Identificados com a insegurança que por momentos toma conta da mente, às vezes pensamos coisas como “será que vou realizar meus desejos? Será que vou conseguir conquistar o que preciso para me sentir seguro?” O problema é que este tipo de padrão mental de ansiedade torna-se uma verdadeira prisão, um feitiço que nos impede o crescimento e nos tolhe a liberdade.

Quando as coisas não acontecem de acordo com nossas expectativas, ficamos presos à tristeza. Quando obtemos as coisas que queremos, mas as perdemos posteriormente, ficamos igualmente presos à tristeza. Quando não conseguimos o que desejamos, a tristeza se apresenta, como uma sombra ominosa e silente que nos tira o sossego.

Realmente, não precisamos fazer nada em relação aos desejos e à eventual tristeza que possa surgir quando não conseguimos satisfazê-los. Compreender e aceitar que os desejos são naturais e fazem parte da ordem psicológica é o primeiro passo para se libertar da frustração que possa derivar deles.

O segundo passo é entender que a felicidade não se realiza satisfazendo os desejos, muito embora não haja nada de errado em desejar. O erro está em achar que a felicidade possa derivar da realização dos desejos.

Em relação à tristeza e as demais emoções, tampouco precisamos fazer nada, a não ser apreciar o fato de que elas vem e vão, como nuvens no céu. Não há nada de errado em relação ao fato de, ocasionalmente, a gente acordar triste ou ter um momento de melancolia. Isso faz parte da ordem emocional, que é perfeita dentro do que ela é.

Aceitando isso, podemos, por exemplo, apreciar desde a tristeza uma música que sirva como veículo para ela. Assim, ao invés de negá-la, damos uma expressão construtiva para ela e a usamos positivamente, em nosso benefício.

A vida como ela é.

Para ter uma apreciação objetiva dessa situação, precisamos compreender a dinâmica da vida. As coisas vêm e vão constantemente: essa é a lei da natureza. É preciso reconhecer que nada daquilo que chamamos nosso é realmente nosso. Podemos dizer “este é meu cabelo”.

Não obstante, quando o cabelo decide que está na hora de cair, não há nada que possamos fazer para que ele permaneça preso à cabeça. Consequentemente, não podemos dizer que ele seja realmente nosso.

O mesmo é verdadeiro em relação à memória, ao vigor e à resistência física. Quando estas capacidades começam a desaparecer com a idade, não há nada que possamos fazer para conservá-las. Nenhum desses elementos ou faculdades, objetivamente falando são nossos de fato.

Portanto, não podemos nos afirmar como donos de nada. Isto é o que poderíamos chamar de olhar desapegado e objetivo em relação ao corpomente, o que não significa ser descuidado, impiedoso ou irresponsável com ele.

Felizmente existe uma técnica para livrar-se do feitiço, da influência que as crenças limitantes têm sobre nós. A técnica consiste em apreciar objetiva e desapegadamente a justiça inerente e a perfeição presente nas leis da natureza.

O apego e a identificação com aquilo que considero meu, e a tristeza que se segue quando perco o meu são conseqüências da ignorância existencial. Então, “perfeição na ação”, como ensina a Bhagavad Gita, significa desligar-se da tristeza e as demais formas que o sofrimento assume, através da compreensão daquilo que verdadeiramente sou. Esse é o verdadeiro sentido do Yoga: união com o que se é, e separação daquilo que não se é.

A natureza como ela é.

Não é possível separar-se da sua própria natureza. Por exemplo, quando a água está quente, esse calor não é da natureza da água. Ele só acontece na água quando ela está associada com o fogo. A água pode desassociar-se da natureza do calor, mas o fogo não. A natureza do fogo é o calor.

É impossível renunciar àquilo que é natural para si mesmo. Não posso me queixar daquilo que é natural em mim. A minha temperatura é de 36,5 graus. Mas isso não me incomoda, pois é a natureza do meu corpo. Quando o corpo se aquece um pouco mais, me sinto impaciente e desconfortável e quero me livrar desse desconforto.

Se a tristeza fosse mesmo a minha real natureza, eu não poderia nem deveria desistir dela. No entanto, todos queremos ver a tristeza bem longe, mas ninguém quer se livrar da felicidade ou da alegria. Porque isso acontece? Porque lá no fundo, você tem a certeza de que a tristeza não é natural e a convicção de que a felicidade lhe é natural sim.

Você age no mundo e recebe os frutos das suas ações. Às vezes, esses frutos são vistos como desejáveis, outras vezes como indesejáveis. As experiências vêm e vão, na vida de todos. Isso apenas acontece, independentemente de sermos cientes ou não. Até mesmo os sábios vivem adversidades, mas eles sabem como enfrentá-las, pois têm a capacidade de olhar para as coisas objetivamente, engajados na apreciação da verdade.

Sem o entendimento adequado, os meios se tornam o fim, e o fim, que é a plenitude, se perde de vista. Nessa situação, o mais provável que aconteça é que, dominado por um feitiço, por uma crença, eu acabe fazendo ações que irão posteriormente trazer resultados indesejáveis, para mim mesmo e para os demais. Agir dominado pelo desejo ou pelas emoções é arriscado.

Eu, como sou.

