Um amigo pediu-me para sintetizar os meus 40 anos de busca da felicidade num mínimo número de temas. Após ponderar bastante sobre o assunto fiz uma lista longa, com mais de 20 ítens. Logo, fui eliminando elementos similares ou que não eram essenciais, até perceber que não tinha mais nada que pudesse sair da lista sem comprometer a eficiência da prática. Quando fui ver, haviam sobrado quatro chaves. Elas são as seguintes:

  1. Desejo de Liberdade — Mumukṣutvaṁ, para iniciar a busca
  2. Discernimento — Viveka, para ver as coisas como são
  3. Desapego — Vairāgya, para abrir mão da vontade de controlar
  4. Esforço — Abhyāsa, para manter-se firme na visão

 

1) Desejo de Liberdade, Desejo de Felicidade — Mumukṣutvaṁ 

 

Liberdade é sinônimo de felicidade no contexto do Yoga. Ee um fato que não podemos adquirir as qualidades para sermos felizes através do simples desejo. Embora Mumukṣutvaṁ, o desejo de ser feliz seja o ponto de partida desta busca, ele não é, de maneira alguma, o fim da jornada. A tomada de decisão é apenas o primeiro passo. Cabe lembrar aqui que decidir cultivar uma qualidade não significa adquirí-la

 

Por exemplo, como soluções para a busca da felicidade, o professor israelense Ben-Shahar, da Universidade de Harvard, dá aos seus alunos pitorescos conselhos como “usar sapatos confortáveis, “ser grato aos demais” ou “ter empatia”. Ora, dizer que a felicidade depende do tipo de calçado que usamos é absurdo. Ora, qual é a conexão causal entre sapatos e felicidade? Se eu não tiver (ou decidir não usar) sapatos, não serei feliz?

 

Os outros conselhos do professor são igualmente duvidosos: não é por desejar “ter empatia”, que vou resolver o tema da minha timidez, por exemplo. Não é por repetir 1000 vezes “confio em mim, confio em mim” que vou tornar-me autoconfiante. Não é por propor a mim mesmo que posso superar qualquer obstáculo, que consigo por arte de mágica as habilidades necessárias para realizar as minhas conquistas. É isso o melhor que a psicologia moderna tem para nos recomendar? 

 

Muitas vezes, confundimos a vontade de realizar algum objetivo com a qualificação que precisamos ter para levá-lo a cabo.

 

Mumukṣutvaṁ pode ser definido com a insatisfação com a vida condicionada, da maneira que ela se apresenta. Nesse sentido, toda yogiṇī, todo yogin, é um(a) inconformista, alguém que não engole tudo o que mastiga, alguem disposto a questionar os valores ou objetivos que a sociedade nos propõe (ou impõe), e alguém com coragem e força para quebrar os moldes dos condicionamentos.

 

Liberdade, neste contexto, não é ser livre para fazer o que nos der na telha. Liberdade é algo bem específico e pontual: a capacidade de desfazer medos, condicionamentos e crenças. Liberdade, o Yoga nos mostra, é a nossa própria natureza. É o que já somos. Portanto, a busca pela liberdade, a busca pela felicidade, é a iniciativa mais legítima que alguém pode tomar.

 

2) Discernimento — Viveka

 

Para que haja felicidade real, transformação duradoura, é preciso compreender. É aqui que entra a segunda chave, o discernimento. Sem compreender as razões pelas quais não temos autoestima ou autoconfiança, não poderemos resolver a incapacidade de acreditar em nós mesmos.

 

Portanto, não basta querer. É necessário obter as qualificações adequadas e firmar-se nelas. Isso é chamado adhikāritvam, em sânscrito. Um adhikāri é uma pessoa preparada, é alguém que está em (ou já completou o) processo de antaḥkaraṇaśuddhi, a purificação psíquica. 

 

Para isso, é preciso fazermos um pacto com as feridas do nosso coração. Se isso não for feito a priori, não podemos pretender ter muitas esperanças de sucesso nessa caminhada. Pretender o contrário seria tão tolo quanto querer completar uma maratona com uma lesão no joelho. Devemos primeiramente curar a lesão para podermos correr seguros e livres depois.

 

Assim, se a primeira chave e o desejo de liberdade, a segunda é o discernimento, a capacidade de distinguir o real do aparente. Noutras palavras, isto quer dizer transcender a nossa história pessoal e deixar de lado a subjetividade do próprio ego. Questionar, como mencionamos acima, a pessoa que, às vezes penosamente, fomos construindo ao longo da vida. 

