1) YV – Se seu amigo uruguaio não tivesse lhe dado aquele livro do filósofo Alan Watts que falava sobre a meditação no mantra Oṁ, o que o Pedro Kupfer de hoje estaria fazendo da vida? Seria médico, professor universitário, político ou executivo de uma empresa? Ou será que o Yoga apareceria para você, sem escapatória, por estar escrito nas estrelas?

PEDRO
– É difícil dizer. Mas acredito que não estaria fazendo nada muito diferente do que faço hoje. Talvez trabalhando com arte. Talvez com música. Talvez com cura. Talvez na militância ambiental. Carreiras acadêmicas não me interessaram, apesar de haver começado a cursar antropologia. O mundo corporativo e o das finanças sempre me inspiraram repulsa. Tampouco seria uma hipótese para mim a política da maneira que ela se pratica nos dias de hoje.

2) YV – Houve um período na sua vida em que a prática do Aṣṭāṅga Vinyāsa Yoga era bem marcante e então você decidiu se dedicar apenas ao Hatha Yoga puro e simples. Quais foram os motivos que o levaram abandonar a prática do Aṣṭāṅga Vinyāsa? Como os seus corpos que já estavam acostumados e condicionados às séries do Aṣṭāṅga reagiram quando você cessou a prática? Houve algum reflexo no aspecto físico e psíquico ou o Haṭha Yoga mais intenso supriu essa mudança? Será que por o Aṣṭāṅga Vinyāsa Yoga ser composto de séries determinadas que não são passíveis de mudanças e muitas vezes com posturas difíceis, isso significa que de uma forma e outra o Aṣṭāṅga pode limitar o praticante? Sim, certificam-se professores aptos nas séries do Aṣṭāṅga Vinyāsa; além disso criaram a trademark Jois Yoga, que não tem o apoio dos professores da velha guarda do Aṣṭāṅga, por acharem-na comercial. Comercializar o Yoga é um mau necessário ou cada um é dono do seu nariz e faz o que bem entender?
 
PEDRO – Deixei o Aṣṭāṅga Vinyāsa Yoga por causa de uma lesão grave. Sempre gostei dessa prática mas minhas articulações não aguentaram o inevitável desgaste que acompanha a repetição dos vinyāsas, característica desse método. Energéticamente, a prática faz bem, mas fisicamente nem todos os corpos conseguem suportar a pressão nas articulações. O meu não aguentou. Em janeiro de 2001, praticando em Mysore, Sharath Rangaswami, neto do Patthabi Jois, fez um ajuste na minha lombar, demasiado forte e na direção errada, que simplesmente fraturou o meu cóccix. Lembro bem do estalo do osso partindo. Foi bem alto. Esse professor fez o mesmo ajuste, no mesmo āsana, em Richard Freeman, com o mesmo resultado, um ano antes. Você pode reparar o quanto a prática pessoal e o modo de ensinar desse professor mudaram desde o início do século. O acidente dele foi no início do ano 2000. No meu caso, o diagnóstico foi espondilólise com espondilolistese de grau 2. Quando fui contar mortos e feridos, todos os meus discos intervertebrais lombares estavam seriamente comprometidos, ou herniados ou protrudidos. Demorou um tempo para me dar conta de que não poderia continuar com práticas dessa intensidade. Demorou ainda mais para compreender quê āsanas devia deixar de lado e quais precisava usar para recuperar a estabilidade perdida e evitar piorar a situação. Hoje em dia desfruto do prazer de estar vivo, e de poder seguir fazendo coisas que fazem bem ao meu corpo: andar, correr, pedalar, fazer surf e skate e praticar āsanas e prāṇāyāmas com cuidado e atenção. Sinto que aquele ajuste que provocou a fratura da minha coluna foi um divisor de águas. O Pedro se tornou um professor muito mais compassivo e cuidadoso, preocupado em que esse tipo de erro não se repita com outrem. Isso, por outro lado, desperta polêmicas, uma vez que alguns professores tomam como uma afronta pessoal as recomendações que faço a pessoas com os biotipos vata e pitta de evitar práticas fortes, repetitivas e rápidas como o Aṣṭāṅga Vinyāsa Yoga. Mas estou acostumado a lidar com esse tipo de fanatismo, assaz frequente no meio do Yoga. O tema da pergunta final é muito diferente. Sou da opinião de que não há necessidade de comercializar o Yoga, e muito menos chegar nos extremos que o Humberto menciona aqui. Obviamente, cada um é dono do próprio nariz. Mas patentear nomes sânscritos ou criar marcas registradas, como foi feito com as palavras prāṇa ou kuṇḍalinī, por exemplo, são atitudes lamentáveis que em nada contribuem ao futuro do Yoga. Criar novo “métodos milenares” é outra moda patética. Tentar patentear as posturas do Haṭha Yoga para poder processar os demais e impedí-los de praticá-las, como procurou fazer Bikram Choudhury uns anos atrás, é outra atitude lastimável. Em soma, se considerarmos que o Yoga é não apenas uma visão da existência mas igualmente uma cultura, um modo de viver, deveríamos deixar de lado qualquer iniciativa que limite o acesso aos diversos aspectos dessa cultura por parte das pessoas. Agora, se alguém tiver o ego tão inchado que precisa patentear o nome da própria família, ou fazer uma marca registrada para vender algum “método”, penso que a pessoa está no direito de fazer isso, mas também penso que nós temos igualmente o direito de não comprar gato por lebre, de não nos deixar enganar por falsas promessas supostamente baseadas em “tradições milenares”.

3) YV – Na vida, algumas vezes temos a boa sorte de nos deparar com pessoas extremamente valiosas que além de nos transmitir conhecimento e experiência, seguem a risca as prescrições que adotam. Dentre essas pessoas iluminadas ou não, temos: Professor Hermógenes, Gloria Arieira e Swāmi Dayānanda. O que elas significam para você? Dos mestres e estudiosos do Yoga e Vedānta de outros tempos, quem você gostaria de ter conhecido pessoalmente?

PEDRO – Vamos por partes. O meu encontro com o Professor Hermógenes foi como o encontro com um pai espiritual: senti algo muito familiar com ele, como se já o conhecesse dantes. Ele tem um astral muito bacana, que nos faz sentir amparados e em casa. Em todos os aspectos, ele é um grande inspirador e uma pessoa que tem o dom da cura. Já o encontro com a Gloria foi bastante diferente: primeiro comecei a estudar com ela através de gravações de comentários de textos tradicionais de Vedānta em fitas cassette. Quando percebi a dimensão daquilo que ela nos ensinava, pensei que a visão do Vedānta dava ao Yoga uma profundidade que ainda não havia vislumbrado e naturalmente isso me motivou para mergulhar mais fundo na compreensão de Ātma. Isso me fez olhar para esta professora tão especial com o imenso respeito e reverência que ainda hoje nutro por ela. Penso que ela seja uma Brahmavid, uma conhecedora de Absoluto, em toda a extensão da palavra. O encontro com Swāmi Dayānanda aconteceu um pouco depois de conhecer a Gloria pessoalmente. Vi nele o guru que sempre busquei mas nunca tinha encontrado e pedi para ser seu discípulo. Tive a fortuna de que ele me aceitasse. A partir daí, numa série longa de viagens para a Índia que ainda continuam, fui aprofundando a visão e percebendo o nível de compromisso que mokṣa pede. A motivação e o processo, continuam. Dos mestres do passado, teria gostado de aprender com Vaśiṣṭa, Viśvamitra, Govinda Bhagavatpāda e Ādi Śaṅkarāchārya. Mas a mensagem fundamental dos mestres e avatāras, de Dakṣiṇamūrti a Śrī Kṛṣṇa, está viva através das palavras e o exemplo de todos os professores de todas as gerações.

