भद्रं कर्णेभिः शृणुयाम देवाः भद्रं पश्येमाक्षभिर्यजत्राः
 
स्थिरैरङ्गैस्तुष्टुवा सस्तनूभिः व्यशेम देवहितं यदायूः
स्वस्ति इन्द्रो वृद्धश्रवाः स्वस्ति नः पूषा विश्ववेदाः
स्वस्ति नस्तार्क्ष्यो अरिष्टनेमिः स्वस्ति नो वृहस्पतिर्दधातु
शान्तिः शान्तिः शान्तिः

oṁ bhadraṁ karṅebhiḥ ṣṛṇuyāma devāḥ |
bhadraṁ paśyemākṣabhiryajatrāḥ ||
sthirairaṅga istuṣṭuvāgṁ sastanūbhiḥ |
vyaśema devahitaṁ yadāyuḥ || 

svasti na indro vṛddhaśravāḥ |
svasti naḥ pūṣā viśvavedāḥ ||
svastinastārkṣyo ariṣṭanemiḥ |
svasti no bṛhaspatirdadhātu ||
oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ  ||

Oṁ. Ó devas! Que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é significativo.
Que possamos ver com nossos olhos o que é livre de limitação.
Ó devas! Que saibamos reverenciar o Ser com as palavras de sabedoria dos Vedas.
Que possamos viver uma vida plena, com firmeza em todas as partes do corpo.
Que Indra, de grande fama, nos abençoe com aquilo que é auspicioso.
Que o Sol, que é Todo-o-Conhecimento, nos abençoe com aquilo que é auspicioso.
Que Garuḍa, que voa livremente no espaço, nos abençoe com aquilo que é auspicioso.
Que Bṛhaspati, de grande inteligência, nos abençoe com aquilo que é auspicioso.
Oṁ. Paz, paz paz.

 

 

Breve Explanação Sobre a Invocação da Paz

[Baseada no Ensinamento de Swāmi Tattvavidānanda]

 

भद्रं कर्णेभिः शृणुयाम देवाः Oṁ. Bhadraṁ karṇebhiḥ ṣṛṇuyāma devāḥ

O mantra começa dizendo Oṁ. Bhadraṁ karṇebhiḥ ṣṛṇuyāma devāḥ“Ó devas! Que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é significativo”. Mas quem são esses devas? Os chamados “deuses” védicos, ou devas, são as forças da natureza. 

O ensinamento do Yoga considera que a natureza inteira seja um grande templo. A criação não é matéria inerte. Īśvara, o Criador, não está separado nem é diferente dela. Īśvara é a natureza, aliás. Esse modelo é a antítese do modelo cartesiano, pelo que alguém que olhe para o mundo através desse modelo, terá dificuldades em compreender a visão védica. 

O mundo é um grande organismo vivo. Os rios são entidades vivas, assim como os mares, lagos e montanhas. O Himalaia não é um acúmulo de rochas inertes. É a presença majestosa de Īśvara, pelo que a cordilheira, chamada Himavāndevattā é reverenciada com manifestação de Īśvara. O que você vê, o que está aqui à sua frente é algo vivo, consciente.

Cada montanha é um devattā, e o Himalaia é considerado o rei delas. Um devattā é um elemento da natureza, uma manifestação única de Īśvara na forma de alguma das múltiplas forças da natureza. Assim, este mantra inicia dizendo “Ó devas! Que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é significativo”. Karṇebhiḥ ṣṛṇuyāma: ṣṛṇuyāma significa “que possamos ouvir”; karṇa são os ouvidos. Que, com a nossa audição, possamos apreciar as palavras de sabedoria que apontam para o Ilimitado que somos.

 

भद्रं पश्येमाक्षभिर्यजत्राः Bhadraṁ paśyemākṣabhiryajatrāḥ. 

Bhadraṁ paśyemākṣabhiryajatrāḥ quer dizer “que possamos ver com nossos olhos o que é livre de limitação”. Bhadram é o auspicioso, aquilo que nos traz felicidade. Neste contexto, evidentemente, bhadram aponta para o autoconhecimento. Esse bhadram, necessariamente, inclui o bem comum. 

Dizemos isso pois uma prece é algo que deve, necessariamente, nos levar para mais além daquilo que Swāmi Tattvavidānanda chama “síndrome de eu, mim e meu”. As preces comunitárias são as únicas eficientes, nesse sentido. O Gāyatrī é um ótimo exemplo desse tipo de prece. Bhadram é, assim, aquilo que nos alinha com o dharma

 

स्थिरैरङ्गैस्तुष्टुवा सस्तनूभिः Sthirairaṅga istuṣṭuvāgṁ sastanūbhiḥ. 

Sthirairaṅga istuṣṭuvāgṁ sastanūbhiḥ significa “que possamos viver uma vida plena, com firmeza em todas as partes do corpo”. Tuṣṭuvā saḥ: que vivamos em presença dessas manifestações da natureza que são os  devattās. Que possamos ter uma vida longa e saudável, ayuḥ, dedicada a esse propósito.

Que tenhamos firmeza e saúde, sthira, em todas as partes do nosso corpo, aṅga. O mantra nos convida, implicitamente, a renunciar aos nossos propósitos egoísticos. Que tenhamos, portanto, uma vida útil, que faça a diferença no mundo em que vivemos. 