 

Nesse sentido, podemos dizer que o Yoga seja uma espécie de revolução interior. Pede-se coragem para dar esse passo. É necessário compreender as causas profundas e verdadeiras do mal-estar. Nesse sentido, viveka, o discernimento, é a capacidade de fazer uma autoanálise sincera e honesta. 

 

Quem sou eu, realmente? Quem sou eu, para mais além da personalidade, do que mostro aos demais, do que faço e digo? Voltaremos sobre isso no fim desta exposição. Nessa autoanálise vamos identificar e resolver os conflitos pessoais que produzem sofrimento e nos afastam da felicidade.  E como é que esse passo vai ser colocado na prática, de fato? Através da terceira chave, que é o desapego. 

 

3) Desapego — Vairāgya

 

Desapego é a capacidade de ver (e tomar) as pessoas, situações ou coisas como elas são, sem projetar nelas valores ou qualidades que não lhes sejam intrínsecos. Isso quer dizer cultivar uma atitude equânime e objetiva, sem deixar-se iludir pelos valores que são impostos pela sociedade (e principalmente, a sociedade de consumo) aos relacionamentos, coisas e situações. 

 

Todo o mundo valoriza o desapego, pois ele é um atitude natural para o ser humano. Ninguém deseja carregar ou acumular coisas inutilmente. Todo o mundo deseja viver com o mínimo. O problema é determinar qual é o mínimo para cada um. Desapego não é abrir mão dolorosamente de bens materiais, nem conformar-se resignadamente em relação a perdas econômicas ou de outro tipo. O desapego bem compreendido traz leveza para o coração. 

 

Ele inclui, por exemplo, a coragem para deixar de lado os nossos problemas, tanto como referências pessoais quanto como táboas de salvação. Digo isto pois, muitas vezes, nos definimos através das nossas feridas, doenças ou acidentesPor exemplo: como você se sentiu quando abriu mão daquela coleção de CDs que tanto prezava na década de 1990? Não foi um alívio ver ela alegrando a vida de outras pessoas? Por acaso você não sente quando vai ao cabeleireiro e, depois do corte olha para o que sobrou caído lá no chão? 

 

Essa mesma atitude de alívio deve ser dirigida a todos os aspectos da própria personalidade. Nós não somos as nossas crenças. Nós não somos os nossos condicionamentos. Nós não somos aquilo que a religião, a sociedade ou a família deseja que sejamos. Desapego é ter a coragem de deixar para trás esse tipo de condicionamento. Isso, por sua vez, pede um esforço, o que nos leva para a última chave. 

 

4) Esforço — Abhyāsa

 

O esforço é necessário para implementar na prática aquilo que o discernimento e o desapego apontam. As raízes da aflição não estão nunca fora. Evidentemente, algumas circunstâncias externas como a condição social, o meio-ambiente ou a epigenética podem detonar processos de baixa autoestima, tristeza, raiva ou depressão, mas nunca são as verdadeiras causas

 

As causas reais do sofrimento estão sempre em nós mesmos: podem ser as crenças ou conclusões equivocadas que tiramos, o medo, a tristeza, o egoísmo, a autovitimização, a comparação com os demais, a insegurança e outros. Porém, é necessário compreender que raiva, medo ou depressão são efeitos e não causas. Esses sentimentos nos mostram que há algo errado com a ideia que temos sobre quem somos. Nesse sentido, outro erro frequente é contentar-se com tomar antidepressivos. Os psicofármacos podem ser paliativos, mas não resolvem o problema de fundo.

 

Cerca de 20 anos atrás quebrei a coluna vertebral. Precisei tomar analgésicos fortes para lidar com as dores, que eram terríveis. Porém, a minha coluna não curou por causa dos analgésicos. Eles apenas me ajudaram a lidar com a dor na crise. Se não tivesse feito nada além de tomar analgésicos, a situação da minha coluna não teria mudado até hoje. 

 

Para curar-me, precisei fazer exercícios incessantemente. Usei o discernimento para separar os movimentos adequados dos que não eram saudáveis. Usei o desapego para dizer adeus aos exercícios dos quais gostava mas que não me faziam bem. Também usei o esforço para focar-me, e aprender a apreciar, as ações que faziam bem para a minha coluna. 

 

A dor física existe para avisar que algo não anda bem com o corpo. Da mesma maneira, o excesso de tristeza, ansiedade, medo ou raiva têm a função de alertar sobre algo que não anda bem com a mente, sobre o fato de que é preciso aprender a lidar melhor com ela. É essa iniciativa, esse esforço, abhyāsa, o que nos tira do torpor e nos permite crescer. 