4) YV – Há vários anos o curso de Formação Livre em Yoga que você ministra acontece tanto aqui como em Portugal e é dividido em dois módulos com excelente carga horária e grande conteúdo. Formar professores de Yoga não é uma tarefa simples, pois demanda do educador muita responsabilidade, uma lídima experiência, grande conhecimento, preparo e vivência sobre os temas Yoga, Vedānta e as escrituras. Quais são as qualidades mínimas que devem estar presentes naqueles que pretendem se tornar bons professores de Yoga, considerando o Curso de Formação que você ministra? Entre Brasil e Portugal há muitas diferenças em relação a costumes e até mesmo no emprego do vocabulário. Os estudantes portugueses são mais aplicados que os brasileiros ou não se pode fazer nenhuma distinção entre eles pois cada qual, independente da nacionalidade, tem as suas boas características e aptidões? E sobre alguns professores autodidatas que nunca participaram de um Curso de Formação em Yoga por achar isso desnecessário, estão aptos a ministrar uma boa prática? Será que algumas das Formações em Yoga que encontramos pelo mundo cumprem o prometido ou pegam de leve e formam professores não tão bem aptos assim para ministrar as práticas?

PEDRO – Penso que, para ser um bom professor de Yoga, são necessários dois elementos essenciais: 1) ser um yogin ou yoginī totalmente comprometido(a) com o propósito fundamental do Yoga, que é mokṣa, a liberdade; e ainda 2) ter uma vocação sincera, vontade e talento para ensinar e transmitir de maneira eficiente o ensinamento. Nesse sentido, a atividade do professor de Yoga é uma espécie de sacerdócio. Por outro lado, há pessoas que são muito devotas, praticam muito bem, estudam muito, tem o compromisso com mokṣa, mas não conseguem ensinar. E, infelizmente, há também gente que não entendeu o Yoga, nem o objetivo que ele propõe, mas mesmo assim se lança temerariamente a ensinar. Desses, alguns sentiram um sincero chamado vocacional, e acabam descobrindo a dimensão real do Yoga com o tempo, enquanto que outros entram “no negócio pelo negócio”, totalmente desinteressados e alheios ao tema mokṣa. Vamos à segunda questão agora: não vejo grande diferença entre os praticantes portugueses, os brasileiros e os de quaisquer outras nacionalidades. Já dei aula em muitos países do nosso continente, na África, na Ásia e na Europa. E posso dizer que em todos os lugares ha praticantes devotos e sinceros, e em todos os lugares há pessoas que ainda estão no processo de compreender o que é o Yoga. A terceira questão é interessante: cabe lembrar que os cursos de formação em Yoga são algo absolutamente novo, se formos considerar a venerável idade do Yoga. Desde o tempo das Upaniṣads, os sábios recebiam estudantes em seus lares, a quem cuidavam como filhos para lhes transmitir a visão, os valores e as práticas do Yoga. Findo o período de estudos, os jovens retornavam ao lar paterno para, desde aí, formar uma nova família, contribuir para a sociedade e ensinar, por sua vez, às gerações futuras. Esses eram os “cursos de formação” da idade védica. Essa solução, que aliás é o próprio sistema do paramparā, de transmissão do Yoga de mestre a discípulo ao longo das gerações, se estende, em alguns casos, para o contexto destes cursos da atualidade. As formações surgiram nas últimas décadas do século passado como uma maneira de estender essa relação guru-śiśya. Um autodidata, com ou sem formação formal, fica fora dessa relação especial. Portanto, fora do paramparā. Isso cria dificuldades desde o início, uma vez que a possibilidade de não compreender de que maneira o Yoga funciona, ou de compreendê-lo erradamente, são muito grandes. No meu caso, aprendi boa parte do que sei, pratico e ensino, na própria Índia. Quando comentei com meu professor o que se pensava no Ocidente em relação ao tema das formações e certificações, deu uma sonora risada. Ele havia morado numa caverna no Nepal por dez anos com seu guru. Já imaginou o sādhu que lhe ensinou, emitindo um certificado de frequência ou aproveitamento de uma formação numa caverna? Fiz muitas formações diferentes ao longo do tempo, mas considero que só nasci mesmo como professor de Yoga depois das intensivas práticas e o estágio que fiz no Oṁānanda Āśram, em Indore, que não foram propriamente uma “formação” nos moldes atuais. Sobre a última questão, fica difícil generalizar: há atualmente muitas formações absolutamente boas, e outras nem tanto. Depois tem a questão que mencionamos no início: se a pessoa não tiver jeito para ensinar, se não tiver uma vocação real, não há muito que o formador possa fazer para reverter a situação. Como se diz na Espanha, lo que natura no da, Salamanca no presta (o que a natureza não dá, o estudo não empresta).

5) YV – É natural que quando um estudante participa de um curso de formação em Yoga com a finalidade de se tornar um bom professor, inicialmente se espelhe naquele que ensina copiando o seu jeito de conduzir a prática usando o mesmo linguajar e adotando praticamente as mesmas ações. No entanto, há algumas pessoas, seja em qualquer campo profissional, que exageram nesse espelhamento e passam a querer clonar aquele que acham ser o modelo ideal. Se o professor espelhado espirra, o aluno que espelha também espirra. E exagerando, se o professor admirado e copiado usa um shorts azul marinho e uma camiseta amarela, o aluno também vai usar a mesma cor de shorts e camiseta, cantar, tocar violão, etc. Como esse professor pode lidar com a admiração excessiva de algumas pessoas que, mesmo sem ter qualquer tipo de malícia, excedem no espelhar do professor que gostariam de ser? E em relação aos que pertencem à Geração Y e Z, o que você acha dos que em três tempos ou menos já querem ser um(a) bambambam do Yoga, pulando muitas etapas, demonstrando-se ansiosos e impacientes pelo reconhecimento por parte dos demais e até por certa fama? Se autopromover colocando imagens de āsanas no Instagram é válido ou isso pode simplesmente passar a mensagem de que quem assim age na verdade é uma pessoa vaidosa e sobretudo carente? Vaidade e ego inflado andam de mãos dadas?

