Muitas vezes pensamos que o status da mulher nas sociedades antigas tenha se mantido mais ou menos estável, sempre ou quase sempre por baixo da posição do homem, submissa e escrava, como uma espécie de objeto sem vontade própria nem direito de decidir sobre a própria vida.

Embora isso possa ser verdadeiro em relação às sociedades dominadas pelas religiões abraâmicas, houve exceções no passado, como foi o caso da sociedade etrusca, o da hindu, e outras onde predominou o matriarcado.

Ainda sabendo que na Índia antiga houve momentos de muita liberdade para a mulher, existe um mito entre os praticantes de Yoga da atualidade que diz respeito a posição da mulher em relação à espiritualidade. Esse mito diz que antigamente, o Yoga não era acessível às mulheres.

Porém, se olharmos para os textos antigos, desde o tempo dos Vedas, veremos que não só há mulheres praticantes, mas igualmente mulheres mestras, que ensinam o Yoga aos homens. Elas são chamadas ṛṣikās.

A palavra ṛṣikā em sânscrito é a forma feminina de ṛṣi, que significa sábio. O Ṛgveda, um dos textos mais antigos da Humanidade, que contém o embrião do Yoga que conhecemos hoje, menciona os nomes e recolhe as contribuições e ensinamentos de quase 30 destas mestras.

Não obstante, esse status privilegiado da mulher, em relação à sociedade em geral e à espiritualidade em particular, nem sempre se manteve inalterado na cultura indiana.

Resolvi contar aqui as duas versões da vida da heroína Śakuntalā para contribuir à reflexão sobre o que significava ser mulher na Índia da idade védica e na Índia do período clássico, posterior a ela. Penso que essa reflexão pode nos ajudar a compreender melhor, e vislumbrar alguma forma de reposicionar, se for o caso, o papel da mulher na sociedade de hoje.

A primeira versão da história está contida no Mahabhārata e foi narrada pelo sábio Vyāsa mais de 3000 anos atrás. A segunda é contada pelo grande dramaturgo Kālīdāsa, considerado o Shakespeare da literatura clássica indiana, na obra que leva o nome da heroína. Ambas são muito eloquentes em relação ao papel da mulher nos distintos tempos em que foram registradas.

 

Do ventre materno aos braços do príncipe.

Śakuntalā é uma menina, filha de Menakā, uma ninfa celestial, e Viśvāmitra, um yogi que busca a iluminação. Menakā seduz o asceta, eles fazem o amor, ela engravida e depois abandona a criança na floresta, voltando para a sua morada no paraíso de Indra. Viśvāmitra, envergonhado pela quebra do seu voto de castidade, vagueia sem rumo, tentando recuperar os sentidos.

No solo da floresta, prova viva da vitória da ninfa sobre o asceta, jaz uma menina recém nascida, chorando de fome e medo em meio aos abutres que começam a se juntar à sua volta. As ninfas, assim como as mulheres humanas daquela cultura, eram conhecidas pela sua independência e determinação.

A menina é encontrada pelo sábio Kanva sob a sombra dessas aves, e a chama Śakuntalā. Śakuntalā significa “[aquela que foi encontrada] sob a sombra dos pássaros”. Kanva, que mora nessa floresta, a cria como se fosse sua própria filha, lhe ensinando a meditar e viver em harmonia com a natureza. Ela cresce livre e em paz.

Muito tempo depois, estando Kanva ausente, e sendo Shakuntala uma jovem muito atraente (lembremos que ela tem sangue celestial), um belo príncipe visita a ermida do sábio. O nome dele é Duśyanta, e é herdeiro do reino de Hastiṇapura. Ele fica fascinado com a beleza e a inocência da moça. E ela nunca viu um homem tão viril e interessante.

Eles namoram, naturalmente, e ela engravida. Namoram sem pedir nenhum tipo de aprovação ao relacionamento, nem pela parte do pai adotivo, que está ausente, nem da sociedade. Namoram selvagemente, sob o céu, como animais na floresta.

Depois de um tempo vivendo juntos, ele a deixa e volta para a cidade. Seria da parte dele inapropriado levá-la sem o consentimento do pai, a quem não pode esperar. Porém, Duśyanta promete voltar para conhecer o sogro e pedir formalmente a menina em casamento, para fazê-la sua rainha. É neste ponto que a história se bifurca.

 

Śakuntalā na Idade Védica.

Na versão de Vyāsa, Kanva retorna à ermida e encontra a filha grávida. Fica muito feliz com a notícia e, uma vez que o menino nasce, o cuida com o mesmo amor que devotou à filha achada na floresta. O menino cresce forte e saudável, e é tão valente que é capaz de abrir a boca de um leão para contá-lhe os dentes.

