Escrevi este texto alguns anos atrás e achei ele agora nos meus arquivos. Por algum motivo, esqueci de publicá-lo mas lembrei dele quando me fizeram uma pergunta sobre o célebre turīya"estado de consciência" que muitos yogis buscam (sem achar, evidentemente). Como o texto não perdeu a atualidade, resolvi colocá-lo no ar, à disposição dos nossos leitores, com a esperança de que a sua leitura possa esclarecer este controverso assunto.

Boa leitura!

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Não esperava que houvesse nada de muito correto num bestseller espiritualizado como aquele que o título deste texto parafraseia, que o amigo leitor já deve pelo menos ter ouvido mencionar. Tampouco li o livro pois esse tipo de leitura não me entusiasma. Mas, visitando a casa de uns amigos estes dias, o encontrei na biblioteca e abri numa página qualquer.

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Pela leitura daquela meia página fiquei sabendo que os praticantes de Yoga buscamos um estado ou “nível de consciência” chamado turīya, e que os mestres iluminados são capazes de viver nesse estado durante todos os momentos das suas vidas. O trecho está na página 67 desse livro e diz o seguinte:

“O tema do retiro, e seu objetivo, é o estado de turiya - o fugídio quarto nível da consciência humana. Segundo os iogues, durante a experiência humana típica, a maioria de nós está sempre transitando entre três níveis diferentes de consciência - acordado, sonhando ou imerso em um sono profundo e sem sonhos. Mas existe também um quarto nível. Esse quarto nível é a testemunha de todos os outros três estados, a consciência integral que liga os três outros estados entre si. Trata-se da consciência pura, uma consciência inteligente que pode - por exemplo - relatar-lhe seus próprios sonhos pela manhã, quando você acorda. Você estava apagado, estava dormindo, mas alguém observava seus sonhos enquanto você dormia - quem era essa testemunha? E quem é aquela que está sempre em pé afastada da atividade da mente, observando seus pensamentos? É simplesmente Deus, dizem os iogues. E, se você conseguir atingir esse estado de testemunha-consciência, então poderá estar presente com Deus o tempo todo. Essa consciência e experiência constante da presença-Deus dentro de você só pode ocorrer no quarto nível da consciência humana, chamado turiya.”

A autora até que tenta dizer algo que faça sentido mas é evidente a sua falta de familiaridade com o tema, e acaba fazendo um pastiche de elementos contraditórios que parecem ter sido tirados de fontes diferentes. Pelas palavras da autora, temos a impressão de que o turīya é algo a ser alcançado, mas extremamente distante das experiências que temos e vivemos ao longo do nosso cotidiano, e que não é algo que possamos experienciar nesta vida de maneira fácil.

 

Turīya não é um estado de consciência.

Se você quiser saber a verdade sobre o turīya, vai ter que olhar para o primeiro lugar onde este termo aparece: a Māṇḍūkya Upaniṣad. Este breve mas importante texto começa dizendo que tudo o que há na criação é o Oṁ. De maneira bastante críptica, o texto declara que Oṁ é tudo o que existe, e que esse Oṁ é Brahman, o ser ilimitado, estabelecendo a célebre afirmação ayamātmā Brahman: "este Ātma é Brahman". Esse Ser ilimitado, no processo de manifestação, dá lugar à criação, aos diversos nomes e formas.

Logo, a Upaniṣad declara que existem três estados de consciência: vigília, sonho e sono. Depois, ensina que Brahman consta de "quatro quartos", dos quais, o primeiro está associado com a vigília, o segundo com o sonho e o terceiro com o sono. O quarto quarto é diferente dos demais, pois não é uma experiência, um “nível”, como diz a autora do bestseller, ou um estado de consciência que apareça e desapareça. Nesse sentido, o sétimo mantra deste texto diz:

“Considera-se o quarto como sendo aquele que não é o conhecedor dos [objetos] internos, nem o conhecedor dos [objetos] externos, nem o conhecedor de ambos. Nem [aquele que é] conhecimento indiferenciado, nem [aquele que é] consciente ou inconsciente. [Aquele] que não é visível, de quem não se pode falar [como um objeto], que está mais além [da percepção] dos sentidos e do alcance [dos órgãos de ação], aquele que não pode ser inferido, [que é a] essência do autoconhecimento; aquele em quem o universo se resolve, que é pacífico, benigno e não-dual. Esse, dizem, é o quarto quarto. É esse o Ser, e ele deve ser conhecido”.

Portanto, podemos dizer que o quarto quarto não é um estado de consciência, mas a própria Consciência, cuja presença permite que os estados e as experiências vinculadas a eles tenham lugar. Assim, turīya não é propriamente um estado ou experiência, mas a Consciência que está presente e possibilita as experiências nos três estados, vigília, sonho e sono.

 

O ator e seus papéis.

Essa Consciência é como o ator que, representando diversos papéis, sabe perfeitamente que não é nenhum das personagens que encarna. Assim, se acordamos, sonhamos ou dormimos, se esse tipo de experiência tem lugar, é somente porque a Consciência que somos está presente. O ator, ciente a todo momento de não ser os papéis que representa, fica perfeitamente confortável nesses papéis. No entanto, o conforto não lhe impede de representar, por exemplo, uma personagem que sofre ou sente dor.

