Temos uma recomendação muito importante que nos vem da Bhagavadgītā, nas palavras de Kṛṣṇa, bahyaṁ sparśaṁ bahiḥ kṛtvaṁ: “mantenha externo aquilo que é externo”.

Rigorosamente falando, tudo é externo. Mas Kṛṣṇa faz essa precisão no sentido de nos ajudar a não internalizar, não trazer para dentro de nós, coisas que inadvertidamente possamos carregar, sem necessidade.

Carregar, dizemos, no sentido de ter dentro da nossa mente, por exemplo, pessoas que não precisam ocupar esse lugar, situações que nos tiram a paz ou a tranquilidade. Essas situações, muitas vezes, se esgueiram para dentro da nossa pele e não nos deixam. Viajam conosco, vivem conosco, almoçam conosco e vão dormir conosco.

Esse conselho de Kṛṣṇa é fantástico. Deixar o sol externo é fácil. Deixar a montanha externa é fácil. Deixar o céu externo é fácil. É óbvio. Agora, deixar a sua mãe de fora já nem sempre é tão óbvio. Algumas das fontes de aflição, aśāntiḥ, viajam com a gente. Sem pagar passagem, pessoas ficam sob a sua pele e viajam com você, perturbam você, mesmo sem fazer nenhuma ação.

Um conselho só tem valor se precisar ser aplicado, se houver uma possibilidade de colocar ele em prática e uma utilidade para alguém. O conselho de não comer carne só vale para quem come carne. O conselho de não se intoxicar só vale para aquele que se intoxica.

Para algumas pessoas, essas questões são um ponto pacífico: elas simplesmente não precisam desse conselho. Há outras recomendações que são perfeitamente inúteis para todos, como por exemplo, não depile os pêlos da palma da sua mão, ou depile os pelos da palma da sua mão.

Agora, o conselho de Kṛṣṇa é útil por que de fato, muitas vezes carregamos coisas dentro da gente quando não precisaríamos nem deveríamos. Você está aqui e pode estar preocupado com as coisas que deixou em sua casa. Você pode estar aqui, preocupado com seus filhos, mesmo que eles estejam muito distantes.

Você não pode evitar esse tipo de pensamento, pois você se importa com seus filhos ou com a sua casa. Isso é natural e desejável. Agora, se sentir desamparado por conta de alguma situação dessas é o que você não precisa carregar dentro de si mesmo. Buscar ajuda e encontrá-la no lugar certo que neutraliza o desamparo.

Você gostaria que seus filhos fossem diferentes do que são. Mas não consegue mudá-los. Há uma verdade: ninguém muda ninguém. Kṛṣṇa não conseguiu mudar Duryodhana, nem mesmo mostrando a ele sua forma universal, Viśvarūpa. Duryodhana não ficou impressionado. Se Kṛṣṇa não mudou Duryodhana, você muito menos, vai conseguir mudar alguém.

Comecei um curso de três anos e meio. Admiti estudantes no curso, selecionando eles em função de se os pais dependiam ou não deles. Se os pais deles estivessem numa situação de dependência deles, eu não os aceitava pois faria uma diferença para pior na vida dos pais. Então, uma vez que o grupo ficou formado, me concentrei em tentar mudar as pessoas.

Porém, um mês depois elas é que me mudaram. E vivo feliz desde então, pois desisti de mudar alguém. Por outro lado, se alguém está de fato motivado para mudar, não há nada que os demais possam fazer para impedí-lo.

Você quer que o governo seja diferente. Você quer que a economia seja diferente. Você quer que seus vizinhos sejam diferentes. Você quer ser diferente do que é. Quanto mais consciente você se torna, parece que mais desejos você tem de que as coisas sejam diferentes.

Se você quiser que alguém seja diferente, mas essa pessoa estiver contente do jeito que ela é, não há a menor possibilidade de você ajudar ou mudar a pessoa. Isso pode provocar um sentimento de frustração na gente, que se acumula junto com outros resultados de experiências similares que possamos ter tido no passado.

Agora, ao invés de você ficar à mercê do desamparo, se você resolver dar uma força para si mesmo, a mudança para melhor em você pode vir a acontecer de maneira fácil e definitiva. Assim, há algumas ações que podemos fazer, derivadas do nosso livre arbítrio. Lá onde estiver o nosso livre arbítrio, estará o nosso karma.

