A ciência vêdica é um tema tão profundo quanto incompreendido. Devido a uma grande variedade de razões, os estudos vêdicos não receberam a mesma atenção que outras áreas do conhecimento antigo.

Isto se deve em parte à atitude eurocêntrica dos historiadores da ciência, em parte ao preconceito com que essa ciência sempre foi vista pelos estudiosos ocidentais, em sua imensa maioria cristãos, alguns deles missionários, que tentaram a qualquer preço encaixar o período de formação dos Vedas dentro da cronologia bíblica e comprimir a história dentro de certas teorias especulativas relacionadas com movimentos migratórios massivos.

O sistema científico vêdico baseia-se na premissa fundamental upanishâdica Yata Brahmande tata pindade, que se pode traduzir da seguinte forma: "Assim como é no Universo, assim é também no Ser". Este sistema de conhecimento concebe todo o existente como uma unidade. Uma unidade que está regida pelas mesmas leis. O mundo do infinitamente grande, adhidaivika; o mundo do infinitamente pequeno, ádhiátmika, e o mundo humano, adhibhautika , convivem sutilmente vinculados entre si pelo que se chamou a teoria das correspondências, ou bandhus.

As equivalências ou correspondências entre estes três mundos estão presentes em todo o contexto cultural vêdico e em qualquer uma das suas expressões: a literária, nos velhos shastras; a arquitetônica, na construção dos altares do fogo ou a médica na chamada ciência da vida ou Ayurveda, para mencionar apenas três.

O mais interessante da ciência vêdica é que ela foi além do estudo da realidade "exterior", da Natureza. Ela estudou também a consciência e o processo cognitivo. Isso se vê com clareza no pará, o conhecimento do self. Os vêdicos afirmavam que a consciência, agindo em si própria, pode alcançar o conhecimento universal. Um exemplo disto é a experiência do Buddha Gautama que, partindo da condição humana limitada e usando apenas a consciência, conquistou a suprema sabedoria. Acreditava-se que, para complementar a tarefa de compreender a ordem da natureza, era preciso igualmente unificar esse conhecimento.

Entretanto, como não era possível encerrar o princípio unificador numa fórmula, foram utilizados símbolos e metáforas (pratíka) para descrevê-lo. Esse princípio unificador chama-se Brahma. Brahma é a essência da existência: se define como satyasa satyam, bem-aventurança e conhecimento: ánanda e prájña, ou ainda satchitánanda: existência, consciência e bem-aventurança.

Também se define em termos de opostos, como sat e asat, existência e não-existência, ou pela negação do que ele é: atemporal, não-espacial, ou como estando além da causalidade. O conceito de Brahma é utilizado para descrever a unidade essencial das coisas.

Quando a consciência apreende o universo físico, participa da unidade. A Mundaka Upanishad, I:1,3, diz que a consciência, átman, é "aquilo através do qual o universo inteiro pode conhecer-se". Esta definição explica a afirmação da Brihadáranyaka Upanishad, I:4,10: Aham Brahma asmi, "eu sou Brahma".

O Yoga, o Tantra, as matemáticas, a astronomia e o ritual do fogo são, entre outros assuntos, diferentes aspectos do sistema de conhecimento vêdico, que é verdadeiramente muito vasto para nós, ocidentais. Em cada um destes aspectos se podem expressar equivalências nas que os "deuses" vêdicos, por exemplo, podem representar tanto estrelas ou planetas, como os chakras no corpo humano, os tijolos empilhados dos altares ou até mesmo as próprias qualidades humanas.

Em alguns casos, as equivalências entre as diferentes partes eram definidas através de números. Noutros, adquiriam uma forma mais metafórica: os olhos do homem se descrevem como sendo o sol e a lua; fala-se de planetas no corpo humano. Hoje sabemos que existem correspondências numéricas entre os períodos planetários e certos processos do organismo.

A interpretação correta só pode obter-se dentro do contexto adequado. A força da tradição vêdica provém da sua base racional, da sua aplicação prática. A cosmovisão dos rishis, os sábios vêdicos, passa pela constatação de que existem correspondências sutis entre o macro e o microcosmos, e que estas correspondências admitem uma expressão matemática. A presença dos números e da aritmética nesta sociedade não é um fim em si própria, mas está em função da edificação de um sistema ritual altamente preciso.