PEDRO – Esta questão é bem engraçada: penso que seja natural imitarmos àqueles que admiramos. Isso se vê na música, na pintura, na arquitetura e em muitas outras atividades humanas. Também se vê no Yoga, naturalmente. Agora, penso que seja saudável desencorajar a imitação cega, exagerada ou forçada, pois por trás desse tipo de atitude pode se esconder o fanatismo. Aprender sobre a visão, as práticas e as atitudes do Yoga é uma coisa. Copiar ou imitar o jeito de ser, de falar, de se mover ou se expressar e algo diferente. Infelizmente vemos que há pessoas que simplesmente copiam os seus professores, mas esquecem do ensinamento. É a velha estória do provérbio que diz que quando o sábio aponta para a lua, o tolo olha para o dedo. Penso que o professor imitado, ao perceber tal situação, deva desencorajar essas atitudes. Ainda, penso que a naturalidade seja um valor que faz muito sentido, tanto para o professor quanto para seus alunos. A segunda questão é importante. Para respondê-la devemos lembrar que um professor de Yoga é, antes de mais nada, um yogin comprometido com o seu próprio caminho espiritual. Se surgirem no caminho obstáculos como a vaidade, a carência, a necessidade de aprovacão por parte dos demais ou a busca de fama, a pessoa precisa aprender a lidar com essas dificuldades de maneira equânime. E buscar ajuda profissional, se for o caso. Às vezes vemos situações patológicas, que seriam facilmente resolvidas no divã de um psicoterapeuta.

6) YV – Houve um período no Brasil em que a prática de āsanas ganhou força e um amplo destaque, talvez por que muitas pessoas tenham sido influenciadas por algumas celebridades de âmbito mundial que adotaram a prática e até hoje continuam. No entanto, o modismo foi passageiro e muitos praticantes pararam com o Yoga ou se interessaram pelo Pilates. Por que aqui no Brasil, temos a sensação de que o Yoga ainda não caiu no gosto popular, enquanto nos Estados Unidos, apesar de uma indústria marketeira por trás, o Yoga, melhor dizendo, a prática de āsanas parece ser mais levada a sério? Será que por a cultura e costumes brasileiros serem bem diferentes dos americanos e também dos europeus em termos de formação social, educacional e até mesmo religiosa, lá eles tem mais consciência dos amplos benefícios trazidos pelo Yoga e portanto praticam mais do que aqui?

PEDRO – Não posso falar da popularidade do Yoga nos EUA que você descreve pois nunca estive lá. O pouco que sei, chega-me através de revistas ou blogs. Nem sempre essa informação é fidedigna. Mas conheço algo do ambiente do Yoga em alguns países da Europa; concretamente, Portugal, Espanha e França. Sinceramente, não acho que os europeus tenham descoberto algo no Yoga que os brasileiros ainda não saibam. Tampouco penso que haja menos praticantes de Yoga no Brasil do que, digamos, em Portugal. Pelo contrário. Por outro lado, tampouco posso arriscar dizer que a idiosincrasia dos estadunidenses, digamos, tenha alguma sensibilidade especial para captar o valor do Yoga e dar assim mais importância à prática. Penso que motivação para praticar seja uma questão pessoal, íntima, de cada um de nós. Se o Yoga fica mais ou menos na moda, se fica mais ou menos popular, não muda em nada a questão essencial, que é a busca do autoconhecimento. Pois, de que adianta praticar muitos āsanas ou prāṇāyāmas, se a atitude for errada? Nesse sentido, quantidade em detrimento de qualidade não é uma boa ideia no Yoga.

7) YV – Em vista da sua trajetória no caminho do Yoga, que é extensa e rica, englobando muitas práticas, estudos, pesquisas, escritos, música, devoção e considerando o panorama atual e mundial do Yoga, você se vê, neste momento, como alguém que é mais crítico ou realista? Contribuir para manter a tradição do Yoga viva e lídima é uma tarefa difícil? Como alguém que simpatiza com o Yoga, estuda e pratica, pode fazer a sua parte para ajudar a manter a tradição do Yoga como deve ser?

PEDRO – Procuro, como sempre lembra meu guru, ser uma reality person, uma pessoa da realidade, que mantém os pés na terra. Se isso significa ser crítico com algumas distorções, tento que a crítica seja construtiva, evitando generalizações e ataques pessoais para me focar na discussão de ideias e atitudes. Não creio que contribuir à tradição do Yoga seja uma tarefa especialmente difícil. Pelo contrário: qual seria o sofrimento ou a dificuldade em perceber a grandiosidade da existência pelo olhar da não-separação que o Yoga e o Vedānta postulam? Sobre a terceira questão, penso que a tradição do Yoga cuida muito bem dela mesma. O tema é igual ao daquela ideia (falsa e paternalista) que diz que nós devemos cuidar da natureza. Em verdade, penso que devemos deixar que a natureza cuide de nós. Se formos olhar para a imensidão do universo, este planeta é absolutamente insignificante. Caso o ser humano seja suficientemente néscio como para destruir alguma coisa na terra, essa destruição será sempre temporária e relativa à dimensão humana, ao tempo humano, ao lugar que a humanidade ocupa na terra. No entanto, penso que nada disso nos exime de fazermos a nossa parte para deixarmos este lugar mais limpo do que o achamos. Por exemplo, a cada vez que vou à praia, faço questão de recolher o lixo que vejo, além de separar meu lixo e escolher éticamente onde colocar meus recursos. Pode ser o trabalho de uma formiga, mas é alguma coisa. O planeta nunca será eliminado em sua totalidade pelos megatons de destruição que o ser humano fabricou e mantêm estocados. Em questão de alguns poucos milênios, a natureza de recupera e a vida segue. Em relação à tradição do Yoga, vale o mesmo: entregar-se à tradição é ser humilde, deixando de lado o orgulho, a necessidade de autoafirmação, a vaidade, a vontade do ego de “melhorar” o ensinamento, e as outras questões que surgiram antes nestas perguntas. A tradição tem muita força: compreendê-la e sintonizar-se com ela são atitudes naturais para quem estiver preparado para apreciá-la.

8) YV – Viver uma vida perfeitaé o sonho que muitas pessoas almejam. No entanto, no mundo em que vivemos, ter e viver uma vida perfeita, cheia de felicidade abundante é difícil porque a maioria das pessoas não consegue vivê-la da forma como gostaria. Será que aquele que se dedica ao Yoga e se aprofunda na compreensão do conhecimento védico, na medida em que reconhece que já é feliz, ter uma vida que seja perfeita deixa de ser tão importante assim?

PEDRO – Vida perfeita não é fazer-se o que se deseja, mas aprender a amar o que se faz. Vida perfeita é a que cada um tem a cada momento, mesmo que não saiba. Perfeita, dentro das imperfeições inerentes e naturais à própria condição humana. Perfeita, dentro da insatisfação, dentro da não realização dos desejos, dentro da tristeza, do medo ou da raiva, se estes se manifestarem. Perfeita, dentro da ordem de Īśvara. Essa questão me lembra uma prece que meu mestre ensinou: “Īśvara, que eu possa ter o espaço para poder apreciar a diferença entre o que é a ordem e o que é projeção da minha mente. Que eu possa ver a linha que separa a minha projeção da realidade. Sei que as minhas projeções são Īśvara, estão dentro da ordem. Estou, portanto, seguro, protegido pela ordem, em todas as situações, em todos os momentos, porque não há, nunca houve alienação, porque compreendo e enxergo essa não-separação. O śāstra é crucial para compreender que não há nada, nenhuma emoção, nenhum pensamento, nenhum desejo ou aversão, que não seja parte da ordem de Īśvara. Que eu possa ter esse espaço para compreender isto. Não há nada mais prático que ser ciente da realidade das coisas”. Assim, quando compreendo a ordem de Īśvara, entendo que ela se manifesta na forma da perfeição em tudo e em todos, e vivo relaxado.