Se um burro chuta alguém, ele não acumula pāpa pois não possui livre arbítrio. Agora, você pode usar seu livre arbítrio para chutar alguém, mas também pode responder na justiça por conta disso. Quando você faz um karma, uma ação, essa ação, toda e qualquer ação, deriva do seu livre arbítrio.

Porém, analisando de perto algumas situações, veremos que nem sempre as nossas ações derivam da nossa liberdade, mas dos nossos condicionamentos. As nossas ações surgem de maneira intempestiva, impulsiva, ou mecânica, automática.

Assim, se você quiser promover uma mudança, sair do seu pequeno microcosmos, do pequeno espaço onde acontecem as pequenas tragédias da sua vida, faça pūrta karma. Pūrta karma é fazer coisas pelo bem comum: cavar um poço numa vila, doar uma ambulância, trabalhar pelo bem-estar das pessoas.

Para isso, é melhor evitar se envolver emocionalmente, de maneira que o livre arbítrio não fique sob a pressão da afeição que você nutre pelas pessoas, por exemplo. Pūrta karma pela sua família não é pūrta karma, por exemplo, pois nesse caso você está emocionalmente envolvido com aqueles a quem dirige esse tipo de ação.

Pūrta karma atrai graça, pūṇya, para aquele que o faz. Se você quer que alguém seja diferente do que é, faça o que tem que fazer e faça também uma prece pela pessoa. Mas mantenha a pessoa externa. Não carregue ela consigo. Faça o que precisa ser feito, mas deixe a mudança, se ela vier, nas mãos de Īśvara.

Permita que cada um fique em seu próprio espaço. Não carregue as pessoas dentro de si. Aprenda a cultivar o hábito de manter as pessoas externas. Quando você olha para dentro da sua cabeça, não deveria haver preocupações. Pelo menos, não deveria haver demasiadas.

Só quando uma pessoa é capaz de manter externo o que é externo, ela consegue fazer, realizar coisas. Portanto, bahyaṁ sparśaṁ bahiḥ kṛtvaṁ: “mantenha externo aquilo que é externo”. Num relacionamento, você é livre na medida em que garante liberdade para que o outro seja como é. Se não for assim, você perde a sua liberdade.

Permita que cada um seja como é, ajude os demais. Permita que cada um cresça em seu próprio espaço. Essa é a recomendação de Kṛṣṇa na Gītā. Īśvara é, na forma da ordem. Quando você percebe isso, pode permitir que cada um seja como é.

Isso, por sua vez, permite que você use de maneira adequada seu livre arbítrio. Manter as coisas externas, externas é garantir para cada um o espaço para ser como é.

 

    COMENTÁRIOS

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  1. Joana Juliana P. Mascarenhas

    Gostei muito o conteúdo e quero estar em contato com mensagens que elevam a alma.

    Sou Indiana de nascimento e estou sempre em contato com a espiritualidade.

    Agradeço.


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  2. Krshna Priya

    Muito obrigada sempre por nos passar endinsmentos tão importantes.


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  3. Krsna dasa

    Dayananda Swami é um mestre espiritual da Índia, e o mesmo está pregando Karma Yoga, capítulo 3 do Bhagavad-gita, tenho um grupo de estudos do BG, bhakti-yoga e cantamos bhajans, e quem estiver interessado entre por gentileza comigo. Hari bol, Krsna dasa


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  4. Cleonice

    Gratidão!
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  5. verha duarte

    gostaria de me informar sobre meditação. Qdo. falam sobre meditar,dizem que a coluna deve ficar na vertical de forma confortável. Quais posições possíveis para a meditação? Somente c/ a coluna na vertical? compreendo que verticalmente é o recomendado mas gostaria de saber quais outras possibilidades.
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  6. ana

    vibro com esse texto, !!!!!! se nossa identidade continua e necessária(que também cresce, muda evolui- aquela de lidar com dia a dia tido como real e são) depende do olhar externo e da fala externo e do apoio externo, as vezes fica meio emaranhado. mantenho minha fé de que as técnicas nos dadas do Yoga eficazem. o ego é tão visto como vilão hoje em dia no meio espiritualista que até parece um intruso, coitado. malabarismos....fio da navalha. luz e paz.
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  7. Lucas

    Boa tarde,

    visito este sítio há quatro anos, e percebi que até hoje não havia agradecido pelo imenso bem-estar que aqui encontro.

    Muito obrigado!


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