Esse “quarto quarto”, turīya, é chamado Ātma.  Ātma está e permanece em todos os estados de experiência mas, não sendo nenhum deles, a todos transcende. Ātma é a causa de todas as experiências e, sendo ilimitado, não começa nem termina em nenhuma das experiências que possamos ter ou viver. A Consciência nunca foi e nunca será: ela sempre existe no presente. Não há distância entre a Consciência e você. Consciência é o que você é. E você está sempre presente, independentemente do estado de experiência.

 

Já somos o que buscamos ser.

Swāmi Dayānanda ensina a esse respeito que “sujeito e objeto são a mesma realidade. A diferenciação sujeito/objeto que me isola e me deixa com aquele sentimento de insignificância e desamparo cai por terra quando me conheço como sachchidānanda (ser, autoevidente e pleno). Quando rompo esse isolamento imposto pela ignorância, percebo a mim mesmo como aquela totalidade que não é dividida pela diferenciação sujeito/objeto, pelas experiências, pelo vyavahāraḥ, pelo que for”.

E, conhecendo a mim mesmo como esse ilimitado, essa totalidade, deixo de me sentir vazio e de buscar experiências que possam me preencher, portanto. Creio que a autora poderia ter deixado de fazer todo o esforço que fez em direção à iluminação se tivesse encontrado um professor que lhe mostrasse isso, e assim poderia ter se dedicado a viver as outras experiências que dão corpo ao resto do livro de maneira pacífica e consciente, sem projetar nelas a expectativa da felicidade.

Não sei se ela se ilumina ou não no fim da estória, mas não é absurdo supor que tenha se frustrado ou achado que aquilo não era para ela, já que estava buscando a si mesma como se ela fosse uma experiência que poderia vir “de fora ou de dentro” como diz a Upaniṣad. Infelizmente, sentimentos de frustração acompanham com muita frequencia àqueles que buscam a coisa certa no lugar errado.

Na espiritualidade (chamemos isso de Yoga ou usando qualquer outra palavra) é importante ter um guia com ambos os pés firmemente fincados na terra, que não alimente fantasias desse tipo mas nos mostre a nós mesmos como o que somos: ilimitados e plenos, vivendo as experiências que temos para viver no presente.

Namaste! 

    COMENTÁRIOS

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  1. Igor Rosa

    Mais uma vez sempre elucidando e trazendo entendimento, onde há confusão!!!

    Muito grato pela aula e pela luz que você deu ao texto!!!

    Namaste!!!


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  2. Patrícia

    Pedro, vou te contar o final da história, porque é o "grand finale" de toda tua linha de raciocínio, e o drama de muita gente, assim acho,como sugestão, que deveria incluir essa problemática dramática aí no seu texto:(tb não li o livro, tb não gosto, mas vi o filme ;)): -"No final, tornou-se discípula de um velho xamã, que a ensinou a meditar e "se encontrou na paz que tanto buscava", vivia satisfeita.

    Mas, eis que o destino põe em seu caminho um bonitão (vivido pelo bonitão Javier Bardem), se apaixonam e começam um romance de amor. Então , ela , apaixonada, entra em crise por que não consegue mais seguir a rotina de meditação que lhe fazia tanto bem!...

    Só queria saber de ficar com ele, só pensava nele! rs. Começou a sofrer por estar perdendo a paz que ela havia achado na "experiência de meditação" e decidiu desmanchar o namoro (justamente na hora em que ele a leva para um cais com um barquinho, convidando-a a viver numa ilha no estilo "eu , você , nosso amor e uma cabana" (rs). Nega tal proposta , e se separa dele.

    Começa o sofrimento: tenta voltar a experiência meditativa, mas sem sucesso... chorando então, vai relatar seu drama para seu guru-xamânico balinês, dizendo aos prantos que "perdeu o equilíbrio com ele"... ao que o guru responde: - Liz (o nome da mocinha de Julia Roberts) , as vezes, perder o equilíbrio por amor faz parte de viver uma vida equilibrada!)".

    Aí ela se ilumina, no mesmo momento, enxuga as lágrimas e sai correndo para os braços do amado!" Então Pedro, acho bem pertinente elucidar essa separação que sofremos ao achar que a iluminação e a paz, traduzidos como equilíbrio e plenitude, possa vir de alguma experiência(meditação sentada) e não possa vir de outra( ter um caso amoroso).

    No caso dela, seguindo o raciocínio aí do seu texto, ela acabou se apegando ao papel de mulher apaixonada.Por isso achou que perdia o equilíbrio né? Perdia a presença. A paixão é mesmo mais difícil , eu acho! Ah, a paixão, esse dia nubiloso da consciência! rs.

    Um bom filme como metáfora desse caminho que não se precisa seguir, esperando encontrar a paz em alguma experiência! Pérola para se guardar: "Não há distância entre a Consciência e você. Consciência é o que você é. E você está sempre presente, independentemente do estado de experiência."

    Obrigada Pedro!

    Gostei muito. Namaste!

    Hari Om


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