Você já escutou a frase do título dentro da sala de prática, pronunciada por um professor que supostamente deveria ser equânime? Acontece que alguns professores de Yoga têm o hábito de cutucar ou agredir seus colegas com chavões desse tipo. Esses professores, que felizmente são minoria, acreditam piamente que o sistema que eles defendem seja o melhor ou o mais autêntico, ou o mais eficiente, ou o “original”.

Qual é a razão de alguns professores teimar em manter viva a controvérsia “o meu Yoga é o melhor”? Pense aí: é o medo. De um lado, medo de estarem errados na sua crença; do outro, medo de que você vá praticar com o professor da próxima esquina (o que acaba naturalmente acontecendo quando as pessoas percebem o quanto essas atitudes são erradas e desnecessárias).

Pense aqui jto comigo: isto soa “yógico” para você? Opiniões e palavras fortes podem dar a impressão de que derivam de um lugar justo e aceitável, mas é bem mais provável que elas nasçam no ódio, na intolerância e no medo de quem as sustenta.

Professores de Yoga que usam salas de práticas e blogs como púlpitos para doutrinação ou descarregar suas frustrações em relação ao que os colegas ensinam ou praticam estão perdendo uma bela oportunidade de praticarem a tolerância, a equanimidade e a aceitação, atitudes sobre as quais a tradição do Yoga sempre se apoiou.

 

O certo e o errado.

Há lugares e lugares para dialogar, e formas e formas de dizer as coisas. Há condutas dharmikas e condutas adharmikas. As condutas dharmikas devem ser elogiadas e apoiadas publicamente. Gestos de alegria e aprovação devem ser dirigidos às pessoas que as ostentam, segundo o sábio Patañjali recomenda no Yogasūtra:“o psiquismo se purifica cultivando atitudes de amizade, compaixão, alegria e equanimidade, diante da felicidade, do sofrimento, da virtude e da equivocação, respectivamente” (sūtra I:33).

As condutas adharmikas devem ser apontadas, também publicamente, para alertar os demais praticantes para que esse tipo de atitude não prolifere, e para que não se corra o risco de achar que adharma é dharma. Não há nada de errado enquanto a isso. Aliás, errado é se omitir e dar de ombros pensando “isso não me diz respeito”, quando algum atropelo é cometido, em nome do dharma ou não.

Tampouco acho que seja errado debater temas como a maneira em que o Yoga vai evoluindo ao longo do tempo, especialmente na atualidade, quando tantas formas híbridas estão surgindo e tantas distorções acontecendo. Mas, existe uma grande distância entre apontar o errado ou questionar construtivamente uma prática, e se arvorar em único dono da verdade.

 

Bater ou debater?

Uma coisa é fazer o inevitável comentário jocoso sobre o Yoga do cuspe (que existe de verdade!) ou sobre o Yoga para cavalos, ou manifestar uma justa indignação em relação à mistura de Yoga com pornografia. Outra coisa, muito diferente, é alimentar um discurso intolerante e agressivo em relação a todas as formas e tradições que não sejam a própria da pessoa que fala.

Muitas vezes essa agressividade nasce da insegurança, e esta do medo, e este da ignorância. Assim, a ignorância dá lugar a atitudes infelizes nas quais o professor ataca irracionalmente os colegas que não assinam embaixo do seu credo. O discurso do “Yoga superior” é essencialmente idêntico ao discurso da raça superior, ao da religião superior e aos demais discursos que, historicamente, levaram os seres humanos à guerra e ao genocídio.

Em alguns casos, falta muito pouco para os supremacistas do Yoga chegarem à agressão física, ostentando atitudes típicas de adolescentes inseguros que precisam se afirmar agredindo os demais. Recentemente, recebi uma mensagem através do meu site onde uma pessoa que queria estudar e praticar Yoga, com total justiça, se dizia negativamente surpresa com a banalização, as intrigas e a falta de união que percebeu no nosso meio.

 

Vamos crescer?

Assim, a minha opinião é que esse tipo de discurso supremacista poderia perfeitamente ser deixado de lado, já que não acrescenta nada ao debate sobre o futuro do Yoga (se é que esse futuro importa para nós), assim como não acrescenta nada (pelo contrário, empobrece), a bela variedade de caminhos e pontos de vista que existem no Yoga.

Cabe lembrar que existem vias diferentes para pessoas diferentes, e cada uma dessas vias merece nosso respeito e aceitação. Quando encontramos a maneira de praticar que nos satisfaz e a visão que sacia nossa sede de conhecimento, deveriamos, igualmente, encontrar a tolerância em relação ao Yoga que os demais caminhantes escolheram.

Assim, acredito, estaremos honrando nossos mestres, e aqueles que vieram antes deles. Estaremos honrando os sábios Vyāsadeva, Patañjali, Śaṅkarācārya, Gorakṣanaṭha e todas as diferentes linhagens de ṛṣis que mantiveram viva e nos legaram essa visão libertadora.

Concluo esta reflexão citando o Ṛgveda:

“Ó homem que procuras a verdade e a sabedoria,
abre os braços e deixa que o conhecimento
chegue a ti de todas as partes.
A verdade é una e os sábios irão
ensiná-la de diferentes maneiras”.

