Mudrá é uma palavra sânscrita que significa gesto, selo ou matriz. Os mudrás são a fonte de uma linguagem gestual e corporal que se origina na tradição tântrica, e está indissoluvelmente associada ao registro akáshico, o espaço sutil onde estão armazenados todos os conhecimentos e feitos da Humanidade desde seus primórdios.

Essa linguagem busca a realização de determinados estados de consciência através da simbologia e das mensagens contidas em certos gestos arquetípicos que atuam por ressonância e associação neurológica. Tocam os estratos mais profundos do ser humano, permitindo-nos redescobrir o conhecimento escondido em cada gesto e transportar-nos aos processos de consciência a que eles aludem.

Muito pouco tem se escrito sobre estes gestos. Menos ainda, sobre as formas em que eles podem utilizar-se na prática, seja de Yoga, seja de dança. Quando os mudrás são mencionados na literatura, figuram apenas como símbolos que se referem às diferentes deidades hindus, a eventos artísticos ou religiosos, ou ainda no teatro, na dança e em cerimônias religiosas, como meios para identificar os deuses.

Algo que freqüentemente deixa de ser mencionado, mas que nós estudaremos neste livro, são os aspectos energéticos e metafísicos dos gestos. Eles influenciam a forma como percebemos a energia vital, aumentando seu caudal e canalizando-a através de diversas técnicas do Yoga, que visam a aumentar o estado geral de saúde, expandir as percepções, disciplinar a mente e aprofundar os estados de meditação. O termo deriva das raízes mud, encanto, magia, satisfação, e rati, dar, doar. Literalmente pode traduzir-se como aquilo que outorga encanto, força ou poder. Em algumas obras aparece incorretamente traduzido como símbolo, porém, embora alguns mudrás sejam simbólicos, existe outro termo (yantra) para designar os símbolos em si. Pronuncia-se sempre com a tônico.

Possui três significações bem diferentes: por um lado designa os gestos feitos com as mãos; por outro, em alguns textos (principalmente de Hatha Yoga, modalidade de Yoga tântrico, surgida no século xi d.C.) designa outras técnicas fisiológicas, como ásanas (posições físicas) ou bandhas (contrações de plexos e órgãos); e ainda, no contexto do tantrismo, mudrá designa a Shaktí, a parceira com quem se pratica o maithuna, a união sexual ritual. A primeira acepção é a que nos interessa.

No Yoga e na dança, a palavra mudrá designa exclusivamente os gestos feitos com mãos e dedos. A riqueza da linguagem gestual reside no fato de que estes gestos revelam significações distintas, de acordo com o contexto e a pessoa que os percebe. Eles aludem a verdades eternas, valores, idéias, conceitos ou estados emocionais que são diferentes para cada um de nós, pois, a partir de suas múltiplas interpretações, falam diretamente ao eu profundo.

O Yoga e as danças tradicionais da Índia nos revelam o significado dos gestos, em que idéias e sentimentos são manifestados por meio de símbolos. Eles formam parte do legado da Humanidade e de nossas vidas, impregnando-nos até o mais íntimo do ser, muitas vezes sem que o percebamos. Mostram-nos a unidade essencial das coisas, as correspondências entre o mundo sensível e o mundo das idéias.

O hinduísmo como um todo se nos apresenta cercado de símbolos e emblemas, representação de idéias e propriedades da Natureza que muitas vezes revelam qualidades ou poderes das suas diferentes manifestações, sob a forma de deidades. Tudo é significativo, convergente e recíproco: o segredo está em saber ver, decifrar o que a Natureza, o Yoga, o Tantra e as culturas chamadas primitivas nos mostram. Assim, poderemos remontar-nos à origem, resgatar a liberdade e os valores eternos do ser, dos quais fomos afastados pela tirania moral, patriarcal e religiosa das civilizações industriais e urbanas.

Mudrá, dança e mitologia hindu

Para o homem arcaico, a dança ocupa um lugar essencial na vida da comunidade; dança-se para despertar o psiquismo coletivo da tribo, para aceder à sacralidade, para renovar as relações entre o céu e a terra através das chuvas, para promover a fertilidade ou a benevolência das forças da Natureza, para colocar-se em sintonia com o ritmo do Cosmos.