 

As Quatro Chaves e a Vida Feliz

 

Compreender o funcionamento e a natureza do corpomente pode poupar-nos muitos dissabores. Pensamento, emoção e ação: é nesses três ambitos que se manifestam os conflitos interiores do ser humanoA conduta é determinada pelo pensar e pelo sentir. Portanto, não é sobre ela que devemos focar-nos. O comportamento é uma consequência, não a causa do sofrimento. 

 

Portanto, qualquer abordagem baseada na tentativa de mudar as ações está fadada ao fracasso. Conselhos como “mostre-se forte e você se tornará forte” estão fora de questãoAs emoções, por seu lado, são respostas do corpo a conteúdos mentais. É necessário reconhecer a existência delas, e o poder que têm sobre nós. Não devemos atribuir às emoções um valor ou uma capacidade que elas não têm: a capacidade de nos fazer felizes

 

Digo isto pois hoje em dia existe uma sobrevalorização das emoções, como se nelas estivesse guardado o segredo da felicidade. Não está. Não podemos nos enganar em relação a isso. Não devemos tentar tampar o sol com uma peneira. Para lidar corretamente com as nossas emoções, paradoxalmente, é preciso deixar o raciocínio um pouco de lado. É necessário entregar-se a elas, momentaneamente, sem reagirmos contra elas, sem as negar. É necessário perceber quando elas se manifestam e como tomam conta do coração. 

 

É preciso reconhecer o poder que elas têm, e a maneira em que se movem pelo corpo. Para tanto, a solução é aprendermos a confiar, aprendermos a perder o medo delas. E a nos desapegar delas também, a deixá-las seguir o seu curso, como devemos igualmente fazer em relação à mente. Como diz o sabio Patañjali, devemos aprender a relaxar no esforço

 

O desapego nos permite integrar uma emocionalidade mais firme, mais próxima com os demais e com o mundo, uma vez que não as buscamos mais como a solução para os nossos conflitos e compreendermos que elas fazem parte da ordem psicológica. Como já vimos, o simples desejo ou a repetição automatica de uma afirmação não funcionam. Similarmente, qualquer recomendação para sermos amorosos quando estamos tomados pela raiva estará fadada ao fracasso

 

Isso equivaleria a viver como o surfista fake daquela música dos Replicantes, que fala como um surfista, anda como um surfista e se veste como um surfista, mas que, quando entra na água não surfa nada. Você não quer ser um fingidor profissional, quer? Um fingidor profissional, no fundo, é um autoenganador profissional. Qualquer tipo de enganação é sempre autoenganação. 

 

A solução para lidar com as emoções é aprender em primeiro lugar, a reconhecer a existência delas. Em segundo lugar, perceber o poder que elas têm sobre nós. Em terceiro lugar, aprender a desvincular-nos, a desapegar-nos delas. Desta maneira, elas perderão a capacidade de alimentar o circuito das aflições.

 

Portanto, a solução para a charada da felicidade não está nem nas ações nem nas emoções. Patañjali já deixou isso bem claro há mais de 2000 anos e vale até hoje: a solução está na mente. É preciso compreender como ela funciona. A mente é um fluxo incessante de pensamentos, que surgem uns dos outros. Não há nada de errado nessa fluidez contínua. Se não aceitarmos a natureza da mente, estaremos numa batalha perdida. Não há necessidade de sequer, entrar no campo de batalha.

 

As ações e atitudes que tenhamos no futuro serão a medida das mudanças que aprendemos a aplicar, tanto em relação às emoções quanto em relação aos pensamentos. Voltando à pergunta que deixamos sem resposta no meio, “quem sou eu, realmente?”: o que você responderia para si mesmo?

 

Desde muito antes de Buda ou Cristo, o Yoga sempre funcionou da mesma maneira: através do método da negação daquilo que acreditamos ser, mas não  somos. Negando o que não somos, brilha o que somos: felicidade, plenitude, liberdade. Esse processo de descartar progressivamente o que não somos é chamado neti neti, em sânscrito: “eu não sou nem isto, nem aquilo”. 

 

Quando abrimos mão de tudo aquilo que acreditamos ser, quando compreendemos através do discernimento, nos desapegamos e cultivamos o esforço, o objeto da nossa busca resplandece: já somos a liberdade que buscamos. 

 

नमस्ते Namaste.

 

श्रीः

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