9) YVCaminhos do Yoga é um documentário dirigido por Daisy Rocha e produzido pela roteirista e locutora Tereza Freire. A sua participação e orientação foram primordiais para a concretização do filme. A continuação de Caminhos do Yoga pode algum dia acontecer ou essa obra é única? E, quais lugares considerados sagrados na Índia e também noutras partes do mundo, no seu ponto de vista, devem constar no roteiro de viagens daquele que se interessa pelo Yoga e Hinduísmo?

PEDRO – Esse documentário foi feito em circunstâncias muito especiais, pela força e o desejo, não apenas da Daisy e a Tereza, mas igualmente de um grupo de brasileiros entusiastas do Yoga em praticular e da cultura em geral. Cada um deu sua contribuição para que o projeto se concretizasse da maneira que nasceu. Assim que ele tomou forma e foi lançado, começamos imediatamente a pensar em repetir a dose: fizemos o planejamento, o roteiro e os contatos necessários. Porém o falecimento trágico da Daisy num acidente na estrada São Paulo-Curitiba colocou um freio brusco nesse lindo projeto. No entanto, a Tereza e outros amigos, continuamos acalentando a ideia para realizar isso um futuro não muito distante, até como uma merecida homenagem à nossa amiga falecida. Em relação à peregrinação de um yogin para a Índia, penso que não possam faltar lugares como os visitados pela equipe de documentaristas: o Char Dham (Gangotri, Yamunotri, Badrinath e Kedarnath), Rishikesh e Haridwar. Além desses lugares, Uttarkashi é também muito especial, bem como a ilha de Oṁkareśvar, no rio Narmada, e os templos e lugares sagrados do sul da Índia: Tiruvannamalai, Chidambaram e Tanjore, dentre outros. Porém, mas o lugar mais importante para todo peregrino é o templo do próprio coração.

10) YV – Ir para Rishikesh, na Índia,praticamente todos os anos e passar algumas semanas estudando Vedānta no Āśram do Swāmi Dayānanda tornou-se um hábito para você e Ângela, sua esposa. Ir para à Índia apenas a passeio sem ao menos dedicar alguns dias ao estudo de Vedānta e Yoga para os que são professores(as) é como ir ao Rio e não visitar o Cristo Redentor no Corcovado? Além do Swāmi Dayānanda, qual ou quais outros Swāmis vale a pena o estudante passar algum tempo ouvindo e estudando com o propósito de buscar conhecimento?

PEDRO – Engraçado é que, apesar de ter vivido no Rio e também apesar de que volto para lá como muita frequência, nunca fui ao Cristo Redentor. Tampouco vou ao Taj Mahal, nem recomendo aos yogins que me pedem conselho a visita a esse monumento decadente, cheio de abutres, e com espiritualidade zero (a ideia do Taj Mahal como monumento ao amor é uma invenção do Ministério de Turismo da Índia: Sha Jahan, o construtor do mausoléu, tinha mais de 5000 mulheres, entre esposas e concubinas algumas em regime de absoluta escravidão). Cada viajante percorre sua própria trajetória. Cada peregrino tem sua própria experiência. Cada yogin vive o que precisa viver na sua jornada. Penso que não haja uma receita válida para todos. Há muitos ótimos professores na Índia que não usam o título de Swāmi (como é o caso da professora Gloria Arieira) e mesmo assim têm coisas para ensinar que muitos Swāmis não têm. Há Swāmis que, mesmo se vestindo com roupas da cor do açafrão, não são dignos desse título. Há ótimos Swāmis vivendo no Ocidente ou nos visitando com frequência, também. Swāmi Paramarthānanda, de Chennai, é um ótimo professor. Swāmi Brahmavidyānanda, igualmente de Chennai, é maravilhoso. Swāmi Viditātmānanda, de Nagpur, também é excelente. Swāmi Sakśatkṛtānanda, atualmente morando em Anaikkati, é imperdível. Nós estudamos com eles em ocasiões e momentos diferentes e podemos recomendá-los para quem estiver interessado em aprofundar a sua visão do Yoga e do Vedānta.

11) YV – Quando o assunto é religião, futebol ou política, muitas divergências são perceptíveis. Diante disto existem pessoas que a todo custo defendem seus pontos de vista de uma forma ortodoxa revelando algumas das vezes fanatismo além do limite. Na comunidade do Yoga igualmente existem alguns praticantes, estudantes e até professores que na medida em que se aprofundam em um determinado tema passam a defender certos conceitos com unhas e dentes e se percebem que alguém da mesma seara se sobressai refletindo de uma forma inteligente ou defende um outro ponto de vista que também esteja correto e que até saia um pouco fora do padrão, não hesita de uma maneira drástica, irônica e sarcástica apontar distorções afirmando que o que segue é que é o correto e não tem conversa! Será que alguém extremamente fanático por certos conceitos do Yoga ou pelo ensinamento de um determinado “mestre” na verdade tem o ego altamente inflado e no fundo é uma pessoa insegura que deseja atrair e aprisionar os demais na sua forma de pensar e com isso também se tornar o “mestre”? Como não se tornar um fanático durante o processo de estudo e aquisição de conhecimento dos assuntos ligados ao Yoga e ao Vedānta? E, na medida em que amadurece o fanático pode passar a compreender melhor os pontos de vista que divergem do seu e tornar-se uma pessoa mais nobre e compassiva?

PEDRO – No processo do autoconhecimento podem acontecer algumas coisas curiosas. Uma dela é a maneira em que o ensinamento se encaixa na personalidade de quem o escuta, reflite nele ou o coloca (ou tenta colocar) em prática. Para que o conhecimento de si mesmo não sofra interferências por parte do ego da pessoa é necessária muita preparação prévia, muita clareza mental, muita hoestidade, muita humildade e muita capacidade de autoanálise e renúncia. Sem cultivar essa atitude de desapego, fica perigoso até mesmo caminhar na senda do Yoga. Algumas pessoas vão para o Yoga e passam sem esforço algum muito longe desse risco. Outras precisam prestar atenção para evitar cair na tentação de usar o Yoga ou o Vedānta para satisfazer fantasias ou desejos pessoais ou para tentar controlar os demais. Outras pessoas usam essas ferramentas como muletas emocionais, ou para preencher buracos emocionais ou até mesmo para justificar os próprios atos, por errados que sejam. Toda atitude fanática ou fundamentalista é perigosa. No futebol, na religião ou na política, como você diz, vemos pessoas se matando em nome de uma camisa, um dogma ou uma ideologia. No Yoga ainda não chegamos nesse extremo (embora, pessoalmente, eu já tenha recebido ameaças de morte e agressões físicas e verbais da parte de mais de um desses “mestres” lunáticos que você menciona). Cabe lembrar que, se o objetivo do Yoga é a liberdade, esse objetivo fica inalcançável quando o ensinamento se torna uma ideologia, um dogma fechado, uma ferramenta de manipulação ou uma táboa de salvação. No Yoga não há, ou não deveria haver, lugar para fanatismos ou fundamentalismos de nenhum tipo. Se começássemos a falar disso, teríamos que deixar de usar a palavra Yoga. Penso que Yoga e fanatismo sejam mutuamente excludentes.