Quando ele cresce, é tomado pela curiosidade em relação ao pai, e pergunta para a mãe sobre seu genitor. Ela o leva até Hastiṇapura, para encontrar Duśyanta. O príncipe, no entanto, tem um lapso de memória e não lembra dela. A insulta e acusa de pretender usurpar o trono apresentando um falso herdeiro.

Śakuntalā olha para Duśyanta imperturbável e diz para seu filho: “Este é seu pai”. Depois, com toda dignidade, dá as costas ao príncipe. Os deuses intercedem, devolvendo as lembranças a Duśyanta, que é obrigado a se desculpar e retirar suas palavras. Ele ainda afirma que esse foi um bom teste frente ao povo para que não haja dúvidas sobre a legitimidade do seu herdeiro.

Porém, Śakuntalā ri: como mulher da floresta que é, as convenções sociais e a busca de legitimação ou aprovação dos seus atos por parte das pessoas, não fazem o mínimo sentido para ela. Ela nos lembra a poderosa e independente Draupadī, principal protagonista do grande épico Mahabhārata, no qual a história de Śakuntalā está inserida. Essa princesa, contra todas as convenções, escolheu ter cinco maridos, prescindindo da aprovação da sociedade à sua escolha.

 

Śakuntalā na Era Clássica.

A versão de Kālīdāsa, escrita há 1500 anos, no ápice da cultura da corte da dinastia Gupta, separa-se da original no momento em que fica claro que o príncipe não retornará para visitar seu sogro e pedir Śakuntalā em casamento. Kanva, então, insiste em que ela, grávida, vá até seu marido, como corresponde a uma esposa fiel.

No entanto, quando Śakuntalā chega na corte de Hastinapura, o príncipe não a reconhece pois foi amaldiçoado por Durvasa, um sábio de pavio curto que estava indignado com os devaneios da jovem. Ela perde o anel que ele tinha lhe presentado. Desolada, volta à floresta (alguns dizem que volta à casa da sua mãe no paraíso de Indra, o rei dos deuses).

Depois que ela parte, um pescador encontra o anel e apresenta-o ao príncipe, que recupera a memória ao vê-lo. Desesperado, Duśyanta procura a sua amada removendo céu e terra, em vão. Anos depois, acontece uma guerra entre devas e asuras (deuses e demônios), na qual Duśyanta ajuda os deuses. Estes últimos vencem.

Em retribuição ao seu aliado, Indra leva o príncipe para uma clareira no meio de um bosque onde encontram uma criança contando os dentes de um leão. O bracelete da criança cai e Duśyanta o ajuda a ajustá-lo novamente.

“Somente o pai ou a mãe desta criança poderiam atar o bracelete nele”, dizem os deuses presentes, revelando que o menino é o filho do príncipe. Através desse reconhecimento, Duśyanta reencontra sua amada e a história termina com um final feliz, depois de anos de saudades e separação.

 

Tempos diferentes, mulheres diferentes.

A Śakuntalā de Vyāsa busca o pai do seu filho, enquanto que a de Kalidasa busca seu marido. Há uma diferença fundamental entre elas: a personagem de Vyāsa, muito mais antiga, é absolutamente indiferente às convenções da sociedade; a heroína de Kālīdāsa, doutrinada pelo pai, é muito consciente do estigma social que carrega.

A Śakuntalā de Vyāsa é uma mulher forte, independente e digna, enquanto que a que Kālīdāsa nos mostra é frágil, submissa e sófrega. Talvez essas mudanças tão importantes na história sejam reflexo da mudança de paradigmas sociais em relação à identidade do gênero feminino. Naturalmente, parece ter havido um processo de submissão da mulher na época em que Kālīdāsa escreveu.

Pessoalmente, prefiro a Śakuntalā que Vyāsa nos mostra no Mahabhārata e que, junto à rainha Draupadī que mencionamos anteriormente, figura na galeria das mulheres que fizeram uma diferença em seu tempo, ficando de costas para as convenções sociais, vivendo suas vidas com dignidade e buscando seus próprios caminhos para a felicidade.

Que Śakuntalā e Draupadī possam inspirar as mulheres do nosso tempo para construirmos uma sociedade mais madura, menos moralista, mais plural e aberta, onde haja espaço para que todos possamos viver felizes.

Namaste!

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    COMENTÁRIOS

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  1. Zaza

    Amei essa análise! Amo demais essa história!
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  2. Ana Cristina Labory

    Olá Pedro!

    Muito instrutora essa linda história! Assim como você fico com a versão original da antiguidade narrada pelo sábio Vyasa!

    Namaste!


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