Os rishis retiravam-se da vida profana para poder dedicar-se à observação da Natureza. Os refúgios onde viviam nas montanhas e florestas, segundo consta nas Upanishads e no Rámáyána, constituíam lugares ideais para a observação do céu, que era feita a olho nu. Isto explica também o fato de que alguns conjuntos de hinos vêdicos (mandalas) e outros shastras começam ou terminam com a descrição da localização do sol em relação aos planetas e às constelações. Os primeiros leitores ocidentais dos séculos XVIII e XIX menosprezaram esse detalhe, por não acharem possível que fossem dados astronômicos concretos. Infelizmente, ainda hoje há quem continue negando essas evidências.

Pode parecer estranha a fixação por números na cultura vêdica, mas esta cosmovisão elimina as casualidades. Nada é fortuito quando está sujeito a tão precisos cálculos matemáticos. Essas relações sutis, numericamente expressas, abrangem tanto o mais amplo do Cosmos quanto o mais reduzido da fisiologia humana.

As correspondências foram conservadas para elaborar seus rituais de sacrifício em dois níveis diferentes: no aspecto material, edificando os altares do fogo, o que deu posteriormente origem às impressionantes obras de engenharia da civilização dos rios Indus e Saraswatí, através da secularização do conhecimento sagrado. No aspecto espiritual, através da revelação dos hinos vêdicos, especialmente o Rig Veda. A mesma estrutura que apresentam os altares repete-se no Rig Veda. Nela, podemos contemplar os três níveis da criação: terra, ar e céu (bhúr, bhuva, sváhá) . O próprio texto do Rig Veda possui a estrutura de um altar simbólico, sustentado pelo número total de sílabas dos seus 1017 mantras .

Entretanto, a noção de unidade incluía igualmente outros conceitos. O sacrifício do fogo, agnihotra, pode fazer-se externamente, ou dentro do corpo (prána yajña), empregando técnicas de Yoga. Os fogos do altar de Agni possuem un paralelo nos fogos corporais. O sacrifício é um sistema recursivo: cada nível se baseia na transcendência do nível anterior.

Isto não só se vê na vida exterior, como também dentro da mente, que se descreve como um sistema hierárquico com correspondências no corpo físico denso. Uma interação dinâmica foi postulada entre três estados fundamentais da matéria: tamas, rajas e sattwa, ou inércia, ação e equilíbrio. Na filosofia Sámkhya se propõe a interação entre elas, que define a manifestação de Prakriti, a Natureza.

Claramente, as regiões da atmosfera, o céu e a terra (bhúr, bhuva, sváhá) correspondem a estas três. Os altares do fogo vêdico possuem cinco camadas de tijolos, que representam as três regiões e os espaços intermediários entre elas, onde o céu se encontra com a atmosfera e esta com a terra. Na medicina ayurvêdica, os três doshas ou humores do corpo humano, pitta, váta e kapha, definem igualmente um modelo tripartido.

As correspondências implícitas na premissa da unidade que sustenta o axioma yata Brahmande tata pindade se expressam também no sacrifício do fogo, o yajña, que pode fazer-se externamente em uma cerimônia ritual, ou dentro do próprio corpo. Este último recebe o nome de prána yajña e usa técnicas do Yoga.

Os fogos do altar de Agni possuem um paralelo com os fogos corporais. O sacrifício é um sistema recursivo: cada nível se baseia na transcendência do nível anterior. Isto não se vê apenas na vida exterior senão também dentro da mente, que se descreve como um sistema hierárquico, com correspondências no corpo físico denso.

Algo do que nunca se fala, um pouco por ignorância, um pouco por preconceito, é da relação entre a ciência vêdica e o Tantra. Mas acontece que o Tantra já aparece nos Vedas. E aparece representando simbolicamente a teoria da estrutura da consciência.

Os shastras falam da continuidade desse conhecimento desde tempos muito antigos, e encontramos evidências da sua existência nos textos, desde que, para decifrá-los, se utilizem as interpretações de Yashka, ou as que aparecem nos Brahmánas. Para expressar este conhecimento e, ao mesmo tempo, preservá-lo, os rishis valeram-se do sandhábhása, uma linguagem intencional, secreta, alegórica e escura, que afasta os curiosos. Para fazer uma leitura inteligente dos hinos, é preciso levar isto em consideração.

A teoria dos bandhus, ou equivalências implica que a estrutura da consciência possui paralelos com a realidade exterior. Alguns Tantras vêdicos utilizaram-se do sol, da lua e dos planetas para definir as categorias interiores do pensamento e a natureza da mente. Mas a tarefa de interpretar os textos vêdicos desde este ponto de vista apenas começou.

O Rig Veda dá grande ênfase à palavra, vák. O hino X:17 é dedicado a Brihaspati, o senhor do mantra sagrado. Nele, são descritos o conhecimento da origem e os secretos da palavra. O interessante é que Brihaspati é comparado aqui ao sol, à lua e aos planetas. No hino X:125, a palavra é glorificada como o poder supremo, que sustenta Varuna e Mitra, o oceano e a compaixão.