12) YV – De uns tempos para cá as redes sociais tem se tornado cada vez mais o ponto de encontro das pessoas que se veem costumeiramente antenadas em tudo o que acontece. A grande maioria está muito dependente dessas redes e consequentemente não vivem mais sem seus smartphones. Na rede Facebook encontramos várias páginas voltadas ao Yoga e a grande maioria delas se resumem em apenas imagens e frases curtas chegando algumas a terem o impressionante número de 35.000 mil curtidas para mais, ainda que isso seja fruto de honorário pago a essa rede para fins de divulgação publicitária intensa. Considerando esse universo de 35.000 mil curtidas, numa página que se diz voltada ao Yoga, podemos “fazer de conta” e concluir que o número de praticantes de ásanas no Brasil gira em torno deste número 35.000? E, se este número estiver quase que correto, considerando a população do Brasil, o brasileiro ainda pratica pouco ásanas e uma ínfima parcela é que se interessa a fundo pelo Yoga? E, em relação ao Vedānta, será que ainda há menos pessoas interessadas no estudo e no desenvolver do autoconhecimento em vista da complexidade da matéria? Possuir um smartphone ou estar excessivamente ligado as redes sociais pode significar que a Libertação para essa pessoa está bem distante de ser alcançada? Ou, não generalizando, há portadores de smartphones que sabem dividir o joio do trigo e assim continuam conscientes na busca da Liberação?

PEDRO – Não há nenhuma pesquisa séria sobre o número de praticantes de Yoga no Brasil. Penso que sejamos muitos mais do que 35.000. Mas não posso dizer quantos somos com exatidão, nem arriscar um palpite. Há gente que diz que os praticantes de Yoga se contam aos milhões em terras tupiniquins. Pessoalmente acho isso um enorme exagero. Falta pesquisa séria sobre a matéria. Um dia desses estava conversando com um professor de Yoga de Portugal sobre smartphones e redes sociais. Ele disse que as redes e os smartphones são danosos à saúde mental de quem os usa. Respondi que não concordava, pois depende muito da maneira em que você se relaciona com eles. Qualquer extremo pode ser danoso. Comer gengibre pode ser bom para a saúde, mas se esse for o nosso único alimento ficaremos doentes. Penso que não haja relação entre possuir um smartphone ou participar de uma rede social e ficar distante da liberdade. Isso me lembra um texto bastante controverso que Jung, o grande psicanalista suíço, escreveu há perto de 80 anos: “Não recomendaria a ninguém tocar o Yoga sem uma análise cuidadosa da suas reações inconscientes. Para que serve imitar o Yoga se seu lado obscuro permanece como o bom e velho cristão medieval de sempre? Se você puder sentar numa pele de gazela, sob uma árvore bo, ou na cela de uma gompa pelo resto da sua vida sem ser perturbado pela política ou pelo colapso das suas seguranças, eu provavelmente aprovaria seu caso. Porém, Yoga em Mayfair ou na Quinta Avenida, ou onde quer que haja um telefone, é uma farsa espiritual.” Esta generalização que Jung faz é bastante parecida com a que se faz atualmente sobre a relação entre tecnologia e espiritualidade, como se ambas fossem incompatíveis. Quando se refere a Mayfair ou à Quinta Avenida, aponta para as pessoas que viviam (ou vivem) nesses prósperos bairros de Londres ou Nova Iorque. Quando menciona o fato de praticar perto de um telefone, se refere a pessoas que na época tinham recursos suficientes para adquirir e manter esses aparelhos. Cabe lembrar que na época de Jung, somente os muito ricos possuíam telefones. Então, segundo Jung, o Yoga não seria para ricos, nem para pessoas que não estivessem dispostas a ficar a vida inteira sentadas sob uma árvore ou trancafiadas na cela de um mosteiro meditando. Parece que, para ele, não há nenhuma possibilidade intermediária entre o yogi meditando sob a árvore e um ocidental próspero olhando para seu telefone analógico ou smartphone celular. Muitos de nós, independente daquilo que possamos chamar de classe social, não conseguiríamos nem estamos dispostos a viver reclusos meditando. E, mesmo assim, consideramos o Yoga como algo desejável, que faz parte integral das nossas vidas. E nenhum de nós enxerga a própria vida como uma “farsa espiritual”.

13) YV – Considerando os sistemas capitalista e comunista, temos que no capitalismo as pessoas vivem com a impressão de que a liberdade é pouca, pois as empresas e os estados sabem quem somos, o que fazemos e o que consumimos, possuem bancos de dados sobre cada indivíduo, nos vigiam com câmeras e trabalham para que primem o consumo e a obediência. E, com tantas inovações e novidades, a maioria das pessoas segue a onda do consumo de bens materiais pretendendo ser feliz. Já no comunismo, como acontece em Cuba, há muitas privações e as pessoas são ainda mais vigiadas que nas democracias. Em qual desses sistemas políticos um praticante de Yoga poderia de uma forma mais eficiente se desenvolver como um ser consciente de si e que apenas precisa compreender que já é livre? Será que um governo comunista permite que se pratique Yoga e se estude Vedānta?

