Qual é o lugar que o Yoga ocupa dentro da filosofia hindu? Se diz que o Yoga é um darshana, um 'ponto de vista' sobre o homem e o universo. Entretanto, não é exatamente assim. Eis a explicação: os darshanas 'oficiais' são Nyáya, Vaisheshika, Sámkhya, Yoga, Mímánsá e Vedánta. Porém, esta lista está errada. Porque o Yoga não deveria ser considerado um darshana. Pelo mesmo motivo, Nyáya e Mímánsá tampouco seriam darshanas.

Vamos por partes: Yoga é um método para chegar ao darshana. Nyáya e Mímánsá também são métodos para chegar ao darshana. Existem duas camadas na realidade: a visível e a invisível. Os darshanas são os sistemas que observam essas duas camadas e estudam suas relações. Normalmente, se acredita que são como seis revistas que podem ler-se (e entender-se) separadamente. Entretanto, eles fazem parte de um livro que somente faz sentido quando é lido (e entendido) do início ao fim. É impossível entender um darshana sem estudar os outros: cada um deles trata de níveis diferentes da realidade.

Yoga é a prática: é quando você coloca as suas botas de trekking e começa a andar. É quando coloca tudo no nível intuitivo e pratica. Porque você não pode entender a criação, nem quem realmente você é, usando apenas o pensamento. Você precisa identificar-se com o mundo para poder entendê-lo. O cientista olha o mundo de fora. O yogi entra nele. Mímánsá é o guia experimental: a sua bússola. Mímánsá lhe diz como fazer as experiências. Nyáya diz como fazer deduções lógicas a partir dessas experiências: o mapa da caminhada. É raciocínio, lógica, olhar a coisa de fora. E o Yoga lhe ensina a colocar toda essa teoria na prática. Então, uma vez que você calçou as suas botas e tem o mapa e a bússola na mão, pode começar a caminhada.

Agora, os darshanas são o resultante da combinação desses três métodos. Vaisheshika, o primeiro darshana, é a teoria atômica. Depois vem o Sámkhya, a teoria da evolução, que ensina como, a partir do princípio mais sutil, todos os outros se desdobram. O Vaisheshika ensina a relação entre matéria e matéria. O Sámkhya ensina a relação entre Prakriti e Purusha, matéria e espírito. E finalmente, o Vedánta ensina a distinção entre Paramátman e átman, o Ser Supremo e o ser individual. Agora que você entendeu, releia o texto da Mundaka Upanishad sobre os dois pássaros que citamos no artigo anterior. O Vedánta não tem nada a ver com matéria ou evolução. Pensar o contrário seria como se um engenheiro colocasse num livro sobre engenharia um capítulo sobre futebol ou bossa nova. Não tem nada a ver com o assunto. Se alguém entende realmente o corpo, entenderá também a mente.

Se entender realmente a mente, também entenderá a alma. Porque a realidade que está por trás é somente uma. Ádi Shankaracharya, mestre de Advaita Vedánta, disse: Brahma é satya; o resto é mityam. Brahma deriva da raiz brh, ou seja, estar em toda parte. Brahma é real, o princípio do qual todas as coisas dependem. Tudo é Brahma: sat, a verdade eterna, Prakriti, a Natureza, e átman, a alma. Mityam não significa falso. Significa que depende de. Ou seja, que nada pode existir, nada pode ser real, sem Prakriti. Ao mesmo tempo, não pode haver nada sem a alma, porque nada pode ser observado se não houver um observador.

Há uma pergunta que a física moderna se faz: Se não existisse nenhum ser vivo escutando, qual seria o som que faz uma árvore ao cair? A questão que o cientista se coloca é se o som é real em si mesmo, ou se ele apenas existe porque existe alguém que o percebe. Porém, mais de 2000 anos atrás, Pátañjali já fazia esta mesma pergunta: 'os objetos não dependem da mente que os observa. Se fosse assim, eles deixariam de existir se não fossem percebidos?' Isto significa que Brahma, Prakriti e átman são reais, porque o mundo existe. Essas realidades são universais. As mentes que as observam são individuais. Porque se houver observador, haverá objeto observado. Então, o mundo não é ilusório. Toda a manifestação, a criação, depende dessas realidades. Por exemplo, essa parede aí do seu lado, não é falsa: ela é real. Se você bater com a cabeça nela, se dará perfeita conta de que ela é real. E também descobrirá que a sua cabeça é real!

A palavra máyá é traduzida freqüentemente como ilusão. Mas você sabe mesmo o que isso significa? O sânscrito é uma língua muito bela. Nele, as definições já estão implícitas nas palavras. Máyá deriva da raiz ma, que é medir. E qual é a única coisa que você pode realmente medir? Se você pensou no tempo, acertou. O tempo é ghati, movimento. Então, máyá é o próprio movimento do Universo.

Shankaracharya, no seu belo comentário dos Vedas, disse: Máyá é um poder estranho. Dá um efeito que não está incluído na causa. O que é este mundo? É sólido? Sabemos que é fabricado de átomos. E que o que há entre os átomos é apenas vazio. A física diz então que este mundo é fabricado de vazio e umas poucas partículas sólidas. Porque o mundo é aparentemente sólido? Por causa da imensa velocidade dos átomos. Qual é a causa? O movimento. Qual é o resultado? A matéria 'sólida'.

Máyá, então, não é ilusão. Esta palavra nunca foi utilizada por Shankaracharya nesse sentido nas escrituras. São seus seguidores atuais que lhe deram esse sentido. Infelizmente, ele, que foi um dos maiores sábios de todos os tempos, é igualmente um dos mais incompreendidos. Mityam não é falsidade. Máyá não é ilusão. Não são nem mais nem menos do que princípios científicos totalmente válidos. Tem uma altura na prática em que não se poderá ter a experiência total do Yoga sem o conhecimento desses darshanas. Mas esse é um assunto que pode esperar um pouquinho. Por enquanto, concentre-se na prática. E use suas botas, a bússola e o mapa, sem esquecer qual é o ponto de partida e qual o ponto de chegada. Boa caminhada!

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