É bom lembrarmos que já somos toda a felicidade que procuramos. As limitações do corpomente são restritas ao corpomente e pertencem unicamente a ele. Não são nossas, no sentido de que o Eu não tem posses de nenhum tipo. O Eu apenas é. Fisicamente somos limitados: em termos de força, resistência, longevidade ou tamanho.

Intelectualmente, temos igualmente capacidades limitadas: não conseguimos memorizar os números de telefone de todos nossos amigos, não vencemos o nosso computador num simples jogo de xadrez, não falamos mais do que um punhado de línguas e, às vezes, nem sequer lembramos o que comemos ontem.

Agora, o Eu, está muito além das limitações físicas ou intelectuais que possam estar associadas a ele. O fato de não saber falar polinésio ou não compreender os corolários da teoria da relatividade são limitações inerentes ao intelecto, não ao Eu.

Isso não nos torna limitados. O Eu que você é, está além dessas limitações. Quem é este Eu? Aquele que pode ser apreciado, não com os olhos do rosto, não com a mente, mas com a Consciência.

O ensinamento essencial dos Vedas, resumido na afirmação tat tvam’asi, “você é Isso”, ou o ser individual é idêntico ao Ser ilimitado, deve ser compreendido e aceito se quisermos uma vida tranquila, apesar as dificuldades inerentes a qualquer existência humana.

Essa identidade com a plenitude existe e é um fato, apesar da distinção que possamos fazer em termos do sujeito que eu sou e os objetos que aprecio.A distinção sujeito-objeto não contradiz a não-dualidade, a visão da unidade que permeia todo o ensinamento do Yoga. Este é o conhecimento eterno, sempre significativo e atual, que nos traz inspiração para viver uma vida feliz e plena.

Namaste!

Leia também

  • Aik Alif

    Você lê tantos livros para saber tudo Mas nunca lê seu próprio coração. Você corre para os lugares sagrados Mas nunca entra no altar do seu coração. Você é rápido para condenar o demônio Mas o orgulho é uma batalha que nunca venceu.


    Baba Bulleh Shah
  • Mas afinal, o que é Liberdade?

    Libertar-se quer dizer ver-se livre de condicionamentos sociais, psicológicos, fisiológicos, alimentares, familiares, religiosos e nos coloca em condição de observadores presentes, dando-nos a oportunidade de reverenciar a tudo exatamente como é e não sob uma perspectiva pré-definida pelas experiências passadas. Do passado, retemos somente maturidade. Com os fatos presentes, damos respostas presentes.


    Thais de Albuquerque
    COMENTÁRIOS

    Comentar artigo

  1. José Elias

    Prof. Pedro Kupfer, peço ao sr. que inclua em seu texto que as pessoas diagnosticadas como doentes de depressão grave precisam de tratamento médico, além da sabedoria da Yoga, para não terem suas vidas destroçadas pela tristeza.



    Pedro Kupfer

    Está feito, José. Obrigado pela importante sugestão. Tudo de bom para você. Namaste.

    Responder


  2. Paula

    Muito obrigada pelas palavras sábias e profundas.
    Responder


  3. ricardo

    Nesse momento me deu uma vontade de tomar um whisky, fumar um charuto e apreciar desde a tristeza uma música que sirva como veículo para ela, como sempre fazia o mestre Vinicius de Moraes. Grande parte das suas composições foram criadas na tristeza de um amor, uma forma de tornar a tristeza produtiva.É preciso um bocado de tristeza, Senão, não se faz um samba não.
    Responder


  4. Paulo Triguis

    Gratidão pela maravilhosa sabedoria!

    Amado irmão, observando suas reflexões estou ciente de que você exprime a sabedoria yogue, mas fiquei a pensar que a época atual nos traz possibilidades diferentes, onde de certo estamos aprendendo a transmutar elementos e a encontrar através da lei de atração não tão somente a prosperidade material, como também a psiquica e emocional, estamos descobrindo que o universo é abundante! Até onde devemos aceitar e onde devemos intervir? Desculpe se trago aqui um contraponto, mas é apenas para refletirmos juntos!

    Gratidão.

    Namastê.


    Responder


  5. Igor Rosa

    Simplesmente maravilhoso, muito grato, Pedro por partilhar tanto conhecimento!


    Responder


  6. Felipe Cabrera

    Gratidão !
    Responder


  7. Felipe Cabrera

    Gratidão !
    Responder


  8. Tatiane Melo

    Pedro, mais uma vez muito boa sua reflexão... Esclarece muitas coisas que à mim às vezes parecem vagas quando leio livros sobre Yoga. Namastê!
    Responder


  9. Adriane Kassis

    Olá Pedro,

    Texto de tantas coisas sabidas, experimentadas e vivenciadas mas, nunca demais para serem lembradas. Um texto restaurador.

    Namaste!

    Adriane.


    Responder


  10. Teresa Ferreira

    Obrigada Professor,

    hoje acordei e quando me sentei no tapete a reflexão foi quem sou EU?

    -Que ser está aqui hoje

    -Porque me sinto feliz mas sinto me triste?

    E após ter comido quando abro o meu pc, vejo o seu texto e fiquei bem comigo .

    Gosto imenso de ler as suas reflexões!

    NAMASTE


    Responder