PEDRO – Os śāstras recomendam que o estudo e a prática do Yoga sejam feitos “numa terra onde reine o dharma, a justiça”. Temos que definir, então, o que é uma terra onde haja dharma. Tal terra ou sistema político deveria levar em conta e respeitar o fato de que cada ser humano sabe o que é melhor para si, do que o próprio estado. Delegar essas decisões aos estados é perigoso, como já ficou demonstrado históricamente. A autogestão das sociedades e dos indivíduos são sinais de maturidade da civilização. Quando cada cidadão sabe o que quer para si, tem espaço para exercer a sua liberdade de escolha, e consegue por sua vez respeitar e se harmonizar com o que os demais querem para si mesmos, estamos perante uma sociedade dharmika. Tradicionalmente, a Índia manteve um sistema político que lembra um pouco e combina alguns elementos das cidades-estado da Grécia antiga e o sistema feudar da Idade Média da Europa. Os marajás e nababs, líderes hindus e muçulmanos, respectivamente, podiam ser mais ou menos tolerantes em relação ao Yoga. Dependendo dos governantes, as liberdades individuais e os direitos civis variavam bastante. Via de regra, os governantes hindus apoiavam através do sistema de mecenato os estudantes de Vedānta e praticantes de Yoga. No caso dos nababs, nem sempre tolerância era a palavra de ordem. Sob o governo de Aurangzeb, por exemplo, os praticantes de Haṭha Yoga foram proscritos e, se descobertos, eram condenados à morte por esquartejamento. Essa é a razão pela qual manuais daquela época, como a Haṭha Yoga Pradīpikā, dizem que as práticas “devem ser cuidadosamente guardadas em secreto”. A última pergunta me recorda da ocasião em que conheci Indra Devī, uma inesquecível mestra de Yoga nativa da Latvia, uma ex-república soviética, que tive o privilégio de conhecer há 30 anos num congresso de Yoga em Montevidéu. Naquela ocasião, anos antes da queda da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim, nos contou que o Yoga era proibido na então União Soviética, e que os praticantes eram perseguidos e presos pelo regime comunista. Indra Devī foi a responsável, depois de ter se entrevistado com Leonidas Breznhev, Secretário Geral do Partido Comunista Soviético na época, pelo levantamente da proibição do Yoga na ex-URSS. A mestra nos lembrou, naquela ocasião de como era bom poder estar juntos, praticando e aprendendo Yoga num país livre. Cabe lembrar que a perseguição sofrida pelos yogins dos países do ex-bloco soviético acontecia ao mesmo tempo em que eram proibidas todas as formas de culto religioso e livre pensar. Ditaduras, sejam de direita ou de esquerda, não apreciam nada que possa contestar ou colocar em xeque os dogmas em vigor. Tampouco apreciam o estado de direito, a imprensa livre, a liberdade de expressão, a liberdade de ir e vir ou de associar-se. Nessa ordem de coisas, a proibição do Yoga na ex-URSS não surpreende tanto, embora seja chocante e inconcevível para cidadãos de um país livre. Já Fidel Castro pontificou sobre os benefícios do Yoga públicamente, um tempo atrás (porém não se sabe ao certo se o que atraiu o ex-ditador de Cuba para o Yoga eram as fotos de mulheres praticando āsanas em trajes sumários ou o próprio tema da liberdade, que não é assim algo muito presente no cotidiano dos cubanos que sofrem diariamente na ditadura mais longeva do planeta). Diante dessa situação, os praticantes das democracias não podemos menos que suspirar aliviados por não vivermos num regime ditatorial, nem sob a influência emocional ou psíquica de líderes religiosos ou políticos opressivos e intolerantes.

14) YV – O cantor Roberto Carlos excluiu a carne de vaca da sua dieta por cerca de trinta anos. Aproveitando a oportunidade de negócio, um frigorífico que pega pesado em termos de anúncios publicitários o contratou como garoto propaganda para divulgar a sua carne num filme comercial em que ele enfatiza que voltou a comer carne, de preferência a carne processada pelo frigorífico em questão, que conforme dizem, pagou-lhe um cachê digno de premio acumulado da Mega Sena. Deixar de ser vegetariano pode acontecer a qualquer um; no entanto, considerando a grande influência e popularidade que este artista tem no Brasil, além de já ter acumulado uma boa fortuna, será que o mais sensato teria sido ele recusar a proposta de participar dessa campanha publicitária no sentido de evitar o sacrifício de mais bovinos?

PEDRO – O tema da dieta vegetariana desperta muita polêmica e controvêrsia no Ocidente, pois mexe com questões que transcendem os costumes locais e as culturas desta parte do mundo. O cerne da questão são os condicionamentos culturais e o egoísmo do consumidor que, para se centrar na dieta de carne, deve necessariamente ficar de costas para o sofrimento dos animais consumidos e para o preço ambiental que se paga com a pecuária, dentre outros temas espinhosos. Em suma, trata-se de uma questão de ética. Por outro lado, aderir ao vegetarianismo é uma decisão que pessoas tomam a partir da constatação de que, se nós não desejamos terminar no prato de outros animais, não deveríamos incluir bichos no nosso. Aquele comercial dava a impressão de que Roberto Carlos era vegetariano e graças às virtudes dos produtos daquele frigorífico teria reconhecido seu erro e corrigido sua atitude: comer carne de vaca é bacana. A mensagem implícita na publicidade era que o vegetarianismo não seria uma boa ideia. Isso é típico das campanhas publicitárias mediócres: atacar um alvo diferente daquele que se pretende vender, para ressaltar as virtudes daquilo que se pretende empurrar ao consumidor. Porém, a verdade é que o Rei tinha abandonado o consumo de carne de vaca anos atrás, atendo-se a uma dieta não vegetariana, que incluía peixe e frango. Celebridades, para bem e para mal, são criadoras de opinião e arrastam multidões com suas escolhas e exemplos. Neste caso, o exemplo reafirma o condicionamento do egoísmo, que por sua vez redunda em mais árvores derrubadas para expandir a fronteira agrícola, mais sofrimento para os bichos que são criados e mortos para servir de alimento e mais problemas de saúde para o próprio consumidor. Ganham a celebridade e o frigorífico. Perdem o meio ambiente, os animais, a ética e a saúde dos consumidores. Bingo.

15) YV – Você publicou vários livros sobre Yoga já faz alguns anos. O Pedro Kupfer escritor está adormecido ou num futuro próximo quem sabe poderemos contar com um novo livro? O Yoga Saṅgaṁ, a Conferência Internacional de Yoga que aconteceu por dez anos seguidos, costumava reunir muitos professores e palestrantes que debatiam assuntos ligados ao Yoga, Vedānta e Conhecimento. Existe a possibilidade de este evento ressurgir apesar do grande empenho, paciência e determinação que se necessita para que tudo ocorra conforme o planejado?

PEDRO – Depois que comecei a escrever para o site www.yoga.pro.br e para as revistas Cadernos de Yoga e Yoga Journal (e já se vão bem mais de dez anos nisso) e me dedicar tanto às viagens e aos cursos de formação, minha disponibilidade para produzir novos livros se viu reduzida. Basicamente, tenho colocado toda a minha energia e tempo disponíveis à frente do computador em criar esses novos textos, tanto os que são publicados nesses meios, como os que vou produzindo para aperfeiçoar os manuais da formação, que já totalizam cerca de 800 páginas, divididas em dois tomos, um para cada módulo. Desses manuais poderá surgir um compéndio de ensinamentos e práticas para publicação futura. Também faço questão de publicar e disponibilizar tudo o que escrevo no site acima citado, que já soma quase 1000 artigos sobre os temas Yoga e Vedānta. Isso leva tempo mas faz parte do meu seva, da minha vontade de deixar estes temas gratuitamente, ao alcance de todas as pessoas. Nesse caso, a formidável ferramenta que é a internet ajuda bastante. Vamos voltar com a produção do Yoga Saṅgaṁ ano que vem, mas em Portugal. Depois de dez anos no Brasil, sentimos que devíamos parar para permitir que o evento, os proessores e os praticantes descansassem. Agora estamos prontos para voltar com tudo, para o povo português, em junho de 2015.