Entre os termos de Tantra e de Yoga que encontramos nos textos vêdicos aparece o mantra Om. Na Chándogya Upanishad, II:22, se diz que "assim como as folhas surgem do talo, todas as palavras se originam no Om. O Om é o Universo inteiro". Nos tempos upanishâdicos, não se falava apenas das equivalências entre o Universo e o corpo como estruturas, mas davam-se também os detalhes dessas equivalências.

O Veda diz que a Natureza não é real em si; mas é uma representação simbólica da realidade última. Real é o eterno, aquilo que nunca muda. E a Natureza muda o tempo todo. Tudo o que for interior é real, eterno e imutável. Qualquer forma de adoração da Natureza, incluindo o agnihotra, não se dirige à própria Natureza. Adora-se o princípio divino que está nela, e do qual ela é apenas uma manifestação. Se você olhar em profundidade a Natureza, conseguirá ver o princípio divino que subjaze nela. Por isso mesmo se diz que o Veda não está contido em quatro livros.

Havia uma vez um rishi, um sábio, que praticou exercícios de austeridade (tapas) durante toda sua vida. Quando estava por morrer, revela-se frente a ele Brahma, o Criador, e disse: "já que você fez tanto esforço, vou lhe conceder um pedido. Diga-me o que quer."

O rishi responde: "me dê por favor mais cem anos de vida."

"Mais cem anos? Mas para que?"

"Necessito estudar os Vedas."

Brahma concede o pedido. Transcorrido esse tempo, o sábio e o deus se encontram novamente. Brahma diz: "agora chegou a tua hora. O prazo acabou."

Mas o rishi implora: "me dê outros cem anos, preciso mais tempo para entender os Vedas."

Com aquela paciência infinita que somente os deuses sabem ter, Brahma outorga o segundo pedido. Passado aquele século, eles se reencontram. O deus quer levar o sábio desta vida, mas ele não desiste e pede: "me dê por favor mais cem anos, há coisas que ainda não consigo entender."

Brahma concorda e assim passam mil anos mais: o rishi pedindo mais e mais tempo para estudar, o deus aquiescendo com piedade infindável. No final, vendo que não conseguia acabar de entender as escrituras, o rishi, desalentado, pergunta ao deus: "porque nunca termino?"

Ele responde: "porque você não está fazendo Yoga. Porque não serve para nada estudar os Vedas se você não os coloca em prática, e a prática do conhecimento vêdico é o Yoga".

Isto é para que você não esqueça que o estudo sem a prática não produz nenhum resultado. Os shastras dizem que se você for estudioso dos Vedas, você não é nada, pois o Veda não vai te levar ao moksha, à libertação. O simples estudo dos Vedas e a recitação dos mantras traz apenas mais condicionamentos. Por isso se diz que não existe Yoga sem Veda, e não existe Veda sem Yoga. O Veda está dentro de você, e para onde você olhar. Enquanto não vir o Veda dentro de você mesmo, e em todas as coisas ao seu redor, esses quatro livros serão inúteis.

Um mantra do Yajur Veda (XXXIV2-5), que se faz à noite, diz:

A mente vai para longe quando a pessoa está acordada ou dormindo.
Vagueia muito longe e é a luz das luzes.
Que a mente tenha pensamentos elevados.
A mente é um instrumento único e sagrado, presente em todos,
que o sábio usa para seus atos nobres.
Que ela tenha pensamentos elevados.
A mente possui as faculdades da cognição e a sedimentação.
É a luz imortal. Nada pode fazer-se sem a mente.
Que ela tenha pensamentos elevados.
A mente abrange o passado, o presente e o futuro e guia as ações.
Que ela tenha pensamentos elevados.
O Rig, o Yajur e o Sama Veda estão dentro da mente.
A faculdade da cognição está entretecida na mente.
Que ela tenha pensamentos elevados.



Então, uma vez vendo o Veda em você, você poderá reconstruir e entender os mantras, sílaba por sílaba. Porque? Porque ele está em todos os lugares: dentro e fora. Esse é o verdadeiro sentido do culto à natureza. Tornar-se uno com a natureza para poder entender o princípio divino que está além.

É por isso que até os templos são réplicas da natureza. Templo se diz mandir em sânscrito, de man = mente, e dir = paz. O sentido desta palavra é tornar a mente pacificada. Todos os templos construídos segundo os princípios do vastu shastra, a arquitetura sagrada hindu, são representações simbólicas da natureza. Se eu não puder ir para a natureza, trago a natureza para a cidade, simbolicamente.

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