A dança indiana é tão antiga quanto o próprio Yoga, havendo-se achado estatuetas de dançarinos e dançarinas em escavações arqueológicas da cultura do vale do Indus, com mais de 5000 anos de antigüidade. Para os hindus, a dança não é criação humana nem produto de uma cultura: é o fruto de uma revelação de origem divina. Antiqüíssimos mitos contam que o próprio Brahmá, o criador, haveria composto a pedido dos deuses os tratados originais considerados escrituras sagradas sobre dança, teatro e mímica. ''Assim seja', disse Brahmá e dispensando Indra, o rei dos deuses, aquele que conhece a essência da realidade recorreu ao Yoga para relembrar os quatro Vedas. Então decidiu: 'Farei um quinto Veda, que será chamado Nátya (teatro); nele, todos os temas da mitologia e da tradição épica estarão combinados. Este Veda levará à retidão e à justiça (dharma), à prosperidade e à plenitude (artha). Ele trará celebridade, transmitirá conhecimento, estará regulado por uma série de aforismos, mostrará ao mundo futuro qualquer possível ação, conterá o significado e de todo o conhecimento sagrado, trará à vida cada faceta das artes e as fará prosperar.' 'Então, concentrando em sua mente toda a sabedoria, o venerável Brahmá compôs o Nátya Veda, escolhendo à vontade alguns dos aspectos dos quatro Vedas. Do Rig Veda ele tomou a fala, do Sama Veda, a melodia, do Yajur Veda a mímica e o movimento corporal (abhinaya) e, do Atharva Veda, a emoção estética (rasa). Nesse momento, o Nátya Veda passou a existir, vinculado como estava aos grandes e aos pequenos Vedas. Brahmá então revelou este Veda a Bhárata (o 'homem') e a seus cem filhos.'

O Bhárata Nátyam, a dança clássica, constitui-se assim em expressão humana do ritmo cósmico, portadora do conhecimento filosófico e religioso da cultura indiana. Não há nada nesta dança que não possua uma dimensão sagrada: Não há pensamento, afirma Brahmá, nem conhecimento, nem arte, nem obra, nem sabedoria, nem valor, nem princípio de Yoga que não possa achar-se nesta Arte superior. Nátya Shastra. Para entender os mitos por ela narrados, precisamos antes compreender a função que a mitologia exerce nesta cultura.

Esta função, exemplificante, formativa e construtiva, é equivalente à que ostenta o ensino da História no Ocidente. As mãos se movimentam com graça e harmonia; os gestos, trabalhados através de longos anos de intenso treinamento, evocam diferentes aspectos da sabedoria e o conhecimento, paisagens, campos de batalha, combates entre deuses e demônios, rufar de trompas e tambores, encontros amorosos e uma infindável quantidade de sentimentos e emoções, que variam segundo o contexto. Nesta manifestação artística, os mudrás trabalham em três níveis: esteticamente, como expressão do que está sendo narrado; energeticamente, como movimentos feitos pelo dançarino mas que atingem a audiência; e, iconograficamente, como representações simbólicas que assumem uma significação metafísica, histórica ou religiosa.

Como a maioria das danças é a recriação de sagas e mitos do hinduísmo, existe uma identificação (nyása) que se estabelece a partir dos mudrás que falam desses mitos. O dançarino sente essa identificação, que se processa no plano emocional e através de longos anos de preparação constante. Segundo o Vishnudharmottara, tratado clássico sobre as artes, a teoria estética da dança, bem como de outras manifestações artísticas (principalmente a pintura e a escultura) trabalha com dois recursos, rasa e bháva. Rasas são as nove qualidades essenciais ou sentimentos: erótico, cômico, patético, furioso, heróico, terrível, odioso, maravilhoso e pacífico.

