Yoga é um dos termos mais flexíveis e polissêmicos (com vários sentidos) da língua sânscrita. Essa palavra, assim como outras, pode mudar muito de significado, de acordo com o contexto. Se você consultar um dicionário sânscrito, achará, dentre outras, as seguintes acepções:

Yoga = unir, jungir, juntar, atrelar, manter junto. Equipe, soma, conjunção, resultado. Magia, mágica. Mentira, embuste. Arreio, cinto, jugo. Controle da mente e dos sentidos, método de auto-conhecimento, caminho espiritual. Trabalho, tarefa. Nome de um sábio mítico mencionado no Mahabhárata.

1.
A palavra Yoga aparece pela primeira vez no Rg Veda, de aproximadamente 5000 aC. Naquele tempo e naquele contexto, não significava o que significa hoje, mas tinha o sentido de "aplicação". Yoga era um dos recursos usados no ritual vêdico.

2.
O significado da palavra Yoga como controle da mente e dos sentidos ou caminho espiritual aparece pela primeira vez na Taittiriya Upanishad (II.4.1), obra datada do II milênio aC. Posteriormente, muitas outras Upanishads mencionam esse termo com o mesmo sentido.

3.
Nos tempos do Yoga pré-clássico, em que a Bhagavad Gítá foi transcrita (século IV a. C.), essa palavra já era bem usada para designar na tradição hindu uma disciplina espiritual que incluía diferentes caminhos para a auto-realização (samádhi). Outra obra importante do mesmo período é o Mokshadharma que, assim como a Gítá, pertence ao grande épico Mahabhárata.

4.
Patañjali codificou o conhecimento do Yoga no livro de aforismos chamado Yoga Sutra, no segundo século aC. A partir desse momento, o Yoga passa a fazer parte dos seis sistemas filosóficos hindus, chamados darshanas.

5.
Todos já ouvimos dizer que Yoga significa união em sânscrito, mas poucos sabem que Yoga significa igualmente trabalho, aplicação. Ou seja, Yoga é o meio e o fim ao mesmo tempo. Jaideva Singh, no comentário do Vijñánabhairava (p. XIII), afirma que:

A palavra Yoga é usada tanto no sentido de união (com o Divino) como no de veículo (upáya) para essa união. (...) Desafortunadamente, nenhuma palavra foi tão profanada nos tempo modernos como a palavra Yoga. Andar sobre o fogo, tomar ácido lisérgico, parar o batimento cardíaco, etc. se consideram Yoga, quando, a bem da verdade, não tem nada a ver com ele. Mesmo os poderes psíquicos [siddhis] não são Yoga. Yoga é consciência; transformação da consciência humana em consciência divina.

Assim, Yoga é um meio e um fim ao mesmo tempo: tudo o que fazemos na vida é um meio para obter alguma coisa. O que estamos fazendo agora é um fim em relação a outra coisa, que por sua vez será um meio para realizar uma terceira e assim sucessivamente. Porém, deve haver alguma coisa que seja apenas um fim. Um fim último, que não seja meio para mais nada. Cabe lembrar igualmente que não existem fins separados dos seus meios. Para o yogi, a somatória dos meios que é a própria existência, é o fim último.

Yoga também é liberdade. Libertar-se de condicionamentos e preconceitos em relação à palavra, por exemplo, poderia considerar-se uma forma de sádhana. As palavras não são nem boas nem ruins em si. Nós lhes damos valores e significados que associamos às nossas próprias emoções ou preconceitos. Está escrito na Bhagavad Gítá (II:50): Yogah karmashu kaushalam: 'Yoga é perfeição na ação'. Essa é uma visão tão ampla como simples do Yoga: qualquer coisa que você fizer, deve fazer-se como uma prática contínua e constante, exercendo atenção plena. Mas aqui temos um paradoxo: a perfeição não existe. Que significa 'perfeição'? A perfeição, assim como o zero, é um dos muitos produtos da capacidade de especulação da mente. Ou seja: não existe. Não é algo preexistente, nem uma verdade tautológica, daquelas que se sustentam por si próprias. A perfeição, diria, não é uma abstração etérica, inatingível, senão um modelo, um paradigma no qual nos espelhamos para transformar a própria existência numa obra de arte, algo digno de ser vivido (e perdoe-me o leitor o mau gosto da frase, mas é para que fique claro). Perfeição aqui significa arte de viver consciente. Nada mais. Ao mesmo tempo, deve tomar-se o cuidado de não deixar que a busca dessa perfeição se transforme em uma obsessão. Patañjali explica o mesmo com outras palavras: 'discernimento constante é o meio para destruir a ignorância.' Yoga Sútra, II:26.

Embora no início possa parecer difícil, ou incompreensível, chega uma hora em que a mente se abre e começamos a entender. Nesse ponto, o Yoga não fica apenas no plano das idéias, nem se restringe unicamente à sala de prática. Com isso em mente, fazer Yoga é como um jogo que é preciso aprender a jogar desde o início. Um jogo que se joga tanto com a cabeça como com as vísceras. Mesmo se você não tiver nenhuma experiência com Yoga, saiba que suas atividades diárias, como trabalhar, criar os filhos ou estudar, também podem ser encaradas como um sádhana, uma prática espiritual. É por isso que o Yoga é um jogo, cuja única regra é permanecer consciente o tempo todo, de cada ato, a cada momento.

A frase da Bhagavad Gítá citada acima possui implicações que vão longe e escapam a uma análise que seja feita fora do contexto adequado, por causa da sua aplicação prática. Porque se usa, porque funciona para libertar. Você precisa, não apenas fazer Yoga três ou quatro vezes por semana, senão viver em Yoga, 24 horas por dia, todos os dias da sua existência. Esse viver consciente, essa atenção constante é a essência da prática, mas não se consegue exercendo a vontade. Não adianta apenas querer fazê-lo, nem acontece da noite para o dia. A atenção constante é o fruto do amadurecimento interior, um processo em que se desenvolve gradativamente a consciência de alerta, que vai expandindo até abranger cada momento da existência.

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