16) YV – O que faz um sábio? Quais são os sábios de ontem e de hoje merecem ser lembrados pela sabedoria e a simplicidade que transmitiram e transmitem? Todo sábio é mestre e todo mestre é sábio? Como uma pessoa pode se tornar sábia? A linguagem em que está veiculada a sabedoria nas escrituras pode confundir o buscador da libertação? Será que diante disso o estudante pode abandonar a ideia de adquirir conhecimento por concluir que mais se confunde que esclarece?

PEDRO – Śrī Kṛṣṇa nos dá uma bela definição do sábio no décimo quarto capítulo da Bhagavadgītā: sábio é “aquele que em presença de lucidez, atividade e confusão não sente aversão por elas, nem as deseja em sua ausência; aquele que, permanecendo equânime, não se sente impulsionado pelas três qualidades (guṇas) e se mantém tranqüilo e alheio a elas dizendo: “Isso é ação das três qualidades”; aquele que, inalterável no prazer e na dor, vive no Eu, contemplando com a mesma equanimidade o barro, a pedra e o ouro, mostrando-se o mesmo no prazer e no desprazer, no elogio e no impropério, firme, equilibrado na glória e na ignonímia, assim como em face do amigo e do inimigo. Alheio a todo tipo de ação, esse homem superou as qualidades”. Porém, nem todo sábio é capaz de transmitir o que sabe. Portanto, nem todo sábio é um mestre, se formos pensar na palavra mestre como guru, alguém que está devotado a ensinar e transmitir a visão, seja pela palavra, seja pelo exemplo. Já abordamos isso numa questão anterior. A pessoa se torna sábia quando entende seu lugar na ordem de Īśvara, quando consegue ver a si mesma como carente de limitações, quando compreende a razão da existência e encontra as maneiras de dar sua contribuição ao bem comum. Sábios de ontem e de hoje incluem pessoas compassivas e realizadas. Vou dar aqui uma lista aleatória e incompleta de nomes de sábios que vêm à minha mente neste momento: Vaśiṣṭa, Viśvamitra, Vyāsa, Pāniṇi, Heráclito, Parmênides, Platão, Aristóteles, Epicuro, Ādi Śaṅkarāchārya, Espinoza, Yeats, Fernando Pessoa, Swāmi Dayānanda, Swāmi Paramarthānanda, Eckhart Tolle. Há pessoas que preferem uma abordagem mais simples e uma linguagem mais direta que aquelas usadas no Śrutiḥ e no Smṛtiḥ (textos tradicionais). O mesmo ensinamento presente nas parábolas da Bhagavadgītā se encontra nos textos do já citado Eckhart Tolle, por exemplo, com uma linguagem mais acessível para as pessoas da presente era. O recado é o mesmo. Se houver interesse no tema da liberdade, independentemente da linguagem, o ensinamento será captado, assimilado e posto em prática.

17) YV – Surf, Yoga e Vedānta compactuam da mesma essência ou cada qual tem a sua particularidade e é melhor não confundi-los? Se Hanumān vivesse nos dias atuais como humano ele seria um surfista, praticaria e estudaria Yoga e Vedānta? Outra deidade, por exemplo, Śiva, pode remover o obstáculo do devoto ou essa função é exclusiva de Gaṇeśa? Banhar-se no Ganges ajuda a diluir karmas negativos do devoto ou agir para o bem comum é o que conta?

PEDRO – É melhor não confundir as bolas. O surf é originalmente, um aspecto ritual da antiga espiritualidade polinésia que hoje em dia se tornou um esporte de competição e está bem distante das suas raízes. Hoje em dia há muito pouca gente que sabe disso e pratica o surf de acordo com os princípios de comunhão com a natureza e a criação. O Yoga e Vedānta são formas de espiritualidade nascidas na Índia antiga que atualmente continuam sendo o que foram, apesar de que no caso do Yoga haja uma tendência a comercialização e popularização nos últimos tempos, por conta da moda que se criou em torno das práticas que fazem parte dessa disciplina. Nesse sentido, temos algum paralelismo entre o surf e o Yoga. Mas os objetivos são radicalmente diferentes: o surf busca a comunhão com a natureza; o Yoga busca mokṣa, libertar o ser humano da ignorância existencial. Humberto pergunta “se Hanumān vivesse nos dias atuais”. Ora, Hanumān continua hoje em dia tão vivo quanto na antiguidade, e tão vivo quanto Rāma, Śiva, Durgā e as demais manifestações de Īśvara. É só visitar qualquer lugar da Índia por um só dia para se dar conta disso. Todos os devas gozam de ótima saúde e ficarão depois disto que chamamos universo se recolher, na noite dos tempos. Hanumān é uma das inúmeras expressões da ordem de Īśvara, na forma da força vital, o prāṇa, na forma da devoção e o sacrifício pelos amigos, e também na forma da erudição: ele é um grande paṇḍitaḥ, muito versado na ciência do sânscrito. O banho ritual no sagrado rio Gaṅgā, desde que feito com a atitude correta, ajuda a organizar os pensamentos e as prioridades do devoto, que consegue transcender o apego às coisas do próprio ego e adquire assim antaḥkarāṇaśuddhi, a purificação psíquica necessária para mokṣa. Nesse sentido, se diz que ajuda a sublimar os karmas.

18) YVPūrṇamadaḥ pūrṇamidam, pūrṇat pūrṇamudacyate, pūrṇasya pūrṇamadaya, pūrṇamevavaśiṣyate; alguém já disse: “Que todas as Upanisads desapareçam da face da terra, eu não me importo, desde que este verso permaneça.” Se este verso não existisse, qual ou quais outros, na sua opinião, merecem destaque nas escrituras por serem considerados relevantes à humanidade?

PEDRO – Essas palavras que Humberto glossa parecem ter sido as de Mahātma Gandhi, que prestou um belo tributo à Īśā Upaniṣad quando disse: “Se as Upaniṣads e todas as outras escrituras fossem repentinamente reduzidas a cinzas, e se somente o primeiro verso da Īśā Upaniṣad permanecesse na memória dos hindus, o hinduísmo viveria para sempre”. Esse primeiro verso ao qual Gandhi se refere é a invocação inicial (śāntipaṭh) dessa Upaniṣad, e diz assim:“Oṁ. Isto [o efeito] é plenitude. Aquilo [a causa] é plenitude.Da plenitude [que é a causa], a plenitude [que é o efeito] surge. Tirando-se a plenitude [efeito] da plenitude [causa], somente plenitude permanece. Oṁ. Paz, paz, paz”. Afora ele, há muitos outros mantras védicos e de igual valor e que mostram aspectos diferentes do ensinamento, como por exemplo o gāyatrī mantra, o mahamṛtyunjaya mantra e outros, afora as dez Upaniṣads comentadas por Śaṅkarāchārya. Já dentro do Smṛtiḥ, os textos tradicionais, temos a imortal Bhagavadgītā, o Ātma Bodha, a Pañcadaśī, o Yogasūtra e muitos mais. Isso é algo que pessoalmente me encanta na cultura do Yoga: a vastidão do universo dos prakaraṇas, textos de apoio à visão e à prática é infindável, transformador e fascinante ao mesmo tempo. Namaste!

