O yoganidrá, o 'sono' do Yoga, é um estado de consciência entre o sono profundo e a meditação, uma espécie de 'meditação-sono', em que participam ativamente todos os poderes mentais. Na mitologia purânica, a palavra yoganidrá alude ao sono de Vishnu. Como Náráyana, Vishnu é o deus que dorme, aquele que descansa nas águas causais, deitado sobre a serpente de mil cabeças Anantasesha, a infinita. Ele dorme e sonha: durante seu sonho surge-lhe do umbigo uma flor de lótus, da qual emerge Brahma para criar o mundo, dando início a um novo ciclo cósmico de quatro eras.

Na cosmogonia indiana, um yuga é uma idade ou era cósmica. A visão hindu do tempo como recurso para medir a eternidade é extraordinária e difícil de se conceber utilizando a idéia de tempo com que estamos habituados a conviver. Uma era cósmica é um ciclo completo de nascimento, vida e destruição do Universo. As eras são quatro: krita (de ouro), treta (de prata), dwápara (de bronze) e kali (de ferro). O conjunto destes quatro ciclos é um mahayuga. Mil mahayugas constituem um kalpa ou dia na vida de Brahma. Brahma vive um mahakalpa (cem anos de 360 dias cósmicos, ou seja mais de 300 bilhões de anos terrestres), que é apenas um piscar de olhos de Vishnu! A morte de Brahma é o mahapralaya, a dissolução do Universo. O yoganidrá é então o aspecto microcósmico, humano, do sono de Vishnu.

O yoganidrá deriva do nyása, uma técnica inacessível para a imensa maioria dos seres humanos neste kali yuga, era dos conflitos. Foi adaptado do original (que durava algo assim como seis horas a fio, com o praticante sentado ou deitado, totalmente imóvel), por Swami Satyananda. Apresentamos aqui a versão que praticamos na Índia. Versão que, mesmo sendo o resumo da original, poderá parecer interminável para os mais inquietos, por causa novamente da imobilidade absoluta que exige (só que, desta vez, deitado).

Uma das coisas que chamam mais a atenção no yoganidrá é o sankalpa, a resolução interior. É uma frase curta, mas carregada de significação. Deve manter-se por dez a quinze sessões sucessivas de meditação ou de yoganidrá, e repetir-se pelo menos três vezes ao iniciar e três ao finalizar a prática. Devem ser poucas palavras, e sempre as mesmas, para fixá-las no pensamento: uma frase curta, do gênero desperto a minha kundaliní, ou lembro sempre que precisar. Deve ser positivo - por exemplo, estou saudável ao invés de não estou doente. Deve conjugar-se sempre no presente. Se você pensar no futuro, nunca vai conseguir o seu sankalpa, porque a mente subconsciente só entende o presente.

Para conseguir permanecer imóvel sem desconforto, use um travesseiro baixo sob a cabeça. Se sentir dor nas pernas, coloque uma almofada sob os joelhos, mantendo-os levemente flexionados. Se estiver frio, agasalhe-se com um cobertor. Lembre que no relaxamento você perde calor. Aguarde duas ou três horas após as refeições para fazer yoganidrá, para evitar dormir. O ambiente para praticar não deve estar nem completamente escuro, nem completamente iluminado. Ambos extremos têm forte influência na mente. A escuridão total provoca sono e o excesso de luz torna a mente muito ativa. Se você tiver insônia, faça estas práticas imediatamente antes de deitar, mantendo escuridão total no quarto. Ao concluir, durma. Se mesmo assim você não conseguir dormir, é aconselhável fazer alguns exercícios físicos antes do yoganidrá.

    COMENTÁRIOS

    Comentar artigo

  1. Denilson

    Gostei muito dessa matéria sobre o yoganidra. Eu gostaria de me aprofundar mais sobre o assunto através de ilustrações. Como chegar a esse estado de consciência?
    Responder


  2. Nide

    Boa tarde, Pedro. Seu site está ótimo. É maravilhoso ter cada vez mais matéria sobre o Yoga, principalmente um Yoga legítimo e honesto como o que você trabalha e estuda. Parabéns! Nide.
    Responder