Bhávas são as expressões ou inclinações da consciência, que funcionam como uma resposta natural aos rasas. Os bhávas correspondentes são: amor, alegria, piedade, raiva, energia, medo, desgosto, surpresa e tranqüilidade. O dançarino deve manipular esses recursos de forma tal que, no final de uma apresentação, a platéia fique com uma sensação de alegria e bem-estar. Os bhávas se transmitem não apenas através do movimento do tronco, braços e pernas, mas igualmente pelas mudanças sutis dos olhos, sobrancelhas e dedos. A linguagem assim constituída ajuda a identificar situações, estados de ânimo ou atributos dos diferentes deuses hindus.

O panteão hindu constitui uma tentativa formidável (e bem-sucedida) de definir os distintos aspectos da energia que anima o mundo. Sendo estas manifestações reflexo do imanifestado (que pode ser chamado Shiva, Om, Purusha ou Brahman), todas as formas de existência são em essência iguais a ele. Unidade na pluralidade, dentro da mitologia hindu incluem-se todas as possibilidades: deuses, semideuses, seres celestiais, anjos, demônios e vampiros cujas sagas e peripécias serviram desde antigamente para alimentar o imaginário e os ideais de elevação e realização do seu humano.

Apesar desta inegável multiplicidade, o hinduísmo não é tão politeísta quanto aparenta; tirar essa conclusão seria tão leviano como concluir, olhando para o santoral cristão, que o cristianismo é politeísta. Desde seus mais diversos pontos de vista, o hinduísmo sempre vê no Cosmos uma unidade essencial, um campo vibratório todo penetrante que ao mesmo tempo permanece imanifesto e inatingível:

Armas não conseguem cortá-lo,
fogo não pode queimá-lo,
água não consegue molhá-lo,
ventos não podem secá-lo...
Ele é eterno e tudo permeia, sutil, imóvel e sempre o mesmo.

Bhagavad Gítá.

'Segundo a cosmologia hindu, o Universo não tem substância. A matéria, a vida e o pensamento são apenas relações energéticas, ritmo, movimento e atração mútua. Podemos então conceber o princípio que dá origem aos mundos, às diversas formas de ser, como um princípio harmônico e rítmico, simbolizado pelo ritmo dos tambores, pelo movimento da dança. Shiva, na qualidade de princípio criador, não profere o mundo, dança-o.' Alain Danielou, Shiva e Dionisos.

Shiva, 'o benéfico', é o patrono do Yoga, das artes, da filosofia e dos empreendimentos intelectuais. Nele, encontram-se todos os aspectos contraditórios da natureza humana (talvez pudéssemos afirmar o contrário; as contradições dos humanos são espelho das de Shiva). É Pashupati, senhor das feras, Natarája, senhor da dança, Bhairava, destruidor de demônios, Dakshinamurti, o mestre perfeito, Mahadeva, o yogi nu, Ardhanaríshwara, o hermafrodita.

Na mitologia purânica aparece como o dançarino cósmico, marcando com seus movimentos o ritmo do Universo manifestado. Shiva Natarája. Bronze. Sul da Índia, s. x. Em sua representação mais conhecida (um bronze da dinastia Chola, século x) podemos vê-lo carregado de símbolos e atributos: uma caveira, a Lua crescente e as miríades de estrelas flutuam entre seus dreadlocks, longas tranças desgrenhadas das quais igualmente emana a deusa Gangá (a que vai veloz como a correnteza), o rio Ganges. Uma serpente serve-lhe de colar. Com os pés derrota e submete o demônio Avidyá, a ignorância. Ao dançar, desprende-se do seu corpo uma aura de fogo (representada plasticamente como o círculo ígneo que o envolve), chamas de três línguas que transformam e destroem o Universo no final de cada era cósmica (yuga).

