Com freqüência estamos acostumados a ver o Vedanta e o Tantra como ensinamentos conflitantes e mutuamente excludentes. O que não paramos para pensar é que essas duas escolas possam ter muito mais em comum do que imaginamos.

Ainda, para além dos pontos em comum que possamos encontrar entre ambas escolas, tampouco imaginamos, desde a nossa perspectiva limitada pelas etiquetas que em tudo colocamos, que alguém possa ter feito uma síntese entre essas duas grandes vias de conhecimento. E, pior ainda para nós, que essa síntese atenda pelo nome de Hatha Yoga!

A Shiva Samhita, um texto seminal do século XVII sobre Hatha Yoga, expõe com muita profundidade a visão não-dualista do Vedanta, combinada com as práticas tântricas. Filosoficamente falando, este texto é o mais elaborado dos clássicos do Hatha, citando os exemplos e ensinamentos clássicos do Advaita, a filosofia monística ensinada por Shankara em textos como o Tattva Bodha, o Atma Bodha e o Brahma Sutra Bhashya.

O leitor que já tiver familiaridade com o estudo do não dualismo vedântico reconhecerá esses ensinamentos. Notadamente, os exemplos sobre a unidade entre o Ser e a Criação, como o da confusão entre a corda e a serpente, o da confusão entre a prata e a madrepérola ou o do reflexo da lua em diversos recipientes de água.

Algo que pode parecer chocante para o leitor é a presença, na mesma obra, de práticas e pontos de vista que hoje em dia nos parecem totalmente divorciados, como as práticas sexuais do Tantra e a visão monística do Vedanta. As práticas tântricas que envolvem a sexualidade foram sempre consideradas malditas pelo establishment político e espiritual de todas as épocas.

O Tantra encontrou inimigos não somente no seio do hinduísmo, do qual sempre fez parte, mas igualmente fora dele. Durante o século XVI, era em que o imperador muçulmano Akbar governou o norte da Índia, praticantes do tantrismo Kaulachara que fossem descobertos eram condenados à morte por esquartejamento: seus corpos eram dilacerados por dois elefantes que puxavam em direções opostas. A crueldade dessas execuções nos dá a pauta sobre o preconceito e a animosidade que reinavam à epoca em relação às práticas do Tantra.

Essa mesma desconfiança em relação aos ensinamentos tântricos continuou até a colonização inglesa, não mais como perseguição a criminosos, mas na forma de censura e desaprovação. O vajroli mudra, descrito em detalhes nesta obra, faz parte desse corpo da espiritualidade maldita do Kaulachara Tantra.

A bem da verdade, essa aparente divergência nos pontos de vista do Vedanta e do Tantra é mais um produto da desinformação e do preconceito do que algo real. Tanto o Vedanta quanto o Tantra compartilham a visão, presente na espiritualidade da Índia desde os tempos vêdicos, sobre a unidade entre Consciência e Existência, entre o Ser e a Natureza.

A visão não-dualista, visível nos Vedas, nas Upanishads, nas Samhitas e todo o corpo literário pré-clássico do hinduísmo (Smriti) a partir do quarto milênio a.C., é sintetizada magistralmente na obra de Shankara, que surge como o grande reformador do dharma hindu. Essa mesma visão será atualizada mais tarde na literatura do Tantra, a partir do século IX d.C.

À diferença do Vedanta e outras correntes espirituais contemporâneas e ele, o Tantra não abdica nem renega a validade das experiências do corpo como veículo para a transcendência. Nesse sentido, o autor anônimo da Shiva Samhita empreende a corajosa tentativa de integrar, num único método de Yoga, todas as tecnologias práticas e pontos de vista que marcaram a espiritualidade indiana.

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  1. Juliano

    ótimo texto, gostaria de saber se quem pratica tantra acredita em Karma.
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  2. Murillo

    Curioso como a palavra Hatha aindo sinto estar distorcida de seu real significado na comunidade Yogi. Esse e outros textos daqui sao raios de luz nos obstaculos a real compreensao dessa escola. Olhos mais despertos. Jaya! Gratidao Pedro!
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  3. Luiz Carlos

    No Dakshina Tantra, o estudo do Vedanta é uma imposição necessária para uma melhor compreensão dessa filosofia que se funde realmente com os Vedas. Tanto que os yamas e niyamas, que são vinte no Tantra, diferentemente dos dez do Astanga Yoga de Patañjali, têm no sexto niyama, Siddhanta Vakya Sravanam (escutar o ensinamento do Vedanta), tal recomendação. Os outros dez yamas são: 1) Ahimsa (não violencia); 2) Satyam (verdade); 3) Asteyam (não roubar, não cobiçar); 4) Brahmacarya (estudo de Brahma); 5) Ksama (paciência); 6) Dhrti (retidão); 7) Daya (bondade); 8) Arjavam (simplicidade); 9) Mitahara (moderação alimentar); 10)Sauca (pureza). E os niyamas: 1) Tapah (austeridade, jejum); 2) Santosha (satisfação); 3) Astikyam (fé nos Vedas); 4) Danam (caridade); 5) Iswara Pujanam (culto ao Senhor); 6) Siddhanta Vakya Sravanam (escutar o ensinamento do Vedanta); 7) Hri (modéstia); 8) Mati (mente dirigida ao conhecimento contido nos sastras); 9) Japa (repetição de mantras); 10) Homa (ritual e sacrificio védico). Como se vê, tem tudo a ver com os Vedas, sendo os tantras considerados por alguns eruditos como o quinto Veda.
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  4. Daniela Rajão e Souza

    Infelizmente, o Tantra ainda é conhecido por muitos como práticas sexuais. Eu mesma, até saber um pouco mais sobre ele, também tinha essa idéia errada. É muito bom saber que existe uma linha que une o melhor do Vedanta e do Tantra, e também de outras práticas de espiritualidade indiana, pois fica difícil, muitas vezes, escolhermos uma linha e permanecermos somente nela, com tantos ensinamentos maravilhosos dentro do Hinduísmo. Tento sempre incorporar o que eu acho bom nas minhas aulas de Hatha Yoga Integral, é claro que dentro de um certo limite, mas principalmente no relaxamento uso algumas visualizações do Tantra. E concordo plenamente que o corpo é um veículo para a transcendência. Acho que o importante é você estar 100% presente em tudo o que você fizer, seja lavando a louça ou fazendo sexo, sem culpas e sem pré-conceitos. Se você tem consciência, você se respeita e tem uma atitude positiva em relação ao seu corpo em todos os sentidos. Sem apegos! Saber escolher bem as nossas ações é fundamental! Gostaria de saber mais sobre estes textos. Namastê, Daniela.
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