 

 

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    COMENTÁRIOS

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  1. Cristiano Marques

    Obrigado Pedro pelo texto iluminador! Por acaso no mesmo dia em que li este texto, horas antes entrei num grupo de Yoga do Facebook onde vejo esse comportamento supremacista onde a agressão está disfarçada de sarcasmo e piadas. Acredito que é importante defender e manter certos pontos da tradição, mas também não dá para desconsiderar o processo de adaptação das culturas e da mentalidade das pessoas ao longo dos séculos. Que possamos todos encontrar esse meio termo. Abraço!
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  2. hayana

    Bom dia , Pedro , gratidão pela sabedoria! Ha tantas formas de se praticar Yoga , quanto ha professores , da preguiça de ver essas discussões , rs , cada aluno escolhe o professor ou o tipo de Yoga a que se sentir mais confortável , e sem julgamento , até porque esse excesso de julgamento e ego vai de encontro aos yamas e nyamas , rs , bem dito mestre, namatê!
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  3. Annete Krebs

    Gratidão infinita pela a palavras de correção!
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  4. Jane Gomes Vasconcelos

    Professor, muito obrigada!!!

    Hoje ia escrever sobre o descondicionamento. Mas... Você refletiu em seu texto tudo o que eu Queria dizer.

    Jaya!!! :-) :-) :-)


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  5. Joana D'arc Ferreira Baros

    Na minha opinião, humildade,respeito Yamas e Nyamas. Podem estar presente em todas as profissões e relações. Adorrei gratidão
    Responder


  6. Joana D\\\'arc Ferreira Baros

    SIM!


    Responder


  7. Ivana

    Olá Pedro Sou instrutora de yoga na minha cidade, e o artigo acima foi como uma benção para mim; pois tinha acabado de ouvir um comentário de que o "meu" Yoga era menos espiritualizado do que o "yoga de uma nova professora" que chegou na cidade. Fiquei triste, decepcionada, explique pra pessoa que não existe meu yoga e seu yoga, que yoga é um só, mas aí, respirei, respirei profundamente, acalmei meu coração; li seu artigo e agradeci. Agradeci por existir no mundo pessoas como você. Obrigada! Namastê!! _/\_
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  8. Mário Henrique Cunha

    Esse é o meu professor! Se os seres humanos são tão diversos como um tipo de Yoga pode querer ser melhor ou pior que outro, cada pessoa se adequa a um estilo. Uns mais meditativos,outros mais pelo louvor, outros no físico etc.
    Responder


  9. Filipa

    Obrigada pelo texto e aproveito apenas para partilhar a minha experiência. Como praticante, já assisti e testemunhei, enquanto aluna, dessa atitude de professores de um determinado "tipo de yoga". Esses professores, ou professora no caso, merecem-me todo o respeito pela dedicação que nutrem ao seu método e mestre e à própria prática.

    Felizmente, na altura, essa não era a minha professora principal e sabia que estava lá de passagem, apenas para aprofundar o estudo de ásanas. O certo é que, por diversas vezes, saía da aula frustrada sem compreender a razão de tanta agressividade e despeito por tudo o que não fosse aquele "tipo de yoga".

    Durante as aulas, muitas vezes dava por mim com compaixão pelos colegas da turma que estavam em intenso sofrimento e pensava sempre "como estas pessoas precisavam de ouvir o meu Professor e verem o yoga de outra forma" ou "como elas precisavam de aprender vedanta".

    Em todas as aulas terminei a prática sentindo-me muito bem do corpo, mas a mente estava baralhada e agitada a inquirir o porquê de tanta disparidade de atitudes quando estamos todos na mesma longa estrada do auto-conhecimento e da libertação da tirania do corpo e da mente.

    A certa altura, foi o mesmo corpo e mente, durante a prática, a "pedirem-me", passo a expressão, para descontinuar aquelas práticas por muito que gostasse da prática de ásanas, a ambiguidade e o desconforto foram crescendo e, como já era claro para mim quem era o meu Professor e com quem ia aprender, não foi difícil tomar essa decisão.

    Mas ainda hoje não percebo a necessidade desse tipo de atitudes se, como diz, o Rg Veda, a verdade é só uma e é ela que deve ser o referencial, e não métodos e mestres adoptados de forma dogmática, penso eu. E métodos não são seitas...


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  10. Pedro Buss Martins

    Olá Pedro, Podes esclarecer a relação entre as filosofias Vedanta e Sámkhya? Muito obrigado!
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  11. Thiago Goulart

    Genial Pedro, parabéns pelo belo artigo. Concordo plenamente com suas palavras. Já fui "convidado" pra "debater" se batendo, através de rede social, pois de acordo com a opinião da pessoa em questão, o que era "adequado" a "pessoas como eu", que praticam um tal tipo de "Yoga" (entre aspas é ele que usa), era apenas a linguagem do jiu-jitsu. Lamentável... 108 saudações a ti hermano, faltava exatamente este teu artigo neste momento. Pil poil, como dizem os franceses. Jaya!


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