 

व्यशेम देवहितं यदायूः Vyaśema devahitaṁ yadāyuḥ

Vyaśema devahitaṁ yadāyuḥ quer dizer que possamos ver com os nossos olhos aquilo que é auspicioso na vida. Que possamos louvar a glória dos devattās com os sentidos aguçados. Que tenhamos uma vida longa, que seja útil para a natureza, i.e., para os próprios devas, devahitam. Esta linguagem é típica do Yajurveda.

A mente não consegue apreender tudo, processar toda a informação que recebe através dos sentidos. Ele tem seus próprios mecanismos para apagar informação desnecessária e selecionar o que acredita relevante. Nessa ordem de coisas, diz o mantra, que possamos usar os nossos sentidos em prol do crescimento interior e do bem comum. Que possamos ver e ouvir aquilo que é fundamental. 

A vida no corpo depende da presença dos devattās. Os devattās são a natureza. Você precisa nutrir os devas, para nutrir a conexão com a fonte da vida, para que esta seja preservada. É assim de simples: se não cuidarmos, não seremos cuidados. Esse é o princípio áureo do dharma. Os devattās precisam ser propiciados, para que os seres humanos possamos viver. 

Destruir a natureza significa destruir a nós mesmos, destruir a possibilidade da própria raça humana viver e conviver com o ambiente e as demais formas de vida. O mantra fala, portanto, sobre a interconexão entre o ser humano e a natureza. Na cultura védica, as oferendas dos humanos sustentam a natureza. Essas oferendas são feitas através do fogo sagrado. Que possamos oferecer nossas oblações à natureza, para que reine a harmonia. 

 

स्वस्ति इन्द्रो वृद्धश्रवाः Svasti na indro vṛddhaśravāḥ

Indra é Parameśvara. Indra, no Yajurveda, não é o Indra das Purāṇas, as histórias do folclore religioso hindu. É o próprio Brahman, o próprio Ilimitado. Nas Purāṇas, Indra é uma espécie de vilão, responsável por algumas estripulias que os demais deuses precisam consertar. No presente contexto, Indra é o Ser Ilimitado manifestado na forma da Criação inteira, ao mesmo tempo causa instrumental e causa material do Universo. Vṛddhaśravāḥ quer dizer “de antiga fama”. 

 

स्वस्ति नः पूषा विश्ववेदाः Svasti naḥ puśa viśvadevaḥ

O mantra continua com a frase svasti naḥ puśa viśvadevaḥ, que significa “Que o Sol, que é Todo-o-Conhecimento (Pūṣā Viśvavedāḥ), nos abençoe com aquilo que é auspicioso”. Puśa é o sol. É aquele que dá alimento a todos, através da fotossíntese. Quando você come um tomate, ou um chapati, você come sol. Que este sol nos traga tudo aquilo que é auspicioso. 

Viśvadevaḥ: Veda significa conhecimento mas, neste presente contexto também quer dizer riqueza, abundância. Viśvadevaḥ, o sol, é aquele que possui ao mesmo tempo todo o conhecimento, bem como toda a riqueza do universo. Lokasakṣi é outro nome dado ao sol, que é a testemunha, sākṣi, do universo, loka. Esse nome faz sentido, pois o sol é aquele que tudo vê. 

 

स्वस्ति नस्तार्क्ष्यो अरिष्टनेमिः Svasti nastārkṣyo ariṣṭanemiḥ

A seguir, o mantra diz svasti nastārkṣyo ariṣṭanemiḥ. Traduzindo: “que Ariṣṭanemi (i.e., Garuḍa, o deva-águia), que voa livremente no espaço, nos abençoe com aquilo que é auspicioso”. Tarkṣyaḥ é o filho de Kaśyapa, um ṛṣi. Tarkṣyaḥ é igualmente o nome védico usado para apontar para Garuḍa. Garuḍa é o  devattā, o rei das criaturas aéreas, dos pássaros e todos os seres que voam. A águia é o rei das aves. Ela vê tudo desde uma altura imensa. Ariṣṭa é o indesejável, aquilo que não é auspicioso. Garuḍa é aquele que destrói o que não é auspicioso, o que não é conduzente para o autoconhecimento e que, portanto, pode ser deixado de lado.

 

स्वस्ति नो वृहस्पतिर्दधातु Svasti no bṛhaspatirdadhātu. 

O penúltimo verso afirma svasti no bṛhaspatirdadhātu: “que Bṛhaspati (o mestre), de grande inteligência, nos abençoe com aquilo que é auspicioso (o Conhecimento do Ser)”. Bṛhaspatiḥ é o devattā da sabedoria, da palavra. Vākdevī, a eloquência, a deusa da palavra, é Sarasvatī, personificação da sabedoria, do autoconhecimento, das ciências e artes. Que ela, então, nos seja propícia. 

 

शान्तिः शान्तिः शान्तिः Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ

Oṁ é o símbolo sonoro que aponta para Īśvara. Śāntiḥ é paz. Como existem três tipos de aśāntiḥ, de aflição, dizemos três vezes paz, à guisa de antídoto para essas três fontes de aflição. Adhyātmika ausência de saúde do corpo ou da mente que śāntiḥ possa neutralizar essas aflições. Adidaivika sofrimento causado pelas forças da natureza. Desastres naturais e perdas materiais devidas a eles. 

Adhibhautika é a aflição derivada do pañcabhūta, dos cinco elementos, o que inclui a sociedade e as pessoas com as quais nos vinculamos. Que possamos neutralizar estas três fontes de aflição para vivermos felizes e em harmonia com tudo e com todos. Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ.

 

 

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    Pedro Kupfer
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