é indubitável - como alguns autores ocidentais já versaram, quando o sujeito questiona sua própria existência, ele ao mesmo tempo a evidencia - é necessário que haja um sujeito para seu questionamento tome lugar.

Dadas estas questões, a atitude humana perante a morte por definição deve ser muito mais de ansiedade que medo, pois o medo tem um objeto definido que pode ser enfrentado, analisado, atacado ou tolerado. A ansiedade não tem objeto - seu objeto é a negação de todo objeto. Lutar contra este "nada" é impossível e assim, quem está ansiedade, permanece no desamparo. Desta forma é fácil ver como nenhuma ação pode liberar-nos desta ansiedade.

É neste ponto que jaz não apenas a maior contribuição que o Yoga tem como solução para este impasse, mas justamente seu cerne. O Ser, descrito nas escrituras como Satyam, é existência eterna e imutável que tudo sustenta. Não há margens nesta realidade. A concepção do não-ser e sua ansiedade decorrente, abhiniveśaḥ, só pode vir da ignorância e se desfalece através do conhecimento sobre o Ser, Brahmavidyā.

Esta infundada rede de aflições produz tamanha inquietude que impossibilita que o observador desvie sua atenção das modificações mentais para si próprio, como o Yoga é definido no Yogasūtra. Cortada a ansiedade da finitude existencial em sua raiz pela foice do discernimento e autoconhecimento, cortam-se também as demais ansiedades que dela se ramificam. Isto relaciona-se com outra definição do Yoga presente na Bhagavadgītā: “a ruptura de toda a relação com o sofrimento”.

Através desta verdadeira liberação, é possível melhorar de maneira significante e definitiva a qualidade de nossas vidas, e neste ambiente de paz, haver as condições apropriadas para que o melhor no ser humano floresça. Isto, na linguagem dos shastras, é vencer a morte. Apenas o conhecimento pode trazer a vitória sobre este sofrimento, pois ele é intrínseco à ignorância - no entanto, é para esta percepção que devem estar orientadas nossas práticas.

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    COMENTÁRIOS

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  1. fernando

    Acredito que na esfera da consciência, uma vez superadas as instabilidades que vem de uma identidade incompleta por nós sustentada,nasce um calor especial,uma compreensão tranquila, sublime e bem aventurada,estável em sua visão calor e amor mas que no entanto não pode negar seu presente envolvimento com a alegria e a dor.

    Sei que este envolvimento de um princípio com o outro já foi comunicado muitas vezes nos textos dos professores que aqui escrevem.Penso que da sagrada comunicação entre shiva(brahmavidya) e shakti nasce o dharma e nossa localização lúcida e sensível em meio a ele.

    Não julgo ter tal realização em suas mais elevadas expressões, mas como penso muito na comunicação que acontece entre purusha e prakriti considero importante a questão de que forma perfeita o ponto perfeito de nossa consciência (bindu) se envolve jubiloso com as polaridades inerentes a este mundo de corporificação e do tempo, e acredito que o desejo sincero de que todos os seres viventes caminhem por uma trilha mais suave e tenham garantidas suas possibilidades de encontrarem a vitória (felicidade) em suas histórias pessoais seja uma das expressões da compreensão perfeita de um jivan mukta ao envolver seu atman com a natureza. Os textos deste site sempre convidam a importantes meditações, obrigado mais uma vez.


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  2. Rapha

    Muito bom! Diogo, estou precisando do seu RG para enviar a tela... ela esta parada por causa disso. Meu email raphaellangowski@gmail.com abraço!
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  3. tiberio

    Olá, Qual a diferença entre o hinduismo e o vedanta?
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  4. André

    Sim, concordo com o texto, o medo da morte é a fonte de todas as outras neuroses. Há pelo menos quatro anos venho me curando da sindrome do pânico através do Yoga. A prática veio de novo a me convencer que existe um Deus, que não nos abandona, ou melhor que está conosco. Eu já desacreditava! O Prof Hermogenes em seu livro Yoga para Nervosos demonstra bem como devemos fortalecer nosso "eu" (self) para combater esses processos mentais. Hoje, entendo mais ainda que a Fé é o primeiro passo. Seria o passo principal. Eu acreditei em Mim, em Deus e na Yoga como meio de encontrar a Deus. Quando os pensamentos de "morte" vinham logo pensava em Deus, depois começava a "respirar" (yoga), e canalizando tudo isso pra fora, passava pelas crises. O medo da morte era o meu maior receio. Hoje compreendi algo que me salvou, que há uma energia que mora em nós nunca morre (transcende a matéria). Seja ela chamada de "Espírito Santo de Deus," seja "Energia", seja "força vital", "luz na vida". Esta estará sempre presente em mim, e acreditem em todos nós (e em você também). Talvez o homem tenha esquecido que dentro dele existe uma grande força, nas palavras de Hermogenes, mais do que "energia nuclear", mas com tanta força dentro de nós, estamos mendigando pírulas, experiencias de "fé", de amor, de alegria, quando tudo isso está aqui dentro. Sim, vecemos a morte quando acreditamos que Deus, em seu extremo amor, plantou vida em todos nós. E esta vida plantada é eterna.
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  5. Luiz Carlos Souza Gomes

    Excelente texto, bem didático, mas acho que vencer a morte de acordo com os shastras é reconhecer que somos uno com a consciencia pois aí não existe nascimento nem morte pois a Consciencia é, não tem origem,não tem fim, e o yoga é uma das várias ferramentas que podem nos fazer reconhecer aquilo que já somos, e apesar de sabermos intelectualmente ainda não conseguimos vivenciar essa realidade. Hari Om

    Patrícia

    Justamente isso!

    Obrigada Luiz, por ter sido mais didático que o texto!

    Namaste!



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  6. Silvio Lopes

    Demais!
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