Estas "pérolas de rara beleza", como dizem os próprios Shastras, são uma compilação parcial das escrituras do Yoga. Coisas que foram escritas ao longo dos milênios por seres humanos iguais a nós, que se dedicaram a explorar a alma humana usando o Yoga como ferramenta. Elas são fruto da visão e da intuição dos rishis, que eram sábios, ascetas, cientistas, yogis e poetas da antiguidade. Tudo ao mesmo tempo.

São aforismos, mantras, composições em verso ou prosa que surpreendem e fascinam pela beleza, força e profundidade. Por momentos estarrecem ou inquietam, por momentos iluminam e nos permitem vislumbrar o mais profundo do nosso próprio ser. Este livro não é para eruditos: eles saberão onde procurar os originais em sânscrito. É para você, que não precisa ler os Shastras inteiros para poder captar toda a sua beleza e sabedoria. Afinal, eles falam de coisas simples e dizem respeito a todos os seres humanos.

Esta seleção não é representativa do vastíssimo universo da sabedoria hindu. Para início de conversa, fui obrigado a deixar de lado tudo o que não entendi, que não é pouco. Por momentos, conceitos muito complexos aparecem em linguagem simples e por momentos acontece o contrário. Depois tem a própria extensão dos Shastras, que são um verdadeiro oceano em tamanho e profundidade. Mas este livrinho é representativo sim dos aspectos práticos e filosóficos do Yoga, e da sua relação com qualquer praticante de qualquer tempo e lugar.

Estes textos pertencem a diferentes momentos da história da literatura sagrada hindu e todos tem como sútra, fio condutor, o próprio Yoga. Alguns deles, os mantras vêdicos, pertencem à tradição oral revelada e remontam à Idade Vêdica, no Neolítico (7000-4000 a.C.). Outros pertencem aos períodos Pré-clássico (1900-1500 a.C.), Clássico (1400-250 a.C.) e Medieval (até o século XII da nossa era) da cultura indiana. Há ainda os mais novos, do Tantra e do shivaísmo de Kashmir, com aproximadamente 500 anos de existência.

Todos têm duas coisas em comum: a beleza e a qualidade de mostrar o mundo visível e o mundo invisível desde diferentes ângulos. Propositalmente, não quis explicar nem analisar nada para não diluir a força das afirmações neles contidas. Ao mesmo tempo, limitei as explicações, colocadas entre parêntesis retos ao mínimo possível para não comprometer a fluidez da leitura e tornar as mensagens inteligíveis.

Também resisti à tentação de explicar o contexto em que estes mantras e sútras aparecem na história do pensamento hindu, já que mesmo sendo muito úteis, a necessária extensão das notas iria desviar a atenção do leitor do que em definitiva interessa. Classifiquei os mantras, hinos e aforismos em três grandes temas: o Homem ? com maiúscula mesmo ? o Yoga e o Cosmos. O raio X da alma humana, a miséria humana, a prática de meditação como porta de saída dela, a teoria do conhecimento, a cosmovisão e a cosmogênese são temas recorrentes.

Alguns destes fragmentos são claramente explícitos e diretos. Outros, misteriosos, místicos. Místico vem da palavra grega mysthos, que significa etimologicamente aquilo que está encerrado em uma caixinha. Os enigmas e paradoxos deles poderão por momentos desorientar ou confundir o amigo leitor. Mas isso é muito bom! Quando você não entender alguma coisa, preste muita atenção, pois poderá estar prestes a aprender algo novo.

Ao encarar uma tarefa destas, é inevitável deparar-se com a dificuldade na tradução dos termos sânscritos, que não tem eqüivalentes exatos em português. Muitos deles possuem significações metafóricas que escapam a uma leitura superficial. Estão em "estado fluido", ou seja, não têm apenas um significado único e estático, pelo que podem interpretar-se de formas muito variadas.

Para piorar as coisas, alguns dos conceitos que você vai achar aqui, não são somente intraduzíveis, mas tampouco podem ser reduzidos a palavras, já que estão muito além do racional e do que os sentidos podem captar. Algumas palavras possuem camadas e mais camadas de significados, que aludem simultaneamente aos diferentes aspectos da natureza, naquilo que se chama a das teoria das correspondências ? bandhus. Muitas têm significados que podem tomar-se literalmente mas que nem sempre querem dizer isso. Assim pode ficar difícil entender este estilo críptico se você não fizer uma leitura inteligente. Inteligência deriva do latim, inter leggere, e significa saber ler nas entrelinhas.

Por exemplo, quando um Shastra fala de Agni, se refere ao fogo de uma fogueira, à consciência que ele simboliza, ao poder serpentino ou ao deus vêdico? A resposta poderia ser qualquer uma, ou todas, dependendo do contexto. As respostas a esta e outras perguntas do gênero está na raíz da visão hindu do mundo. Yoga é perceber a unidade em todas as coisas. Mas isso não significa que todos os textos sejam metafóricos. Por exemplo, você poderá achar aqui uma ou duas vezes a palavra água ou a palavra sal significando exatamente isso. Não desanime!

Ao mesmo tempo, cabe lembrar que os mitos tem, entre outros objetivos, o de alcançar áreas da mente humana que não estão vinculadas à razão ou ao intelecto. A necessidade de perpetuar o conhecimento na forma da palavra escrita obriga os autores dos Shastras a encerrar em abstrações e conceitos uma realidade que em verdade é mutante, dinâmica e está além da lógica.

A filosofia da Índia concebe todo o existente como uma unidade que está em perpétuo movimento e é regida pelas mesmas leis. O mundo do infinitamente grande, o mundo do infinitamente pequeno e o mundo humano convivem sutilmente vinculados entre si. As equivalências entre estes três mundos estão presentes em tudo. O pulo do gato está não em entender isto, mas em viver de fato no estado de união ? Yoga, permanentemente. E esse é justamente o grande desafio: fazer com que a própria existência seja um ato de liberdade e criatividade, em que o indivíduo conduz e transforma o próprio destino.

No contexto hindu, tentar explicar o que é o Brahman, ou quem é Shiva, por exemplo, pode ser tão redundante como levar alguém para conhecer uma praia, apontar para a água e dizer "eis o mar". Não obstante, incluímos um pequeno glossário sânscrito e um índice remissivo para você não se perder. Sendo plenamente consciente das dificuldades enfrentadas nesta tarefa, peço desculpas aqui pela perda de nuances de significados na tradução.

Concluindo, todas as afirmações dos Shastras poderiam resumir-se nestas quatro constatações: 1) para conquistar a liberdade absoluta, vale mais ser bom do que mau, pacífico do que violento, verdadeiro do que mentiroso. 2) É preciso exercer a consciência plena, colocando 100% da atenção no que se está fazendo no momento presente. 3) Faça o que você tem que fazer, sem esperar nenhum resultado pelas suas ações. 4) Aproveite bem a vida, pois vale a pena vive-la. O caminho do Yoga é ao mesmo tempo o meio e o fim. Caminhe e seja feliz!

Ofereço-lhe, leitor, estas pérolas do jeito que elas se mostraram a mim: belas, enigmáticas e instigantes. São conselhos práticos sobre meditação, insights sobre o homem e o mundo e muita, muita poesia. Você pode usar este livrinho para conhecem melhor o que os yogis sentem e pensam sobre o Yoga, como fonte de pesquisa e estudo ou pelo simples prazer de ler, em uma leitura lineal, diagonal ou aleatória que, espero, seja inspiradora e estimulante.

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