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UMA PALAVRINHA DE ÂNGELA SUNDARĪ
 
19) YV – Já faz algum tempo que você e Pedro se casaram e quem os conhece pode concluir que vocês têm uma vida muito dinâmica, pois hora estão em Portugal, mês depois na Indonésia, Índia. E sempre há o retorno ao Brasil, para a praia de Mariscal, em Santa Catarina, onde Pedro ministra o Curso de Formação em Yoga que você organiza. Por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher? Ou afirmar que ser uma grande mulher engrandece demais o ego e então estar presente na maioria dos momentos, apoiar, amar e ser companheira é o que conta mais?

ÂNGELA – Temos uma vida bastante dinâmica porém esse estilo de vida não começou para mim com o início da nossa relação. Cada um levava a sua vida antes, com a mesma dinâmica. Apenas damos continuidade de outra maneira àquilo que já fazíamos, desde que estamos juntos, há dez anos. Somos uma equipe: cada um faz o que há para ser feito. Acredito que, para se ter uma relação equilibrada é preciso somar e crescer juntos com uma visão e atitudes que estejam em sintonia. Não tenho grandes problemas com o meu ego: ele é a ferramenta necessária para nos relacionar com a realidade. Só se precisa trabalhar bem essa ferramenta. Em cada fase da vida vamos tendo prioridades. Precisamos aprender a desfrutar de cada uma. No meu caso, sempre aconteceu tudo precocemente em relação às etapas da vida; porém não deixei de vivenciá-las profundamente: 1) em minha infância, aprendi o que é ter responsabilidades, quando meus pais me presentearam o primeiro animal e junto com ele a responsabilidade de cuidá-lo bem; 2) na adolescência namorava a sério, desde os 14 anos. Aos 17 tive meu primeiro filho e com ele a responsabilidade de suprir as necessidades dele. Tenho uma personalidade bastante forte e não permitia que ninguém intervisse inoportunamente na forma que deveria educar meus filhos; 3) na fase produtiva segui tendo outro tipo de responsabilidade, trabalhando com gerenciamento e administração. Está é a fase onde se dá a importância ao reconhecimento profissional. Tive a fortuna de provar a mim mesma e ser reconhecida pelas pessoas que confiaram no meu trabalho. 4) Na fase atual, depois de ter os filhos criados, tendo vivido tudo o que a vida me deu até aqui, me dou o direito de focar as prioridades no estudo do Vedānta, na prática do Yoga, em estar comigo mesma, com as pessoas que amo e com a comunidade em que vivo. Penso, portanto, que o importante seja estar presente, apoiar, amar, ser companheira e desfrutar de cada momento.

20) YV – Nas viagens que você e Pedro realizam muitas são as fotografias. Quais são as paisagens mais inspiradoras que a sua máquina já registrou? O titilar de um instrumento que você toca ao acompanhar seu marido em kirtans consegue levá-la a um momento de meditação? Cite três mantras cantados durante os kirtans que ajudam você e quem os ouve conectarem-se com o significado, na mais pura devoção?

ÂNGELA – A fotografia é como a meditação, onde a observação está presente, os sentidos aguçados e as limitações temporais não existem. As melhores fotos são aquelas que estão guardadas na memória. A fotografia que me marcou não foi uma paisagem. Quando estive em 2005 à beira do rio Trishuli, no Nepal, fotografei uma cremação. Entre tantas imagens que captei havia uma que me tocou: no exato momento em que apertei o disparador da câmera, um pássaro voava em direção ao céu, passando na diagonal por cima da cabeça do cadáver. Foi como se a alma dela estivesse se desprendendo do corpo naquele momento. Passaram-se alguns meses e a cada vez que revisitava aquela sequência, me arrepiava. Afinal, resolvi apagar todas as fotos relacionadas àquela cremação. Senti que não era direito meu ficar com aquelas imagens. Muito menos, mostrar a outrem. Ainda em relação ao tema da meditação, toco alguns instrumentos com essa finalidade. Dentre esses instrumentos gosto do bandolim, que raramente toco em público. Um dos motivos é ser muito tímida; o outro é que prefiro tocar em casa, sozinha ou com o Pedro, à guisa de meditação. Gosto muito de percussão; o instrumento que escolho para tocar nos encontros é a manjīra, que leva o ritmo do kīrtaṇ. Respondendo à sua pergunta: sim, muitas vezes o kīrtan me leva à meditação. Pode passar desapercebido, mas há vários ritmos de acordo com cada kīrtan, e um deles me leva a uma meditação profunda pois, é um ritmo que se assemelha ao cavalgar do cavalo. Algumas pessoas sabem da minha paixão por cavalos, de tanto pedir um cavalo aos meus pais, aos sete anos ganhei o meu primeiro. A partir daquele momento aprendi com os cavalos mais do que em qualquer outra escola da vida. Costumo dizer que meus primeiros mestres foram meus pais e meus cavalos. Voltando ao assunto de tocar e meditar, quando toco aquele ritmo em especial, me leva a uma sensação igual a cavalgar, experencio a liberdade. 1) Śrī Kṛṣṇa Govinda Hare Murari, 2) Śiva Śaṅkara namaḥ Śivāya, e 3) Maha Gaṇapati pālayamām.

21) YV – Se o Gaṇeśa colorido feito em madeira que você trouxe de Cochin, Índia, e que mora no altar da casa de vocês em Mariscal pudesse falar alguma coisa, o que você acha que ele diria? Ainda em Mariscal, quais são os pratos que costumam ser servidos nas boas refeições que acontecem na cozinha de vocês? Alguma receita favorita que pode nos ser compartilhada?

ÂNGELA – Depois de ter estado tantas vezes na Índia, um dia me dei conta de que nunca havia me ocupado de levar uma mūrti (deidade) para o Brasil. Descobri esse Gaṇeśa numa casa de antiguidades do bairro judeu de Cochin e chamou a minha atenção de imediato. Também atraiu a curiosidade do Miguel Homem, que estava comigo. Entramos na loja. Esperei para ver o que o Miguel faria. Quando vi que ele não ficaria com a mūrti, decidi levá-la para o Brasil. Gaṇeśa é uma representação de Īśvara. Quando começamos a relação com o Pedro, combinamos que ele seria o cozinheiro, uma vez que meus filhos já estavam criados e sempre fiz questão de cozinhar para eles e estar presente nas refeições. Assim, somos uma equipe na cozinha: eu preparo alguns dos ingredientes, ele cozinha e depois organizamos a cozinha juntos. Gostamos da culinária mediterrânea, indiana, tailandesa e também inventamos bastante.

MINI BIOGRAFIA DE ÂNGELA SUNDARĪ.

Ângela nasceu em Porto Alegre há 48 anos. Interessada pela espiritualidade desde jovem e praticante de Yoga desde 1998, tem mais interesse pelo autoconhecimento e a meditação, do que pela prática de āsanas. Pedro diz que ela é yoginī por nascimento e vocação. Quando não está trabalhando, desfruta de meditar, fotografar, correr ou caminhar na natureza. Namaste!

 

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