Aqui, com a presença de elementos antagônicos como o são a água e o fogo, torna-se evidente a polissemia do mito de Shiva. Jagadamba, o mundo, é 'aquele que está em perpétuo movimento.' Shiva Natarája personifica esse eterno movimento, dançando e fazendo diversos gestos com seus quatro braços: com a mão superior esquerda, ele faz ardhachandra mudrá, o gesto da meia lua, dentro do qual aparece uma chama, símbolo do poder transformador que queima o véu do tempo e permite vislumbrar a eternidade; com o braço inferior esquerdo estendido como uma tromba de elefante em gajahasta mudrá, alude a seu filho, Ganesha, o guardião das portas e destruidor dos obstáculos; com a mão superior direita segura o dhamaru, que marca o ritmo da manifestação e aniquilação do mundo, associado ao tattwa (elemento) éter, o ákásha; enquanto com a outra faz abhaya mudrá, o gesto de dissipar o medo.

As danças de Shiva representam ao mesmo tempo criação e destruição: são ordenações rítmicas que contribuem para a manifestação e a absorção do Cosmos. As três principais são: nadánta, a dança celestial em seu aspecto de Natarája, com quatro braços e a esfera de fogo; mulyalaka, chamada igualmente avidyá ou asura, na qual ele dança sobre o demônio que representa a ignorância, derrotada; e tándava (de tandu, saltar), que é a dança da morte e da destruição, na que Shiva, ao fim de cada ciclo cósmico, aniquila o mundo saltando sobre seus calcanhares, com um crânio em uma mão e uma naja na outra. Encontramos na literatura diversas descrições destas danças, carregadas de gestos manuais muito fortes e significativos.

'Tendo instalado a Mãe dos três mundos no trono de ouro ornado de pedras preciosas, o portador do venábulo dança nos cumes do monte Kailasha, rodeado por todos os deuses. Saraswatí toca a víná, Indra a flauta, Brahmá cuida dos címbalos, marcando o compasso, Lakshmí entoa os mantras, Vishnu toca o tambor. Todos os deuses o rodeiam.

'Os músicos celestes, os gnomos, as serpentes, os bem-aventurados, os realizados, os guardiães do mundo, os imortais, as ninfas do céu e todos os habitantes dos três mundos reúnem-se para ver a dança celeste e ouvir a música da orquestra divina na hora do crepúsculo.' Shiva Purána.

Shiva é um destruidor, gosta dos locais de cremação, mas o que ele destrói? Não apenas os céus e a terra no final do ciclo, mas os elos que ligam cada alma individual. O que é o local de cremação? Não é o lugar onde são queimados os restos mortais, mas o coração dos seus fiéis, reduzidos a um deserto. O lugar onde o ego é destruído representa o estado em que a ilusão e as ações são reduzidas a cinzas. É ali que dança o Natarája.

Ánanda Kúmaraswámi, The Dance of Shiva, p. 75.

No tándava, Shiva revela-se em sua forma terrível, como Bhairava, ou aniquilador, como Vírabhadra. Dança com a sua consorte, Shaktí, acompanhado por gnomos e gênios aéreos (gandharvas). É uma dança viril, selvagem e frenética, acompanhada de gesticulação violenta, que se faz em cemitérios e crematórios, sobre as cinzas das piras funerárias, onde se consuma a destruição do eu. Pauta a manifestação, manutenção e destruição do Cosmos e esconde a verdade metafísica daqueles que não merecem conhecê-la, enquanto a revela àqueles que estão aptos para compreendê-la.

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  1. Lina Gonçalves

    Adorei o artigo sobre Mudrá!

    Procuro sempre os textos de Pedro Kupfer. Vivo em Portugal e pratico Yoga. Estou completando o Curso para Instrutora. Fico sempre muito agradecida por poder aprender sempre mais com o que ele escreve. Muita Luz para sua caminhada.

    Namaste.

    Om Shanti Om.


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  2. Murillo

    Como tu estudou, Pedro!? Tá louco viu!? Só com muito bom humor mesmo ... obrigado por mais essa pérola ... nunca estudei mudras ... mas eles passaram a se tornar espontâneos para mim depois da prática de asanas e aprofundamento da meditação, seja nas danças, falas, cantos de mantras ou expressões em geral... quero poder estudar mais. Sempre grato por tudo que aprendo contigo e com o que inspira. Namastê (((_/\_)))
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